quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ilha Portugal


Anabela Saint-Maurice e Eduardo Lourenço em uma das cenas de Ilha Portugal

Ficou recentemente disponível em RTP Play um documentário sobre e com Eduardo Lourenço produzido já há alguns anos, mas com algumas imagens (para Ler Eduardo Lourenço, pelo menos) desconhecidas. Vale bem a pena (re)ver...  esta Ilha Portugal por Anabela Saint-Maurice. Para tal basta clicar no endereço seguinte: ILHA PORTUGAL

Contudo, e dado que nem sempre o acesso ao documentário é fácil,  Ler Eduardo Lourenço informa que o filme se encontra também disponível num site que o Centro Nacional de Cultura dedica, desde há semanas, ao ensaísta, e do qual se deixa aqui também o respectivo link:
 http://www.eduardolourenco.com/videos/Ilha-Portugal.mp4

Ilha Portugal foi exibido pela primeira vez na RTP 2 a 10 de Junho de 2005. Nesse mesmo dia, o Diário de Notícias fazia uma apresentação do filme cuja ligação a seguir se indica:
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=602268&page=-1






quarta-feira, 15 de julho de 2015

Habitante da aventura poética



Eduardo Lourenço relendo, com alguma surpresa, uma primeira edição do livro Tempo e Poesia. Na contracapa desta edição de 1974 aparece uma imagem do Autor que, segundo ele mesmo, faz lembrar... Arthur Miller! (foto  de Teresa Filipe)
Decorreu, anteontem, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a última reunião preparativa da edição do III Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço que terá como título simplesmente Tempo e Poesia. Organizado em torno do livro homónimo publicado em 1974 na editora portuense Inova, cujo texto aparece agora definitivamente fixado, expurgadas que foram gralhas e imprecisões constantes das suas impressões precedentes, este tomo (sem dúvida mais extenso do que os dois anteriores, respectivamente Heterodoxias e Sentido e Forma da Poesia Neo-realista e Outros Ensaios) apresenta novos e indiscutíveis motivos de interesse, pois para além de reunir um vastíssimo número de textos dispersos dedicados à poesia (como se sabe, temática decisiva no percurso ensaístico de Eduardo Lourenço) e a quase todos os nomes mais relevantes da poesia portuguesa do século XX, integra um conjunto considerável de textos inéditos, agora revistos e nalguns casos concluídos exclusivamente para esta edição pelo Autor. A título meramente de exemplo, neste novíssimo e aumentado Tempo e Poesia, o leitor encontrará ensaios nunca antes publicados sobre a poesia de Eugénio de Castro, Adolfo Casaes Monteiro, Raul de Carvalho, Maria Teresa Horta ou Salette Tavares. Para além disso, aqui aparecem também reunidos, numa espécie de jogo de luz e sombra que permite novas e revigorantes leituras, todos os estudos que o ensaísta dedicou à poesia de nomes tão incontornáveis como Teixeira de Pascoaes, José Régio, Miguel Torga, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner ou António Ramos Rosa, entre tantos outros.
Dado que, como se sabe, no livro Tempo e Poesia apareceu pela primeira vez, na sua versão completa e definitiva, o ensaio "Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português?", entendeu o Autor que seria pertinente integrar neste volume das Obras Completas todos os estudos que publicou acerca do modernismo português, designadamente aqueles onde medita sobre as relações entre Orpheu e a Presença. Esta secção do novo Tempo e Poesia permite revisitar, no ano em que se comemora o primeiro centenário da emblemática revista do chamado primeiro modernismo português, aquela que foi seguramente uma das interpretações mais marcantes que se fizeram no último século deste acontecimento maior da cultura portuguesa.
Tratando dos últimos pormenores da edição do III Volume das Obras Completas: da direita para a esquerda,  Eduardo Lourenço, Carlos Mendes de Sousa e João Tiago Lima (foto de Teresa Filipe)
O terceiro volume das Obras Completas foi coordenado por Carlos Mendes de Sousa, investigador e professor da Universidade do Minho e um dos maiores especialistas da poesia portuguesa contemporânea, que assina também uma extraordinária introdução, intitulada "Eduardo Lourenço, habitante da aventura poética", peça doravante insubstituível nos estudos sobre o ensaísta de Tempo e Poesia. Entre muitas outras informações grandemente relevantes, Ler Eduardo Lourenço destaca as revelações que Carlos Mendes de Sousa faz, a partir da correspondência ainda inédita entre Eduardo Lourenço e Eugénio de Andrade, e que mostram com o livro publicado em 1974 nunca teria sido impresso sem a amigável e quase obstinada insistência do poeta de As Mãos e os Frutos
Esta muito produtiva reunião não encerrou sem a primeira planificação do quarto volume das Obras Completas, mas sobre essa e outras informações respeitantes ao novo Tempo e Poesia, que chegará às livrarias no próximo Outono, falará Ler Eduardo Lourenço depois do período estival. Até lá, aqui se deixam os desejos de umas óptimas e refrescantes férias! 


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Entrevistas

O que significará hoje uma nova entrevista com Eduardo Lourenço no contexto da sua obra tão vasta? Obra essa que, aliás, integra já inúmeras entrevistas que, pelo menos desde 1969 – ano em que Serafim Ferreira publica “A actual literatura portuguesa possui uma excepcional vitalidade”, no Suplemento Literário de Jornal de Notícias (24/XII/1969, pp. 17-18) – o ensaísta tem vindo a conceder para livros, jornais, revistas ou mesmo para programas de rádio e de televisão. Nesta tão extensa dimensão da obra de Eduardo Lourenço, é possível encontrar, como é evidente, textos de natureza muito diversa. Há tentativas que alguns leitores considerarão notoriamente falhadas e outras há que podem (se calhar, devem) ser consideradas peças imprescindíveis para a compreensão da obra do autor de Heterodoxias. A este último grupo pertencem, sem dúvida, entrevistas como, por exemplo e sem qualquer preocupação de exaustividade: “As confissões de um místico sem fé”, por Diogo Pires Aurélio (Prelo–Revista da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, nº especial, Maio de 1984, pp. 7-16), “Tudo me é pretexto para falar de mim”, por Inês Pedrosa (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 6/XII/1986, pp. 2-6), “Um heterodoxo confessa-se”, por Vicente Jorge Silva e Francisco Belard (Revista de Expresso, 16/I/1988, pp. 24-31) ou Cultura e política na época marcelista, entrevista de Mário Mesquita (Lisboa, Edições Cosmos, 1996 [1972]). A profundidade e a riqueza destas conversas publicadas, bem como o facto de serem textos constantemente citados, fazem destas entrevistas elementos decisivos do pensamento de Eduardo Lourenço. Mas o mesmo seria possível dizer acerca de outras entrevistas, como as realizadas por Clara Ferreira Alves, Osvaldo Manuel Silvestre, António Guerreiro, Adelino Gomes, Luís Osório, Luís Trindade, José Carlos de Vasconcelos, Carlos Câmara Leme, Luís Miguel Queirós, José Mário Silva, Rui Moreira Leite, Luís Machado, Anabela Mota Ribeiro, Teresa de Sousa, Carlos Vaz Marques, Maria João Seixas ou Valdemar Cruz. Em suma, entrevistas! Eis certamente o que não falta para quem quiser ler um Eduardo Lourenço conversado.
Ora, nos últimos dias, Ler Eduardo Lourenço tomou conhecimento de três novas e extensas entrevistas, todas elas resultando de conversas demoradas com o ensaísta. Assim, na passada quarta-feira, a RTP transmitiu uma Grande Entrevista, programa da responsabilidade do jornalista Vitor Gonçalves. Durante cerca de uma hora, Eduardo Lourenço conversou sobre os mais diversos assuntos, tendo o entrevistador insistido sobretudo em aspectos biográficos do ensaísta, estratégia que se pode discutir, mas que acaba por ser compreensível porque importa reconhecer que nem sempre o discurso do entrevistado se revela tão luminoso no meio televisivo como no território da escrita. E, de facto, acaba por ser uma hora de televisão muito bem passada, como se pode comprovar neste endereço: http://www.rtp.pt/play/p1718/grande-entrevista.
Sessão de lançamento da revista Suroeste, na passada quinta-feira na Fundação José Saramago em Lisboa. Na primeira fila, reconhece-se, de costas, Eduardo Lourenço (foto página facebook da Fundação José Saramago)
foto Ler Eduardo Lourenço






































As duas outras entrevistas foram impressas. A primeira no número cinco (lançado há dias em Lisboa, na Fundação José Saramago) de uma curiosa aventura que é Suroeste, revista de Badajoz dedicada às literaturas ibéricas. Trata-se de “Soy una persona que llega al final de la vida e no sabe más que lo que sabia cuando era muchacho”, texto assinado por Luis Sáez Delgado (Suroeste, nº 5, 2015, pp. 188-196) que consegue a improvável façanha de acrescentar bastantes coisas a todas as entrevistas anteriores de Eduardo Lourenço. Mérito do entrevistado? Sem dúvida, pois conversar com o ensaísta é sempre uma experiência refrescante, tal a vivacidade e a curiosidade infatigáveis que, quase sempre, Eduardo Lourenço, apesar dos seus noventa e dois anos, continua a exibir. E naquele dia de agosto do ano passado em Lisboa, o autor de Pessoa Revisitado estava sem dúvida em plena forma. Mas mérito também inegavelmente do entrevistador que, para além de revelar uma rara capacidade de escuta – talvez o segredo da entrevista resida mais em ouvir o que o entrevistado diz do que em arrancar-lhe as respostas que se pretende que ele dê –, denuncia um vasto e profundo conhecimento do pensamento e da figura de Eduardo Lourenço. “Soy una persona que llega…” não é apenas uma introdução de Eduardo Lourenço ao leitor ibérico – e só isso já não seria, obviamente, pouco… – mas é, desde já, um elemento insubstituível na fascinante deriva sem fim que é a obra do ensaísta português.
Não menos significativa é a recentíssima obra de Ana Nascimento Piedade Em Diálogo com Eduardo Lourenço (Gradiva, 2015) e cujo lançamento lisboeta se realiza esta tarde no Centro Nacional de Cultura. Trata-se de um livro de duzentas e sessenta e nove páginas que transcreve um diálogo realizado entre ambos em Vence entre dois e seis de Abril de 2007 e que, só agora, Ana Nascimento Piedade pôde passar a livro. Ora, é neste passar a livro que talvez surjam algumas das maiores dificuldades do projecto. Claro que a autora admite que «foi necessário eliminar e/ou adaptar uma soma considerável de traços de oralidade» (p. 9) e também acrescenta «que as provas de todo o texto que compõe o livro foram integralmente revistas pelo Professor Eduardo Lourenço» (ibid.). Mas a verdade é que o leitor do livro sente algum incómodo com «as inúmeras marcas de oralidade do texto» (ibid.) e a (nem sempre muito atenta) revisão do texto não garante amiúde que o pensamento de Eduardo Lourenço seja expresso com a clareza necessária, dificultando assim uma das possíveis tarefas do volume: apresentar a obra de Eduardo Lourenço a quem nunca tenha lido uma linha do ensaísta. Por outro lado, quem já conhece parte significativa dos livros de Eduardo Lourenço sente algum desapontamento com este Em Diálogo com… À parte as deliciosas páginas consagradas a Dom Quixote (pp. 145-150), um belo poema inédito inspirado numa cantata de Bach (pp. 232-233) e a não totalmente desconhecida estória sobre o pai de Júlio Diniz (contada pelo… pai de Eduardo Lourenço!) (153-155), poucas novidades importantes aí se podem encontrar acerca do autor de Fernando Rei da Nossa Baviera. O que, naturalmente, é uma pena.
E, no entanto, há certas frases de Eduardo Lourenço que, só por si, parecem justificar todos os livros. Por exemplo, esta: «A poesia é fundamentalmente jogo. É um jogo superior, mas é jogo, enquanto a intenção de um discurso historiográfico, de um discurso de uma crónica, da ficção, no sentido tradicional do termo, é contar qualquer coisa em que é essencial perceber o que está antes, o que está depois e o que vem a seguir. Portanto, a poesia liberta-se ou pode libertar-se dessa espécie de código no nosso relacionamento realmente com o tempo. É por isso que eu lhe dou tanta importância» (p. 131).

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Frederico Lourenço*

Frederico Lourenço (imagem da sua página pessoal no facebook)
Uma situação recorrente ainda hoje é as pessoas pensarem que sou filho de Eduardo Lourenço. Não sou. Também não é meu tio. O “Lourenço” do Eduardo Lourenço é um nome da Guarda. O “Lourenço” do meu pai é um nome de Sintra. Trata-se de uma família (a nossa) como havia muitas no século XIX: gerações e gerações de criados da família Bragança. D. Fernando II menciona no seu testamento Tomás Lourenço, o meu trisavô, que era seu criado fiel e que tratou dele ate ao fim (D. Fernando morreu da mesma doença de que morreu o meu pai: cancro do maxilar). Um dos filhos de Tomás, o meu bisavô Artur, veio a ser um dos empregados favoritos do rei D. Carlos, que lhe deu o cargo de almoxarife do Palácio de Pena. Foi na Pena que nasceu o meu avô Manuel António Lourenço, a 26 de Novembro de 1906. Por isso foi sempre conhecido em Sintra, ate à sua morte em 1975, como “o Manuel da Pena”. O presente de baptizado que o rei D. Carlos deu ao filho do seu criado (uns bonitos botões de punho) ainda está na posse dos descendentes de Manuel António Lourenço. Usei esses botões de punho no dia do meu doutoramento. O meu pai, filho único do Manuel da Pena, tinha o mesmo nome do pai dele: Manuel António. Como o pai da minha mãe era também Manuel António, teria sido previsível que fosse esse o meu nome de baptismo. No entanto, a minha mãe – que detestava o nome Manuel assim como o seu próprio nome Manuela – não estava disposta a ter pai, marido, sogro e filho com esse nome odiado. Portanto fui baptizado Frederico Maria Cristiano. O meu pai queria à força Frederico Cristiano, com o argumento que isso me dava o ar de ser filho de Bach. A minha mãe queria o nome da Virgem Maria. Acabei por ser baptizado com os três nomes. Voltando ao Dr. Eduardo Lourenço, pessoa que tanto prezo admiro. A confusão dos “dois Lourenços” já vem desde os anos 60, pois a minha mãe contava-me a situação repetida de lhe dizerem quanto gostavam dos escritos geniais “do seu cunhado; e o seu marido também escreve bem.” Este “cunhado” genial era o Eduardo; o marido que também não escrevia mal era o meu pai. Na verdade, é impossível comparar os escritos de um de outro: o Manuel, filósofo, escreveu a sua melhor obra no campo da poesia, âmbito do qual o Eduardo, também filósofo, se manteve arredado. No campo do ensaio, em que ambos se distinguiram (o Eduardo certamente mais do que o Manuel), os dois “irmãos” são o ovo e o espeto. Sempre ouvi falar do Eduardo Lourenço toda a minha vida (e li-o bastante em certa fase), mas já tinha 40 anos quando o conheci pela primeira vez. Nessa ocasião, brinquei um pouco com ele a propósito da situação de toda a gente me achar seu filho. Ele riu-se muito e teve a gentileza de me dizer “considero o seu pai um génio”. Na altura, o meu pai ainda era vivo e relatei-lhe esta lisonja tão simpática, a qual ele reagiu com um longo silêncio. Depois comentou: “ele diz isso porque é padre”. Frase que ocasionou, obviamente, indignação da minha parte e uma acesa esgrima dialéctica, em que eu tentava convencê-lo de que Eduardo Lourenço não era, nem nunca fora, padre. Já não sei quem ganhou este duelo (espero ter sido eu), de resto bem típico das nossas conversas a dois. Quantas vezes eu me perguntava se o meu pai se estava a fazer de parvo quando dizia coisas como “vi ontem uma japonesa a entrevistar um neerlandês", referindo-se a um programa televisivo na véspera em que a actriz Inês de Medeiros dialogava com o economista Vitor Constâncio. Claro que eu reagia a estas afirmações outrageous com a sanha justiceira de quem queria repor a verdade dos factos, o que – desconfio hoje – devia divertir imenso o meu pai, que dizia certamente aquelas coisas para me provocar. Eu mordia sempre o isco e, assim, o meu pai, ao fazer-se de parvo, conseguia fazer sempre de mim parvo a dobrar. Nunca aprendi. Para rematar. Há dias, cá em Coimbra, alguém me perguntou “você é filho do capitão de Abril, não é, do Vasco Lourenço?” A resposta saiu-me imediata e homericamente apetrechada de asas: “Não, sou filho do Eduardo Lourenço”.
* Frederico Lourenço é Professor Associado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tradutor e romancista premiado, é também autor de livros de poesia e de ensaio. O texto que, com a devida vénia, hoje aqui se reproduz faz parte da sua última obra O Lugar Supraceleste-Crónicas (pp.20-22) que a editora Cotovia acaba de fazer chegar às livrarias.

domingo, 10 de maio de 2015

"Daria o Prémio Nobel a António Lobo Antunes!"


Amigo muito atento e não menos generoso de Ler Eduardo Lourenço chamou a atenção para o suplemento Babelia da edição de ontem do El País, sem dúvida o mais importante diário espanhol. Aí, na página dezanove, Javier Martin assina uma entrevista de página inteira com aquele a quem chama o «grande humanista português». Para além de muitos outros aspectos relevantes, que justificam a leitura integral da entrevista a el periódico global, Eduardo Lourenço responde a nove perguntas disparadas à queima-roupa numa secção intitulada cuestión de gustos e que, pelo seu manifesto  interesse, a seguir se apresenta em apressada tradução:

1) Em que livro gostaria de viver?
R: Guerra e Paz, um livro com história e uma história com livro.

2) Que intelectual, de qualquer época, convidaria para jantar consigo?
R: Kierkegaard.

3) Qual foi o melhor momento da sua vida?
R: O dia em que conheci a minha mulher.

4) Que profissão seria incapaz de aceitar?
R: Mineiro, por causa da minha agorafobia.

5) Que fez no último fim de semana?
R: Fui ao cinema ver Alemanha Ano Zero de Rosselini.

6) Qual foi o último livro que leu?
R: Alguém, romance inédito da embaixadora de Portugal em São Tomé.

7) Que filme não conseguiu ver até ao fim?
R: Creio que nenhum. Sou um viciado em imagens.

8) O que está hoje socialmente sobrevalorizado?
R: Os comentadores de futebol. Gosto de futebol, mas não suporto tudo aquilo que se diz depois de um jogo que terminou empatado a zero.

9) A quem daria o Prémio Nobel?
R: António Lobo Antunes. 

sábado, 2 de maio de 2015

Maria Barroso: Socialismo e Ética*

Maria de Jesus Barroso
Para a nossa geração, Maria Barroso é a lembrança de uma frágil Antígona ibérica enclaustrada entre os muros brancos da “Casa de Bernarda Alba”. A vida deu-lhe ensejo de transpor do palco para a cena, sem artifícios da opressão humana, o seu puro grito de heroína habitada pela revolta e pela paixão da liberdade. 
É consolador reencontrá-lo intacto na veemência salutar da sua recente carta. Importa muito que o seu apelo em favor de um resistente angolano ameaçado de morte ou de prisão seja ouvido. É de esperar que encontre um eco justo. Mas para além dele, a carta de Maria Barroso coloca numa luz implacável uma questão poucas vezes abordada com lucidez e coragem como o merece: o da ética socialista e revolucionária. 
No mundo gelado do combate político sob a sigla revolucionária, uma tal questão parece relevar de considerações sem interesse, da pura ordem afectiva, sem verdadeiro alcance político “objectivo”. Dado como assente que a finalidade do combate socialista (em sentido genérico) é excelente, e tem a seu favor o celebrado “sentido da história”, parece digna de hamlets burgueses toda a forma de perplexidade ética, de interrogação em matéria de comportamento político. 
Não é de hoje a questão dos meios e dos fins, nem foi a nossa época de tentações totalitárias que inventou os conceitos de “razão de Estado ou de Realpolitik”. O mundo do poder qualquer que seja a sua forma ou natureza é um mundo trágico por excelência, uma prova e uma provação permanentes para todos os seus actores. Napoleão pôde escrever que a tragédia moderna era a política. Mas foi-o sempre. 
A Antígona de Sófocles é tão política como a Fedra de Racine ou Os Sequestrados de Altona. A única diferença é que no nosso tempo o combate político de forma revolucionária supôs ser ao mesmo tempo o combate por uma transparência das relações humanas capaz de abolir, enfim, a fatalidade trágica, a contradição insolúvel inerente ao mundo da política “burguesa”. 
Como era de esperar, esta mesma pretensão, justa como finalidade a atingir, tornou-se ela própria uma fonte de tragédias suplementares, tragédias do “bem” que não são menos implacáveis que as do “mal”. Entre a verdade global representada pelo partido com vocação messiânica, ou o Estado-Deus como verdade política encarnada, o homem “militante” é solicitado sem cessar entre a obediência regenerante do seu pendor individualista e a paixão crítica suscitada pelo contraste fatal entre a prática política efectiva e a miragem utópica da promessa. Entre o maniqueísmo que toda a acção supõe, como diz Malraux, e a liberdade que cada homem é, se trava o conflito que só a acção mesma decide. Mas nela se joga de cada vez o sentido global da vida que, na medida em que resulta de uma escolha para ser realmente humano, é fatalmente ético e supõe, por isso, uma referência, explícita ou implícita, a uma ética da acção, e para além dela à ideia e realidade de uma Ética. 
O conceito tem hoje um relento suspeito. Evoca em excesso a velha moral de cabeça de Medusa, repressiva e hipócrita, máscara por demais transparente dos valores invocados por uma sociedade injusta para perpetuar a sua injustiça. Contudo, não é possível acção alguma sem referência ética. E muito menos um combate socialista que não seja simultânea e imperativamente um combate ético, uma luta por uma nova imagem dos homens, por uma sociedade capaz de transcender positivamente os valores desviados mas jamais esquecidos que têm guiado a aventura da nossa humanização precária e perecível. 
O imperativo político em termos revolucionários supõe um imperativo ético, e só tem sentido através dele. Isto significa que ninguém o pode impor “de fora”, como aliás Kant e o cristianismo o ensinam, mas que é a descoberta, a criação, a invenção do agente humano enquanto livre agente da sua intérmina libertação. 
A história vivida da prática “socialista” é a história da dificuldade e da contradição espectacular entre a “bondade” dos fins e dos ideais propostos e a sua negação prática justificada como entorse passageiro, acidental, de um processo que não precisa de outra confirmação que o triunfo meramente político. 
Quem acompanhou, de dentro, os conflitos ideológicos, políticos, culturais da sociedade portuguesa desde os anos Quarenta sabe todavia que também entre nós, sob a forma cinzenta e críptica que a época requeria, existiram os émulos dos personagens que a títulos diversos ilustraram o tema da consciência revolucionária e da “consciência ética”. 
A Superioridade Moral dos Comunistas é um belo e provocante título e um texto que os Portugueses devem meditar com a atenção que merece, até porque é o mais vivido e sentido dos textos que conhecemos de Álvaro Cunhal. Seria pouco sério discuti-lo ou refutá-lo em duas linhas. É um texto que parece transformar num mistério essa questão capital das relações entre Socialismo e Ética. 
Enquanto convicção e ficção, fica-se impressionado com a força ética de um homem e de um militante que fala em nome de outros homens que foram (e são) capazes de sacrifícios fora do comum e põem na conta do combate socialista, tal como o entendem, um impressionante rol de vítimas. Mas há o resto, e o resto é imenso e inapagável. Há no mesmo campo, e muitas vezes nos mesmos homens, a sombra dura e fria de uma antiética que basta e sobra para destruir na raiz mesmo o que há de “verdade” nessa afirmação hiperbólica da “superioridade moral dos comunistas”. É essa sombra que a carta de Maria Barroso evoca em termos e com nomes próprios. Sombra nossa, questão posta a todos quantos não renunciaram a ver no socialismo a forma mais alta da conciliação entre a justiça social e a vocação ética dos indivíduos. Falhando-se como ética, o socialismo falha-se como resposta histórica. Quem poderá estar interessado numa falência que é a de uma antiga e tenaz esperança? 

* Maria de Jesus Barroso completa hoje noventa anos. Admirador da actriz desde os tempos de Coimbra, Eduardo Lourenço evoca a efeméride num artigo no Público (“Mais do que uma artista”, Público, 2/V/2015, p. 45). Assinalando a data, Ler Eduardo Lourenço recupera um outro texto do ensaísta publicado há quase quatro décadas e no qual, a pretexto também de Maria Barroso, desenvolve um tema que não perdeu actualidade: “Socialismo e Ética”, Opção, nº 3, 13/V/1976, p. 23. O texto foi reimpresso no livro O Complexo de Marx , Lisboa, Publicações D.Quixote, 1979, Col. “Participar, nº 13, pp.14-16.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pela mão de Agustina, redescobrir Brennand*

Um dia, nós estávamos no Recife e chovia como só aconteceu na era diluviana e em que os dinossauros se afogaram todos. Não foi na época glaciar que eles pereceram (morreram, acabaram, quero dizer), mas num como o de Recife, em Julho ou Agosto. Estavam lá o Eduardo Lourenço e o António José Saraiva, e eu, e mais pessoas. As casas tinham o célebre grelado de humidade de que fala Pessoa num dos seus poemas e que eu nunca soube o que era antes de ir a Recife. 
Mas do que eu pretendo falar é do caminho de Brenan. Brenan, Francisco Brenan, é um escultor e ceramista de tipo atlético, figura interessante e torrencial na obra que se diz urbana, pela aplicação que tem na cidade e na decoração que daí resulta. A sua Batalha dos Guaranapes estende-se por uma boa leira citadina e mostra a luta bastante aplicada que travaram os holandeses com os outros. Os outros não são necessariamente os inimigos que, no painel, aparecem, mas que eu não vou identificar. A hora não é histórica e não se trata senão do caminho de Brenan; nada de atalhos convulsivos nem de política didáctica.  


O caminho de Brenan, que nós percorremos uma tarde, depois de um almoço oficial e bastante instrutivo porque se analisou o tempo em Recife, um estranho tempo opressivo, de calor geométrico, quadrado, sem alterações, o que lança as pessoas num estado de imaginação ordenada e propensa a grandes decisões. Por exemplo, as épocas chuvosas do Egipto influíram decerto no plano migratório dos hebreus. Mas isto é o caminho de Brenan, e não a passagem do Mar Vermelho ou a travessia do deserto. 
Era uma espécie de picada barrenta onde patinavam, perigosamente os pneus dos carros. Das folhas das bananeiras, como de calas pintadas de verde, caía uma água leitosa; alguns bois-zebus triscavam o alto capim e pareciam tão solitários como se estivessem a desempenhar um papel no segundo dia da criação. Já se avista o atelier de Brenan, com a sua ampla fachada de catedral da cerâmica, e um guarda abre o portão com aquela fixa urbanidade que não é mais do que o cumprimento duma ordem. Está armado, e eu penso se, debaixo da chuva, a pistola não vai enferrujar. Eduardo Lourenço, com a pasta de catedrático molhada até aos ossos, lança um olhar maravilhado. A nós, os papelistas, maravilha-nos a natureza cândida das coisas perigosas: as revoluções, as serpentes, os guarda-portões.  



De facto, trata-se de uma catedral. Brenan está ausente, e temos tempo para percorrer a grande nave de exposição cerâmica que foi em tempo uma fábrica de tijolos. Agora Brenan rubrica, complacente, quilómetros de tijoleira que vai pavimentar os átrios e os jardins norte-americanos. A sua assinatura tem a cotação do dólar, e ele entroniza uma indústria de barro como se simbolizasse a obra de Deus convertida em negócio. Ali o barro é e será. Grandes cestos de serpentes parecem bulir com um movimento imperceptível e nauseante. Quem vai decorar o pátio com aqueles belos horrores, crepitantes do fogo que lhes pintou as escamas e fez brilhar os olhos, e fez dardejar a língua preta, eu não sei. A impressão é revoltante e atraente. Estamos em Cartago, e o culto de Tanit vai celebrar-se, com Salambô ou sem ela; de resto, debaixo do repicar da chuva, distinguimos uma espécie de mausoléu, lá fora, em que se combina a assírica cor de brique e o etrusco espaço dos monumentos. Duas jovens secretárias vêm até nós, gingando nos jeans, derramados os cabelos, ousadas e púdicas ao mesmo tempo. A nave é cheia de surpresas, de quartos dardejantes onde rutila um lume invisível; o tema de Joana d’Arc desenvolve-se exaustivamente, e ela tem um rosto órfico e passivo. Porque o prefere Brenan, não sabemos, a não ser que lhe atribua qualquer significado ardente que a mística esconde. O que se pressente é um êxtase carnal que os simbolistas teriam admirado muito. As cobras fálicas, os seus anéis prontos a torcer-se, as frutas apertadas em pratos verdes, as mulheres núbias, venezianas, índias e mongóis, com um pesado traseiro que parece pão de Avintes, na cor e na forma, no vidrado da côdea, no estalar dos veios, na morena e térrea massa, abrem alas para nós passarmos.


E nós passamos, livrescos e oratórios que somos, com os nossos guarda-chuvas e muitas horas de voo, um pouco pálidos, porque nos fez mal a caipirinha e nos faz mal aquela multidão cerâmica encerrada na luz profunda dum ventre de barro. Eduardo Lourenço esquece a sua pasta que regurgita ensaios e cadernos. Volta para a recuperar; rimo-nos, distraídos naquela floresta de troncos e seios azulados, que parecem esperar a princesa de Cartago, sacerdotisa, com pérolas que destilam perfume, e tão branca como Tanit nos céus, à noite.
É quando Brenan chega. Se trouxesse uma couraça de couro manchada de sangue não nos impressionava mais. Mas não se trata de um guerreiro, mas de um artista-farmer, um pouco amuado com o sucesso e com a velhice que é o preço austero do sucesso. Arvora uma genealogia europeia, com algo de Irlanda druida nas veias, o que o torna imponderável para a nossa psicologia; mas acode-lhe o Portugal melancólico, balançando entre o instinto de prazer e o instinto de morte, como numa ponte que o diabo fez uma noite. Lá fora a chuva canta, banhando copiosamente as vénus calipígias do pátio. A cor frondosa da cerâmica exala um calor amigável mas também um pouco ameaçador. Conversamos, mas aqui a conversa é uma delinquência. Ela é atravessada por inúmeros afluentes de pensamentos raros, pequenos sulcos, pegadas primitivas. Literatos que somos, um vago pressentimento de atraiçoarmos a nossa profissão ascética instala-se como um verme numa maçã, Eu digo: – Gostava de posar para uma Joana d’Arc. – Porém, sei que estou a adular Brenan, a sua sumptuosa vantagem sobre o pensador. Eduardo Lourenço contempla-a como a um monumento, e quase faz à volta de Brenan um passeio circular; como se ele fosse um guarda do palácio de Buckingham ou o mausoléu Les Antiques, na Provença. 

 

A tarde desdobra-se em ondas curtas de humidade que vem do mato e faz espelhar as folhas e os pavimentos da tijoleira ruiva. Temos que voltar para Recife. Os mesmos zebus pastam na berma, a mesma ondulação do nevoeiro sobre o horizonte florestal; uns passos mais e é a selva, encharcada, ávida, poderosa, com a zoada das aves que a cidade expulsou, com as orquídeas rosa em degraus, como cantores num coro de igreja. O caminho de Brenan fecha-se sobre nós; e só temos diante a encruzilhada das ruas novas que nos levam à avenida marítima onde está o nosso hotel. Parece que perdemos alguma coisa e, um pouco à toa, verificamos a pequena bagagem de turistas e o símbolo de professores que é a pasta repleta de papéis e livros. Se António José Saraiva tivesse ido connosco, decerto voltava atrás para procurar os óculos ou a boina naquela nave profana, guardada por serpentes. Como será entrar à noite nesse espaço fabril onde se guardam as antigas máquinas de fazer tijolo? Estranho, como elas têm um ar lúcido e inocente, como todas as máquinas que já não servem! À noite deve ser impressionante o grande hangar com as traves cruzadas como flechas de pau-ferro. Os cestos de cobras animam-se, e elas rastejam impudentemente pelo chão vidrado. As Joanas d’Arc, de cabeças como romãs que vão abrir-se mostrando as dentaduras vermelhas e cristalinas, esperam a hora de despertar para as suas visões. A cabina onde se simula um forno pronto a destilar grandes corpos de aymorés glabros e azuis exala um calor absorto, tentador, que circula nas veias, que atinge o ventre, que se precipita como lava na piscina seca e onde falta um pé de mulher como o duma faraona de perfil barrento e olho pintado e longo, o olho de Hórus com a sobrancelha entrançada e que cobre os espaços, solene, implacável, protector, divino.
Mas nós não voltamos. Comemos abacaxi pernambucano, com um vago sentimento de comer o fruto proibido. O sumo perfumado sabe a flores e, depois de o saborear, desprazamos os néctares enlatados, o vinho Chianti e a água de coco. Não pensamos mais no caminho de Brenan. Mas não o abandonamos completamente. 

* Foi anunciado na semana passada que o Prémio Eduardo Lourenço 2015 foi atribuído à escritora Agustina Bessa-Luís. Assinalando o facto, Ler Eduardo Lourenço recupera, com a devida vénia, uma deliciosa crónica que a escritora dedicou a Eduardo Lourenço no famoso número especial da revista Prelo consagrado ao ensaísta (Prelo-Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, nº especial, Lisboa, Maio de 1984, pp. 97-99). O texto, que seria posteriormente publicado no volume Cartografia Imaginária de Eduardo Lourenço, recebeu o título "Caminho de Brenan" e evoca uma visita que Agustina e Eduardo Lourenço fizeram à oficina do ceramista Francisco Brennand (é esta a rigorosa grafia do nome do artista) no Recife (Brasil). Sobre Brennand veja-se o site oficial de onde se retiram as três primeiras imagens que ilustram a crónica de Agustina: http://www.brennand.com.br/