sábado, 2 de maio de 2015

Maria Barroso: Socialismo e Ética*

Maria de Jesus Barroso
Para a nossa geração, Maria Barroso é a lembrança de uma frágil Antígona ibérica enclaustrada entre os muros brancos da “Casa de Bernarda Alba”. A vida deu-lhe ensejo de transpor do palco para a cena, sem artifícios da opressão humana, o seu puro grito de heroína habitada pela revolta e pela paixão da liberdade. 
É consolador reencontrá-lo intacto na veemência salutar da sua recente carta. Importa muito que o seu apelo em favor de um resistente angolano ameaçado de morte ou de prisão seja ouvido. É de esperar que encontre um eco justo. Mas para além dele, a carta de Maria Barroso coloca numa luz implacável uma questão poucas vezes abordada com lucidez e coragem como o merece: o da ética socialista e revolucionária. 
No mundo gelado do combate político sob a sigla revolucionária, uma tal questão parece relevar de considerações sem interesse, da pura ordem afectiva, sem verdadeiro alcance político “objectivo”. Dado como assente que a finalidade do combate socialista (em sentido genérico) é excelente, e tem a seu favor o celebrado “sentido da história”, parece digna de hamlets burgueses toda a forma de perplexidade ética, de interrogação em matéria de comportamento político. 
Não é de hoje a questão dos meios e dos fins, nem foi a nossa época de tentações totalitárias que inventou os conceitos de “razão de Estado ou de Realpolitik”. O mundo do poder qualquer que seja a sua forma ou natureza é um mundo trágico por excelência, uma prova e uma provação permanentes para todos os seus actores. Napoleão pôde escrever que a tragédia moderna era a política. Mas foi-o sempre. 
A Antígona de Sófocles é tão política como a Fedra de Racine ou Os Sequestrados de Altona. A única diferença é que no nosso tempo o combate político de forma revolucionária supôs ser ao mesmo tempo o combate por uma transparência das relações humanas capaz de abolir, enfim, a fatalidade trágica, a contradição insolúvel inerente ao mundo da política “burguesa”. 
Como era de esperar, esta mesma pretensão, justa como finalidade a atingir, tornou-se ela própria uma fonte de tragédias suplementares, tragédias do “bem” que não são menos implacáveis que as do “mal”. Entre a verdade global representada pelo partido com vocação messiânica, ou o Estado-Deus como verdade política encarnada, o homem “militante” é solicitado sem cessar entre a obediência regenerante do seu pendor individualista e a paixão crítica suscitada pelo contraste fatal entre a prática política efectiva e a miragem utópica da promessa. Entre o maniqueísmo que toda a acção supõe, como diz Malraux, e a liberdade que cada homem é, se trava o conflito que só a acção mesma decide. Mas nela se joga de cada vez o sentido global da vida que, na medida em que resulta de uma escolha para ser realmente humano, é fatalmente ético e supõe, por isso, uma referência, explícita ou implícita, a uma ética da acção, e para além dela à ideia e realidade de uma Ética. 
O conceito tem hoje um relento suspeito. Evoca em excesso a velha moral de cabeça de Medusa, repressiva e hipócrita, máscara por demais transparente dos valores invocados por uma sociedade injusta para perpetuar a sua injustiça. Contudo, não é possível acção alguma sem referência ética. E muito menos um combate socialista que não seja simultânea e imperativamente um combate ético, uma luta por uma nova imagem dos homens, por uma sociedade capaz de transcender positivamente os valores desviados mas jamais esquecidos que têm guiado a aventura da nossa humanização precária e perecível. 
O imperativo político em termos revolucionários supõe um imperativo ético, e só tem sentido através dele. Isto significa que ninguém o pode impor “de fora”, como aliás Kant e o cristianismo o ensinam, mas que é a descoberta, a criação, a invenção do agente humano enquanto livre agente da sua intérmina libertação. 
A história vivida da prática “socialista” é a história da dificuldade e da contradição espectacular entre a “bondade” dos fins e dos ideais propostos e a sua negação prática justificada como entorse passageiro, acidental, de um processo que não precisa de outra confirmação que o triunfo meramente político. 
Quem acompanhou, de dentro, os conflitos ideológicos, políticos, culturais da sociedade portuguesa desde os anos Quarenta sabe todavia que também entre nós, sob a forma cinzenta e críptica que a época requeria, existiram os émulos dos personagens que a títulos diversos ilustraram o tema da consciência revolucionária e da “consciência ética”. 
A Superioridade Moral dos Comunistas é um belo e provocante título e um texto que os Portugueses devem meditar com a atenção que merece, até porque é o mais vivido e sentido dos textos que conhecemos de Álvaro Cunhal. Seria pouco sério discuti-lo ou refutá-lo em duas linhas. É um texto que parece transformar num mistério essa questão capital das relações entre Socialismo e Ética. 
Enquanto convicção e ficção, fica-se impressionado com a força ética de um homem e de um militante que fala em nome de outros homens que foram (e são) capazes de sacrifícios fora do comum e põem na conta do combate socialista, tal como o entendem, um impressionante rol de vítimas. Mas há o resto, e o resto é imenso e inapagável. Há no mesmo campo, e muitas vezes nos mesmos homens, a sombra dura e fria de uma antiética que basta e sobra para destruir na raiz mesmo o que há de “verdade” nessa afirmação hiperbólica da “superioridade moral dos comunistas”. É essa sombra que a carta de Maria Barroso evoca em termos e com nomes próprios. Sombra nossa, questão posta a todos quantos não renunciaram a ver no socialismo a forma mais alta da conciliação entre a justiça social e a vocação ética dos indivíduos. Falhando-se como ética, o socialismo falha-se como resposta histórica. Quem poderá estar interessado numa falência que é a de uma antiga e tenaz esperança? 

* Maria de Jesus Barroso completa hoje noventa anos. Admirador da actriz desde os tempos de Coimbra, Eduardo Lourenço evoca a efeméride num artigo no Público (“Mais do que uma artista”, Público, 2/V/2015, p. 45). Assinalando a data, Ler Eduardo Lourenço recupera um outro texto do ensaísta publicado há quase quatro décadas e no qual, a pretexto também de Maria Barroso, desenvolve um tema que não perdeu actualidade: “Socialismo e Ética”, Opção, nº 3, 13/V/1976, p. 23. O texto foi reimpresso no livro O Complexo de Marx , Lisboa, Publicações D.Quixote, 1979, Col. “Participar, nº 13, pp.14-16.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pela mão de Agustina, redescobrir Brennand*

Um dia, nós estávamos no Recife e chovia como só aconteceu na era diluviana e em que os dinossauros se afogaram todos. Não foi na época glaciar que eles pereceram (morreram, acabaram, quero dizer), mas num como o de Recife, em Julho ou Agosto. Estavam lá o Eduardo Lourenço e o António José Saraiva, e eu, e mais pessoas. As casas tinham o célebre grelado de humidade de que fala Pessoa num dos seus poemas e que eu nunca soube o que era antes de ir a Recife. 
Mas do que eu pretendo falar é do caminho de Brenan. Brenan, Francisco Brenan, é um escultor e ceramista de tipo atlético, figura interessante e torrencial na obra que se diz urbana, pela aplicação que tem na cidade e na decoração que daí resulta. A sua Batalha dos Guaranapes estende-se por uma boa leira citadina e mostra a luta bastante aplicada que travaram os holandeses com os outros. Os outros não são necessariamente os inimigos que, no painel, aparecem, mas que eu não vou identificar. A hora não é histórica e não se trata senão do caminho de Brenan; nada de atalhos convulsivos nem de política didáctica.  


O caminho de Brenan, que nós percorremos uma tarde, depois de um almoço oficial e bastante instrutivo porque se analisou o tempo em Recife, um estranho tempo opressivo, de calor geométrico, quadrado, sem alterações, o que lança as pessoas num estado de imaginação ordenada e propensa a grandes decisões. Por exemplo, as épocas chuvosas do Egipto influíram decerto no plano migratório dos hebreus. Mas isto é o caminho de Brenan, e não a passagem do Mar Vermelho ou a travessia do deserto. 
Era uma espécie de picada barrenta onde patinavam, perigosamente os pneus dos carros. Das folhas das bananeiras, como de calas pintadas de verde, caía uma água leitosa; alguns bois-zebus triscavam o alto capim e pareciam tão solitários como se estivessem a desempenhar um papel no segundo dia da criação. Já se avista o atelier de Brenan, com a sua ampla fachada de catedral da cerâmica, e um guarda abre o portão com aquela fixa urbanidade que não é mais do que o cumprimento duma ordem. Está armado, e eu penso se, debaixo da chuva, a pistola não vai enferrujar. Eduardo Lourenço, com a pasta de catedrático molhada até aos ossos, lança um olhar maravilhado. A nós, os papelistas, maravilha-nos a natureza cândida das coisas perigosas: as revoluções, as serpentes, os guarda-portões.  



De facto, trata-se de uma catedral. Brenan está ausente, e temos tempo para percorrer a grande nave de exposição cerâmica que foi em tempo uma fábrica de tijolos. Agora Brenan rubrica, complacente, quilómetros de tijoleira que vai pavimentar os átrios e os jardins norte-americanos. A sua assinatura tem a cotação do dólar, e ele entroniza uma indústria de barro como se simbolizasse a obra de Deus convertida em negócio. Ali o barro é e será. Grandes cestos de serpentes parecem bulir com um movimento imperceptível e nauseante. Quem vai decorar o pátio com aqueles belos horrores, crepitantes do fogo que lhes pintou as escamas e fez brilhar os olhos, e fez dardejar a língua preta, eu não sei. A impressão é revoltante e atraente. Estamos em Cartago, e o culto de Tanit vai celebrar-se, com Salambô ou sem ela; de resto, debaixo do repicar da chuva, distinguimos uma espécie de mausoléu, lá fora, em que se combina a assírica cor de brique e o etrusco espaço dos monumentos. Duas jovens secretárias vêm até nós, gingando nos jeans, derramados os cabelos, ousadas e púdicas ao mesmo tempo. A nave é cheia de surpresas, de quartos dardejantes onde rutila um lume invisível; o tema de Joana d’Arc desenvolve-se exaustivamente, e ela tem um rosto órfico e passivo. Porque o prefere Brenan, não sabemos, a não ser que lhe atribua qualquer significado ardente que a mística esconde. O que se pressente é um êxtase carnal que os simbolistas teriam admirado muito. As cobras fálicas, os seus anéis prontos a torcer-se, as frutas apertadas em pratos verdes, as mulheres núbias, venezianas, índias e mongóis, com um pesado traseiro que parece pão de Avintes, na cor e na forma, no vidrado da côdea, no estalar dos veios, na morena e térrea massa, abrem alas para nós passarmos.


E nós passamos, livrescos e oratórios que somos, com os nossos guarda-chuvas e muitas horas de voo, um pouco pálidos, porque nos fez mal a caipirinha e nos faz mal aquela multidão cerâmica encerrada na luz profunda dum ventre de barro. Eduardo Lourenço esquece a sua pasta que regurgita ensaios e cadernos. Volta para a recuperar; rimo-nos, distraídos naquela floresta de troncos e seios azulados, que parecem esperar a princesa de Cartago, sacerdotisa, com pérolas que destilam perfume, e tão branca como Tanit nos céus, à noite.
É quando Brenan chega. Se trouxesse uma couraça de couro manchada de sangue não nos impressionava mais. Mas não se trata de um guerreiro, mas de um artista-farmer, um pouco amuado com o sucesso e com a velhice que é o preço austero do sucesso. Arvora uma genealogia europeia, com algo de Irlanda druida nas veias, o que o torna imponderável para a nossa psicologia; mas acode-lhe o Portugal melancólico, balançando entre o instinto de prazer e o instinto de morte, como numa ponte que o diabo fez uma noite. Lá fora a chuva canta, banhando copiosamente as vénus calipígias do pátio. A cor frondosa da cerâmica exala um calor amigável mas também um pouco ameaçador. Conversamos, mas aqui a conversa é uma delinquência. Ela é atravessada por inúmeros afluentes de pensamentos raros, pequenos sulcos, pegadas primitivas. Literatos que somos, um vago pressentimento de atraiçoarmos a nossa profissão ascética instala-se como um verme numa maçã, Eu digo: – Gostava de posar para uma Joana d’Arc. – Porém, sei que estou a adular Brenan, a sua sumptuosa vantagem sobre o pensador. Eduardo Lourenço contempla-a como a um monumento, e quase faz à volta de Brenan um passeio circular; como se ele fosse um guarda do palácio de Buckingham ou o mausoléu Les Antiques, na Provença. 

 

A tarde desdobra-se em ondas curtas de humidade que vem do mato e faz espelhar as folhas e os pavimentos da tijoleira ruiva. Temos que voltar para Recife. Os mesmos zebus pastam na berma, a mesma ondulação do nevoeiro sobre o horizonte florestal; uns passos mais e é a selva, encharcada, ávida, poderosa, com a zoada das aves que a cidade expulsou, com as orquídeas rosa em degraus, como cantores num coro de igreja. O caminho de Brenan fecha-se sobre nós; e só temos diante a encruzilhada das ruas novas que nos levam à avenida marítima onde está o nosso hotel. Parece que perdemos alguma coisa e, um pouco à toa, verificamos a pequena bagagem de turistas e o símbolo de professores que é a pasta repleta de papéis e livros. Se António José Saraiva tivesse ido connosco, decerto voltava atrás para procurar os óculos ou a boina naquela nave profana, guardada por serpentes. Como será entrar à noite nesse espaço fabril onde se guardam as antigas máquinas de fazer tijolo? Estranho, como elas têm um ar lúcido e inocente, como todas as máquinas que já não servem! À noite deve ser impressionante o grande hangar com as traves cruzadas como flechas de pau-ferro. Os cestos de cobras animam-se, e elas rastejam impudentemente pelo chão vidrado. As Joanas d’Arc, de cabeças como romãs que vão abrir-se mostrando as dentaduras vermelhas e cristalinas, esperam a hora de despertar para as suas visões. A cabina onde se simula um forno pronto a destilar grandes corpos de aymorés glabros e azuis exala um calor absorto, tentador, que circula nas veias, que atinge o ventre, que se precipita como lava na piscina seca e onde falta um pé de mulher como o duma faraona de perfil barrento e olho pintado e longo, o olho de Hórus com a sobrancelha entrançada e que cobre os espaços, solene, implacável, protector, divino.
Mas nós não voltamos. Comemos abacaxi pernambucano, com um vago sentimento de comer o fruto proibido. O sumo perfumado sabe a flores e, depois de o saborear, desprazamos os néctares enlatados, o vinho Chianti e a água de coco. Não pensamos mais no caminho de Brenan. Mas não o abandonamos completamente. 

* Foi anunciado na semana passada que o Prémio Eduardo Lourenço 2015 foi atribuído à escritora Agustina Bessa-Luís. Assinalando o facto, Ler Eduardo Lourenço recupera, com a devida vénia, uma deliciosa crónica que a escritora dedicou a Eduardo Lourenço no famoso número especial da revista Prelo consagrado ao ensaísta (Prelo-Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, nº especial, Lisboa, Maio de 1984, pp. 97-99). O texto, que seria posteriormente publicado no volume Cartografia Imaginária de Eduardo Lourenço, recebeu o título "Caminho de Brenan" e evoca uma visita que Agustina e Eduardo Lourenço fizeram à oficina do ceramista Francisco Brennand (é esta a rigorosa grafia do nome do artista) no Recife (Brasil). Sobre Brennand veja-se o site oficial de onde se retiram as três primeiras imagens que ilustram a crónica de Agustina: http://www.brennand.com.br/

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Orpheu, 100 anos



2015 é tempo de centenário da revista Orpheu. Multiplicam-se as iniciativas para assinalar a importante efeméride. Por exemplo, na próxima sexta-feira, o diário Público põe à disposição dos seus leitores uma edição fac-similada dos dois únicos e fulgurantes números de Orpheu. O Congresso Internacional Luso-Brasileiro 100 Orpheu, cuja primeira parte que decorreu, em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém no passado mês de Março e que terá continuidade em São Paulo entre 25 e 28 de Maio constitui, sem dúvida, um dos momentos mais significativos das comemorações.
Eduardo Lourenço tem participado activamente em muitas dessas iniciativas. No passado dia 28, efectuou mesmo a conferência de encerramento da componente lisboeta deste Congresso Internacional. A sessão, presidida por Annabela Rita, foi felizmente filmada por Luís Tavares (a quem se deve já um significativo arquivo audiovisual de importantes eventos) e Ler Eduardo Lourenço não poderia deixar de partilhar o video deste movimento verdadeiramente singular.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Manoel de Oliveira: quase contemporâneo de uma arte sem passado

 O Jornal de Letras, Artes e Ideias de hoje dedica a Manoel de Oliveira um dossier que inclui vários ensaios e testemunhos dedicados ao realizador de Francisca, merecendo especial destaque o curto, mas interessantíssimo, Moderno por não moderno, texto de Eduardo Lourenço, de onde Ler Eduardo Lourenço repescou a feliz expressão que encima a prosa de hoje. Como se sabe, não é esta a primeira ocasião em que o ensaísta escreve sobre o cineasta. Relembre-se, a título de exemplo, uma muito sugestiva reflexão sobre Non ou a vã glória de mandar: “Para Cá do Espelho Mágico ou a grã glória de des-sonhar” (Suplemento Fim de Semana de Público, 12/X/1990, pp. 8-9). Curiosamente, o mesmo JL, na década de Oitenta do século passado, também publicou um texto dedicado ao autor de O Labirinto da Saudade, escrito por ... Manoel de Oliveira. Relendo esse artigo de Oliveira, até pelo seu título “[Eduardo Lourenço]Um pós-moderno” (Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 231, Lisboa, 6/XII/1986, p. 13) a muitos apetecerá imediatamente relacioná-lo com o inédito de Eduardo Lourenço que o quinzenário dirigido por José Carlos de Vasconcelos hoje divulga na sua página sete e que, por si só, justifica a aquisição deste número.
Um outro aspecto menos conhecido da relação intelectual destes dois amigos merece, porventura, ser destacado. É que Eduardo Lourenço participou numa das obras da vasta filmografia de Oliveira. Não se pode dizer, em rigor, que a paixão do ensaísta pelo cinema o tenha convertido em actor. Mas a verdade é que, no documentário luso-italiano Lisboa Cultural que o realizador rodou nos anos de 1982 e 1983, Eduardo Lourenço tem uma breve aparição. Lisboa Cultural, que se estrearia em 28 de Setembro de 1984, contou com a presença de um naipe significativo de actores portugueses, entre os quais se destacam Eunice Muñoz, Diogo Dória, Carlos Paulo, Maria do Céu Guerra, Teresa Madruga, Lima Barreto, Luís Miguel Cintra, Manuela Freitas ou até Maria Barroso. Para além disso, intervêm no filme nomes como Artur Nobre de Gusmão, Oliveira Marques, António José Saraiva, Adriano de Gusmão, Luís Albuquerque, David Mourão-Ferreira, Maria de Lurdes Belchior, Jacinto do Prado Coelho, João de Freitas Branco, Flávio Gonçalves, Osório Mateus, Joel Serrão, Azeredo Perdigão, Eduardo Prado Coelho ou João Gaspar Simões.
É no quadro destas intervenções que participam também em Lisboa Cultural Eduardo Lourenço ou José-Augusto França. Infelizmente o curto trecho do filme que Ler Eduardo Lourenço conseguiu encontrar, e que a seguir se reproduznão inclui a prestação do autor de O Espelho Imaginário que, salvo equívoco de memória, consta de uma declaração filmada em frente à Torre de Belém, mas nele pode ver-se o ensaísta e historiador de arte José-Augusto França. Será evidente exagero pensar-se que, pelo que foi dito, Eduardo Lourenço é um dos actores do mais importante cineasta português ou até que Lisboa Cultural é um dos momentos decisivos da arte maior de Oliveira. Ainda assim, fica aqui registada, na semana seguinte à sua morte, a homenagem ao autor de Aniki-Bobó, filme que, nas palavras de Eduardo Lourenço, é «um milagre sem segundo na nossa história (já então “estória”) cinematográfica» (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 15/IV/2015, p. 7).


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Herberto Helder ou o ensaio que falta

Sobre poucos poetas portugueses não tem escrito Eduardo Lourenço e basta percorrer a tábua de matérias do III volume das Obras Completas, que está em fase muito adiantada da sua preparação e que é organizado em torno do livro Tempo e Poesia, mas que incluirá muitos ensaios dispersos e inéditos dedicados a numerosos poetas pós-Orpheu (embora não apenas a estes), para se ficar com uma pequena ideia sobre esta evidência. Não deixa, por isso, de ser estranho que poucas, ou mesmo pouquíssimas, sejam as páginas que o ensaísta dedicou ao recentemente falecido Herberto Helder, nome maior de toda a poesia contemporânea. Sobre este raramente interrompido silêncio, se é que faz sentido pôr as coisas nestes termos, merece sem dúvida haver reflexão, até porque, no pouco que Eduardo Lourenço escreveu acerca do autor de Os Passos em Volta, encontramos trechos tão cativantes como parte do parágrafo (que a seguir se reproduz), extraído do ensaio, escrito nos anos Oitenta, “Entre o Ser e o Silêncio. Cem anos de poesia portuguesa”. O assunto tratado é o enquadramento da obra herbertiana no contexto da poesia da década de Cinquenta e, em especial, das suas relações com o surrealismo, bem como a influência que Herberto, juntamente com António Ramos Rosa, exerceu sobre as gerações poéticas seguintes. Claro que nem o tema (que não é excessivamente original), nem o espaço desta breve síntese acerca daquele que muitos chamam o século de ouro da nossa poesia, autorizam que se considere este curtíssimo excerto um ensaio de Eduardo Lourenço sobre Herberto Helder. Mas, como quase sempre que o ensaísta escreve sobre poesia, há aqui um fulgor e uma limpidez que permitem que não se perca a esperança de, um dia destes, se possa, enfim, ler esse ensaio que ainda falta. Herberto Helder merecia-o, sem dúvida. E Eduardo Lourenço talvez também o mereça. 

foto de Ler Eduardo Lourenço
«Quase toda a grande poesia portuguesa a partir dos anos 50 repercute a libertação que o surrea­lismo significou. A já então consagrada, como a de Eugénio de Andrade, da própria Sophia (os casos de Jorge de Sena e, sobretudo, de Cinatti rele­vam de outra leitura, como o de José Blanc de Por­tugal), dialogam com a nova prática poética. E de entre os grandes poetas dos últimos trinta anos, de Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge a Herberto Hel­der que lhe dará uma expressão visionária e lite­ralmente fantástica, poucos são os que se situam nas suas margens ou conscientemente num outro espaço, como Jorge de Sena, Ruy Belo ou Antó­nio Osório ou Alberto de Lacerda. Pode pensar-se que o surrealismo, sobretudo na forma que assume em Cesariny e, sobretudo, Alexandre O’Neill, representa, sob forma lúdica, uma nova reificação do “eu”, um novo imperialismo da consciência poética individualizada e mesmo individual. Há algu­ma verdade nisso e que o Álvaro de Campos, “clássico à sua maneira” e sujeito preciso da sua cria­ção, seja referência explícita ou implícita dela, con­firmaria o que seria uma “regressão” modernista. Na verdade o “eu”, sem encenação da sua ficcio­nalidade, só na aparência ganha esse estatuto soli­dificado. O poema surrealista é intrinsecamente des-centrado, ontologicamente “anónimo”, não se contempla como lugar vazio que dramatiza a sua ausência, como em Pessoa, mas celebra-se quase euforicamente como in-significante, in-transcen­dente, não-sério. Melhor do que ninguém, Alexan­dre O’Neill deu a essa “insignificância” do eu, sarcástica e ludicamente apreendida, um estatuto tão popular. Caberia a Herberto Helder conceber a realidade como uma monstruosa e magnificente Metáfora e o conjunto da realidade e das suas manifestações como um arquipélago de metáforas ao mesmo tempo organicamente oníricas e oniri­camente orgânicas. Não admira que a sua fabu­losa alquimia poética seja um dos pólos em torno dos quais uma parte da mais jovem poesia evoluiu fascinada e, acaso, apavorada. O outro seria repre­sentado por Ramos Rosa, aridez lírica, explorador incansável de um real próximo e inacessível, parede nua e crua onde a palavra aguça e perde os seus poderes, mas onde ao mesmo tempo reflui para o seu centro vazio, mistério sem deus dentro, cla­ridade cega. De Ramos Rosa parte para a geração seguinte, ou gente representativa dela, aquilo que um dos seus melhores poetas, e grande conhece­dor da nossa poesia contemporânea, Gastão Cruz, resumira como «exploração da ordem das virtuali­dades da palavra – em particular do nome como nome ou metáfora – destacando-a no discurso ou na página.»
[excerto de “Entre o Ser e o Silêncio. Cem anos de poesia portuguesa”, número especial da revista Phala (Lisboa, Assírio & Alvim, 1988, pp. 202-207)].

segunda-feira, 23 de março de 2015

Gosto mesmo é das manhãs

Pela mão da revista do semanário Expresso do passado sábado (às oito da manhã, ou seja,  pela fresca), o leitor visita Eduardo Lourenço, na sua casa em Lisboa. Pouco antes de partir a pé para a vizinha Fundação Calouste Gulbenkian, o ensaísta confessa ao também madrugador jornalista Bernardo Mendonça: «Gosto mesmo é das manhãs. Porque todos os começos de dia a pessoa tem a impressão que vai começar tudo de novo. Vivemos dessa pequena luz da esperança».
E talvez aqui encontre Eduardo Lourenço a impressionante energia que alimenta as suas infatigáveis curiosidade e generosidade de que o breve roteiro fotobiográfico das últimas semanas que aqui se partilha é apenas uma minúscula amostra.
Eduardo Lourenço em casa a ler a imprensa (foto de Luís Barra: revista do jornal Expresso 21/III/2015)

Numa sessão de escritores com estudantes e docentes da Universidade de Évora na manhã do passado dia 5. Da esquerda para a direita vêem-se Fernando Pinto do Amaral, EL, Lídia Jorge e Ana Luísa Vilela que moderou o debate (foto in página de facebook da Universidade de Évora).
Numa esplêndida e comovida intervenção durante a cerimónia da entrega do Prémio Vergílio Ferreira 2015 à escritora Lídia Jorge na tarde 5 de Março de 2015 (foto in página de facebook da Universidade de Évora).
Durante a mesma cerimónia, na tarde 5 de Março de 2015, com o seu Amigo Antonio Sáez Delgado (foto in página de facebook da Universidade de Évora) .
Durante uma visita ao Paço Ducal em Vila Viçosa na companhia de familiares e amigos (6 de Março de 2015) (foto de Ler Eduardo Lourenço)

Numa mesa redonda, moderada por Luís Caetano (ao meio), com o ensaísta argentino Alberto Manguel (à direita) no Funchal no passado dia 21 durante o Festival Literário da Madeira (foto página facebook do referido Festival)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Fernando Guimarães sobre "Tempo e Poesia"*

Fernando Guimarães (imagem retirada de http://paginaliterariadoporto.com)
Eduardo Lourenço recolhe neste livro um conjunto de estudos que, publicados desde 1951 a 1974, define através dum percurso cheio de coerência e rara lucidez uma genérica concepcão dessa realidade ao mesmo tempo evidente e misteriosa que se pode designar – como o A. o faz – por «esfinge ou a poesia». Os próprios ensaios em que se aborda a poesia à luz da sua realização efectiva e histórica – alguns deles tendo alcançado um impacte tão significativo num reajustamento quanto a juízos de crítica literária, como aconteceu nomeadamente com Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português?– não deixam de apontar para uma subjacente poética. Como poderíamos, então, caracterizá-la? É evidente que, nas suas reflexões sobre o poético, Eduardo Lourenço não é insensível à procura do nexus que religa a poesia à filosofia. Mas esta religação, a qual não está contaminada por urn mero filosofismo, tem que ser vista à luz do verdadeiro sentido que o A. lhe atribui. Ela não representa, ao contrário do quo acontece ocasionalmente com a crítica dum António Sérgio, a tentativa de reenviar a criação literária para uma «matriz conceptual» ou, também ao contrário do que ocorre com a crítica de inspiração neo-realista, para uma explicação ideológica. O que se tern em vista, segundo Eduardo Lourenço, é atingir uma certa «osmose com a obra de arte» (p. 22). 
Ao recusar, com estas palavras, tanto uma historicidade como uma conceptualidade, ficaria o crítico circunscrito àquilo que hoje se designa por literariedade da obra? Nesse caso, o tal nexus estabelecer-se-ia, não entre poesia e filosofia, mas entre poesia e epistemologia, pois, efectivamente, desenhavam-se as condicões epistemológicas de acesso à produção poética através de modelos que explorariam sobretudo a poesia quanto à sua realidade não significativa mas significante. Em face duma metáfora, por exemplo, procurar-se-ia, em vez de se aprofundarem as mediações propostas pelo discurso significativo em que ela se situa, atingir tão-só o modelo subjacente que nos desviaria do próprio terreno do poético, entrevisto como se fosse uma essência, para o domínio mais geral e abstracto da poética
Não é, todavia, nesta posição que Eduardo Lourenço se coloca. A sua persecução do poético tem, efectivamente, um valor ainda mais distanciado da literariedade que aquele que até certo ponto se pode verificar numa interpretação fenomenológica, que, aliás, o autor de Tempo e Poesia também não aceita («uma análise fenomenológica do poético [...] não poderá pôr-nos em contacto com a essência do poético», p. 79). A fenomenologia da obra literária propõe uma redução da sua realidade histórica ou psicológica; mas, como método, não vem formalizar o objecto que visa intencionalmente, pois nela se valoriza um conteúdo essencial. A intencionalidade é um caminho que não nos conduz a uma formalização tal como esta pode ser entendida a partir duma epistemologia actualizada. Não faz sentido, quanto à literariedade do texto, supor que duma essência se trata, porque tal literariedade vive apenas pelo modelo que permite conduzir-nos a uma informação, esta sim suficientemente formalizada, acerca desse texto. 
Para além de afinidades que não deixam de ser evidentes, é este o corte que existe entre uma análise fenomenológica da obra literária e uma perspectiva estrutural aberta pela nova retórica ou poética. Não aceitando esta última forma de acesso à poesia – porque a valorização do lado significante da linguagem, mediante o qual uma formalização seria possível, exprimiria a «vontade de substituir a referência à Realidade» (p. 66) –, Eduardo Lourenço também não deixa de, como vimos, pôr reservas essenciais a uma interpretação fenomenológica. 
Esta seria uma das metas, alcançada através da exegese filosófica, a que nos poderia arrastar uma concepção romântica da poesia. Com efeito, o Romantismo intentou «fazer da Poesia, não um absoluto entre outros, mas o absoluto que exclui os outros porque os supera» (p. 59). Neste momento, imobilizar-se-ia no seu seio qualquer possibilidade de mediação. O absoluto da poesia fechar-se-ia num irrealismo, porque nela acabava por se dissolver qualquer referência ao real, a uma transcendência. A poesia, fechando-se a tudo o que pudesse haver para além do próprio discurso poético, deixaria às palavras, como acusatoriamente Eduardo Lourenço diz, «a sua total solidão» (p. 240). 
Ora o poético, a sua essência obtida fenomenologicamente, era do mesmo modo uma forma de solidão, separado como se encontrava da possibilidade mediadora que tem a linguagem sempre que é entrevista existencialmente pela sua referência à imaginação. E é neste apelo à dimensão imaginativa do homem, pela qual se faz uma religação deste ao mundo por meio da linguagem, que Eduardo Lourenço encontra razões para se separar da metodologia fenomenológica. 
Existe uma essência do poético; mas essa essência, centrada na imaginação, é, não o pensamento pensado, mas aquele que se incarna no termo médio que representa o encontro – condensado na linguagem - do homem com a realidade. A poesia é, por conseguinte, «um absoluto de expressão» que todavia não se fecha em si mesmo porque se enraíza na «própria existência humana, inobjectivável sua essência» (p. 78). 
Torna-se clara a posição que o A. sustenta. O imaginário, através da irredutível figura da poesia que é a linguagem, acaba por assumir um peso ontológico, por ser através dele que se faz uma referência ao mundo (ou, numa perspectiva heideggeriana que talvez Eduardo Lourenço não recuse, do mundo). Evita-se, assim, aquela «hipóstase de palavras» que traduz o esgotamento ou saciedade do «frio e circular exercício da poesia da poesia onde geralmente a poesia naufraga com armas e bagagens» (p. 258). Mas, por outro lado, ganha-se a favor da poesia a sua possibilidade de mediação. E esta última noção é fundamental na poética que Eduardo Lourenço sustenta, pois com o seu socorro é possível passar da estrutura da obra, cujo modelo seria o da linguagem, para o que Paul Ricoeur (La Métapbore Vive, 1975, p. 278) designa por «mundo da obra», na medida em que nesta há uma referência extra-linguística. 
Eduardo Lourenço não recorre, como Ricoeur, à noção de hermenêutica para designar o mundo a que a obra de arte se refere (ou intende). Mas é sem dúvida sob uma forma de natureza hermenêutica herdada dos teorizadores das ciências do espírito ou culturais – numa posição que oscilaria entre a presença tutelar de Hegel e a de Dilthey – que se dá à poesia o poder de ser uma «incarnação sensível do Infinito no finito». E certo que o autor de Tempo e Poesia prefere modificar esta fórmula ao considerar antes a poesia como «incarnação sensível da impossibilidade de expressão do Infinito no finito» (p. 78); mas a tónica da alteração, é evidente, representa a desconfiança ante a possibilidade de objectivar, no campo do finito, a própria essência do homem, cuja disponibilidade encontraria na imaginação mais uma forma imprevisível daquele «combate do sonho com a realidade do homem a que o universo inteiro serve de matéria necessária» (p. 79), graças a um desdobramento existencial que o A. nunca se eximiu de valorizar.
Esta posição de Eduardo Lourenço não pode deixar de levantar – e, daí a sua ímpar fecundidade...– algumas questões fundamentais, como, por exemplo, a de saber até que ponto nos é possível garantir, apoiados em tal opção crítica, que não ocorra uma confusão possível entre o campo do imaginário (onde há muitos poços de ar como aqueles em que Bachelard de certo modo caiu) e o campo do simbólico verbal. Por outro lado, a estratégia de não identificar privilegiadamente o poema com o poético, ao nível das formas significances daquele, pode conduzir também ao perigo de se assimilar a passagem para a totalidade do discurso ou da criação literária a um certo isolamento, enquanto totalidade, dessa criação. O discurso passaria a não testemunhar a diferença – a nível de significantes – relativamente a outros discursos, graças a uma espécie de solidez que adquiriria mediante a valorização da sua função referencial, mesmo que esta se apresentasse – como Eduardo Lourenço defende – sob uma forma intrinsecamente ambígua.
Semelhante isolamento no mundo expressivo do discurso, pouco sensível aos prolongamentos que formalmente pode ter em relação a outros textos, acaba por contribuir para entrever certas rupturas e cortes que não deixaria de ser lícito interpretar de outra maneira. É o que parece acontecer no já citado estudo Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português?. Assim, se há uma nítida solução de continuidade entre os poetas do Orpheu e os da Presença, talvez se possa não considerar a poesia daquele movimento como uma revolução – ponto de vista defendido por Eduardo Lourenço –, mas o momento numa evolução complexa que é sobretudo a herança do que o nosso Simbolismo conseguiu realizar no domínio duma linguagem cujas verdadeiras dimensões ganhariam em ser consideradas sem autor, isto é, pelo levantamento das suas possibilidades expressivas entrevistas através duma diferença definida estilística ou retoricamente.

* O texto que, com a devida vénia, Ler Eduardo Lourenço hoje reproduz corresponde a uma recensão crítica à primeira edição de Tempo e Poesia, assinada por Fernando Guimarães e publicada no nº 31 da revista Colóquio-Letras (Maio de 1976, pp. 90-92). Ao recuperar este magnífico (até pelas questões que levanta...) texto de Fernando Guimarães, Ler Eduardo Lourenço visa dois objectivos. Por um lado, anunciar a cada vez próxima edição do III volume das Obras Completa, que é organizado por Carlos Mendes de Sousa (também o prefaciador do volume) em torno precisamente do livro Tempo e Poesia, mas que integra muitos outros ensaios, grande parte inéditos, que Eduardo Lourenço dedicou à poesia e a imensos poetas portugueses contemporâneos. Por outro lado, Ler Eduardo Lourenço assinala também a singular leitura que Fernando Guimarães tem vindo, desde há muito, a fazer do ensaísmo poético do autor de Pessoa Revisitado. A importância da obra de Fernando Guimarães é sobejamente reconhecida nas suas múltiplas dimensões: poesia, crítica e ensaio. Para além disso, e este é um pormenor talvez menos divulgado, Fernando Guimarães chegou a ser aluno de Eduardo Lourenço no curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, numa época em que o autor de Tempo e Poesia desempenhava aí as funções de Assistente.