quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Lídia Jorge, Prémio Vergílio Ferreira 2015*


Lídia Jorge (foto de Nuno Portela in www.snpcultura.org)
Felizmente para nós, ex­iste um correio que vem de Vence. Não que seja neces­sário que esse correio ve­nha de longe, mas está provado que é bom existir um olhar que não esteja cá. Benefício da distância? Algum, sem dúvida. O longe sempre constituiu um posto privilegiado de observação. É por is­so que só de vez em quando Eduardo Louren­ço janta connosco e, no entanto, ele consegue estar presente nos rumos mais invisíveis e mais importantes do nosso quotidiano.
Mas não está em causa a felicidade da sua distanciação, e sim o rasto intelectual dum homem que tem marcado de forma indelével as ideias portuguesas, pela vertente mais me­lindrosa que um académico poderia conceber para si mesmo, ao envolver-se no fogo cruza­do das nossas lutas tribais. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço não é um académico.
O académico, se o é, não desce à rua, não se envolve, não se mistura, não patinha as pega­das da horda da rua. Ora Eduardo Lourenço patinha. Patinha com prejuízo seu, embora com proveito para um país, onde só costuma atolar os pés neste tipo de lama, quem não tem outra forma de sobrevivência cívica. Essa é a respiração do espírito irrequieto de Eduar­do Lourenço que mais estimo. A sua forma de solidariedade com a História que mais admi­ro.
Seria um erro, contudo, mesmo nestas linhas de extrema passagem, ficar pelo reconhecimento da sua solidariedade com os nos­sos conflitos. Isso significaria estimar Eduar­do Lourenço apenas como homem de ideias, quando ele é, acima de tudo, uma figura do pensamento. Do nosso pensamento disperso, lírico, brilhante agora, e logo fátuo, do nosso pensamento tão dissimulado de nós mesmos que nunca encontrou um corpo nomeável, e por isso não existe como lombada nas estantes de ninguém. Do nosso pensamento incorpóreo à espera que de onde em onde apareça quem reúna as metades por um jeito próprio. A esse pensamento pertence Eduardo Lourenço, ilu­minando-o com um fulgor muito raro. Ora no mar da nossa dissipação, cada vez mais é pre­ciso quem possa reunir os contrários. Se isso se espera de alguns, espera-se com insistência de Eduardo Lourenço.
Espera-se que o faça a partir de uma das muitas matérias que o comovem, embora se creia que o venha a fazer montado no alto da sua disciplina mais cara – a Literatura. Porque Eduardo Lourenço não precisa confessar em voz alta donde lhe nasceu a vocação, não precisa dizer que se fez crítico por não ter sido poeta, para sabermos que a concepção da sua única escatologia se prende com a redenção pela Arte unificadora, e dela, a figura do martírio lhe aparece sob a forma de palavra. De facto, quem anda enredado n’ela sabe que uma vocação geralmente se desenvolve a par­tir dum gémeo perdido. E assim, quem diz que é crítico porque não conseguiu ser poeta, sabe que muitos poetas o são, porque não puderam ser críticos. Isto é – filósofos.
Esse é um dos complexos de culpa camufla­dos no pensamento português. Mas que o di­ga, por exemplo, Eduardo Lourenço.
Tudo o que lhe desejo é que em Vence, aqui, ou noutra terra qualquer, sobre Eduardo Lourenço caia a grande insónia, aquela dor da escuridão que permite unir o disperso. Sobre ele, muito particularmente, decifrador da nossa Baviera, seria o castigo redentor que merece.
O Júri do Prémio Vergílio Ferreira 2015. Da esquerda para a direita: Antonio Sáez Delgado, Fernando Pinto do Amaral, Elisa Esteves, Ana Costa Freitas (Reitora da Univerisdade de Évora), Eduardo Lourenço e António Cândido Franco.

*Lídia Jorge é a vencedora do Prémio Vergílio Ferreira 2015, galardão atribuído pela Universidade de Évora. Na edição deste ano, fizeram parte do júri Eduardo Lourenço, Fernando Pinto do Amaral, António Cândido Franco, Elisa Esteves (Directora do Departamento de Linguística e Literatura da Universidade de Évora) e Antonio Sáez Delgado, que presidiu à reunião realizada ontem no Colégio Espírito Santo. No mesmo edificio realizou-se, ao fim da tarde, uma sessão de apresentação do II Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço de que em breve se falará com mais pormenor aqui neste blog. Para já, Ler Eduardo Lourenço recupera, com a devida vénia, o texto Felizmente existe um correio que vem de Vence”, que Lídia Jorge publicou no Jornal de Letras, Artes e Ideias em 6 de Dezembro de 1986, num dossier dedicado ao autor de Fernando Rei da Nossa Baviera. As fotos da reunião do júri do Prémio Vergílio Ferreira são da responsabilidade do Gabinete de Comunicação e Imagem da Universidade de Évora. Muitos Parabéns, Lídia Jorge!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Quarta-feira, dia 28, na Universidade de Évora!


Realiza-se na próxima quarta-feira, dia 28, pelas dezoito horas, na Sala de Docentes do Colégio Espírito Santo da Universidade de Évora, uma sessão pública de apresentação do II Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, Sentido e a Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios.
A apresentação do livro estará a cargo do ensaísta e crítico literário António Guerreiro. Na sessão intervirá também Eduardo Lourenço que rubricará alguns exemplares deste volume que, como se sabe, foi lançado no passado mês de Dezembro. 
António Guerreiro


Saliente-se que Sentido e a Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios foi destacado pelo suplemento Ipsilon do jornal Público como um  dos livros mais importantes de 2014, na categoria de ensaio.
A sessão é organizada pelo projecto científico da edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço, que desde 2010 funciona na Universidade de Évora, com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Colabora na iniciativa a livraria Fonte de Letras.
Ler Eduardo Lourenço convida todos os interessados a participar nesta sessão que se adivinha absolutamente imperdível. Até quarta, pois!




quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Revista Letras nº 90

por Teresa Filipe

Carlos Mendes de Sousa, Teresa Filipe e Eduardo Lourenço numa reunião na Gulbenkian em Lisboa, preparando o III volume das Obras Completas do ensaísta, com saída prevista para os próximos meses (foto Ler Eduardo Lourenço)
A Revista Letras, ligada aos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é um periódico semestral voltado para as áreas de linguística, literatura e letras em geral que se publica desde 1953. As edições impressas estão também disponíveis em versão on-line o que constitui uma ferramenta de investigação inestimável a todos os que se dedicam a estudar culturalmente os dois países, bem como a todos os interessados. Em Dezembro de 2014, no seu número 90, a revista publicou um dossier intitulado Literatura, Identidade e Cultura nos Noventa Anos de Eduardo Lourenço (1), na sequência de um colóquio de homenagem ao Autor, promovido pelo Centro de Estudos Portugueses dessa Universidade. 

O Centro de Estudos Portugueses foi criado em 30 de Setembro de 1954, integrando nessa altura o Instituto de Pesquisas da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Paraná. Tendo passado por diferentes configurações, o CEP passa a ser gerido, desde fins da década de 1980, por um Conselho Administrativo formado pelos professores que integram a Área de Literatura Portuguesa do Departamento de Linguística, Letras Clássicas e Vernáculas dessa Universidade. Actualmente, estes professores são, Marcelo Corrêa Sandmann, Patrícia da Silva Cardoso e Antonio Augusto Nery. São eles que conduzem o texto de apresentação: «Para lembrar os 90 anos de nascimento deste grande pensador e os 35 anos de publicação de O Labirinto da Saudade, o Centro de Estudos Portugueses da Universidade Federal do Paraná realizou, nos dias 3, 4 e 5 de Dezembro de 2013, um colóquio com pesquisadores interessados em revisitar os temas consagrados por Lourenço (2). Alguns dos textos então apresentados encontram-se reunidos neste dossiê.» Estando disponível para download(3), é para esta mesma nota de apresentação que devo remeter todos os interessados, pois aí se encontra a melhor apresentação e síntese dos textos incluídos, nas palavras dos organizadores. (pp.75-76).
 O dossier, intitulado Literatura, Identidade e Cultura nos Noventa Anos de Eduardo Lourenço (pp. 75-197), reúne oito artigos apresentados no colóquio já indicado e que através da revista Letras se dão agora a conhecer a todos os que, como nós, não estiveram presentes no evento. “O Neorrealismo segundo o jovem Eduardo Lourenço”, de Luís Bueno; Patrícia da Silva Cardoso em “A literatura na interpretação do Brasil e de Portugal segundo António Cândido e Eduardo Lourenço”; “Eduardo Lourenço leitor de Virgílio Ferreira”, de Marcelo Franz; “Um diálogo histórico-literário com a Mitologia da Saudade (1999) de Eduardo Lourenço”, de Marcella Guimarães; Luís Maffei, em “Ler Camões com Eduardo Lourenço ou Camões no futuro com Paulo da Gama e outras amorosas companhias”; “A jangada e a nau: a nação portuguesa de José Saramago e de Eduardo Lourenço”, de Naira Almeida Nascimento; António Augusto Nery, em “Eduardo Lourenço e a atemporalidade de Eça de Queirós”, e, finalmente, Edna da Silva Polese e Jaqueline Koehler, em “Eduardo Lourenço e a terceira margem do Brasil: um olhar português sobre o sertão”, todos revelam um estudo de grande cuidado a merecer com certeza maior desenvolvimento, como se percebe, por exemplo, no caso de Luís Maffei que nos indica ser este artigo uma parte de um trabalho de maior fôlego, que se fica a aguardar com natural expectativa. 
Traduzindo cada artigo as preocupações e linhas de investigação dos respectivos autores, no seu conjunto, o dossier reflecte alguns dos temas mais prementes na obra de Eduardo Lourenço – identificados desde logo e grosso modo no título do dossier – convocando diversas referências, fazendo convergir o contemporâneo e o antigo, conseguindo afirmar-se também como um excelente documento de aproximação e (re)conhecimento dos dois países, tão próximos quanto distantes. Exemplo do que acaba de ser dito são as últimas palavras do documento, no último artigo, intitulado “Eduardo Lourenço e a terceira margem do Brasil: um olhar português sobre o sertão” (pp. 181-197), onde as autoras Edna da Silva Polese, Jaqueline Koehler recuperam alguns excertos de A Nau de Ícaro, para, a partir das coordenadas de Lourenço, chegar à confirmação de que «A tão sonhada independência [do Brasil] dá-se afinal pela língua, que não se divorcia de suas origens, mas reinventa-se. Indefinido é o sertão, indefinido é o mar. A construção imagética dada pela língua é quem decreta o caminho dessa busca, seja portuguesa, seja brasileira.» 
Os textos agora reunidos permitem-nos beneficiar de abordagens que, comungando do mesmo interesse – desocultar o labor crítico-literário da obra de Eduardo Lourenço – oferecem, contudo, vias diversas para aprofundar o conhecimento da sua tão díspar, quanto fragmentária, obra. Para tal, bastar-nos-ia reportar aos títulos para verificar o vasto leque de temas convocados por Eduardo Lourenço, leitor do mundo. Das cantigas de amigo, ao movimento (ou movimentos como o II volume das Obras Completas, recentemente publicado, melhor nos mostra) neo-realista, da empresa de Camões à eleição de Obama, os artigos presentes neste dossier mostram como, para além do já conhecido desconhecimento mútuo, existe um horizonte comum, tão imaginado quanto querido, entre Brasil e Portugal, a partir do qual as respectivas autognoses intentadas pelos intelectuais de cada país podem e devem dialogar. Uma leitura esclarecida só pode contribuir para a valorização do que mais importa: a experiência do encontro. 
Para além desta primeira dimensão de aproximação dos dois países (e de cada um a si mesmo), importa salientar o modo decisivo como da leitura de Eduardo Lourenço se opera um estreitamento nas relações entre literatura e filosofia, extravasando o rótulo de pensador da imagem nacional, europeia, atlântica, ou outra… Prova disso mesmo, é a frequência com que a argumentação incorre e se faz suportar, não poucas vezes, em razões de ordem filosófica. Não havendo a presunção de com-preender tão vasta obra, o conjunto de textos agora editados (ainda que mantendo o foco na crítica de cariz literário) mostra bem o carácter ecléctico e heterodoxo do seu Autor não deixando, contudo, de evidenciar aspectos recorrentes e até característicos de um labor crítico em sentido mais amplo, como são exemplos as referências – entre outras – à heterodoxia, à imagologia, à autognose, ao enigma, ou mesmo, a uma característica que não tendo sido forjada por E. L., quase todos os autores lhe reconhecem, a saber, a da deslocação.
Anamaria Filizola e Luis Maffei durante o Congresso em Curitiba dedicado a Eduardo Lourenço em Novembro de 2013 (foto página facebook de Luís Maffei)
É curioso verificar como, nos textos agora divulgados, a noção reaparece – ainda que em momentos diferentes da argumentação – na tentativa de dilucidação e aproximação ao que poderíamos imaginar ser o “método de desconstrução” de E. L. Por exemplo, no último passo do artigo assinado por Luís Maffei, intitulado “Ler Camões com Eduardo Lourenço ou Camões no futuro com Paulo da Gama e outras amorosas companhias” (131-148), podemos ler: «É sempre em deslocamento que se fazem as leituras, pois, como diz, em Tempo e poesia, o mestre […] “a escrita é um risco total. De uma maneira geral ninguém a lerá como o seu autor a concebeu” (LOURENÇO, 2003, p. 87). Cabe-nos fazer o melhor, porque mais ético e mais responsável, deslocamento de Camões». (p. 147) 
Ou ainda em António Augusto Nery, no artigo intitulado “Eduardo Lourenço e a atemporalidade de Eça de Queirós”, dando conta desse deslocamento como movimento próprio da metacrítica levada a cabo por Lourenço: «O que eu gostaria de propor, por fim, é que a leitura empreendida por Eduardo Lourenço em “O tempo de Eça e Eça e o tempo” é muito interessante não somente para reafirmarmos a atualidade da obra de Eça de Queirós para a contemporaneidade – ao considerar questões relacionadas à temporalidade narrativa, Eduardo Lourenço desloca a discussão sobre a produção de Eça do campo puramente estético, problematizando leituras críticas que por muitos anos vigoraram sobre a obra do escritor, e que quase sempre buscaram averiguar apenas o lugar ocupado pelos textos queirosianos no que se convencionou denominar de Realismo.» (p.178) 
A todos os que estudam a obra de E.L. não deve ser estranha a sensação de, assim que julgamos estar na posse de um dado, logo o autor desmobiliza e arranca noutra direcção. Desdobrando-se em outras tantas referências, autores, lugares, telas de cinema ou de pintura, recortes de jornais, concertos, sabores e odores, abrindo-nos as portas às infinitas possibilidades de refracção, da realidade e da ficção. Como se pode confirmar pelo estimulante ensaio de Patrícia da Silva Cardoso “A literatura na interpretação do Brasil e de Portugal segundo António Cândido e Eduardo Lourenço”, (pp. 91-102), que, partindo de um estudo comparatista entre os dois ensaístas, convoca Pessoa ou Teixeira de Pascoaes, para afirmar no último momento da argumentação: «Diante da angústia que sobressai na abordagem de Cândido, talvez não seja possível falar em “autonegação ou denegação” como características da cultura brasileira; o que nos assombra talvez seja justamente o oposto disso, e nos lançamos à autognose com tanta urgência que para nós torna-se insuportável aceitar a ideia de que não nos seja dada uma revelação objectiva de nós próprios, insuportável vislumbrar que de objectivo só haja mesmo o enigma.» (p.102) 
Naira Almeida Nascimento aproxima o ensaísta do escritor José Saramago no artigo intitulado “A jangada e a nau: a nação Portuguesa de José Saramago e de Eduardo Lourenço” (pp. 149-163), e, convocando o horizonte teórico de Linda Hutcheon, em Poética do Pós-Modernismo, sustenta que «Eduardo Lourenço ousou empreender sua leitura histórica a partir de uma mitologia, além de se valer do objeto literário como alicerce para sua interpretação. Desse modo, Saramago e Lourenço, ou o romancista e o ensaísta, exemplificam em sua prática o rompimento dos pressupostos empíricos, racionalistas e pretensamente humanistas de nossos sistemas culturais», (p. 150). 
Marcelo Franz, em “Eduardo Lourenço Leitor de Vergílio Ferreira” procura «pontos de contacto entre a reflexão de Vergílio sobre o tempo e o pensamento de Lourenço sobre o ser humano em qualquer tempo», na medida em que ambos problematizam «com ou sem o rótulo (nem sempre suficiente) de “existencialista”, as certezas ou doutrinas estabelecidas sobre a definição do humano e sua condição.» (p. 113). 
A leitura dos artigos agora reunidos permite-nos entrar em contacto, de forma breve e sucinta, sem descurar o rigor e a exigência académica, alguns dos temas fundamentais para a exegese de E. L., dando testemunho de um percurso que parte de um conto publicado em 1943, e desde então continua até aos nossos dias a um ritmo tão avassalador quanto inquietante. Inquietante e avassalador pois a interpelação do Autor não esmorece, é signo de humanidade entendida como exercício crítico constante. A cada momento mostra que o que se procura ainda não foi alcançado, e jamais o será absolutamente. A cada momento o que se exige de cada um de nós é cuidado, atenção e vigia, para que não se dilua frente às adversidades, ao oportunismo, à intolerância ao desumano. O «estado de permanente busca» de que Patrícia da Silva Cardoso faz eco (p. 99). Testemunho disso mesmo é a polifonia de artigos agora apresentados, cada um mobilizando, por sua vez, além dos autores convocados por E. L., muitos outros, da literatura à política, à religião, e de tempos também eles muito diversos, como é o caso do estudo de Marcella Guimarães, “Um diálogo histórico-literário com a Mitologia da saudade (1999) de Eduardo Lourenço” (pp. 115-130), que se propõe «compreender os sentidos auferidos por Lourenço no diálogo com algumas fontes medievais citadas ou não por ele, a fim de apreciar a pertinência do exame do ensaísta para o contexto tardo-medieval», e mobiliza referências que vão desde o período medievo até às eleição de Obama, sublinhando desta forma, também, a intuição da História como “suprema ficção”. Por isso, talvez uma das muitas e variadas lições que podemos encontrar no ensaísta seja a de aprender a Ler. 
(1) AAVV, Revista Letras, Patrícia da Silva CARDOSO, Antonio Augusto NERY, Marcelo SANDMANN (orgs.), Curitiba, n. 90, Jul. - Dez. 2014. Editora UFPR.
(2) http://leduardolourenco.blogspot.pt/2013/11/evento-em-curitiba.html
(3) http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/letras/issue/view/1758

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nous Sommes Tous Charlie*



A liberdade, sendo um direito, é antes de mais um acto. A liberdade do escritor, enquanto escritor, é pois antes de mais a de escrever: acto intransitivo, irredutível, que em nenhum caso pode ser rebaixado à natureza de simples meio ou instrumento, objecto de imposição ou coacção exterior, sob pena de deixar inexoravelmente de ser o que na sua essência é. Mas, sendo a escrita um acto, ela é-o tão só na medida em que se objectiva como traço impresso, quaisquer que sejam a matéria e a forma de expressão eleitas, actualizáveis com o tempo, supondo necessariamente o apelo a uma leitura: não existe liberdade de escrever sem liberdade de ler. Toda a história da luta dos escritores pela sua liberdade tem sido a luta pela liberdade dos leitores, emancipando-a das várias alienações a que vem sendo ancestralmente submetida: ideológicas, políticas, morais, sociais, económicas – numa palavra, das várias formas, institucionalizadas ou não, de poder.















*Texto escrito por Eduardo Lourenço e que também foi subscrito por José Augusto Seabra, Liberto Cruz, José-Augusto França, João Palma-Ferreira, Fernando Echevarria, Vergílio Ferreira, José Sasportes. Publicado em Suplemento Artes, Letras e Ciências de Expresso, Lisboa, 7/XII/1974, p. I.
A imagem é de autoria do ilustrador holandês Roben Oppenheimer e representa  o protesto contra os acontecimentos de ontem em Paris, ao qual Ler Eduardo Lourenço se pretende associar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um inédito sobre Gilberto Freyre

Gilberto Freyre (Recife, 1900-1987)
Numa entrevista realizada a 1 de Maio de 2000 em São Paulo (e que está publicada em Colóquio-Letras, nº 171, Março de 2009, pp. 296-312), Rui Moreira Leite faz a seguinte pergunta a Eduardo Lourenço «Porque se decidiu a escrever sobre Gilberto Freyre?».
A resposta do ensaísta português é algo desconcertante:
«O homem era muito vaidoso. Mas eu até percebia isso, ele já era uma figura histórica e o seu livro [Casa-Grande & Senzala, presume-se] um clássico. Mas era de uma vaidade espantosa... não foi por isso que escrevi, claro. Naquela altura, não sabia que ele era de formação protestante e pensei que era católico, como toda a gente, geralmente, aqui no Brasil. Ele escreveu uns artigos ideológicos tomando posição nas coisas de ordem social, um artigo desancando uns franciscanos que estavam dentro dessa igreja do Brasil, comportando-se já como sendo a Igreja dos pobres. Além disso, muitos brasileiros não sabem disso, o regime português serviu-se de Gilberto Freyre como caução, principalmente para esta coisa do luso-tropicalismo, como caução ideológica da cruzada africana. E isso não foi uma bagatela, a prova é que ele foi o único escritor que Salazar realmente recebeu. Aí é que eu fui realmente para além da conta. Mas eu reconheço que ele é um homem que tem uma obra e, sobretudo, que tem importância na cultura brasileira. Aquelas coisas são válidas para a leitura que se faz da descolonização, mas naquela altura era, digamos do meu ponto de vista, de um tal reaccionarismo... E até, de algum modo paradoxalmente, eu achava muito complexa a teoria do Gilberto Freyre e isso já foi aqui discutido no Brasil. Vejamos: por um lado é um discurso de ordem sociológica que dá um lugar positivo à mestiçagem e isto, claro, é extremamente positivo. Mas por outro lado, esse discurso acaba por ter uma leitura de coisa racial, logo racismo. E, directamente, acaba mesmo por funcionar às avessas: é uma mitologia...» (p. 306).
À primeira vista, parece que o texto sobre Gilberto Freyre a que entrevistador e entrevistado se referem é o artigo publicado em O Comércio do Porto em 11 de Julho de 1961 e, bastantes anos mais tarde, integrado no livro Ocasionais I (Lisboa, A Regra do Jogo, 1984, pp. 105-112). No entanto, há conhecimento de outros escritos inéditos que Eduardo Lourenço dedicou ao autor de O Mundo que o Português Criou (livro para o qual António Sérgio escreveu o prefácio da edição brasileira, facto que, por si só, mostra que a simpatia por Freyre em Portugal, pelo menos nos anos Quarenta, se estendia também a declarados opositores do Estado Novo). Ler Eduardo Lourenço divulga hoje um manuscrito de três páginas que o ensaísta redigiu em 1965, na sequência da leitura de um artigo que o sociólogo brasileiro publicou em Diário de Pernambuco a 17 de Outubro desse mesmo ano. O texto de Eduardo Lourenço com o título “O.R.P. Freyre (Gilberto) ou Um Sociólogo sem Máscara” foi enviado para a revista lisboeta O Tempo e o Modo, mas a censura impediu a sua publicação.  Trata-se de um curto e demolidor ensaio (por vezes com uma contundência até inesperada), cuja leitura nem por isso deixa de ser extremamente interessante.
Recentemente a Fundação Mário Soares divulgou alguns documentos (cf. http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_982#!e_982) do espólio de João Bénard da Costa (Lisboa, 1935-2009), director da referida revista (que, de resto, também pode ser consultada no site da Fundação Mário Soares: cf. http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_23#!e_23), entre os quais se conta esse “O.R.P. Freyre (Gilberto) ou Um Sociólogo sem Máscara”, bem como um recorte do texto jornalístico de Freyre que esteve na origem do ensaio de Eduardo Lourenço. São esses documentos que, com a devida vénia, Ler Eduardo Lourenço apresenta seguidamente, ao mesmo que deseja um Excelente Ano de 2015 a todos os visitantes do blog.

O.R.P. Freyre p.1
O.R.P. Freyre p. 2
O.R.P. Freyre p. 3
Artigo de Gilberto Freyre no Diário de Pernambuco (17/X/1965)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eduardo Lourenço e o neo-realismo: um diálogo singular*

por Rosa Maria Martelo

Rosa Maria Martelo

O segundo volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço abre com os ensaios de Sentido e Forma da Poesia Neo-realista, livro que, vindo a público em 1968, identificava divergências significativas entre as elaborações teóricas da poética neo-realista e as realizações concretas de alguns dos melhores poetas do movimento. Com esta escolha fica dado o tom geral do volume, já que a leitura heterodoxa então proposta vai ecoar nos textos recolhidos na “Segunda Parte”, intitulada “Outros Ensaios”, na qual encontraremos, por esta ordem: uma selecção de textos publicados entre 1944 e 1948, maioritariamente na revista Vértice; vários estudos dedicados a Fernando Namora; e reflexões que, distribuídas pelos capítulos “Memória de Vértice”, “Cultura e Comunismo”, nos dão, no seu conjunto, o olhar absolutamente singular de Eduardo Lourenço sobre o Neo-realismo, um olhar ao mesmo tempo solidário e criticamente distanciado, capaz de cruzar distância reflexiva e empatia geracional. De referir, por fim, a secção “À Margem”, que inclui um testemunho de Raul Gomes (datado de 1982) acerca da história da revista Vértice. Com esta inclusão, e como é lembrado na informação “Sobre os textos deste volume”, Eduardo Lourenço quis homenagear “a memória do Amigo e Companheiro” dos tempos de Coimbra (484). 
Cronologicamente, o segundo volume das Obras Completas recua ao primeiro encontro coimbrão de Eduardo Lourenço com algumas das figuras mais emblemáticas do movimento então em formação – Joaquim Namorado, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, Raul Gomes, Rui Feijó, entre outros –, tempo do qual são recuperadas publicações muito pouco conhecidas, incluindo um conto e um poema, e alarga-se até às muitas leituras retrospectivas pelas quais Eduardo Lourenço contribuiu decisivamente para evidenciar a complexidade e a diversidade do Neo-realismo. Deste modo, permite-nos ler, de forma conjunta e articulada, textos que foram fundamentais na aferição do papel do Neo-realismo enquanto movimento invulgarmente amplo, quer no âmbito da acção que pretendeu ter, quer no plano da extensão diacrónica que foi a sua. 
De referir, ainda, a excelente introdução elaborada pelo coordenador do volume, António Pedro Pita, intitulada “Inventar o sentido do tempo – Eduardo Lourenço e o «Neo-realismo» como problema”. Não poderíamos contar com melhor coordenação, já que devemos a António Pedro Pita, e ao trabalho que tem vindo a desenvolver ao longo de anos, uma contribuição inestimável para a superação das muitas leituras simplistas que (ou por excesso de empatia ou por excesso de antipatia) tantas vezes reduziram o Neo-realismo a uma homogeneidade ideológica, cultural e estética que ele nunca teve. Assim, não admira que António Pedro Pita agora apresente esta introdução como mais um passo no “trabalho de aclaramento” que a complexidade do Neo-realismo lhe tem vindo a merecer (cf. 12, nota 1). Não tentarei sequer a tarefa inviável de fazer uma síntese do já de si muito conciso texto de António Pedro Pita, que enumera e articula questões e vectores fundamentais para a compreensão do Neo-realismo de forma a melhor entendermos o influente papel desempenhado por Eduardo Lourenço, primeiro enquanto “viajante sem bagagens” (361) do tempo literário da década de 40, e sobretudo depois, numa assumida margem face ao movimento – uma margem na qual nunca deixou de estar atento aos modos como o Neo-realismo ia inventando os sentidos do tempo, para retomar a sugestiva formulação usada na Introdução a este segundo volume. 
Enfatizando a produtividade do facto de, a partir de agora, podermos ter um acesso conjuntural a textos que se alargam por cerca de 70 anos, António Pedro Pita parte de um testemunho de Eduardo Lourenço, intitulado “Como vivi a (pequena) história do Neo-realismo” (inicialmente publicado no jornal Expresso, em 1982, e agora reproduzido no volume), para nos sugerir a singularidade das relações que o filósofo manteve com o movimento: “A leitura ponderada do volume que o leitor tem nas mãos esclarece a singularidade dessa travessia” sublinha, acrescentando que ela “[e]sclarece também o que, nessa singularidade, possa ser devido à complexidade de tal constelação” (12). 
No testemunho destacado na Introdução, e que também eu irei revisitar, Eduardo Lourenço recorda a posição à margem em que viveu o Neo-realismo. A formulação que usa é muito significativa: “Testemunho de margem e de certa maneira também da minha futura marginalidade” (366), diz. Mas acrescenta de imediato: “Aconteceu, contudo, que habitei essas margens como alguns não habitaram o centro” (ibid.). E fala então dos laços de grande amizade que o ligaram a Carlos de Oliveira, colega de curso e interlocutor privilegiado, lembra a participação em tertúlias, muitas delas na “bela morada de João José Cochofel” (372), e recorda a compra colectiva da revista Vértice pelos jovens neo-realistas, da qual se tornaria um dos fundadores-proprietários (368), depois de uma acção decisiva para evitar a extinção logo após o segundo número. Nesta “pequena história” coimbrã, que se prolongaria até 1949, Eduardo Lourenço sublinha sempre que “não fora nunca, o que se chama ser, da “«família» neo-realista” (369), recordando mesmo que alguns o descreviam como impenitente “metafísico” (ibid.) nesses tempos em que se apaixonava pelo pensamento dos recém-descobertos Kierkegaard e Niestzsche (368) enquanto também mantinha reservas à “barragem crítica contra a Presença” (368).Tendo descoberto Pessoa em 1942, em sintonia com Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço descreve-se como alguém a quem só a margem podia permitir o isolamento do luto interior que o embate com Pessoa nele provocara, mesmo que o não soubesse ainda. 
Este instigante testemunho tem desde logo o mérito de mostrar como o pensamento, no sentido forte do termo, precisa de autenticidade para se desenvolver, pois o que antes de mais nada sobressai neste relato é precisamente a autenticidade da busca pessoal que ele revela. Será esta singularidade de pensamento que irá afastar Eduardo Lourenço daqueles de quem então se sentia próximo afectivamente, e essa circunstância permitir-lhe-á descrever com imparcialidade o que de modo mais ou menos consciente foi, para muitos, a experiência paradoxal de juntar uma opção pelo marxismo e a vivência da “espectralização em diversos tons e tonalidades dessa referência marxista, ao mesmo tempo real e mítica” (365). O livro que corresponde à primeira parte deste segundo volume, Sentido e Forma da Poesia Neo-realista, constitui um momento notável dessa dupla percepção que preservou Eduardo Lourenço do erro de perspectiva que observava em muitos leitores do Neo-realismo, dentro e fora dele: “o de confundir a ordem da intenção, do desejo, com a dos factos”, como então afirmava logo no “Prólogo”(46). 
A escolha de abrir o segundo volume das Obras Completas com este “ensaio de compreensão não-neo-realista do neo-realismo”, como lhe chama António Pedro Pita (31), faculta uma espécie de início de leitura in media res, ou seja, cria um ponto de partida ao mesmo tempo panorâmico e integrador, inclusive dos capítulos que irão seguir-se, nos quais muitos textos remetem para uma cronologia anterior. Escrito entre 1959 e 1960, embora os textos de abertura e fecho sejam posteriores, datados de 1967, Sentido e Forma da Poesia Neo-realista parece resultar de um compromisso: “a minha intenção era «salvar» a poesia neo-realista da sua boa-consciência”, dirá mais tarde Eduardo Lourenço, em entrevista[1]. E explica: “Por outro lado, se na verdade me tinha afastado, em termos teóricos, do Neo-realismo, nunca tinha deixado de manter a minha solidariedade com a atitude de oposicionismo”[2]. 
Apesar da inegável distância temática, há uma grande complementaridade entre os estudos de Sentido e Forma da Poesia Neo-realista e um ensaio fundamental que Eduardo Lourenço publicara dois anos antes na revista o Tempo e o Modo, sob o título “Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro de Campos”, no qual dava como desaparecido, nas obras dos ficcionistas emergentes entre 1953 e 1963, o ascendente da “ideologia como ética mascarada de «deus ex-machina»” na ficção portuguesa: “a ideologia [já] não constitui ecrã entre criador e criaturas, entre criação e leitura”, diz, e retoma de Álvaro de Campos a imagem da “imparcialidade da neve” para descrever a atitude revolucionária da nova literatura. Se até então tivéramos “uma literatura ética, com o grave defeito de servir em grande parte exactamente a mesma ética do mundo que se propunha ‘transformar’”, a “Nova Literatura” seria “mais revolucionária” na exacta medida da sua neutralidade e indiferença éticas[3]. 
O processo de leitura desenvolvido em Sentido e Forma da Poesia Neo-realista surpreende algo do teor desta indiferença no cerne da poesia neo-realista – porque a neutralidade ética também lá se anunciaria algumas vezes, mesmo contra (ou principalmente contra) o empenhamento dos autores que se esforçavam por não lhe cair nas malhas:
A intenção ideológica aparente estabelece uma comunidade de princípio entre os poetas a quem convém de facto a designação de neo-realistas, mas ao nível em que a poesia existe a surpresa nasce da verificação de que tal referência, importante enquanto horizonte e clima, não subordinou tanto como se afirma os autênticos poetas. Cada um deles se viu confrontado com qualquer coisa de mais visceral, irredutível, de mais profundo e revelador, uma realidade que é certamente a deles mesmos e do seu ser social. (...) Uma releitura dos poetas neo-realistas mostra, naqueles que sobrevivem ou naquilo que sobrevive ao que neles morreu, como a poesia foi neles também, como em todos os poetas, o verdadeiro senhor embora na aparência tenha revestido a túnica do escravo. (58-59)
Um dos aspectos do livro com mais consequências críticas passava precisamente por aqui, ou seja, por mostrar que nem sempre a poesia escrita pelos neo-realistas pôde coincidir com a poética que estes desejavam implementar:
Em literatura como no resto não se faz o que se quer mas o que se pode. Nas praias lusitanas o mais decidido projecto de poesia objectiva só pôde concluir numa nova e muito subjectiva exaltação lírica. Nele reside o mais valioso do Neo-realismo. (49)
Com efeito, seria afinal por uma renovação lírica – e portanto no avesso do seu anunciado destino epopaico – que esta poesia exprimiria, em registo intimista, a tensão entre o desejo e a melancolia, ou entre a euforia e a desesperança. Em síntese, seria no registo lírico que ela mostraria a autenticidade vivencial dos tempos cinzentos do fascismo, e essa renovação lírica acontecera em vez dos cantos heróicos que poucas razões e pouco espaço tinham para existir, por muito grande que fosse o desiderato neo-realista de lhes dar plena existência. 
Nos três autores estudados – João José Cochofel, Joaquim Namorado e Carlos de Oliveira –, Eduardo Lourenço sublinha a singularidade de três poéticas diferenciadas. Em Cochofel, irá identificar uma poética da imanência que parte de um “tom menor” (77) e nunca chega a assumir “o ritual da apóstrofe” (87) neo-realista. E descobre-nos particularidades como esta:
É a primeira poesia inocentemente ateia de que temos conhecimento. Isto nos parece de suma importância por desenhar um espaço poético radiosamente outro que o de Presença, espaço que será, em definitivo, não só o de toda a poesia neo-realista, como de uma boa parte da nossa poesia dos últimos trinta anos. (77)
Esta perspectiva, que Eduardo Lourenço retomará ao defender que o “«neo-realismo» nesta primeira fase é, sobretudo, «neo-cesarianismo»” (80), tem a grande vantagem de conduzir a uma leitura integradora dos poetas neo-realistas nas tendências gerais da poesia dos anos 40, evitando as inflexões excessivamente grupais de que notoriamente estes poetas foram vítimas. Assim, em João José Cochofel, Eduardo Lourenço observa nexos com alguns dos presencistas, com os chamados poetas dos Cadernos de Poesia, e com algum Pessoa também. E conclui que, embora Fernando Namora, Mário Dionísio ou Manuel da Fonseca lhe tivessem permitido exemplificar melhor “a cor indelével do “neo-realismo” (112), prefere uma “virtude mais rara” que a escrita de Cochofel detém, já que “ela exemplifica, como nenhuma outra a dificuldade intrínseca da nossa poesia neo-realista e extrai da modulação dessa dificuldade a sua substância, tanto sob o plano do conteúdo, como da forma” (112). 
Fiel a esta perspectiva, mesmo se situa a poesia de Joaquim Namorado nos antípodas da de Cochofel, dado o empenhamento, o entusiasmo, a “violência romântica” (169) que a caracteriza, Eduardo Lourenço não deixará de observar, na “consciência cada vez mais profunda da situação historicamente sem saída que coube em partilha [à] aventura neo-realista” (173), uma contradição produtiva da qual emerge a autenticidade que sustenta a poesia de Joaquim Namorado enquanto “epopeia impossível”. Já no caso de Carlos de Oliveira, cuja poesia será descrita sob a égide do trágico, Eduardo Lourenço analisa a importância da elementaridade da matéria, a “dialéctica entre o poema e o reino mineral” (228); e observa o papel de uma atitude mais pessimista do que desistente, que culminará no movimento de retracção dos poemas de Cantata (1960). 
Dos três estudos, creio que ressalta o que terá sido a contribuição essencial do Neo-realismo para a poesia: uma cura de prosa, aplicada aos excessos expressivistas herdados da tradição presencista, um exercício de contenção dos recursos poéticos. Mas isto não impedirá Eduardo Lourenço de considerar ter faltado genericamente ao neo-realismo “aquele apetite de total lucidez e profunda liberdade que é essência de toda a palavra poética” (241). 
Em 1952, Eduardo Lourenço publicou, num suplemento do jornal O Primeiro de Janeiro, um texto em que se insurgia contra a aplicação de um marxismo mecanicista na leitura da obra de Pessoa. Intitulado “Explicação pelo inferior ou a crítica sem classe contra Fernando Pessoa”, o texto em causa terminava com estas palavras: “há homens (houve sempre e pessoalmente desejamos que a sua raça estéril e altiva nunca acabe) que não são capazes de olhar até ao fim o espectáculo do mundo e da história dos homens lendo aí a palavra esperança. Homens do Inferno se acreditarmos em Dante. Fernando Pessoa talvez tivesse sido um deles. E por que não devia sê-lo?” (402). Este artigo foi publicado no final do ano de 52 (26 Novembro); sabemos que alguns meses antes tinha começado, entre João José Cochofel e António José Saraiva, uma tremenda polémica, cujas ondas de choque haviam de prolongar-se até 1954 estendendo-se a intervenções muito diversificadas. Cochofel defendera a prevalência da forma nos critérios de avaliação estética, independentemente de orientações ideológicas; Carlos de Oliveira, e outros secundá-lo-iam. Sem se inscrever directamente na polémica, o texto de Eduardo Lourenço acerca de Pessoa mostra bem qual era o Neo-realismo que lhe merecia solidariedade tanto geracional quanto oposicionista: aquele mais livre esteticamente falando, ou seja, o Neo-realismo que as muitas leituras retrospectivas agora reunidas neste livro também ajudaram a consolidar – como inequivocamente podemos verificar numa leitura seguida. 
“De certo modo”, escreve António Pedro Pita no texto introdutório, “a condição de possibilidade do próprio trabalho de Eduardo Lourenço reside no facto de a descoincidência do seu olhar com o olhar da História, por razões que relevam do filosófico, lhe permitir tematizar como problema aquilo mesmo que constitui, no âmbito dessa plataforma, as políticas em acto em busca de uma legitimação assente no reconhecimento da sua justeza e não derivada de um corpus doutrinário imposto a priori” (33). Este livro permite-nos acompanhar o papel de Eduardo Lourenço tanto na sua participação geracional ao lado dos jovens do Novo Cancioneiro quanto nas leituras coetâneas que foi fazendo do Neo-realismo, e ainda nas leituras retrospectivas que depois elaborou. Como ele mesmo defende, “o Neo-realismo é a expressão literária de qualquer coisa muito mais ambiciosa, muito mais importante” (379) do que o plano literário ou artístico, ou sequer cultural. Eduardo Lourenço recorre à palavra “galáxia”, diz que o Neo-realismo foi “o aparecimento em Portugal da galáxia marxista, da galáxia da cultura marxista”, capaz “de se determinar em relação praticamente a todos os temas da sociedade portuguesa” (379). E ao recordar o papel da colecção Novo Cancioneiro nos inícios da década de 40, pergunta: “Haveria nesse utopismo um excesso de ilusão, como o tempo o provou? Sem dúvida. Mas nos melhores, a crença num futuro menos inumano era vivida e sincera” (392). 
Vemos, ao longo deste volume, que, sem evitar a polémica e a discordância, Eduardo Lourenço manteve o diálogo com essa geração que, como também disse, “deu ao povo uma atenção e através dela, uma dignidade, se não um papel, até então raramente assumidos” (392) – uma geração que é a sua e que, com todas as diferenças de ideário que nunca deixou de afirmar, ele soube entender profundamente.




*O texto que agora se publica (por muito gentil oferta da Autora) foi apresentado por Rosa Maria Martelo na Sessão de Lançamento do II Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, realizada no passado dia 5 de Novembro na Casa da Escrita em Coimbra.

[1] Eduardo Lourenço, “Sou um dissidente da minha geração”, entrevista conduzida por António Guerreiro, Relâmpago - Revista de Poesia , nº 22, Lisboa, Abril de 2008: 56.
[2] Ibid.
[3] Cf. Idem, “Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro de Campos”, O Canto do Signo – Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa, Presença, 1993: 260-261.