quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Socialismos & Convergências

«Os textos políticos de Eduardo Lourenço não resolvem o problema político: fazem parte dele. É este o seu interesse e é este o seu limite». O autor destas palavras foi o analista político Joaquim Aguiar que, de resto, continua ainda hoje a fazer comentários sobre a actualidade portuguesa. O leitor pode encontrar a totalidade deste ensaio, intitulado “A esquizofrenia sublime”, no número especial que a revista Prelo dedicou em Maio de 1984 ao autor de O Labirinto da Saudade. Vale a pena relê-lo sobretudo para se perceber a falta que fazem os textos políticos de Eduardo Lourenço, mormente num tempo em que, infelizmente, o ensaísta pouco tem escrito (ou, pelo menos, publicado) sobre os acontecimentos que marcam a nossa cena política. Ler Eduardo Lourenço não tenciona interpretar silêncios, tarefa sempre bastante arriscada, aliás. Muito menos deseja revelar o teor de conversas privadas. No entanto, Ler Eduardo Lourenço pode garantir que o ensaísta mantém bem viva a sua paixão pela política e a atenção do seu olhar sobre a realidade portuguesa não perdeu nenhuma das suas bem conhecidas qualidades.
Eduardo Lourenço num almoço de apoio a António Costa. Na foto vê-se também, à esquerda do ensaísta, o cantor Camané

De resto, Eduardo Lourenço continua a intervir na vida política. Mas, se é verdade que é bastante procurado pelos jornalistas para curtos comentários acerca da actualidade, Ler Eduardo Lourenço lastima que, nos últimos anos, não apareçam nos jornais textos do ensaísta que, mais tarde, poderiam corresponder a capítulos de novos livros que seriam, por assim dizer, os descendentes de títulos como O Complexo de Marx (1979) ou O Fascismo Nunca Existiu (1976). Talvez assim fosse possível ver o que hoje se passa em Portugal não com um olhar bacteriologicamente puro (haverá ainda quem acredite em tal ficção?), mas com a ajuda de uma perspectiva que, não sendo a-ideológica, sempre acrescentava alguma lucidez ao debate público. Como escrevia também Joaquim Aguiar, no já citado artigo, os textos de Eduardo Lourenço são, entre outras coisas, «a manifestação de uma vontade de diálogo ético com os responsáveis políticos e, em especial, com os dirigentes socialistas [leia-se: do PS]». Num momento em que, mais do que nunca, a esquerda (melhor dito: as esquerdas) vive(m) numa decisiva encruzilhada, essa vontade talvez seja mais necessária do que nunca.
Eduardo Lourenço e Melo Antunes num Congresso da UEDS em 1976.
À falta de texto sobre os dias que correm, Ler Eduardo Lourenço recupera um artigo do ensaísta, intitulado “Do socialismo como convergência" e que veio a público na revista Opção em 23 de Junho de 1977, tendo sido dois anos volvidos integrado em O Complexo de Marx. Ou seja, o texto foi redigido em pleno período de crise política, uma vez que o I Governo Constitucional, apoiado pelo PS, liderado por Mário Soares e com Medina Carreira como Ministro das Finanças, se via forçado a negociar com os outros partidos parlamentarmente representados, pois não dispunha de maioria na Assembleia da República. A hesitação do PS foi, de resto, habilmente aproveitada pelos partidos à sua direita que, de imediato, acusaram Mário Soares de se voltar para a esquerda comunista em busca de apoio para o seu Governo. Meses mais tarde, o PS escolherá o CDS para formar o II Governo Constitucional que, como se sabe, durará pouco mais do que seis meses. Mesmo sem ousar estabelecer paralelismos entre dois tempos e duas circunstâncias tão diferentes, é forçoso relembrar que a expressão convergência democrática designava o propósito político de PSD e CDS formarem um Governo que, apesar de constituído por dois partidos que não tinham sido os mais votados, garantiria, ainda assim, um suporte maioritário na Assembleia.




DO SOCIALISMO COMO CONVERGÊNCIA (1977)

 

                                               Torna-se urgente aprofundar o debate sobre a fronteira que separa o “regresso ao capitalismo” e a “transição para o socialismo”

num contexto de crise económica como o que vivemos

A. Reis, Opção, nº 13, Julho 76


(…) é curioso ouvir Mário Soares falar de novo,
ao fim de quase um ano de um ano de omissão,
transição para o socialismo.
Expresso, ed. 5/6/76



O impulsionador da “convergência democrática”, antecipando um pouco, encontrou já a palavra de ordem sob que se travará a futura batalha política portuguesa, tanto a nível parlamentar como eleitoral: a convergência marxista. Num contexto como nosso, ao mesmo tempo favorável aos simplismos mais crus e a subtilezas que têm por elas quarenta anos de pregação não esquecida, esse futuro cavalo de batalha não é mal escolhido. É sem dúvida pouco popular, mas o óbvio, o de convergência comunista já foi usado até à corda e, mau grado toda a convicção polémica do Dr. Sá Carneiro, convém mal a um adversário político que se tem ilustrado na defesa contra o dito comunismo. Salvo na esquerda pura e dura, o marxismo não tem em Portugal uma conotação muito favorável. O que o epíteto tem de vago, misterioso, e só por isso, de pouco tranquilizador, convém para designar um perigo ao mesmo tempo eminente, impreciso e grave. Sob a cruzada antimarxista se travará, pois, o novo bom combate da velha ou nova direita portuguesa para salvaguarda o essencial daquilo que a Revolução lhe deixou e tem vindo consolidando com não desprezível habilidade.
Naturalmente que esta estratégia ideológica ao nível verbal esbarra com um obstáculo sério: não só um dos parceiros da futura convergência marxista há muito deixou de se referir ao marxismo como sua cobertura doutrinal privilegiada, como é descrito, na sua prática política pelo mesmo Dr. Sá Carneiro ou seus próximos como um partido sociodemocrata. (Ver artigo de M. R. de Sousa no Expresso de 28 de Maio de 1977). O epíteto acusador, por conseguinte, só a um dos parceiros da hipotética “convergência marxista” se pode aplicar. Porque teima então o Dr. Sá Carneiro em aplicar e englobar o Partido Socialista naquilo que para ele é uma tremenda denunciação pública de que espera, como agora se escreve, suculentos dividendos políticos ou eleitorais? Em matéria de fetichismo ideológico o PSD supera os outros partidos portugueses. A palavra deve criar a coisa, o hábito verbal vestir à força o monge pouco recomendável. Não tendo podido, apesar dos notáveis esforços tentados, não sem êxito parcial, celebrar justas e ricas núpcias com o PS, o PSD considera como fatal que não fica outra alternativa para o PS que o de cair nos braços tenebrosamente marxistas do Dr. Álvaro Cunhal. Pouco lhe importam as denegações públicas espectaculares do PS, obrigado a reafirmar de semana a semana que não cairá em tais laços. Não se cai onde se quer, pensa sem dúvida o Dr. Sá Carneiro. Tanto ele como o seu novo aliado, ou vice-versa, não ignoravam antes da famigerada cimeira cor-de-rosa as disposições neutrais do Dr. Mário Soares. Exactamente por não as ignorar é que lançaram a sua “convergência democrática”. De homens tão hábeis, uma tentativa destinada, como era previsível, a não obter êxito imediato, a produzir mesmo um efeito oposto, não deixa de espantar. Enganaram-se de porta? Cometeram a falta sem perdão possível? Como explicá-la? 
Da análise da situação portuguesa, do exame da prática governamental, os dois dirigentes do CDS e do PSD concluíram que não havia em Portugal espaço político para o que, à falta de melhor, se poderia chamar uma convergência socialista. De resto, nenhum deles atribui qualquer sentido sério à ideia de “socialismo”, salvo em sentido pejorativo ou subversivo. Fiados no que sabiam e viam, concluíram que tinha chegado a hora de desmascarar o Partido Socialista, nem que para isso fosse necessário jogar ao poker político. Ou o Partido Socialista, coerente com o sentido geral do que tem sido a sua actuação, aceita “a convergência democrática”, ou só lhe fica como saída, queira-o ou não, uma outra convergência que será fácil denunciar como incoerente e pouco democrática ao mesmo tempo, a convergência marxista. O perigo que esta hipótese podia fazer correr, se fosse autêntica, não assusta os ideólogos do CDS e do PSD, como foi o caso outrora. Demais sabem eles que é uma hipótese meramente polémica, impraticável. Porque, aparentemente, empurram então o PS para essa imaginária saída fatal? Por isso mesmo? 
A táctica da “convergência democrática” é simples: sem o apoio tácito do CDS e do PSD o Governo de Mário Soares está condenado a prazo, ou pelo isolamento cada vez maior, ou pelo compromisso “marxista” que mata. O cálculo não é mau e tem a seu favor um passado de aliança objectiva que ultrapassou em muito a mera convergência pontual entre o Governo Mário Soares e os partidos agora fustigados com o labéu de partidos de direita, futura matriz do grande partido conservador que segundo o próprio primeiro-ministro nos faz falta. Felizmente, as cúpulas não fazem o que querem. Diante da ameaça directa, não só ao seu estatuto de partido no poder, como de interna deslocação, o Partido Socialista redescobre a sua vocação própria como maneira de escapar ao destino suicida que lhe é proposto. Essa redescoberta tem duas faces que se não ajustam: a do isolamento e da convergência. A do isolamento – embora mais fictício que real, por ser sobretudo tentação de compromisso com a sua direita – já deu todos os seus frutos. A da “unidade de esquerda” tal como é formulada e faria o jogo dos homens da “convergência democrática” é inexequível ou suicidária, nas circunstâncias presentes. Só fica margem para outro tipo de convergência, aquela em que os dirigentes do CDS e do PSD, por definição, não podem apostar sem se negar, mas também aquela em que influentes sectores do PS não têm acreditado: a convergência socialista. Está implícita na letra e no espírito da Constituição, está explícita nos estatutos do Partido Socialista e está sobretudo inscrita na acção, no pensamento e na vontade de milhares e milhares de militantes que já desesperavam de ver a prática do seu partido coincidir com a vocação da sua sigla. Na fidelidade do Partido Socialista à sua doutrina está a única salvação, para si mesmo e para o País enquanto país de vocação socialista. Que os Drs. Freitas do Amaral e Sá Carneiro não acreditem nela, é natural. Cumpre agora ao PS desiludi-los de vez, acreditando.









 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Hannah Arendt

Passou relativamente desapercebida na imprensa portuguesa a edição do mais recente livro de António Marques (A Filosofia e o Mal - Banalidade e Radicalidade do Mal de Hannah Arendt a Kant, Lisboa, Relógio d'Água, 2015). Facto que se lamenta, por várias razões. Desde logo, porque na bibliografia filosófica dos nossos dias é bastante raro encontrar-se uma discussão tão aberta e determinada com as teses de um autora clássica, como é o caso (quem ousará, hoje, sustentar o contrário?) de Hannah Arendt. Especialista sobretudo em Kant, Nietzsche e Wittgenstein, António Marques demarca-se audaciosamente da conhecida noção arendtiana de mal banal que a filósofa judia desenvolveu em vários momentos da sua obra e, em especial, no famoso Eichmann in Jerusalem. A metodologia de António Marques constrói-se sobretudo a partir de uma minuciosa e cuidada revisitação de um esquecido texto kantiano “Versuch den Begriff der negativen Grössen in die Weltweisheit einzuführen”, ou seja, “Tentativa de introduzir o conceito das grandezas negativas na Filosofia”. Ler Eduardo Lourenço, embora tenha de se confessar seduzido com a démarche de António Marques, abstém-se de intervir na discussão do filósofo português com a célebre autora de The Human Condition, mas convida os visitantes do blog à leitura deste livro que, entre outras, ostenta uma qualidade pouco frequente em obras téoricas contemporâneas: uma clareza expositiva assinalável.


Não menos surpreendente que o livro em si mesmo é, apesar de tudo, o final do seu capítulo 6, intitulado “Breve excurso sobre um texto de Eduardo Lourenço”*. Ler Eduardo Lourenço não o pode garantir em absoluto, mas talvez se trate da primeira vez que, num livro de filosofia contemporânea, o pensamento do autor de Heterodoxias é mobilizado para um debate que não tenha a ver directamente com a realidade portuguesa. É verdade que, nalguns casos, a reflexão de Eduardo Lourenço sobre a mitologia europeia ou sobre Fernando Pessoa colheu a atenção de autores estrangeiros. Todavia, o caso é (ou parece ser), desta vez, algo distinto. Trata-se de uma obra que discute posições de filósofos (Arendt, Kant, Heidegger) e que, embora através de um excurso, chama a atenção para um ensaio de Eduardo Lourenço que, por si só, acrescenta interesse filosófico ao debate que o livro propõe. Dir-se-á que António Marques teve acesso a esse texto, citado de O Esplendor do Caos mas que originariamente apareceu no jornal Público, apenas porque é um filósofo que vive, lê e escreve em Portugal. Decerto que sim. Mas a questão mais relevante talvez seja outra: António Marques parece recorrer a Eduardo Lourenço, não por este ser português (tal seria uma estultícia), mas porque, do seu ponto de vista, nesse «texto a todos os títulos brilhante “O Efeito Hiroxima”» (p. 77), o ensaísta trilha caminhos novos que permitem repensar, não só o terrível acontecimento ocorrido na cidade japonesa, mas até a própria ideia de holocausto.

Hannah Arendt

É curioso referir que as referências a Hannah Arendt na vastíssima obra de Eduardo Lourenço são episódicas, embora sempre pertinentes e reveladoras da admiração do ensaísta pela pensadora alemã. No entanto, numa entrevista concedida há mais de dez anos à jornalista Anabela Mota Ribeiro, Eduardo Lourenço evoca o episódio em que viu, pela primeira e única vez, Heidegger e, acedendo à curiosidade da entrevistadora, fala mesmo sobre os amores entre Martin e Hannah:

« – [A ocasião em que vi ao vivo Heidegger foi] um dos momentos memoráveis da minha vida.

– O que é que foi tão Impressionante?

– Eu estava naquela altura em Montpellier. Heiddeger estava um pouco na sombra, marginalizado no plano in­telectual, na penumbra da chamada opinião pública. Estávamos em 52, 53, depois da derrota nazi em 45. Havia um contraste fabuloso entre o ar banalíssimo da pessoa Heidegger – só reconheci um pouco do perfil, que fazia lembrar o de Cícero – e o que ele era como presença, co­mo texto. Falou de Hegel e dos Gregos. Nunca mais es­queço essa lição. Havia mais de mil pessoas na sala, su­ponho que eram todos professores, grandes professores, e, de repente, estávamos reduzidos, como se estivéssemos a ouvir em pessoa Aristóteles ou Platão.

– Consegue identificar esse elemento transbordante, esse algo que eu imagino que Heidegger teria para produzir essa im­pressão?

– Uma aura. Uma profundidade, uma singularidade, uma raridade na abordagem de uma questão já tratada por outros pensadores ao longo dos séculos XIX e XX. He­gel e os Gregos são o horizonte de todo o pensar filosófi­co típico europeu. Heidegger põe as perguntas cruciais de uma outra maneira. Mostra como o pensar era despensar. Era um silêncio enorme. O texto era em francês, depois em alemão, francês, alemão, francês, alemão, de maneira que pudesse terminar em alemão. Foi uma espécie de gri­to, um momento sacralizante, se se pode levar o termo pa­ra qualquer coisa que é do mais dessacralizante possível, que é a palavra filosófica. Não tenho nenhuma memória dessas coisas concretas, senão era romancista. Só guardo desse momento a emoção que tive. O que é que o Hei­degger tinha? Um físico de alemão banalíssimo, da Ba­viera.

– E a voz, como é que era a voz?

– Ele devia ter qualquer coisa para que uma senhora co­mo Hannah Arendt se tenha apaixonado por ele. E não se apaixonou senão pelo pensador, pela pessoa que tinha esse verbo e a iniciava na única coisa que ela própria procura­va e não era capaz de formular da mesma maneira: a so­lução intelectual em estado puro. De outro modo, é abso­lutamente incompreensível. Todos os amores são incompreensíveis. Mas esse da Hannah Arendt, ela própria filó­sofa, judia, conhecendo uma parte do passado controverso ou mesmo suspeito do Heidegger...

– O senhor pensou nesse elemento suspeito quando o ouviu? Fa­lamos da aproximação de Heidegger à ideologia nazi.

– Se soubesse que o Heidegger era um sujeito que aplaudia uma coisa tão pavorosa como foi o holocausto, naturalmente que não ia assistir. Toda aquela gente hitleriana, efusiva, laborou naquilo. Os documentários dessa época são tremendos, um povo inteiro esteve fascinado. Mas não estamos aqui para falar do Heidegger...» (“Eduardo Lourenço”, por Anabela Mota Ribeiro, Suplemento DNA de Diário de Notícias, Lisboa, 11/VI/2004, p. 24).




*Numa muito curiosa recensão ao livro de António Marques, Paulo Tunhas omite, estranhamente?, a existência do sub-capítulo dedicado a Eduardo Lourenço: cf. http://observador.pt/2015/09/04/o-arrependimento-e-para-as-criancinhas-uma-visita-ao-mal/

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ler Vergílio em Évora

Universidade de Évora






2016 é ano de centenário do nascimento de Vergílio Ferreira. Para além de um vasto programa de comemorações dinamizado pela Câmara Municipal de Gouveia que, de resto, inclui uma magnífico site (http://vergilioferreira.pt/), os Departamentos de Linguística e Literaturas e de Filosofia da Universidade de Évora organizam, de 29 de Fevereiro a 2 de Março, “Vergílio Ferreira: entre o silêncio e a palavra total- Congresso Internacional Comemorativo do Centenário”. A ideia surgiu no passado mês de Março, associando o Centenário do Autor de Aparição aos vinte anos de existência ininterrupta do Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora. 
Eduardo Lourenço, mal soube da iniciativa, revelou um enorme entusiasmo em participar, o que sucederá duplamente. Por um lado, aceitou o convite da Reitora da Universidade de Évora e da Comissão Organizadora do Congresso para presidir à Comissão Científica do evento. Por outro, integrará uma das sessões plenárias do Congresso, na qual, juntamente com Almeida Faria, Lídia Jorge e o cartoonista Vasco, evocará a figura de Vergílio. 
O congresso conta ainda com a participação dos seguintes conferencistas convidados: Ángel Marcos de Dios,Bruno Béu de Carvalho, Carlos Reis, Eunice Cabral, Fernanda Irene Fonseca, Hélder Godinho,Isabel Cristina Rodrigues, Isabel Soler, José Luis Gavilanes Laso, Luci Ruas, Luís Mourão, Maria Lúcia Dal Farra e Rosa Maria Goulart. O programa do Congresso prevê ainda várias sessões de comunicações livres. 
Para mais informações é possível consultar o site seguinte: http://www.vergilio2016.uevora.pt

Vergílio Ferreira

Como é sabido, Eduardo Lourenço escreveu muito sobre o seu Amigo Vergílio Ferreira. No entanto, também o inverso se verifica*. Para incentivar investigações sobre as relações entre os dois escritores (ambos ensaístas, de resto), Ler Eduardo Lourenço apresenta agora uma lista bibliográfica que, sem ser exaustiva, mostra como é significativo o que  Vergílio escreveu sobre o autor de Heterodoxias:

  1. “Eduardo Lourenço Heterodoxo (I), Suplemento Cultura e Arte de O Comércio do Porto, Porto, 11/VII/1967, p. 14. Texto reimpresso com algumas alterações em Espaço do Invisível III, Col. “Biblioteca Arcádia – Obras de Vergílio Ferreira”, Lisboa, Arcádia, 1977, pp. 123-133. 
  2. “Eduardo Lourenço Heterodoxo (II), Suplemento Cultura e Arte de O Comércio do Porto, Porto, 25/VII/1967, p. 12. Texto reimpresso com algumas alterações em Espaço do Invisível III, o.c., pp. 133-142. 
  3. Conta Corrente (1968-1976), Vol. I, Venda Nova, Bertrand, 1980, pp. 12, 26, 38, 51-52, 61, 70, 79, 112, 120, 122, 145, 180, 198-200, 211-22, 221, 231, 244, 250, 261-262, 284-285, 290-291, 295-296, 316-317, 319-320, 334-335, 352, 371, 373. 
  4. Conta Corrente (1977-1979), Vol. II, Venda Nova, Bertrand, 1981, pp. 35, 38, 77, 132, 134, 141, 153-154, 190, 206, 215-216, 255, 272-273, 280-281, 290-292, 323. 
  5. Conta Corrente (1980-1981), Vol. III, Venda Nova, Bertrand, 1983, pp. 15, 51-53, 84, 119-121, 125-126, 157, 224, 233, 256, 259, 273-276, 287-290, 352-354, 360-361, 373, 432. 
  6. “Ser e estar”, Prelo-Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, nº especial, Lisboa, Maio de 1984, pp. 19-22. Texto reimpresso em Espaço do Invisível IV , Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, pp. 297-301 e em AAVV (Org. de Maria Manuel BAPTISTA), Cartografia Imaginária. Dos Poetas e Amigos, Maia, Ver o Verso, 2008, pp. 175-180 [Fontanelas, 19 de Agosto de 1983]. 
  7. Conta Corrente (1982-1983), Vol. IV, Venda Nova, Bertrand, 1986, pp. 18-19, 245-246, 276-279,282-284, 289, 314-315, 334-335, 341, 414-415, 471. 
  8. “Luminoso leve”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 231, Lisboa, 6/XII/1986, p. 8. 
  9. Conta Corrente (1984-1985), Vol. V, Venda Nova, Bertrand, 1987, pp. 9, 13, 36, 68-69, 76-77, 90-91, 99-100, 109, 112, 147, 155-156, 237, 366-367, 408, 456, 502, 508-509, 557-558, 581.
  10. Conta Corrente. Nova Série (1989), Vol. I, Venda Nova, Bertrand, 1993, pp. 11, 20-22, 105-106, 124-125, 185-186, 200-203, 250-251, 260-261, 273-275. 
  11. Conta Corrente. Nova Série (1990), Vol. II, Venda Nova, Bertrand, 1993, pp. 55-56, 77-82, 117-118, 175, 203-205, 241-242, 258-261. Conta Corrente. Nova Série (1991), Vol. III, Venda Nova, Bertrand, 1994 pp. 58-61, 65-66, 72-75, 140-145, 209-215, 220-228, 244-248. 
  12. Conta Corrente. Nova Série (1992), Vol. IV, Venda Nova, Bertrand, 1994, pp. 21, 84, 100-101, 108-112, 135-135, 239, 244-245, 251, 253-256, 266-267.
* Sobre as relações entre os dois autores, convém referir o estudo de Celeste Natário; “O existencialismo: diálogo entre Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira”, Colóquio-Letras, nº 170, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 2009, pp. 7-11.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sob um céu de uma transparência perfeita, a metáfora apocalíptica ganhou um sentido literal?

O céu de Belo Horizonte (imagem recolhida em rumositaucultural.files.wordpress.com)
O Canto do Signo (1995) é, na vasta produção bibliográfica de Eduardo Lourenço, um caso singular a vários títulos. Publicado num período paradoxal da carreira do ensaísta em que, por um lado, obteve um forte reconhecimento internacional através da atribuição do Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon, mas, por outro, não tinha contrato com nenhuma casa editorial, o livro aparece nas livrarias com a chancela da Editorial Presença e, caso surpreendente, é possível ainda encontrá-lo a venda em bastantes sítios, pois a tiragem inicial nunca se esgotou e, por isso, o volume jamais conheceu reimpressão. Trata-se de um período em que as obras de Eduardo Lourenço são publicadas de modo algo disperso, quase aleatório: é também esse o caso de A Europa Desencantada (Visão, 1994), vários anos mais tarde reeditado pela Gradiva.
Ainda assim, o acolhimento de O Canto do Signo por parte da crítica foi bastante positivo, tendo o livro recebido o Prémio D.Dinis de Ensaio. Muito recentemente, um dos mais destacados jovens críticos literários portugueses afirmou mesmo que O Canto do Signo é o mais importante livro de crítica literária da segunda metade do século passado. A tese (como todas, aliás) é discutível, porquanto, embora as aparências possam sugerir o contrário, o livro talvez seja, antes de mais, a proposta (bem sucedida? isso é outra questão...) de um discurso que visa chegar a um território novo, sem os constrangimentos da crítica - pelo menos, tal como foi classicamente entendida. Será que um texto de anti-crítica literária é ainda crítica literária, sobretudo num tempo em que, como se pode ler em O Canto do Signo, há uma «crise geral da consciência judicativa contemporânea» (p. 15)?
A que vem esta revisitação de um livro publicado há precisamente vinte anos? Apesar de nunca faltarem motivos para falar de um livro tão rico e interessante como este, a verdade é que Ler Eduardo Lourenço, em conimbricense deambulação estival por um alfarrabista, tropeçou num curioso volume que responde por este nome: VII Encontro Nacional Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa - Anais (Belo Horizonte, Centro de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minais Gerais, 1979). O título não mente. São mesmo as actas de um congresso no qual participaram, entre muitos outros, Lélia Parreira Duarte (coordenadora do evento), Adélia Prado, Arnaldo Saraiva, Leodegário A. de Amarante Filho, Eduardo Prado Coelho, Jorge Fernandes da Silveira, Nádia Gotlid e ... Eduardo Lourenço que proferiu a conferência de abertura que no índice aparece como “A Cultura Portuguesa Atual e o Estudo da Literatura Portuguesa”. No entanto, o sub-título que encima a página 24 destes Anais esclarece as dúvidas: “Con-texto cultural e novo texto português”. Ora, um dos capítulos de O Canto do Signo tem precisamente o nome de “Contexto Cultural e novo Texto Português” e termina com a seguinte e preciosa indicação: S. Pedro do Rio Seco, 24 de Julho de 1979. Não há motivo para espanto porque em 19 de Agosto desse mesmo ano, pelas 10 horas da manhã, Eduardo Lourenço leu o texto que escrevera cerca de três semanas antes na sua terra natal, onde provavelmente terá ido passar alguns dias de férias. É realmente um belo ensaio, no qual comparecem personagens cuja afinidade à primeira vista pareceria no mínimo abusiva. No entanto, com a elegância habitual, o ensaísta consegue relacionar Leibniz e Hegel com Llansol ou com o surpreendente Dinis Machado que, à época, acabara de publicar o (sobretudo na época) famoso O que diz Molero.
Leibniz...
... e Dinis Machado
As versões do texto não são, contudo, absolutamente coincidentes, porque, logo depois da epígrafe (as epígrafes escolhidas por Eduardo Lourenço estão muito longe de ser, como se sabe, uma dimensão secundária da sua escrita...) extraída de O Livro das Comunidades de Maria Gabriela Llansol, nos Anais aparece uma frase algo enigmática – que, de resto, já não consta da versão em O Canto do Signo – que surpreende o leitor: «Sim, senhor, as pessoas pedem para eu ser mais claro. Como? O que espero é ver a verdade apocalíptica ganhar um sentido literal» (p. 24). A Ata da Sessão, que aparece logo a seguir ao texto da conferência nos Anais, não resolve o enigma* (embora lance a pista de que a metáfora apocalíptica de que se fala tenha a ver com a obra de Herberto Helder**), mas quer as perguntas dirigidas a Eduardo Lourenço, quer as respostas do ensaísta, justificam uma leitura atenta das páginas 27 a 30. De resto, todo o volume dos Anais é bem interessante dando expressão à ideia de que a quantidade e a qualidade de investigações sobre literatura portuguesa realizadas por académicos brasileiros é já uma tradição bem enraizada.
O VII Encontro, que contou com a presença de 180 de professores de Literatura Portuguesa, terminou com uma sessão na qual participou, em representação da embaixada lusitana, Eduardo Lourenço que resumiu o sentimento dos seus colegas e compatriotas: «Para todos nós, além de uma honra foi um grande prazer avivar laços intelectuais e efectivos que sabemos existirem um pouco abstractamente entre os nossos dois povos e as nossas culturas. Durante três rápidos dias, sob um céu de uma transparência quase perfeita, acompanhados pela solicitude dos nossos anfitriões e em particular pelo sorriso discreto da Professora Lélia Duarte, todos nós pudemos reforçar não só esses laços, como comungar naquilo que nos é comum, a compreensão, vivência e admiração por obras e textos onde se exprime o que de melhor existe no espírito do povo a que pertencemos» (p. 258).

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*Já depois de publicado este post, uma grande amiga e pacientíssima visitante de Ler Eduardo Lourenço chamou a atenção, com a sua costumada perspicácia e sensibilidade, para o facto da enigmática frase ser, em rigor, uma citação (que seria, muito provavelmente, a segunda epígrafe do ensaio de Eduardo Lourenço, pelo menos na versão que terá sido lida em Belo Horizonte) de Photomaton & Vox de Herberto Helder (Assírio & Alvim, 1979). Na segunda edição do livro (Assírio & Alvim, 1987), a referida frase aparece na p. 27. Aqui fica, pois, o devido agradecimento pela ajuda na resolução do enigma. Ou, pelo menos, de parte dele. É que fica ainda por explicar o desaparecimento da epígrafe herbertiana na versão do texto em O Canto do Signo, tanto mais que a breve referência à obra do poeta de Ofício Cantante em “Contexto Cultural e novo Texto Português” é meramente circunstancial.

** Nessa Ata da Sessão, que não vem assinada mas que se depreende ter sido redigida por Irene Lima Marques e Ana Maria de Almeida, na qualidade de secretárias da Sessão, aparece um resumo das respostas de Eduardo Lourenço, do qual se pode destacar o seguinte excerto: «Em Herberto Helder encontra-se a referência à metáfora apocalíptica: o autor espera que esta metáfora, substitutiva da transparência exigida do texto literário, alcance “um sentido literal” (p. 28).»

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ilha Portugal


Anabela Saint-Maurice e Eduardo Lourenço em uma das cenas de Ilha Portugal

Ficou recentemente disponível em RTP Play um documentário sobre e com Eduardo Lourenço produzido já há alguns anos, mas com algumas imagens (para Ler Eduardo Lourenço, pelo menos) desconhecidas. Vale bem a pena (re)ver...  esta Ilha Portugal por Anabela Saint-Maurice. Para tal basta clicar no endereço seguinte: ILHA PORTUGAL

Contudo, e dado que nem sempre o acesso ao documentário é fácil,  Ler Eduardo Lourenço informa que o filme se encontra também disponível num site que o Centro Nacional de Cultura dedica, desde há semanas, ao ensaísta, e do qual se deixa aqui também o respectivo link:
 http://www.eduardolourenco.com/videos/Ilha-Portugal.mp4

Ilha Portugal foi exibido pela primeira vez na RTP 2 a 10 de Junho de 2005. Nesse mesmo dia, o Diário de Notícias fazia uma apresentação do filme cuja ligação a seguir se indica:
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=602268&page=-1






quarta-feira, 15 de julho de 2015

Habitante da aventura poética



Eduardo Lourenço relendo, com alguma surpresa, uma primeira edição do livro Tempo e Poesia. Na contracapa desta edição de 1974 aparece uma imagem do Autor que, segundo ele mesmo, faz lembrar... Arthur Miller! (foto  de Teresa Filipe)
Decorreu, anteontem, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a última reunião preparativa da edição do III Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço que terá como título simplesmente Tempo e Poesia. Organizado em torno do livro homónimo publicado em 1974 na editora portuense Inova, cujo texto aparece agora definitivamente fixado, expurgadas que foram gralhas e imprecisões constantes das suas impressões precedentes, este tomo (sem dúvida mais extenso do que os dois anteriores, respectivamente Heterodoxias e Sentido e Forma da Poesia Neo-realista e Outros Ensaios) apresenta novos e indiscutíveis motivos de interesse, pois para além de reunir um vastíssimo número de textos dispersos dedicados à poesia (como se sabe, temática decisiva no percurso ensaístico de Eduardo Lourenço) e a quase todos os nomes mais relevantes da poesia portuguesa do século XX, integra um conjunto considerável de textos inéditos, agora revistos e nalguns casos concluídos exclusivamente para esta edição pelo Autor. A título meramente de exemplo, neste novíssimo e aumentado Tempo e Poesia, o leitor encontrará ensaios nunca antes publicados sobre a poesia de Eugénio de Castro, Adolfo Casaes Monteiro, Raul de Carvalho, Maria Teresa Horta ou Salette Tavares. Para além disso, aqui aparecem também reunidos, numa espécie de jogo de luz e sombra que permite novas e revigorantes leituras, todos os estudos que o ensaísta dedicou à poesia de nomes tão incontornáveis como Teixeira de Pascoaes, José Régio, Miguel Torga, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner ou António Ramos Rosa, entre tantos outros.
Dado que, como se sabe, no livro Tempo e Poesia apareceu pela primeira vez, na sua versão completa e definitiva, o ensaio "Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português?", entendeu o Autor que seria pertinente integrar neste volume das Obras Completas todos os estudos que publicou acerca do modernismo português, designadamente aqueles onde medita sobre as relações entre Orpheu e a Presença. Esta secção do novo Tempo e Poesia permite revisitar, no ano em que se comemora o primeiro centenário da emblemática revista do chamado primeiro modernismo português, aquela que foi seguramente uma das interpretações mais marcantes que se fizeram no último século deste acontecimento maior da cultura portuguesa.
Tratando dos últimos pormenores da edição do III Volume das Obras Completas: da direita para a esquerda,  Eduardo Lourenço, Carlos Mendes de Sousa e João Tiago Lima (foto de Teresa Filipe)
O terceiro volume das Obras Completas foi coordenado por Carlos Mendes de Sousa, investigador e professor da Universidade do Minho e um dos maiores especialistas da poesia portuguesa contemporânea, que assina também uma extraordinária introdução, intitulada "Eduardo Lourenço, habitante da aventura poética", peça doravante insubstituível nos estudos sobre o ensaísta de Tempo e Poesia. Entre muitas outras informações grandemente relevantes, Ler Eduardo Lourenço destaca as revelações que Carlos Mendes de Sousa faz, a partir da correspondência ainda inédita entre Eduardo Lourenço e Eugénio de Andrade, e que mostram com o livro publicado em 1974 nunca teria sido impresso sem a amigável e quase obstinada insistência do poeta de As Mãos e os Frutos
Esta muito produtiva reunião não encerrou sem a primeira planificação do quarto volume das Obras Completas, mas sobre essa e outras informações respeitantes ao novo Tempo e Poesia, que chegará às livrarias no próximo Outono, falará Ler Eduardo Lourenço depois do período estival. Até lá, aqui se deixam os desejos de umas óptimas e refrescantes férias! 


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Entrevistas

O que significará hoje uma nova entrevista com Eduardo Lourenço no contexto da sua obra tão vasta? Obra essa que, aliás, integra já inúmeras entrevistas que, pelo menos desde 1969 – ano em que Serafim Ferreira publica “A actual literatura portuguesa possui uma excepcional vitalidade”, no Suplemento Literário de Jornal de Notícias (24/XII/1969, pp. 17-18) – o ensaísta tem vindo a conceder para livros, jornais, revistas ou mesmo para programas de rádio e de televisão. Nesta tão extensa dimensão da obra de Eduardo Lourenço, é possível encontrar, como é evidente, textos de natureza muito diversa. Há tentativas que alguns leitores considerarão notoriamente falhadas e outras há que podem (se calhar, devem) ser consideradas peças imprescindíveis para a compreensão da obra do autor de Heterodoxias. A este último grupo pertencem, sem dúvida, entrevistas como, por exemplo e sem qualquer preocupação de exaustividade: “As confissões de um místico sem fé”, por Diogo Pires Aurélio (Prelo–Revista da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, nº especial, Maio de 1984, pp. 7-16), “Tudo me é pretexto para falar de mim”, por Inês Pedrosa (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 6/XII/1986, pp. 2-6), “Um heterodoxo confessa-se”, por Vicente Jorge Silva e Francisco Belard (Revista de Expresso, 16/I/1988, pp. 24-31) ou Cultura e política na época marcelista, entrevista de Mário Mesquita (Lisboa, Edições Cosmos, 1996 [1972]). A profundidade e a riqueza destas conversas publicadas, bem como o facto de serem textos constantemente citados, fazem destas entrevistas elementos decisivos do pensamento de Eduardo Lourenço. Mas o mesmo seria possível dizer acerca de outras entrevistas, como as realizadas por Clara Ferreira Alves, Osvaldo Manuel Silvestre, António Guerreiro, Adelino Gomes, Luís Osório, Luís Trindade, José Carlos de Vasconcelos, Carlos Câmara Leme, Luís Miguel Queirós, José Mário Silva, Rui Moreira Leite, Luís Machado, Anabela Mota Ribeiro, Teresa de Sousa, Carlos Vaz Marques, Maria João Seixas ou Valdemar Cruz. Em suma, entrevistas! Eis certamente o que não falta para quem quiser ler um Eduardo Lourenço conversado.
Ora, nos últimos dias, Ler Eduardo Lourenço tomou conhecimento de três novas e extensas entrevistas, todas elas resultando de conversas demoradas com o ensaísta. Assim, na passada quarta-feira, a RTP transmitiu uma Grande Entrevista, programa da responsabilidade do jornalista Vitor Gonçalves. Durante cerca de uma hora, Eduardo Lourenço conversou sobre os mais diversos assuntos, tendo o entrevistador insistido sobretudo em aspectos biográficos do ensaísta, estratégia que se pode discutir, mas que acaba por ser compreensível porque importa reconhecer que nem sempre o discurso do entrevistado se revela tão luminoso no meio televisivo como no território da escrita. E, de facto, acaba por ser uma hora de televisão muito bem passada, como se pode comprovar neste endereço: http://www.rtp.pt/play/p1718/grande-entrevista.
Sessão de lançamento da revista Suroeste, na passada quinta-feira na Fundação José Saramago em Lisboa. Na primeira fila, reconhece-se, de costas, Eduardo Lourenço (foto página facebook da Fundação José Saramago)
foto Ler Eduardo Lourenço






































As duas outras entrevistas foram impressas. A primeira no número cinco (lançado há dias em Lisboa, na Fundação José Saramago) de uma curiosa aventura que é Suroeste, revista de Badajoz dedicada às literaturas ibéricas. Trata-se de “Soy una persona que llega al final de la vida e no sabe más que lo que sabia cuando era muchacho”, texto assinado por Luis Sáez Delgado (Suroeste, nº 5, 2015, pp. 188-196) que consegue a improvável façanha de acrescentar bastantes coisas a todas as entrevistas anteriores de Eduardo Lourenço. Mérito do entrevistado? Sem dúvida, pois conversar com o ensaísta é sempre uma experiência refrescante, tal a vivacidade e a curiosidade infatigáveis que, quase sempre, Eduardo Lourenço, apesar dos seus noventa e dois anos, continua a exibir. E naquele dia de agosto do ano passado em Lisboa, o autor de Pessoa Revisitado estava sem dúvida em plena forma. Mas mérito também inegavelmente do entrevistador que, para além de revelar uma rara capacidade de escuta – talvez o segredo da entrevista resida mais em ouvir o que o entrevistado diz do que em arrancar-lhe as respostas que se pretende que ele dê –, denuncia um vasto e profundo conhecimento do pensamento e da figura de Eduardo Lourenço. “Soy una persona que llega…” não é apenas uma introdução de Eduardo Lourenço ao leitor ibérico – e só isso já não seria, obviamente, pouco… – mas é, desde já, um elemento insubstituível na fascinante deriva sem fim que é a obra do ensaísta português.
Não menos significativa é a recentíssima obra de Ana Nascimento Piedade Em Diálogo com Eduardo Lourenço (Gradiva, 2015) e cujo lançamento lisboeta se realiza esta tarde no Centro Nacional de Cultura. Trata-se de um livro de duzentas e sessenta e nove páginas que transcreve um diálogo realizado entre ambos em Vence entre dois e seis de Abril de 2007 e que, só agora, Ana Nascimento Piedade pôde passar a livro. Ora, é neste passar a livro que talvez surjam algumas das maiores dificuldades do projecto. Claro que a autora admite que «foi necessário eliminar e/ou adaptar uma soma considerável de traços de oralidade» (p. 9) e também acrescenta «que as provas de todo o texto que compõe o livro foram integralmente revistas pelo Professor Eduardo Lourenço» (ibid.). Mas a verdade é que o leitor do livro sente algum incómodo com «as inúmeras marcas de oralidade do texto» (ibid.) e a (nem sempre muito atenta) revisão do texto não garante amiúde que o pensamento de Eduardo Lourenço seja expresso com a clareza necessária, dificultando assim uma das possíveis tarefas do volume: apresentar a obra de Eduardo Lourenço a quem nunca tenha lido uma linha do ensaísta. Por outro lado, quem já conhece parte significativa dos livros de Eduardo Lourenço sente algum desapontamento com este Em Diálogo com… À parte as deliciosas páginas consagradas a Dom Quixote (pp. 145-150), um belo poema inédito inspirado numa cantata de Bach (pp. 232-233) e a não totalmente desconhecida estória sobre o pai de Júlio Diniz (contada pelo… pai de Eduardo Lourenço!) (153-155), poucas novidades importantes aí se podem encontrar acerca do autor de Fernando Rei da Nossa Baviera. O que, naturalmente, é uma pena.
E, no entanto, há certas frases de Eduardo Lourenço que, só por si, parecem justificar todos os livros. Por exemplo, esta: «A poesia é fundamentalmente jogo. É um jogo superior, mas é jogo, enquanto a intenção de um discurso historiográfico, de um discurso de uma crónica, da ficção, no sentido tradicional do termo, é contar qualquer coisa em que é essencial perceber o que está antes, o que está depois e o que vem a seguir. Portanto, a poesia liberta-se ou pode libertar-se dessa espécie de código no nosso relacionamento realmente com o tempo. É por isso que eu lhe dou tanta importância» (p. 131).