domingo, 25 de dezembro de 2011

Boas Festas e até 2012!!!

Ler Eduardo Lourenço despede-se de 2011 e dos seus visitantes com a publicação de um video, dividido em cinco capítulos, que reproduz a sessão de apresentação de Heterodoxias realizada na Universidade de Évora no passado dia 5. Em Janeiro próximo o projecto científico da edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço regressará à blogosfera num novo formato. Até lá, Ler Eduardo Lourenço deseja a todos umas Festas muito Felizes e um Excelente 2012!





quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Lembrando o lançamento de Heterodoxias na Gulbenkian



Para todos aqueles que não tiveram oportunidade de estar presentes, aqui ficam excertos da sessão de lançamento de Heterodoxias, I volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, realizada no passado dia 2, no âmbito da Festa dos Livros da Fundação Calouste Gulbenkian. No evento intervieram Eduardo Marçal Grilo, administrador da Fundação, João Tiago Pedroso de Lima, um dos coordenadores científicos do projecto da edição das Obras Completas, e o próprio Eduardo Lourenço. Brevemente, Ler Eduardo Lourenço irá partilhar com os seus leitores a versão integral da apresentação, em Évora.

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A música é o canto do nosso próprio inconsciente



Capa de um livro de Pierre Boulez de que havia um exemplar na biblioteca da casa de Vence de Eduardo Lourenço


Por ocasião da atribuição do Prémio Pessoa, Eduardo Lourenço anuncia que brevemente editará uma nova obra intitulada Tempo da Música, Música do Tempo. «A música e a poesia foram uma espécie de companhia. A música é o canto do nosso próprio inconsciente», afirmou. O volume, a editar pela Gradiva, constitui uma parte do trabalho levado a cabo por Barbara Aniello no âmbito do projecto das Obras Completas e que consistiu na recolha e transcrição de um vasto conjunto de anotações manuscritas realizadas pelo ensaísta nas suas célebres e minúsculas agendas.
Para evocar o anúncio de mais este livro, com saída prevista para os primeiros meses de 2012, Ler Eduardo Lourenço gostaria de partilhar com os seus leitores dois Fragmentos de um diário inédito, escritos em Montpellier em 1956 e editados com selecção do próprio Autor (Prelo, Lisboa, número especial, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Maio de 1984, pp. 115-126). Não se trata de referências musicais específicas, ainda que sejam profícuas ao longo da sua obra. Nestes excertos, como noutros, música, silêncio, ou poesia, estão presentes no pensamento do Autor enquanto referências paradigmáticas. É com essas coordenadas que se olha o real, de forma a questionar o que o transcende e simultaneamente o funda. De certa maneira, com estas coordenadas é possível entrever o quadro singular do pensamento metafísico de Eduardo Lourenço. «Nós somos fundamentalmente Tempo», escreve em Tempo e Poesia e de diversas maneiras ao longo da sua obra. É desse modo que o próprio acto de escrita se faz uma espécie de andamento, a meio caminho entre a palavra e o silêncio, procurando reunir o que está disperso. É esse também o lugar da Poesia, onde o Autor, como chefe de orquestra, nos conduz.

«Montpellier, 18 Outubro 56. Queixamo-nos do silêncio do mundo. Sem razão. O universo é uma palavra viva e é o sussurro da sua voz que torna a nossa fala um lago de silêncio. Como no começo tudo pronuncia no mundo o seu ser único. O sol é a mais luminosa das nossas palavras, o carvão e a noite as mais obscuras. Cada uma das realidades que nos olham é mais falante que o eco enfraquecido com que nós nos entretemos a nós mesmos dessa conver­sação fabulosa de todas as coisas connosco.»


«Montpellier, 4 Dezembro 56. Não nasci senão para ver e ouvir. O resto é superior às minhas forças e aos meus dons. O rio branco da preguiça estava correndo antes de eu nascer, não seria eu que o levaria ao mar. O meu gosto é seguir-lhe as margens, cortar rodelas de sabugueiro e correr atrás delas, como em garoto, deslumbrado pela música luminosa da corrente.»


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Recortes de Imprensa

Expresso, capa de 17/XII/2011

Correio da Manhã, 17/XII/2011, p. 42

 Diário de Notícias, 17/XII/2011, p. 40

Expresso, 17/XII/2011, p. 3

Recensão Crítica a Heterodoxias por António Guerreiro, Revista ACTUAL  de Expresso, 17/XII/2011, p. 30

i,  17/XII/2011, p. 25

Jornal de Notícias, 17/XII/2011, p. 44


Público, 17/XII/2011, p. 6

Público, 18/XII/2011, p. 2

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Prémio Pessoa 2011 ou a ideia de que o literário nunca é apenas literário!

É com certeza um dos prémios que se reveste de maior importância simbólica para Eduardo Lourenço. De facto, se o Prémio Camões (1996) , o galardão mais importante de toda a literatura em língua portuguesa, o Prémio Vergílio Ferreira (Universidade de Évora, 2001) ou até o Prémio António Sérgio no já longínquo ano de 1992 constituiram distinções que muito sensibilizaram o ensaísta, não restam dúvidas de que Fernando Pessoa é o autor com quem Eduardo Lourenço tem mantido desde há largos anos (registe-se que, em Heterodoxia I, publicada em 1949, há já uma referência explícita ao poeta de Ode Marítima) um permanente e inacabado diálogo. De Pessoa terá Eduardo Lourenço retirado múltiplas lições, a menor das quais não será certamente a ideia de o literário nunca é apenas literário.
Ler Eduardo Lourenço não poderia deixar passar em claro este feliz acontecimento e por isso transcreve em seguida um excerto de uma entrevista realizada há largos anos pela jornalista Inês Pedrosa e publicada no Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 6/XII/1986, pp. 2-6. Para além do interesse das declarações do ensaísta sobre Fernando Pessoa, Ler Eduardo Lourenço recorda que Inês Pedrosa é, hoje, a directora da Casa Fernando Pessoa em Lisboa.

Mário Soares e Francisco Pinto Balsemão membros do Júri do Prémio Pessoa
(foto Expresso)


«Jornal de Letras – Eduardo Prado Coe­lho escreveu que Fernando, Rei da Nossa Ba­viera se pode, e deve, ler como um roman­ce, afirmação que eu subscrevo inteiramente. Concorda?

Eduardo Lourenço – Bom, cada um faz os romances que pode... Naturalmente, o que eu queria fazer era um romance, um verdadeiro romance. De maneira que aquilo que há em mim de imaginativo, ou de imaginante, possi­velmente se transfere para essa esfera de or­dem crítica, em que os autores servem ao mes­mo tempo de objecto de estudo no sentido tra­dicional e de objecto de projecção. Lembro-me de o meu amigo Carlos de Oliveira me di­zer, a propósito do Pessoa Revisitado, que não sabia se aquilo correspondia realmente ao Fernando Pessoa, mas que aquilo tinha muito a ver comigo. Quer isto dizer que, já no Pes­soa Revisitado, alguém que me conhecia tão bem como o Carlos de Oliveira pensava que era o meu romance.

(...) A mitologia de Fernando Pessoa comporta dois aspectos diferentes. Fernando Pessoa torna-se emblemático numa perspectiva nacionalista clássica, mesmo se isto corresponde a uma leitura não muito certa de Mensagem. Mas, em todo o caso, há um suporte para que Pessoa se tenha tornado um emblema de um novo sonho de Portugal, numa altura em que Portugal não tem perspectivas realistas de instituir uma imagem positiva de próprio que seja grata ao sonho português de ter sido um grande país. Portanto, a Mensagem vai ser lida como uma espécie de Lusíadas do século vinte, quando, em última análise, ela é anti-Lusíadas.

P. – Anti-Lusíadas em que sentido?

R. – Ela é anti-Lusíadas porque Os Lusíadas são um poema escrito sobre uma acção real, a exaltação de um facto real de importância nacional. E a Mensagem é um poema puramente onírico. Onírico, antes de mais em relação ao passado, porque todos os heróis ou figuras emblemáticas de Mensagem são símbolos de maneiras de estar no mundo e de representar o ser português ideal, mais do que personagens que agiram na História desta ou daquela maneira. Por outro lado, o livro termina com a constatação de que o presente de Portugal é um presente de Hora Zero, a partir do qual tem que haver uma espécie de renversement. Portanto, não tem muito a ver com Os Lusíadas. Só tem a ver na medida em que, na ordem do imaginário de Fernando Pessoa, Mensagem se destina a substituir Os Lusíadas, porque Os Lusíadas já não funcionam para o Portugal que existe. Portugal agora tem mais Sonho que Realidade: o poema da realidade está cumprido, já está no passado. No espírito de Fernando Pessoa, Os Lusíadas são definitivamente reenviados para o Passado com Mensagem – por isso mesmo ele se quer Super-Camões, o que quer dizer que ele integra a obra de Camões e a supera. A esse título, a pouco e pouco, foi sendo tomado à letra, e o Fernando Pessoa tornou-se o novo Camões.


P. – Mas, no fundo, não procura Fernando Pessoa uma Ilha dos Amores, como n’ Os Lusíadas?


R. – Dos Amores não direi, porque em matéria de amores o Fernando Pessoa não tinha exactamente o mesmo tipo de perspectiva de Camões. Aparentemente, pelo menos, porque o Jorge de Sena insinua que sim. Mas a habitual mitologia amorosa e erótica construída em volta de Camões é a do homem das diversas chamas, diversos amores, entendendo-se por esses amores, em princípio, amores femininos. Ora, Fernando Pessoa não parece ter ardido em nenhuma chama de amor, mas na chama do Não-Amor. O que há menos em Fernando Pessoa é a mulher. Portanto, é uma experiência extremamente dolorosa, mais dolorosa do que a da paixão de amor, correspondida ou não-correspondida.


P. – Terá Pessoa sido de facto, como diz Eduardo Lourenço, um abandonado de amor? E porque não um voluntário auto-excluído por demasiado consciente?


R. – Pouco me importam quais tenham sido as razões de ordem genealógica, psíquica ou psicanalítica. Essa ferida está inscrita nos poemas. As causas podem-se discutir indefinidamente. Não há dúvida de que a interpretação que ele, Fernando Pessoa, dá, sobretu­do agora através das páginas mais precisas do Livro do Desassossego, é a dessa orfandade real, mítica. Mítica, porque a mãe existiu até 1925. A mãe não o parece ter desamado no sentido literal do termo. Mas ele é que viveu essa não-presença efectiva, importante, da sua adolescência. Pessoa está em Portugal e a mãe está fora; ou então foi o segundo casa­mento dela que o marcou, como João Gaspar Simões foca. De qualquer modo, essa ideia de se representar a si próprio, num dos seus se­mi-heterónimos, como alguém a quem a mãe morreu, quando a mãe dele está viva, signifi­ca que ele se autopsicanalisou antes da psicanálise existir. Portanto, a realidade erótica de Fernando Pessoa não me parece ser do mesmo estilo da que conhecemos para o Camões, embora nós não conheçamos muita coisa do Ca­mões, afinal de contas não conhecemos nada. Não sabemos se essa espécie de don juanismo de Camões não será do mesmo estilo a que eu chamo o Não-Amor do Fernando Pessoa... Afinal, trata-se de uma espécie de impossibilidade permanente de Camões de aderir a um amor real. Inventaram-se musas diversas para justificar esses poemas. Mas pode ser simples­mente um trabalho onírico hiperpetrarquiano, sem suporte concreto.


P. – E já estamos a entrar na irresolúvel questão das sinceridades versus autenticida­de...


R – ... que é uma questão que não tem verdadeiramente sentido na ordem da escrita, do ficcional e do poético. É uma questão de nível psicológico ou psíquico. O que importa é o texto.


P. – O professor Eduardo Lourenço repe­te isso várias vezes ao longo deste livro, mas depois diz assim, taxativamente: «O autor da Tabacaria e dos fragmentos de Ode à Noite não foi especialmente vocacionado para o que chamamos felicidade.»


R. – Nós aprendemos isso lendo-o. Mas o facto de Pessoa não ser vocacionado para a fe­licidade também não é uma originalidade em absoluto. Praticamente toda a nossa lírica é uma glosa do desejo insatisfeito. Pos­sivelmente, toda a lírica o é. Por conseguinte, essa insatisfação não corres­ponde àquilo que de uma maneira geral se chama um destino vocacionado para uma cer­ta normalidade, uma certa felicidade. Agora se me pergunta o que é ser-se vocacionado pa­ra a felicidade... Bom... Certas pessoas vivem a sua relação com a existência, com os outros, com o mundo, de uma maneira mais harmo­niosa do que outros. Pertencem a essa espécie de animais felizes que dizem «qu’ils sont bien dans leur peau». Há o caso de um político proeminente que diz «qu’il se sent bien dans sa peau»... E afinal é isso o normal, no fundo to­da a gente nasce para estar bem dans sa peau. O que deveria ser considerado anormal é que as pessoas não se sintam bem naquilo que são. E aqueles que ressentem essa fractura interna, com mais profundidade são os poetas, os criadores. Sobretudo os poetas da Moder­nidade. Porque houve outras épocas em que os criadores não parecem ter tido necessidade de se sentirem particularmente infelizes para serem criativos. Não temos a ideia de que Bach tivesse tido uma existência particular­mente infeliz, mas o Bach pertence à idade clássica ou neoclássica da Modernidade. De­pois vem essa idade a que podemos chamar Idade de Depressão, em todo o sentido do ter­mo – depressão histórica, depressão por uma contradição profunda entre o tipo de existência que o homem moderno se fabricou, aquilo a que chamámos Romantismo. Os românticos sentem a obrigação de ser infelizes, mesmo que sejam extremamente felizes.


P. – Nesse sentido, Fernando Pessoa é o puro romântico.


R. – Ele próprio o diz. Se ele não fosse romântico, o que é que nós seríamos? Pessoa é, possivelmente com o Pascoaes, o nosso maior romântico.


P. – E simbolista, e só aparentemente mo­dernista.


R. – A minha relação com Fernando Pes­soa tem já muitos anos e muita reflexão. E, embora isso esteja anunciado nos textos mais antigos como uma hipótese, o que cada vez me parece mais relevante é o facto de que nós nos enganámos todos; na leitura, fizemos da excepção a anormalidade do caso Fernando Pessoa. E a excepção é a sua estridência modernista, que foi um momento extremamente breve na sua produção, após o qual ele regres­sou imediatamente aos seus antigos demó­nios. E o seu demónio é o demónio simbolista. É uma visão da existência sobre o fundo do nevoeiro, da ausência, do vago. O que não é vago é a escrita dele, mesmo quando ele é sim­bolista. O Marinheiro, mesmo nas suas pas­sagens mais ultra-simbolistas, é de uma lumi­nosidade que não tem comparação nenhuma na literatura portuguesa, e poucas em qual­quer literatura. E o que Pessoa está ali a glo­sar é a Ausência da Ausência da Ausência. E essa Ausência é presente no texto, de uma ma­neira muito forte.


P. – Assim como os heterónimos seriam a glosa de uma heteronomia mais funda. E a originalidade de Pessoa estaria…


R. – ...no facto de ele ser um carrefour, um cruzamento das várias possibilidades de se ser moderno, desde os fins do século deza­nove aos princípios do século vinte. Fernando Pessoa é modernista no sentido mais profun­do da consciência daquilo que é a ausência da Modernidade, ou seja, da morte de Deus, da perda de um Sentido para uma História que até então tinha Sentido. A própria criação do conceito de História em termos modernos visa recuperar um Sentido que tinha sido perdido em termos teleológicos. Ao mesmo tempo, Fernando Pessoa é profundamente antimo­dernista a todos os níveis. Não se tem notado muito, mas a aprendizagem de Fernando Pes­soa foi extremamente clássica, como clássica era a poesia inglesa de que ele mais gostava – incluindo os românticos, que ao nível da escri­ta eram perfeitamente clássicos, fascinados pela Grécia. Portanto, no imaginário de Pes­soa, a Idade de Ouro da Humanidade é a Grécia; não a Grécia de Nietzsche, mas a Grécia de Winckelmann, a Grécia de Goethe. O Mo­dernismo é o facto de ele querer apanhar to­dos os comboios, de não ser ninguém e por is­so estar disponível...


P. – Só marginalmente o seu interesse por Pessoa parece literário...


R. – O literário é que para mim nunca foi apenas literário. Foi isso o que me começou a separar, a nível teórico, da perspectiva crítica clássica da geração anterior à minha, que era a da Presença. Fundamentalmente, Régio por um lado. Simões do outro, porque sempre me considerei mais próximo do Casais Mon­teiro, naturalmente por ambos termos sido alunos de Filosofia. Para mim, a literatura é a expressão de alguma coisa mais, que no fundo não tem nome.


P. – Se bem entendo, o seu entusiasmo pelo que de indizível há na Literatura, partiu da constatação de que a Filosofia conduz a ca­tegorias, absolutos, enquanto que na ficção pura se recupera um sentido que discurso al­gum com pretensão à objectividade pode alcançar.


R. – Em última análise, eu também não faria uma distinção tão tranchante entre aquilo de que a Filosofia é a manifestação exterior e a Poesia. As duas têm a mesma fonte, a res­posta é que é diferente.


Como diz Platão, o que determina o desejo de filosofar é o espanto diante da realidade. Esse espanto interroga-se a si próprio e pede uma resposta. Essa resposta articulada pela norma ocidental chama-se, em geral, Filoso­fia. Esse espanto liricamente expresso, sem a preocupação de uma resposta, aberto, é Poe­sia. Mas as primeiras formas de Filosofia ex­primiam-se de forma poética. Parménides é um poema. No fundo, todo o poeta persegue sob a forma do onírico o mesmo desejo de en­trar em contacto com qualquer coisa que en­globa o Sentido geral da sua própria experiên­cia.


P. – E disso terá tido consciência Pessoa, como ninguém em Portugal.


R. – Sim, Pessoa até é um caso curioso, porque demonstrou um interesse intenso pela Filosofia no sentido de disciplina... Possivel­mente quis fazer um curso de Filosofia, vemos isso através dos numerosos extractos dos livros que ele lia. Nesse sentido, Fernando Pes­soa pertence igualmente a uma maneira clássica de encarar a Filosofia. A Filosofia devia dar-lhe a resposta à interrogação última, de­via dar-lhe, em termos racionais, o Absoluto. E porque ela não lha dá, ele fractura-se espiri­tualmente, psiquicamente, abdica da ideia de encontrar uma Filosofia que resuma o mistério do Universo e compreende que esse é um ideal inexequível e que há maneiras diversas de se aproximar desse Absoluto. Pessoa compreende que o Absoluto é um mito e que não há senão uma pluralidade de caminhos, todos com a mesma possibilidade de serem es­sa Verdade que não existe.


P. – Coisa engraçada neste seu livro é que quando Eduardo Lourenço já está muito em­brenhado em Fernando Pessoa, às tantas pára e diz mais ou menos, isto: «Atenção, que o Fernando Pessoal é muito complicado». Neste livro e nos outros, aliás. Normalmente, a orientação dos ensaios pessoanos é a contrária: fazer-nos ver que, afinal, Fernando Pes­soa se explica...


R. – Isso é porque eu penso que não se po­de dar-lhe a volta.


P. – Nem quer dar-lhe a volta...


R. – Sim, eu também não quero dar-lhe a volta. Não é possível, porque Pessoa já dá a volta possível a si mesmo. O texto de Pessoa é um autotexto, um texto sobre o próprio texto. E essa é a novidade que não existia na poesia anterior. Nem mesmo naquela que disso se poderia aproximar, pelo seu desejo de interro­gar a Esfinge até ao último limite, como a de Antero. Mas Antero não tem esse olhar triplo, em que não há possibilidade de parar em par­te nenhuma.


É por isso que desconfio de toda a gente que me vem dizer que Fernando Pessoa foi isto ou aquilo... Eu não sou capaz de dizer o que é que Fernando Pessoa foi.


P. – Cada vez mais incapaz?


R. – Cada vez mais. E, no entanto, gosta­ria que, lendo-me, as pessoas tivessem o senti­mento de que, nessa renúncia a uma imagem completa, eu estou mais próximo do Pessoa do que um outro tipo de discurso que quereria dissolvê-lo. Exactamente dissolvê-lo.»

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Nos cem anos da Universidade do Porto

Desde o início que Ler Eduardo Lourenço procura ser um espaço de encontro de leituras sobre a figura e a obra do ensaísta. Aproveitando as facilidades tecnológicos dos tempos de hoje, Ler Eduardo Lourenço assumiu sempre o conceito de leitura numa acepção mais ampla do que a habitual. Ou seja, assim entendido o conceito, ler passa a poder ser tanto ler um texto escrito, como observar uma imagem, ouvir um discurso oral ou até ver um filme. É o caso de hoje em que se remete o leitor para o video da intervenção de Eduardo Lourenço na sessão comemorativa dos cem anos da Universidade do Porto, realizada em 22 de Março passado e cujo link, com a devida vénia, aqui se indica.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Marx: equívocos & grandeza


A muito recente publicação de um não menos interessante ensaio* de Sousa Dias sobre a actualidade do pensamento de Marx (e, registe-se, o modo como esse próprio conceito de actual é pensado é, ele mesmo, inovador) convida Ler Eduardo Lourenço a revisitar um aspecto relacionado com Heterodoxia I que merece agora uma menção. Como se sabe, grande parte do primeiro livro de Eduardo Lourenço, publicado em 1949 e muito por culpa de Miguel Torga (que, como Eduardo Lourenço há dias o reconheceu em Lisboa, durante o lançamento de Heterodoxias, foi decisivo até pelos contactos que tinha junto da Coimbra Editora), é constituído por uma nova versão de O Sentido da Dialéctica no Idealismo Absoluto. Primeira Parte, texto da Dissertação de Licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, três anos antes. Em Heterodoxia I, o texto também recebe um novo título, passando agora a chamar-se “O Segredo de Hegel ou o Equívoco da Dialéctica”. No entanto, as alterações não ficam por aí. Assim, para além da significativa alusão a Kierkegaard, feita por Eduardo Lourenço quando explica o carácter meta-problemático da existência humana, e que não constava no texto dactilografado da Dissertação, surgem em “O Segredo de Hegel ou o Equívoco da Dialéctica” seis novas páginas dedicadas às semelhanças e diferenças entre as concepções hegeliana e marxista de dialéctica. Como se pode ver na imagem seguinte, as duas primeiras páginas de Dissertação não incluem qualquer referência ao materialismo dialéctico.

Reprodução das duas primeiras páginas de O Sentido da Dialéctica no Idealismo Absoluto. Primeira Parte
(texto dactilografado de 1946)

Ler Eduardo Lourenço recorda que, há largos anos (e de certa forma sugestionado pelo episódio já aqui evocado neste blog no post com o título “Miranda Barbosa, Carlos de Oliveira e ... Marx”, publicado em Maio passado ), interrogou o ensaísta acerca da diferença entre as duas versões do mesmo texto. Por que motivo em Heterodoxia I aparecia uma nova redacção deste ensaio? Teria havido, por parte do jovem estudante coimbrão, receio de incluir num trabalho académico referências, mesmo que de teor crítico, a um filósofo maldito na Universidade portuguesa dos anos 40? A resposta de Eduardo Lourenço foi desconcertante, mas, ao mesmo tempo, perfeitamente lógica. Prosaicamente lógica, mesmo. «Não, a razão pela qual na minha tese não surgem essas alusões [à dialéctica marxista] tem a ver apenas com o facto de, em 1946, eu ainda não conhecer suficientemente o pensamento de Marx». Ou seja, certamente motivado por conversas com os seus colegas e amigos neo-realistas, Eduardo Lourenço fez novas leituras e daí resultou a introdução de uma parte significativa do capítulo mais extenso do seu primeiro livro. Como se pode ler na transcrição que a seguir se apresenta (e que respeita o texto fixado para a edição do primeiro volume das Obras Completas), “O Segredo de Hegel ou o Equívoco da Dialéctica” é um texto que, embora respeite as intuições fundamentais de Dissertação de 1946, ficou notoriamente enriquecido com as reflexões que Eduardo Lourenço fez entretanto.

«O idealismo absoluto e a dialéctica que o articula e percorre como eterno movimento da Ideia, que, sendo a realidade total, solicita desde dentro as suas próprias contradições e desde dentro as concilia, superando-as, representam a tentativa mais perfeita que a filosofia realizou para conceber o pensamento como forma absoluta do existente. A verdade é transmutada “dialecticamente” no devir do pensamento, encerrando este, naquela, como em Hegel, ou então, transportando aquela neste, como em Gentile. Toda a verdade é devir do pensamento, para Hegel. Todo o devir do pensamento é verdade, para Gentile. Verum et factum convertuntur. Num caso e no outro, as duas doutrinas postulam logicamente a negação de toda a transcendência, com um rigor e uma coerência de que a história não oferece exemplo segundo.

Sob uma tal assimilação do plano da História ao da eternidade, do indivíduo ao absoluto, sob tal divinização, pelo menos aparente, conservará a consciência do homem algum significado compreensível? Nesta integração perfeita do processo e dos actos nos valores, guardarão algum sentido as distinções do verdadeiro e do falso, do bem e do mal?

Antes das considerações estritamente lógicas e metafísicas sobre o idealismo e a dialéctica, detenhamo-nos um pouco sobre a significação existencial, implicada na afirmação da imanência absoluta.

O idealismo deu-lhe uma tonalidade violenta e isso pode parecer a muitos o sinal duma absoluta novidade. De facto, representa o termo lógico dum processo que começou com o próprio pensamento e não consiste noutra coisa do que na expressão rigorosa duma das virtualidades limites do pensamento humano. A outra virtualidade limite é inversa e residirá num tipo de explicação em que o pensamento figure como realidade absolutamente segunda em relação à realidade primeira do universo, que será então radicalmente diversa do pensamento: será matéria. Tanto o primeiro como o segundo tipo de explicação têm um fundo comum: ambos se apresentam com a pretensão a explicações absolutas do real. Ambos manifestam a mesma crença nas possibilidades da razão como órgão do Absoluto. Por isso mesmo, embora o Absoluto seja diverso, o processo explicativo desse Absoluto, a sua manifestação temporal ou, usando um termo hegeliano, a sua fenomenologização, obedece às mesmas leis lógicas fundamentais. E, sendo assim, a crítica à forma lógica que esse processo apresenta, isto é, à dialéctica, é exactamente a mesma, quer se trate de Hegel, quer se trate de Marx.

A diferença é de ponto de partida mas é de tal sorte que no domínio metafísico marca a incomparável superioridade do ponto de vista hegeliano sobre o marxista. Enquanto é aceitável para a inteligência, poder supor que o absoluto concebido como Espírito, como Consciência Absoluta, suscite em si próprio um processo de progressão e de manifestação, susceptível de ser interpretado lógica e racionalmente, torna-se ininteligível a admissão dum Absoluto material, duma Inconsciência, manifestando-se não se sabe porquê numa forma igualmente lógica e racional.

Esta, e apenas esta, é a razão por que a quase totalidade dos filósofos responsáveis do Ocidente ou do Oriente (Lossky e Simon Frank) não aceitam o materialismo dialéctico, embora possam aceitar sem repugnância o materialismo puro e simples. É cómodo para os teóricos marxistas tentar fazer crer que a recusa do materialismo dialéctico assenta unicamente numa condição de classe que torna improvável (para dar razão à teoria) que esses filósofos, ou autores de história da filosofia, possam compreender o marxismo ou dar ao materialismo dialéctico o lugar de honra e (único) que segundo eles lhe competiria na história da cultura humana. Esquecem que o homem europeu autêntico fez da confissão do verdadeiro a sua carta de liberdade e que jamais, fosse rei, bispo, sacerdote, general ou professor, isso o impediu em absoluto de dizer que o preto é preto e o branco é branco. Tenha tido necessidade para isso de deixar de ser rei, bispo, general ou professor. Esta é a prova histórica de que o reconhecimento da verdade é independente das condições de classe, pela razão simples de que, se é relativamente justo afirmar que o homem pertence sempre a uma classe, não o é em absoluto, porque a classe não esgota o homem. Se o homem se pode voltar contra a sua classe de origem (e os exemplos não têm fim) isso significa que o homem transcende a classe.

Seria ridículo insistir nesta evidência, se não fosse uma realidade espantosa a existência histórica duma mentalidade que a nega e cujos movimentos podem decidir do destino próximo da humanidade. O mito da classe (esquema abstracto e simplista, embora adequado para exprimir um tipo justo de relação, a relação homem-economia e só esta) tornou-se tão avassalador que mesmo muitos daqueles que não podem aceitar todas as consequências da dialéctica marxista (Sartre e Merleau-Ponty, por exemplo [Cf. Qu’est-ce que la littérature? e Humanisme et terreur, de Sartre e Merleau-Ponty, respectivamente.]) temem rejeitar o esquema absoluto da luta de classes e servem-se nas suas análises duma maneira pouco coerente duma divisão que essas mesmas análises deviam destruir.

O motivo é visível. Negando a realidade da divisão em classes como mundos destinados a uma luta mortal e cujos universos interiores seriam tão irredutíveis como o do tigre que tem fome e o da gazela gorda que se lhe atravessa no caminho, temem destruir o espírito de justiça, o espírito revolucionário que segundo eles seria inseparável da admissão desse conflito e dessa divisão. Temem, em resumo, ser apodados de reaccionários, para usarmos a gíria corrente nas discussões políticas.

Parece-nos uma dialéctica sofística, uma maneira abusiva de tomar a parte pelo todo. Pode admitir-se o esquema da divisão radical das classes (e mesmo essa meramente histórica) sobre o plano em que ela é válida, isto é, sobre o plano económico, sem ver necessidade alguma de a tornar extensiva às estrelas da Via Láctea, quer dizer, às formas universais da consciência humana e dos seus valores. Exemplificando: as condições de classe de Winston Churchill, Stafford Cripps e Bertrand Russell são idênticas e, contudo, as suas concepções económicas e ideológicas são radicalmente diversas. Como explicar isso senão admitindo que as infra-estruturas não condicionam em absoluto as chamadas super-estruturas? O que isso significa vê-se: o homem pode erguer-se a uma consideração desinteressada de qualquer objecto e domínio da realidade, mercê de algo que nele próprio goza duma independência difícil de compreender, mas impossível de negar: o pensamento. A simples existência da ciência e sobretudo a existência da filosofia esvaziam o conceito de classe de toda a pretensão a superestrutura da verdade em sentido genérico, reservando a sua aplicação (é preciso saber entre que limites) para o domínio das relações do homem com a economia.

Não nos interessa nada, a não ser dum ponto de vista puramente sociológico, a verificação exacta de que a lógica de grupos é uma lógica diversa da do indivíduo e a de que todas as excepções individuais não invalidam o comportamento básico do grupo a que ele pertence. Efectivamente, o caso geral é o duma estreita determinação das condições de classe sobre o comportamento individual, como é caso geral da condição física dos homens estarem integrados num sistema gravitacional que lhes permite partir as costelas se caírem à rua dum sétimo andar. Tanto num caso como noutro a classe ou o sistema gravitacional são duas realidades que explicam perfeitamente que Winston Churchill defenda a propriedade privada ou o Sr. Smith tenha tido morte instantânea. Simplesmente, o homem pode tomar consciência da situação englobante, e na medida em que tomar consciência assumir a sua figura de indivíduo, destacando-se das coisas por um acto de escolha através do qual se constitui como liberdade. E então o Right Hon. W. Churchill pode tornar-se apenas Bertrand Russell e o Sr. Smith chegar incólume ao meio da rua, se, antes de se atirar da janela, teve a prudência de envergar um pára-quedas. Não importa que os Bertrand Russell sejam raros e que as pessoas que se exercitam a saltar da janela para a rua estejam desprovidas de pára-quedas. Basta que haja um só homem que transcenda a classe para que todos os homens sejam susceptíveis de a transcender também. E lá se vai o absoluto da teoria.

Ora, é esta tomada de consciência, capaz de permitir simultaneamente que o homem transcenda a classe e transcenda o mundo natural, descobrindo através da reflexão as conexões fundamentais que suportam e explicam a aparência do real, que o materialismo dialéctico tem dificuldade em apreender e valorizar e que o idealismo hegeliano toma por assim dizer como centro absoluto, fazendo do seu processo o processo mesmo da realidade.

Embora opostas, a concepção hegeliana do mundo e a concepção marxista, em obediência à inelutável lei dialéctica que elas próprias foram as primeiras a explicar, reservam à situação humana o mesmo modo de existência. Esse modo de existência depende numa e noutra duma única relação: a da realidade absoluta com uma das suas manifestações, o ser humano. Ao mesmo tempo participante do absoluto e aparência dele, momento do devir e consciência do mesmo devir, o homem tem na dialéctica a imagem adequada da sua realidade de ser necessário e ser aparente. Todo o esforço da dialéctica residirá na tentativa de unir o que parece não poder unir-se, de conciliar o inconciliável, demonstrando através do seu movimento que as contradições do real são vencidas pelo próprio movimento que as põe a descoberto.

O idealismo hegeliano e o materialismo dialéctico são duas formas da mais antiga, da mais incoercível tentação humana: a tentação do absoluto. Aquilo que o Génesis apresenta como conselho demoníaco, como insinuação intemporal da “mais astuta” das criaturas, jamais encontrou uma maneira de existir tão ambiciosa e tão lógica, mas deixou de ser tentação diabólica para ser assumida com plena consciência como desejo humano.

Na verdade, na história do pensamento humano tudo se passa como se o conselho de Lúcifer tenha sido tomado a sério. O eritis sicut dei [Gén., III, 5.] cresceu e multiplicou-se no coração dos homens. Isto não é simples imagem mítica, mas manifestação do secreto desejo da vontade de se talhar um reino para a sua infinidade. O criar na dor, o subsistir suando, o ouvir sem descanso as portas do tempo ou da felicidade cerrando-se para nunca mais, são impotentes contra a tentação imortal de colher pelas nossas mãos os frutos da árvore da vida, plantada no meio de todas as coisas. Deus pode recolher ao silêncio da sua infinita solidão, que a nudez do primeiro instante encontrará o seu vestido e a vergonha a sua sombra. A vida rodará nos gonzos do tempo, a lembrança dos anjos de espada flamejante guardando o paraíso soçobrará como tudo o mais e unicamente a esperança terrestre de sermos como deuses continuará crescendo. Um dia mesmo, surgirá a inevitável pergunta: houve alguma coisa correspondente a esse mito inquietante, tão revelador da fraqueza do homem?
Os mais sábios dos homens, os que o oráculo de Delfos escolheu ou os que se sentiram condenados por Deus a ser filósofos, responderão que não. Decididamente, não. Simplesmente aconteceu que o eros sufocado, a vontade de querer e de poder ou até o instinto da morte foram mais fortes do que a lucidez da ratio e puderam um dia colocar-se na nossa frente como se não tivessem nascido do nosso desejo e não fossem coisa puramente nossa. O pensar claro, a filosofia, devem realizar a catarsis destas ilusões, sobretudo porque tolhem o caminho da vontade de dominar o universo. E mesmo que o mito correspondesse a alguma coisa, não nos ensinou Prometeu, o que odeia todos os deuses, as palavras que libertam?» [Heterodoxias, Lisboa, F.C.Gulbenkian, 2011, pp. 68-72].

*Diga-se que Grandeza de Marx. Por uma política do impossível (Lisboa, Assírio & Alvim, 2011) é um livro que merece uma atenção crítica que, ao que Ler Eduardo Lourenço julga saber, não tem existido, o que é obviamente lamentável, pois trata-se de um ensaio que, para além de lido, precisa de ser discutido. Por outro lado, as relações do pensamento de Eduardo Lourenço com Marx e o marxismo também justificariam um estudo atento. Fica a sugestão.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Em Évora: um Posfácio a Heterodoxias

 Eduardo Lourenço na Sala de Docentes do Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora
(foto Ler Eduardo Lourenço)



por Margarida Isaura Almeida Amoedo



Na passada Segunda-Feira, dia 5 de Dezembro, foi apresentado, no Auditório da Universidade de Évora, o Volume I das Obras Completas de Eduardo Lourenço (OC), que a Fundação Calouste Gulbenkian, fazendo jus ao reconhecimento do seu inigualável carácter prestimoso, decidiu patrocinar. Era preciso, para os que não somos conhecedores profundos dos seus textos, que alguém compilasse e sistematicamente organizasse os numerosos frutos da meditação do Escritor, um nome muitíssimo invocado, mas cuja obra, de tão plural e dispersa, só doravante poderá vir a ser alargadamente estudada. Somos, pois, devedores, desde já, aos responsáveis pelo projecto editorial, de que começamos agora a ter resultado público.
João Tiago Pedroso de Lima, um dos Coordenadores Científicos da Edição das OC e autor da Introdução ao Volume I, enquadrou este tomo no plano e na metodologia de um trabalho ainda em curso que mobiliza estudiosos de vários países. Como anfitrião principal de Eduardo Lourenço na Universidade de Évora em que ensina e investiga, não deixou, nem de sublinhar a relevância da vinda do pensador à Instituição – ainda que desta, acrescentamos nós, poucos membros lho tenham querido ou podido demonstrar inequivocamente, estando presentes –, nem de sugerir a leitura dos seus escritos como potencial reforço da missão universitária, à qual se refere directamente no ensaio “A Europa em crise e a crise da Universidade”.



Foto de João Barnabé (ueline)

Na intervenção que se seguiu, Eduardo Lourenço, depois de referir a Universidade de Évora como um dos grandes espaços da nossa memória cultural, de uma importância menos expressa do que seria devido, aludiu ao projecto de publicação das suas Obras, mostrando-se convicto de que não testemunharia o seu termo. Mas, sobretudo, reflectiu, a partir do Volume I – Heterodoxias, recém-editado, sobre o significado do seu primeiro título, Heterodoxia I, de 1949. Invocando o momento em que o forjou, bem como o seu propósito justificado no respectivo “Prólogo sobre o Espírito da Heterodoxia”, levou os ouvintes a um breve e, no entanto, substantivo mergulho na experiência de dúvida e de uma certa demarcação dos limites ao pensar que, na década de 40 do Século XX, eram historicamente levantados pelo regime do Estado Novo. Denunciando uma das leituras equivocadas do seu ser heterodoxo, assumiu uma vez mais a sua formação católica e procurou explicitar que o uso inicial de heterodoxia radicou na sua paixão juvenil de querer ser livre, que incluía também o direito de não crer, entendido, pelo ainda postulante a filósofo e a escritor, como uma recusa da tirania intelectual que, à época, os dirigentes políticos e religiosos impunham, não verdadeiramente em nome de Deus, mas em nome da sua própria ortodoxia.
E ali, remetendo ao momento originário da sua necessidade de nomear a Liberdade como plenitude da vida, o ensaísta trouxe-nos (e nele nos deixou!... ) ao ponto nevrálgico: à heterodoxia, como demarcação de qualquer caminho que arrogantemente se perfile como único, tanto repugnam as ortodoxias da fé, como as ortodoxias sem fé; ser heterodoxo, se não impede o risco de converter a heterodoxia numa ortodoxia, parece definir-se pela resistência à tentação de trocar, por falsas conquistas noéticas, a imensidão do que, insinuando-se no horizonte antropológico, dele escapa.
A terminar a sessão, no momento em que Eduardo Lourenço aceitou, mais do que autografar, dedicar o volume a cada um dos interessados, uma senhora, na coxia do auditório, comentou: «Mesmo sem comprar o livro, vou lá à mesa, só para me sentir mais próxima dele.» O ensaio oral tinha levado ao núcleo de um pensamento vivo, personificado na pessoa do Pensador. E este, fiel à abertura amorosa que o Cristianismo converteu em mandamento, foi prolongando a sua resposta cordial às condições inóspitas do inverno eborense e, por tudo, tornando inesquecível aquela tarde de 5 de Dezembro.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Jardineiro de Deus

Sabedoria, coerência, visão Gonçalo Ribeiro Telles. Um Homem de Serviço é o título de uma jornada
que, hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, reúne um vasto número de amigos e de especialistas da obra do arquitecto paisagista mais influente da cultura portuguesa contemporânea. Está prevista a participação no colóquio, que culminará com a apresentação de uma Fotobiografia (organizada pelo arquitecto Fernando Santos Pessoa) dedicada a Gonçalo Ribeiro Telles, de nomes como Guilherme d’Oliveira Martins, Emílio Rui Vilar, António Barreto, Eduardo Lourenço, Augusto Ferreira do Amaral, Luís Coimbra, Diogo Freitas do Amaral,Carlos Braumann, Aurora Carapinha, Ário Lobo de Azevedo, Manuela Raposo Magalhães, Nuno Portas,  Margarida Cancela d’Abreu, Viriato Soromenho Marques, Dom Duarte de Bragança, Miguel Sousa Tavares, Pedro Roseta, Maria Calado e Alberto Vaz da Silva.

Na sessão desta manhã (à qual Ler Eduardo Lourenço assistiu via internet), num painel em que também intervieram António Barreto e Guilherme d’Oliveira Martins, Eduardo Lourenço focou a sua mensagem na dimensão ecologista do pensamento poiético de Gonçalo Ribeiro Telles. Mas não deixou também de aludir à militância cívica do católico, democrata e monárquico, recordando uma famosa carta dirigida a Salazar em 1 de Março de 1959, de que Gonçalo Ribeiro Telles foi um dos signatários (juntamente com o Padre Abel Varzim, António Alçada Baptista, Francisco de Sousa Tavares, João Bénard da Costa, Manuel Lucena, M. S. Lourenço, Nuno Teotónio Pereira, Sophia de Mello Breyner, entre outros) e onde se podia ler o seguinte: «Os serviços de repressão do regime empregam métodos que uma consciência humana bem formada não pode tolerar e um espírito cristão tem necessariamente de repudiar». Também aqui Gonçalo Ribeiro Telles, ao denunciar com coragem e em nome de um humanismo católico as iniquidades do regime, agiu como um verdadeiro Jardineiro de Deus, para usar a síntese extremamente feliz que Eduardo Lourenço escolheu para encerrar a sua comunicação de hoje.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Avenida de Berna, 45




Foto de Pedro Loureiro, revista Ler, Setembro de 2008.
 

Na passada sexta-feira, tal como noticiado, Ler Eduardo Lourenço esteve presente na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, para o lançamento do Volume I das Obras Completas de Eduardo Lourenço Heterodoxias. Integrado na Festa dos Livros Gulbenkian 2011, a sessão contou com a apresentação de Eduardo Marçal Grilo, uma introdução de João Tiago Pedroso de Lima (membro da comissão científica e organizador deste primeiro volume), e claro, a esperada intervenção do Autor. Entre os muito presentes, o Presidente da Fundação Emílio Rui Vilar, o filósofo José Gil (cujo pensamento é, de resto, tema de um ensaio neste volume), os escritores José-Augusto França, Almeida Faria, Vasco Graça Moura e Gonçalo M. Tavares.

foto de José Nuno Lima


Descontraído, bem humorado, por vezes, irónico, Eduardo Lourenço surpreende sempre pela sua jovialidade e espírito crítico. Visivelmente feliz com o que chamou o meu primeiro livro de peso, gracejando também pelas suas mais de 500 páginas, mas não menos incomodado por se encontrar ali para falar de si próprio, Eduardo Lourenço agradeceu a distinção à Fundação e terminou a conversa confessando-se apenas um ensaísta.

 Ler Eduardo Lourenço relembra que hoje pelas 18h, haverá sessão de apresentação com a presença do Autor, no auditório do Colégio Espírito Santo, da Universidade de Évora. A não perder!!!
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Jornal de Letras, revisitado

Eduardo Lourenço numa foto publicada no JL em Maio de 2008

Há trinta anos, mais concretamente a 3 de Março de 1981, a Imprensa portuguesa viu surgir do seio das Publicações Projornal (empresa responsável pelos saudosos semanários O Jornal, de algum modo o antecessor da revista Visão, e Se7e, entre muitas outras edições, entre as quais a primeira versão de A Europa Desencantada de Eduardo Lourenço) um projecto que tudo indicaria estar votado ao fracasso ou pelo menos a uma existência efémera. Tratava-se do JL jornal de letras, artes e ideias, um quinzenário (publicava-se então às terças) que, no seu primeiro número, era vendido ao público pela módica quantia de vinte e cinco ... escudos! Felizmente o JL sobreviveu às diversas crises que o país entretanto atravessou e continua hoje a desempenhar um papel muito útil não só em Portugal, como em todo o mundo lusófono, gozando por exemplo de um prestígio surpreendente no Brasil.

foto Ler Eduardo Lourenço

Nessa edição de estreia em Março de 1981, o JL oferecia ao leitor, para além de uma magnífica entrevista a José Cardoso Pires realizada pelo director José Carlos de Vasconcelos (que ainda hoje dirige a publicação), extensos artigos de, entre outros, Agustina Bessa Luís, Eduardo Prado Coelho, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Belo, Alexandre Pinheiro Torres, Nuno Bragança, Manuel Maria Carrilho, Paula Morão e João Mário Grilo.
Eduardo Lourenço, então habitual cronista de O Jornal, também participa neste número inaugural do JL com o ensaio “Encontro com Jorge de Sena”, fazendo desde logo juz ao estatuto de colaborador permanente que mantém até hoje. De facto, muitos dos ensaios de Eduardo Lourenço tiveram a sua primeira vinda a público nas páginas do JL. Seria fastidioso dar aqui conta de todos eles. Ler Eduardo Lourenço destaca, ainda assim, três edições muito especiais: o nº 231de 6 de Dezembro de 1986, o nº 667 de 8 de Mario de 1996 e o nº 851 de 14 de Maio de 2003. Em cada uma dessas edições o leitor pôde encontar um extenso e rico dossier com testemunhos e artigos sobre a obra de Eduardo Lourenço e até inéditos ou entrevistas com o próprio ensaísta.
A edição de hoje do JL, o nº 1074 mais precisamente, apresenta em pré-publicação excertos de “Joaquim de Carvalho e a Ideia de uma Filosofia Portuguesa”, um dos capítulos de Heterodoxias, o primeiro volume das Obras Completas (cujo lançamento ocorre na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, depois de amanhã, pelas 18h30m). É uma forma feliz de assinalar o que o JL considera ser «sem dúvida, um dos grandes acontecimentos editoriais do ano». A ler, portanto.

foto Ler Eduardo Lourenço

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Heterodoxias: lançamento em Lisboa e sessão de apresentação em Évora

Ler Eduardo Lourenço tem o enorme gosto de convidar todos os visitantes do blog para o lançamento oficial de Heterodoxias, a realizar no próximo dia 2 de Dezembro (sexta-feira), pelas 18h30m, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Três dias depois, no Auditório do Colégio do Espírito Santo na Universidade de Évora, Eduardo Lourenço estará também presente pelas 18h numa sessão de apresentação daquele que é o primeiro volume das suas Obras Completas.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Filosofia e o Tempo

Ler Eduardo Lourenço não quer deixar de recordar o Dia Mundial da Filosofia que se assinalou na passada semana. Como tal, oferece aos seus leitores um escrito de 1952, publicado muitos anos depois na Revista Metamorfoses (num dossier especial,  com o título Os trabalhos e os dias, dedicado ao ensaísta em que,  para além de inéditos, recolhe um excelente conjunto de testemunhos sobre Eduardo Lourenço). Trata-se de uma brevíssima mas profunda reflexão acerca do que se intitulou aqui a Filosofia e o Tempo. Como se depreende das palavras do Autor escritas há mais de meio século  não é este tempo favorável à Filosofia, ou aos verdadeiros filósofos. Pressionados pela ideia de novidade, o tempo presente não se deixa reflectir. É o tempo do jornal diário, mais do que o livro da minha vida. Mas que se dê passagem ao que interessa, ao texto.


Metamorfoses. Revista da Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros, nº 4, Rio de Janeiro, Setembro de 2003.

«Coimbra, 8 de Setembro de 1952.

Se as Investigações Lógicas ou as Ideias de Husserl tivessem sido publicadas há dois ou três séculos, os homens cultivados desse tempo, os universitários, as academias, teriam sido obrigados a consagrar-lhes comentários idênticos aos que durante mil anos de escolástica florescente teceram em torno da Metafísica de Aristóteles desde Alexandre de Afrodisia até Francisco Suarez. Publicado neste bendito século em que o mito da originaldiade conforta todo o aprendiz de filosofia na ideia de que é mais interessante ou inteligente que todos os Husserl (ou Bergson ou Russell) do mundo, verá sucederem-se e passarem sobre elas gerações e teorias que a sua simples leitura teria evitado. Terá sido esse o preço do que chamamos a Modernidade?
O nosso mundo é de tal sorte que o mais incapaz dos candidatos a doutor de Filosofia teria vergonha de si mesmo se se considerasse um discípulo. A verdade não interessa a ninguém. O que importa é ser diferente e como para ser diferente é preciso dizer outra coisa dir-se-á outra coisa sem precisar de examinar o que foi escrito antes. Comentários a Husserl não falta. Teve, terá a sua hora. Como uma moda, não como uma fonte de perplexidade renovada como os clássicos de outrora, como se o mais antigo fosse o mais venerável. Era um defeito sem dúvida mas fecundo. Agora os originais não chegam a ser lidos e ainda menos estudados. Só algum poeta célebre goza hoje daquele privilégio quase miraculoso de ser fonte e alimento do espírito como o foram Homero, Virgílio, Horácio. O melhor romance tem hoje o mesmo destino que o jornal. Ninguém o lerá duas vezes.»




Ler Eduardo Lourenço aproveita para lembrar, e saudar, o excelente trabalho desenvolvido pelo
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, na tradução e edição das obras de Edmund Husserl.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vasco Graça Moura



Foto publicada em Prelo.Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Maio de 1984.


Ler Eduardo Lourenço não pode deixar de assinalar a primeira reacção pública à edição do primeiro volume das Obras Completas do ensaísta. De facto, Vasco Graça Moura escreve hoje, no Diário de Notícias, o artigo “Heterodoxia e liberdade” (p. 54)* onde se refere à publicação de Heterodoxias. O destino neste caso terá sido especialmente sábio, pois Vasco Graça Moura, para além de poeta, ensaísta e tradutor de méritos amplamente reconhecidos, é também um amigo de longa data de Eduardo Lourenço, tendo chegado a ser, na década de Oitenta do século passado, o seu editor, na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em títulos como O Espelho Imaginário, Fernando Rei da Nossa Baviera e Nós e a Europa ou as duas razões. É, de resto, interessante que, em Setembro de 1988, na sequência do Prémio de Ensaio-Charles Veillon atribuído a Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura tenha publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias um curioso artigo onde dá conta das suas dificuldades como editor:
«Observo que Eduardo Lourenço, excessivamente modesto e desprendido, por vezes cede os originais sem guardar cópias e sem registar para onde os enviou para publicação avulsa..., o que torna dificílimo não só o trabalho de recolha dos textos, organização e produção de um livro como este [Nós e a Europa ou as duas razões], mas também o de forçar o próprio autor a convencer-me finalmente de que não se prescinde de publicá-lo dentro de um determinado calendário» (“A Europa está de parabéns”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 13/IX/1988, p. 8).












Para além de editor, Vasco Graça Moura foi também co-autor da edição francesa de Camões 1525-1580 (Bordeaux, L’Escampette, 1994), cuja capa acima se reproduz. Por seu turno Eduardo Lourenço dedicou ao seu amigo um ensaio chamado “Vasco Graça Moura – Um ensaísmo em arquipélago”, [AAVV (Org. de José da Cruz Santos), Modo Mudando. Sete ensaios sobre Vasco Graça Moura, Porto, Campo das Letras, 2000, Col. Campo da Literatura-Ensaio, nº 44, pp. 29-42]. Menos conhecidas serão talvez as afinidades de militância política entre os dois homens que se, por vezes, parecem em campos ideológicos bastante afastados, noutras ocasiões intervieram e intervêm política e culturalmente nas mesmas fileiras (cf. foto com que se inicia este texto). É o caso hoje, por exemplo, do Acordo Ortográfico de que ambos são ferozes opositores.





* O texto está disponível em http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2125905&seccao=Vasco

Sobre Jorge, junto ao Sena

Com a devida vénia a Ler Jorge de Sena, site da responsabilidade da Professora Gilda Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aqui se reproduz um testemunho de Eduardo Lourenço acerca do seu amigo e poeta Jorge de Sena. Para além da importância intrínseca do depoimento, colhido no passado mês em Paris, Ler Eduardo Lourenço assinala o facto de, segundo o ensaísta, a publicação do primeiro volume de Heterodoxia, em 1949, ter estado também  na génese de um intenso diálogo intelectual entre estas duas figuras cimeiras da cultura portuguesa do nosso tempo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Militares & Democracia

Entrevista recente de um dos mais destacados protagonistas da vida militar e política portuguesa das últimas décadas veio, provavelmente não da forma mais feliz, reacender o tema das relações entre a democracia e as Forças Armadas. Não pretende Ler Eduardo Lourenço discutir o teor das afirmações mais polémicas de tal intervenção pública, mas, sim, aproveitar o pretexto para sublinhar, uma vez mais, que o assunto representa uma parte não despicienda na obra do ensaísta. Para além dos textos incluídos no livro Os Militares e o Poder, já aqui mencionado em Abril último, Eduardo Lourenço escreveu noutras circunstâncias sobre o tema. Por exemplo, em Maio de 1976, num colóquio organizado pela Intervenção Socialista, Eduardo Lourenço afirmou o seguinte: «Temos a sorte de possuir, neste momento, um “statu” militar que é inegavelmente democrático e que faz a admiração e o espanto da Europa democrática e do Mundo. Mas a realidade portuguesa é uma realidade movente e dessa movência as Forcas Armadas e os seus dirigentes democráticos recebem os ecos e naturalmente as convulsões possíveis. Na medida em que as Forças Armadas constituem ainda, o fulcro essencial da vida política portuguesa e apesar delas próprias nós não estamos ainda numa sociedade consolidada democraticamente e, portanto, seria uma ilusão trágica pensar que já estamos».
Será que, tantos anos depois, a sociedade portuguesa está por fim democraticamente consolidada? A avaliar por algumas dessas afirmações, seria talvez uma ilusão trágica pensar que já está.


Jorge Sampaio

Esse colóquio internacional reuniu pessoas tão diferentes da vida política portuguesa, como Jorge Sampaio (que era então o Presidente da Comissão Directiva da I.S.), João Cravinho, Urbano Tavares Rodrigues, Nuno Bragança, João Martins Pereira, Maria Velho da Costa, Manuel Braga da Cruz, Maria Alzira Seixo, Carlos Aboim Inglês, Luís Salgado de Matos. Entre os intervenientes estrangeiros previstos, destaque para  Andreas Papandreau (sim, o Pai do até há muito pouco primeiro-ministro George Papandreau e que, tal como o seu progenitor, Georgios, também chefiou o Governo grego) que enviou uma mensagem ao Colóquio, justificando a sua ausência («Lastimo profundamente que razões políticas na Grécia impeçam absolutamente a minha presença aí como a presença dos meus camaradas»...). Ler Eduardo Lourenço não acredita que a História se repete, mas...
Não veio Papandreau, mas vieram Maurice Ronal, Luciano Gruppi, K.S. Karol, Stuart Holland, M. Achilli, entre outros. As actas do Colóquio foram publicadas nesse mesmo ano pela editora Diabril e o livro ainda se consegue encontrar nalguns bons alfarrabistas: foi pelo menos aí que Ler Eduardo Lourenço o encontrou.




Mais difícil de encontrar é o registo das conversas que se seguiram às intervenções dos participantes, embora alguns diálogos estejam transcritos nas actas. Um dos participantes no colóquio foi o sociólogo e professor do ISCTE José Carlos Ferreira de Almeida (1934-2009). Esta informação colheu-a Ler Eduardo Lourenço no blog de José Pacheco Pereira ephemera (http://ephemerajpp.wordpress.com/) onde o historiador dá conta de algumas das muitas preciosidades do seu monumental arquivo pessoal. Ora, um das aquisições mais recentes de Pacheco Pereira foi precisamente o espólio de Ferreira Almeida, que, para além de uma importante colecção de periódicos, tem também por exemplo notas pessoais acerca de congressos e colóquios em que esteve presente. O documento que apresentamos a seguir (com a devida vénia a ephemera) é precisamente a reprodução de um desses apontamentos em que Ferreira de Almeida se refere, pelo menos por duas vezes, à participação de Eduardo Lourenço no colóquio da Intervenção Socialista. No cimo da página, Ferreira de Almeida regista que, quando entrou na sala, o ensaísta já estava a falar. Mais abaixo, na sequência de um diálogo que, segundo parece, Eduardo Lourenço terá mantido com o seu amigo Urbano Tavares Rodrigues, é possível concluir que o assunto foram os mitos portugueses e se em Portugal houve, ou não, Lumières. A resposta de Urbano foi, a julgar pelo que se pode ver na nota de Ferreira de Almeida, algo ondulante.



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Regresso sem fim ... já no próximo sábado à noite!


Apresentado pela primeira vez ao público no passado dia 6 de Agosto em São Pedro do Rio Seco, durante uma homenagem a que Ler Eduardo Lourenço ofereceu o devido destaque, vai ser finalmente exibido, no próximo sábado, pelas 21 horas, na RTP 2, o documentário de Anabela Saint-Maurice, co-produzido pela RTP e pelo Centro de Estudos Ibéricos, Regresso sem Fim. De acordo com a nota informativa da RTP (de cujo site foram retiradas as imagens do texto de hoje), «Regresso sem Fim é um documentário de carácter autobiográfico protagonizado por uma das maiores figuras da cultura portuguesa: Eduardo Lourenço. Aos oitenta e oito anos, o escritor e ensaísta revisita a aldeia de São Pedro do Rio Seco e a cidade da Guarda, locais onde respectivamente nasceu e viveu na infância.

Com Pedro Mexia em São Pedro do Rio Seco

Com Gonçalo M. Tavares na Guarda


Com Hélia Correia

Nessa viagem às suas memórias é acompanhado pelos escritores Pedro Mexia, Gonçalo M. Tavares e Hélia Correia. Interlocutores escolhidos pelo próprio Eduardo Lourenço para participar neste “filme homenagem” em que se regressa ao que se deixou um regresso sempre desejado mas impossível. O documentário inclui uma incursão à vizinha cidade de Salamanca, onde Eduardo Lourenço fará a evocação de um intelectual que marcou a sua geração: Miguel Unamuno. O escritor, poeta e homem público espanhol era um apaixonado por Portugal e na sua atribulada vida manteve relações de amizade com importantes escritores portugueses, como Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoais. Em Regresso sem Fim revela-se a personalidade vibrante de Eduardo Lourenço, o seu incisivo sentido crítico, a permanente curiosidade e a capacidade de comunicar de forma clara, e com afecto. Há um sábio em viagem e com gosto pela vida. O documentário, realizado por Anabela Saint-Maurice, é uma coprodução da RTP2 e do Centro de Estudos Ibéricos em 2011. A duração é de cinquenta e dois minutos».
Na Plaza Mayor em Salamanca, durante a rodagem de Regresso Sem Fim


Ler Eduardo Lourenço acrescenta ainda que no filme, Eduardo Lourenço conversa com dois amigos e professores da Universidade de Salamanca: Ángel Marcos de Dios e Fernando Rodriguez de la Flor, com o primeiro acerca de Unamuno e com o segundo sobre as relações entre a Ibéria e a Europa. De registar também o depoimento do Dr. Adriano Faria, irmão de Eduardo Lourenço, acerca da vida em São Pedro nos tempos da infância do ensaísta.
A não perder, portanto.

Com a realizadora Anabela Saint-Maurice e a sua equipe

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Correspondência com Delfim Santos (1954)

Delfim Santos no Congresso Internacional de Filosofia (Instituto Brasileiro de Filosofia, São Paulo,1954)

por Felipe Delfim Santos


Carta de Eduardo Lourenço a Delfim Santos :

Lille, 22 de outubro de 54

Senhor Doutor

Certamente o Senhor Doutor teve ocasião de viver muitas vezes uma experiência semelhante à minha: ser afectado em grau, talvez excessivo, por uma novidade pátria, sobretudo se ela não é precisamente do género agradável. O isolamento no estrangeiro tem essa propriedade curiosa.

A novidade (para mim) é como deve calcular a da celebração do 1º Congresso de Filosofia em Portugal sob a égide dos jesuítas. Não há dúvida que é um autêntico golpe de mestre jesuíta no bom e no mau sentido. Para mim é antes de mais e quase fisicamente, um golpe. Mas, fazendo esforços para conservar toda a serenidade, tenho de reconhecer que é bem feito e mesmo, embora o escreva com toda a tristeza, bem merecido. Eles fazem o que devem e fazem-no bem. É o resto das pessoas que persistem no sonho vago de acreditar que pensam, quando o seu pensamento não tem nenhuma eficácia sobre a realidade da sua pátria, que está em erro e lhe oferece a ocasião de um triunfo fácil.

Eu não me excluo desse número. A única escusa perante mim próprio reside no facto da minha nula influência. Contudo, na medida do possível, não abdico da luta por um estado de coisas mais decente e por isso aqui estou junto de alguém que tem prestígio e influência capazes de contribuir para modificar aos poucos a nossa subordinação mental.

Não sei qual será a reacção do Senhor Doutor em face desse facto consumado (ou a consumar) do famoso Congresso. Eu, pessoalmente, não sou anti-jesuíta, se se entende por isso ser contra a existência da “ordem” ou contra o direito de um jesuíta ser jesuíta. Não sou contra a sua existência em Portugal, nem contra o direito que lhes reconheço de “jesuitar” o mundo inteiro, pois no fundo cada um de nós o deseja “jesuitar” à sua maneira e como cristãos lhes incumbe cristianizar o mundo. Mas a questão muda de figura quando se passa da nuvem teórica à acção concreta. O que se está passando em Portugal é claro como água e se não o fosse, o preâmbulo do prospecto do Congresso que hoje me chegou às mãos, o esclareceria. Trata-se da contrarreforma em todo o esplendor possível em 1955, trata-se de arregimentar o pensamento nacional sob uma cor única, de lhe vincular uma directriz precisa de “bom pensamento” e a uma tal manobra não se pode ficar indiferente. Eu dou o direito a um jesuíta de o ser (mesmo se o não desse, eles o seriam…) mas como não sou jesuíta reivindico um igual direito de o não ser em toda a liberdade. Mas ao contrário de Ibsen que dizia que o homem forte é o homem só, eu creio com a Bíblia que é o homem que faz o homem e que a simples oposição individual, moralmente válida, é praticamente nula se não se congrega num esforço supra-individual. Por isso, aqui isolado, lhe envio esta espécie de S.O.S., esta alerta que sei desnecessária, mas que ao menos me dá a ilusão de não reagir só.

O que está feito está feito e o mal que isso causa já é irremediável: o 1º Congresso de Filosofia em Portugal é obra dos Jesuítas e o que é mais triste, obra da impotência dos pensadores independentes de toda a “consigne” religiosa e política. Participar nele ou não significa uma derrota igual e talvez maior se não se estiver presente. Como estou escrevendo sob o império do “prospecto” ainda não o sei bem. Mas creio que desde já há qualquer coisa a fazer e o Senhor Doutor é das pessoas mais autorizadas para pôr mãos à obra. Assim uma primeira e notável derrota seria ocasião para uma primeira semi-vitória e, mais tarde e aos poucos, a condição de permanência e existência de um pensamento realmente eficaz e livre. Livre para poder ser tudo, mesmo jesuíta, e não livre para não poder ser nada, senão jesuíta.

O Senhor Doutor já deve imaginar a que me refiro: à nado-morta Sociedade de Filosofia. Eu sei o que lhe custou já de dissabores e decepções. Sei ou prevejo os que pode custar-lhe ainda, mas nem por isso vejo neles ocasião para desistir. Agora, menos do que nunca. Muitos, todos ou poucos, é preciso que essa famigerada Sociedade nasça, exista, viva, para não apresentar ao público internacional (e o que é mais importante, a nós mesmos) a única face contrarreformista e implicitamente inquisitorial que ela lhe pode mostrar dentro em pouco. Não creio que seja uma utopia aquilo que mesmo os brasileiros conseguiram criar, segundo penso. O Senhor Doutor sabe melhor do que ninguém a cara de espanto que todos fazem quando confessamos no estrangeiro que tal Sociedade não existe.

Dificuldades? É natural que as haja, mas não podem ser insolúveis. É preciso que ela exista mesmo sem sede, sem dinheiro, sem coisa alguma, excepto a presença e a vontade das pessoas para quem ela representa algo de necessário e importante. A primeira coisa a fazer para a manter independente é renunciar a toda e qualquer espécie de ligação com o Estado, exceptuando naturalmente as estabelecidas por Lei. Enfeudá-la a qualquer Inst. de Alta Cultura é matá-la, a menos que condições claras de independência não sejam fixadas. Eu creio, e o Senhor Doutor me dirá, que a base material não seria difícil de realizar, fazendo apelo a “beneméritos de honra”, capitalistas, etc., sempre dispostos a dar algum dinheiro se se sabe manejá-los com a arma cósmica da vaidade, que neste caso seria perdoável.

Pessoas? É o nó-górdio da questão, mas também não me parece irresolúvel. A escolha do presidente não faria talvez dificuldade de maior e para harmonizar gregos e troianos estabelecer-se-ia uma espécie de triunvirato de vice-presidentes (por exemplo) de modo a dar representação a Lisboa, Coimbra e Braga. E se isso não bastasse podia recorrer-se a um “roulement” das honras, estabelecendo prazos ou recorrendo para o “2º governo” da Sociedade a eleição dos seus corpos. Em resumo, se houvesse boa vontade, não faltariam processos para levar avante essa necessária Sociedade.

Espero que o Senhor Doutor me perdoe a extensão do arrazoado, tanto mais que sei que partilha certamente de alguns desses pontos de vista e que não veja nele impertinência mas simples reacção de quem realmente se considerou afectado com a novidade do Congresso e se apressou na busca de um remédio junto de quem está em condições de o propor.

Este ano não me foi possível ir a Portugal e naturalmente só lá para o verão terei oportunidade de conversar como Senhor Doutor. Volto à Alemanha no fim do mês onde como sabe me tem às suas ordens. Procurei-lhe por diversas vezes o [livro do] Kerschensteiner e não o encontrei. Hamburgo não é famosa em matéria filosófica mas eu tenho que voltar para lá. Pedi ao Instituto para me enviar para Freyburg mas até agora nem resposta.

Deseja-lhe um bom fim de férias e um novo ano escolar propício, com os melhores cumprimentos.

Eduardo Faria



















Resposta de Delfim Santos a Eduardo Lourenço:



19.XII.54


Meu caro Amigo:

Li e reli a sua carta e só não respondi imediatamente por não saber que lhe dizer… A situação é a que expõe na sua carta e não é possível demovê-la. A solução que propõe já foi testada e até nos pormenores que indica: triunvirato recorrente. Mas não, nada foi possível e eu já estou descrendo de que, nas circunstâncias actuais, seja possível fazer outra coisa do que nada fazer. Eu irei lá como sempre só e também nada mais desejo. Não pertenço a nenhum coro e a minha situação profissional é também a mesma: sempre só. A “coisa” não me indignou tanto a mim como a si, pois ela é consequência de outras que imensamente me têm indignado. Era o esperado. Pois não lhe parece? E julgo que outras consequências ainda surgirão… Do Brasil vim surpreendido e desde a minha chegada ainda não readquiri o equilíbrio. Surpreendeu-me realmente… Agradeço-lhe a sua prova de confiança que a sua carta testemunha, creia na muita simpatia, apreço e consideração do seu colega e amigo

Delfim Santos


P.S. Talvez esta carta lhe pareça evasiva. É-o na verdade.






Nota Explicativa de Felipe Delfim Santos:

Eduardo Lourenço escreve a Delfim Santos em 1954 por ocasião do anúncio do Primeiro Congresso Nacional de Filosofia que estava a ser organizado pelos jesuítas da Faculdade de Filosofia de Braga, em comemoração do IV Centenário da entrega do Colégio das Artes à Companhia de Jesus. O seu claro propósito é o de contar armas para uma guerra, mas não deixa de nos surpreender onde tentou buscar um seu aliado «de prestígio e influência», surpresa que, como veremos, se espelhará quer na própria reação de Delfim Santos ao receber esta carta quer nos previsíveis efeitos da resposta que lhe resolve dar.

O argumento de Eduardo Lourenço desdobra-se em dois pontos: um tal Congresso deveria ter tido diferentes promotores e fora a demora na constituição da Sociedade Portuguesa de Filosofia que deixara aos jesuítas esta iniciativa que naturalmente lhe caberia. A derrota que invoca em primeiro lugar é fruto da carência que aponta em seguida.

Delfim Santos não entende o S. O. S. de Lourenço nem sente a iniciativa jesuíta como uma derrota. É certo que teve os seus livros resenhados com hostilidade nas páginas da Revista Portuguesa de Filosofia e mais ainda nas da Brotéria, as duas revistas da Companhia, que o têm por ateu e heideggeriano, cultivador de um tipo de existencialismo oposto aos princípios do cristianismo. Talvez por essa razão nunca escreveu nem escreverá nessas duas publicações. Mas este retrato que inicialmente de si fizeram os jesuítas não está correto: nascido no ateísmo da casa paterna, convertera-se na juventude à Igreja Evangélica de que aos poucos se foi distanciando. Sem qualquer ligação institucional ou afetiva ao catolicismo, cultivou boas relações com alguns sacerdotes individualmente. Pode-se afirmar que quando estas cartas são escritas ele é um pensador nem crente nem descrente, para quem as questões religiosas não constam da agenda filosófica.

Com mais propriedade, Eduardo Lourenço escreve a Delfim Santos por reconhecer nele o filósofo independente, solitário, avesso a ortodoxias e a dogmatismos. Mas bastariam tais circunstâncias para ele se situar no campo contrário ao da organização pelos jesuítas do Congresso? Entenderia ele também a constituição da Sociedade Portuguesa de Filosofia como uma solução e uma profilaxia ao ascendente eclesiástico nos meios filosóficos?

A resposta de Delfim Santos é desconcertante.

Começa por adotar um tom um pouco frio ao não nomear o seu correspondente, contrastando com a carta que lhe escreverá quatro anos depois, em melhor momento, e que será iniciada por «Meu caro Eduardo Faria». As razões para esta reserva estão não tanto na recusa em sintonizar com o alarme soado por Eduardo Lourenço sobre a hegemonia “contrarreformista” dos seguidores de Loyola mas muito mais porque o remédio apresentado é na verdade a causa da “doença”.

Eduardo Lourenço ignorava certamente que Delfim Santos e os jesuítas se tinham aproximado por circunstâncias casuais: em 1949 o Professor da Faculdade de Letras de Lisboa coincide na viagem para Mendoza, onde se celebraria o Primeiro Congresso Nacional de Filosofia da Argentina, com o Padre Severiano Tavares – homem de espírito aberto e temperamento jovial – acabando por contrair uma grave pneumonia que o reteve em Buenos Aires. A atenção e dedicação ao doente pelo seu acidental companheiro de viagem não seriam esquecidas. A partir dessa data iniciaram relações epistolares e tanto ele como os seus companheiros da Faculdade de Filosofia de Braga foram olhando mais favoravelmente o pensador portuense. Corolário desta aproximação é que Delfim Santos será precisamente o convidado de honra que pronunciará a alocução inaugural na sessão solene de abertura do Congresso de 1955*. Encontramos assim, à partida, um desconhecimento por parte de Eduardo Lourenço da estreita ligação de Delfim Santos aos organizadores do Congresso.

Constrangido pela falta deste dado na informação do seu correspondente, Delfim Santos tarda e hesita em responder. Mas uma outra questão, mais incómoda ainda, se lhe sobrepõe: a da impaciência de Lourenço pela demora na constituição da Sociedade Portuguesa de Filosofia. É este o tema que carreia para o diálogo as profundas clivagens da comunidade filosófica nacional e que lhe reaviva «os custos em dissabores e deceções» pagos pela tentativa do seu arranque com o seu amigo Severiano Tavares e sob a inspiração do Instituto Brasileiro de Filosofia, fundado em 1949 pelo paulista Miguel Reale. O mais delicado é que se a Sociedade não nascera, tal se devia precisamente à recusa de Joaquim de Carvalho, mestre e mentor de Eduardo Lourenço e espírito pouco dado a acolher iniciativas que não partissem de si próprio, em presidir a este corpo associativo, bem como às manobras dilatórias por ele promovidas para que a Sociedade nunca visse a luz do dia. É por isso que em 1950 o Professor de Coimbra tentará chamar a si a paternidade da ideia, que afinal já estava parcialmente concretizada dado que nesse mesmo ano a Sociedade vê os seus estatutos serem aprovados pelo Ministro da Educação. Porém não passa de um «nado-morto», como diz Lourenço, devido às divisões que persistem quanto a cargos, estatuto institucional, dependência ou não de órgãos oficiais, meios de financiamento, etc. Quatro anos mais tarde Eduardo Lourenço, talvez pela distância geográfica do meio português, ainda a julgava ressuscitável, mas Delfim Santos desengana-o.

É na verdade esta a questão à qual Delfim Santos responde desde o início do seu texto até às palavras “Eu irei” e é este o motivo do seu desconforto perante a inesperada carta que o interpelava. Replica que as soluções tentativamente propostas por Eduardo Lourenço já foram exploradas sem sucesso e se encontram esgotadas. Quanto ao Congresso reafirma precisamente a sua solidão e isolamento de grupos, essa mesma independência que fora a causa do pedido de apoio que recebera, deixando contudo explícito que não encontra motivo, na sua organização pelos jesuítas, para o escândalo invocado por Eduardo Lourenço.

Delfim Santos remata a carta com uma referência à sua ida ao Congresso Internacional de Filosofia que decorrera em São Paulo nesse mesmo ano de 1954, obra precisamente dos homens do Instituto Brasileiro de Filosofia, bem como ao seu deslumbramento pelo Brasil, ominosa referência a posteriores desenvolvimentos que se darão quando Eduardo Lourenço irá aceitar o convite para ensinar Filosofia nesse país e Delfim Santos o recusará – ver as cartas trocadas entre ambos em 1958 e 1959 neste blogue http://leduardolourenco.blogspot.com/2011/02/correspondencia-com-delfim-santos-1958.html e outros materiais em Filipe Delfim Santos, ed. (2011) Meu caro Delfim: Delfim Santos e o Brasil, Lisboa: Arquivo Delfim Santos.

Consciente da perturbação que as suas linhas introduzem na comunicação entre os dois, Delfim Santos acrescenta ainda uma nota metaepistolar: pois que muita coisa não foi dita e prescindiu de apontar as razões do fracasso da Sociedade (ou seja, de acusar Joaquim de Carvalho), a missiva pode parecer que foge às questões e que é evasiva. Delfim Santos simultaneamente concede essa falta e transforma-a em virtude: declara então que a carta é evasiva propositadamente.



Todos os documentos trocados entre Delfim Santos e os jesuítas da Faculdade de Filosofia de Braga sobre a organização do Primeiro Congresso Nacional de Filosofia e a tentativa de constituição pelo Padre Severiano Tavares e por Delfim Santos da Sociedade Portuguesa de Filosofia serão publicados na obra de Filipe Delfim SANTOS & José António ALVES, orgs. (2011) Escola de Braga: A Correspondência com Delfim Santos, Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia.

* O texto será publicado no número especial da Revista Portuguesa de Filosofia onde constam as actas do Congresso: Filosofia como Ontologia Fundamental, Actas do I Congresso Nacional de Filosofia, Revista Portuguesa de Filosofia Vol. 11, 1956, pp.  10-15.