domingo, 21 de setembro de 2014

Sólo en este último caso existe el poema, Dans ce dernier cas seulement le poème existe, Solo in quest’ultimo caso la poesia esiste, ...

Ler Eduardo Lourenço gosta de insistir na ideia seguinte: uma das melhores formas de tentar ser merecedor dos nossos grandes escritores é realizar um coerente e rigoroso programa de traduções e edições dos seus textos em outras línguas. Caso contrário, a divulgação das suas obras ficará irremediavelmente confinada aos leitores que conhecem português. Claro que, mesmo no amplíssimo universo da lusofonia, é possível e até exigível que a circulação dos autores portugueses seja realizada de modo mais efectivo e articulado – mas isso é conversa para outra ocasião. 
Eduardo Lourenço não é porventura dos ensaístas portugueses que terá maior razão de queixa quanto à tradução dos seus escritos para outras línguas. No entanto, essas traduções devem-se quase sempre aos esforços individuais de admiradores da sua obra, destacando-se entre eles o trabalho de sua Mulher, Annie Faria, falecida há cerca de um ano, pela tradução de quase todas as versões em francês dos ensaios do marido. Ainda assim, talvez continue a faltar uma verdadeira e sistemática política de tradução dos livros mais relevantes do autor de O Labirinto da Saudade. Se, por um lado, é digna de nota a (inesperada?) edição em sérvio de Razočarana Evropa: prilozi za jednu evropsku mitologiju, tarefa extremamente meritória levada a cabo por Anamarija Marinovič (Mediterran Publishing, 2011), por outro, é difícil de compreender que em inglês não haja, tanto quanto Ler Eduardo Lourenço possa afiançar, mais do que duas edições realizadas nos Estados Unidos: Chaos and Splendor and Other Essays (University of Massachusetts Dartmouth, 2002) e This little lusitanian house: essays on portuguese culture (Brown, 2003). 


Se se atentar, por exemplo, na repercussão que a obra de Fernando Pessoa tem no mundo anglófono, não deixa de ser surpreendente e lamentável que ainda não existam disponíveis em tradução inglesa frases tão memoráveis como estas: «De duas uma: ou essa leitura não o subtrai à tranquilidade morna da sua existência, inscrevendo-se apenas nela como uma “informação” suplementar, ressentida acaso como uma banalidade; ou essa leitura arranca o espírito da sua claridade habitual, entenebrece-o, destilando um pavor feliz na falsa infinitude da sua consciência sonâmbula. Só neste último caso o poema existe, abrindo em nós avenidas para nenhum jardim, inundando de luz nenhum espaço que possa ser nomeado mas de tal modo que claramente percebemos que devimos outro, quer dizer, o mesmo, mas como iluminado por dentro e sem fim. É a “joy for ever” de Keats, a existência do poema em nós e nós nele», Pessoa Revisitado – Leitura Estruturante do Drama em Gente, Porto, Editorial Inova, 1978, p. 16.
Relembre-se o contexto. Eduardo Lourenço acabara de citar dois poemas de Fernando Pessoa, respectivamente “Não meu, não meu é quanto escrevo” e o soneto “Súbita mão de algum fantasma oculto”, e partilha, com o leitor da sua obra Pessoa Revisitado, o testemunho da sua experiência face ao génio do poeta. 
Ora, deste excerto do capítulo “Considerações pouco ou nada intempestivas”, são já felizmente  conhecidas versões em espanhol (por Ana Márquez), em francês (por Annie de Faria) e até em italiano (por Daniela Stegagno que, assinale-se, é a autora da primeira tese de doutoramento dedicada à obra do ensaísta). Em homenagem ao trabalho silencioso e imprescindível dos tradutores (neste caso, das tradutoras), Ler Eduardo Lourenço recupera o modo como estas luminosas palavras de Pessoa Revisitado parecem ganhar novo fôlego noutras línguas, alargando assim o raio de influência do pensamento do ensaísta: 

Foto Ler Eduardo Lourenço

 I

«Una de dos: o bien esta lectura no impide al lector proseguir tranquilamente su cómoda existencia, incorporando aquélla solamente como una “información” complementaria, sentida al fondo como una banalidade; o bien esa lectura despoja al espíritu de su claridad habitual, entenebreciéndolo, destilando un pavor feliz en el falso infinito de su conciencia sonámbula. Sólo en este último caso existe el poema, abriendo dentro de nosotros avenidas que no conducen a ningún jardín, inundando de luz ningún espacio que podamos nombrar, pero haciéndolo de tal manera que advertimos claramente que nos hemos transformado en otro, es decir, el mismo, pero infinito y como iluminado por dentro. Es la “joy for ever” de Keats, la existencia del poema en nosotros y de nosotros en él», Pessoa Revisitado – Lectura estructurante del “drama en gente”, Valencia, Pre-textos, 2006, traducción de Ana Márquez, p. 13. 

II
«De deux choses l’une: ou cette lecture nous soustrait à la tiède tranquillité de notre existence, s’inscrivant seulement en elle comme “information” supplémentaire, ressentie peut-être comme une banalité; ou cette lecture arrache notre esprit à son clarté habituelle, l’obscurcit, distillant un effroi heureux dans la fausse infinitude de sa conscience de somnambule. Dans ce dernier cas seulement, le poème existe, ouvrant en nous des avenues qui ne mènent à aucun jardin, inondant de lumière un espace qui n’a pas de nom, mais de telle manière que nous sentons clairement que nous devenons autre, c'est-à-dire, la même, mais comme éclairé au-dedans et à jamais. C'est la joy for ever de Keats, l'existence du poème en nous, et de nous en lui», Pessoa l’étranger absolu – Essai, Paris, éditions Métaillé, 1990, traduit du portugais par Annie de Faria, p. 9. 

III
«Una delle due: o questa lettura non sottrae lo spirito alla tiepida tranquillità della sua esistenza e vi si iscrive solo come una “informazione” supplementare, considerata quasi una banalità; oppure lo strappa dalla sua chiarezza abituale e lo offusca, infondendo un felice timore nella falsa infinitezza della sua coscienza sonnambula. Solo in quest’ultimo caso la poesia esiste, apre in noi viali per nessun giardino, inonda di luce nessuno spazio che possa essere nominato, ma in modo che noi percepiamo chiaramente che devimos altro, vale a dire, lo stesso, ma in modo tale che percepiamo chiaramente che divientiamo altro, ossia, lo stesso, ma come illuminato dall’interno e senza fine . È la “joy for ever” di Keats, l'esistenza della poesia in noi e di noi in essa», Fernando Re Della Nostra Baviera – Dieci saggi su Fernando Pessoa, Roma, edizione Empirìa, 1997, a cura di Daniela Stegagno, p. 13. 


Registe-se para terminar que, no caso da edição francesa de Pessoa Revisitado, houve apenas uma alteração no título, ao contrário da versão espanhola que traduziu literalmente o nome do livro que, curiosamente, também sofrera ligeiras alterações nas várias edições portuguesas. Já Daniela Stegagno decidiu traduzir o capítulo “Considerazioni poco o affatto intempestive”, juntamente com quatro ensaios anteriormente aparecidos em Poesia e Metafísica (“Fernando Pessoa o lo straniero assoluto”, “Pessoa o la realtà como finzione”, “Considerazioni sul Proto-Pessoa” e “L’infinito Pessoa”) para incluir no seu Fernando Re Della Nostra Baviera que contém apenas cinco capítulos da edição portuguesa com o título homónimo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Pela Rua Ferreira Borges abaixo e acima


Jorge de Sena
Num extraordinário poema, escrito a catorze de Dezembro de 1971 e publicado pela primeira vez  no livro póstumo Visão Perpétua, Jorge de Sena escreve a dado passo:

(…) E sou clássico, barroco, romântico, 
discursivo, surrealista, anti-surrealista, 
obnóxio, católico, comunista, 
conforme as raivas de cada um. (…)

 Cumpre dizer, sobretudo num autor que sempre visou demarcar-se de qualquer poética confessional, que estes versos desaconselham, como é óbvio, qualquer leitura literal. Todo o poema, conhecido pelo primeiro verso “Quando há trinta anos…”, pode ser interpretado como um exercício, do qual não está ausente a (auto-)ironia e que radica numa estratégia literária análoga ao método da teologia negativa. Por outras palavras, tudo o que Jorge de Sena diz que os outros («aquela tropa») dizem a seu respeito «não deu resultado». Isto é, a sucessão infinita de definições que os outros dele fazem acaba por demonstrar a sua indefinibilidade. Deste modo, quando Sena afirma que é comunista, tal só pode significar precisamente o oposto. Aliás, isso mesmo deriva do facto de essa e todas as outras afirmações citadas dependerem sempre das “raivas de cada um”.

Em nenhuma circunstância, o poema “Quando há trinta anos…” parece referir-se explicitamente à revista Cadernos de Poesia a que, como se sabe, Jorge de Sena esteve intimamente ligado. Mesmo que seja arriscado interpretar silêncios, essa ausência merece ser assinalada. Como referem Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias, o peculiar “grupo” dos Cadernos de Poesia «procurou integrar a consciência modernista da linguagem, menosprezada pelo Neo-Realismo, numa consciência ética da poesia que os poetas de Orpheu jamais assumiram» (“Introdução. A poesia é só uma ou as palavras contra o tempo”, Cadernos de Poesia. Reprodução fac-similada, Porto, Campo das Letras, 2004, p. X). Ainda que alguns estudantes mais distraídos asseverem o contrário (e Ler Eduardo Lourenço conhece pelo menos um caso desses), é possível concluir, com razoável segurança, que a poesia de Jorge de Sena nunca foi neo-realista. De resto, o crítico Jorge de Sena também se distancia, sem tergiversações, da estética da revista Vértice. Num texto escrito na mesma época de “Quando há trinta anos…”, esses anos duplamente iniciais são revisitados do seguinte modo: «Entre 1938 e 1944, estrearam-se em volume os jovens poetas que se arregimentavam no chamado “neo-realismo” (muito formalmente devedores a Álvaro de Campos no verso livre, ou a Torga, nos metros tradicionais), e os que constituíram os Cadernos de Poesia, mais cientes do que os grupos anteriores e seus contemporâneos quanto ao que se passara e passava na poesia ocidental» (Estudos de Literatura Portuguesa – III, Lisboa, Edições 70, 1988, p. 120). E Jorge de Sena vai até mais longe, falando em «incipiência agressiva», em «intenções políticas fazendo as vezes de vivência poética» e até em poemas «mais políticos e circunstanciais» enquanto características da poesia neo-realista que, ainda assim, apresenta várias excepções a esta regra (Carlos de Oliveira e Manuel da Fonseca, em especial). Outras passagens poderiam ser aqui mencionadas, mas esta introdução já vai extensa. 


Rua Ferreira Borges (Coimbra): a foto retrata uma manifestação de estudantes em 1969
 Em 1968, ou seja três anos antes dos textos de Sena que temos vindo a citar, Eduardo Lourenço envia ao Amigo um exemplar do seu novo livro Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (Ulisseia), esperando naturalmente que o poeta e crítico se pronunciasse acerca da exegese que aí é feita da poesia de João José Cochofel, Joaquim Namorado e Carlos de Oliveira. Da reacção de Jorge Sena a Sentido e Forma temos ecos em duas cartas enviadas a Eduardo Lourenço. Assim, em post-scriptum à missiva com a data de Roma a 29 de Novembro de 1968, pode ler-se: «Sei que o seu livro me chegou ao Wisconsin [onde Sena lecionou na Universidade entre 1965 e 1970). E folheei-o em casa do [poeta José] Terra, em Paris» (Eduardo Lourenço/Jorge de Sena. Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991, p. 73). Em 18 de Junho do ano seguinte, e já de novo em Madison, pois a sua longa viagem pela Europa terminara com a vinda a Portugal na época do Natal, Jorge de Sena escreve ao Amigo sobre o livro deste. «O seu livro sobre os neo-realistas chegou-me já não me lembro onde nem como. A dizer a verdade que eu penso, acho uma despesa de generosa inteligência e brilhante prosa como é a sua, com gente que estimável não merecia tanto. Mas compreendo perfeitamente que V. sentisse necessidade dele – não é impunemente que a gente pode crescer juntos pela Rua Ferreira Borges abaixo e acima. Eu tenho andado mergulhado na leitura deles e dos mais outros, para a reedição revista e actualizada das minhas Líricas Portuguesas, que também estou a preparar. E por certo que alguns deles são dos mais interessantes, embora a poesia de quase todos, sem a garantia “partidária”, não possa ser tida como “poesia social”. Nem socialmente eles o são: todos membros da grande burguesia ou da pequena aristocracia provincial, e vivendo dos rendimentos às vezes pingues. Mas em Portugal as pessoas nunca foram julgadas pelo que realmente fazem, mas pelo que se assume que são» (Ibidem, p. 78). 
Reprodução da primeira página de um texto inédito de Eduardo Lourenço sobre a sua participação no movimento do neo-realismo coimbrão nos anos Quarenta do século passado (imagem retirada do II volume das Obras Completas)


Estas palavras de Jorge de Sena têm qualquer coisa de ambíguo. Se, por um lado, há alguma condescendência com o projecto do Amigo que teria escrito o livro por uma espécie de solidariedade geracional – e, em rigor, Eduardo Lourenço nunca virá a opor-se a que se leia assim esta obra – por outro, Sena não deixa de aludir a mais duas coisas. A primeira delas tem a ver com o facto de alguns dos poetas neo-realistas serem “dos mais interessantes” daquele período que, bem vistas as coisas, é também o seu. A segunda prende-se com o facto, sociologicamente indesmentível, de esses poetas “serem todos membros da grande burguesia ou da pequena aristocracia provincial” e, por isso…  
Ler Eduardo Lourenço ousa desconfiar que Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista, conjunto de ensaios de um autor que, recorde-se, também colaborou em Cadernos de Poesia com um surpreendente texto sobre Pascoaes (“Tinham-me dito que ele viria...”, Cadernos de Poesia, 3ª série, nº 14, p. 14 e 29-30), tenha ajudado Sena a refrear alguma da sua proverbial impiedade contra a poesia e os poetas neo-realistas*. 
Eis aqui mais um óptimo pretexto para regressar a esse livro que, muito brevemente, chegará às livrarias integrado no II Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, uma edição da Fundação Calouste Gulbenkian que reúne ainda um conjunto significativo de textos do ensaísta do e sobre o seu tempo de Coimbra.


* Sobre este assunto, cf. o magnífco estudo de Gilda Santos “À volta do Neorrealismo português, segundo Jorge de Sena”, disponível em http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/ressonancias/pesquisa/ufrj/edit-a-volta-do-neorrealismo-portugues-segundo-jorge-de-sena/.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Nunca nadei contra a corrente*

Eduardo Lourenço na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa 
(foto de Pedro Loureiro publicada na revista  Ler. Livros & Leitores, nº 72, Setembro de 2008)

«O único rio que desci com gosto durante a vida foi o da preguiça. Suponho que tinha a forma da minha alma pois me converteu numa espécie de forçado. Nunca nadei contra a corrente. Todos os ribeiros da minha infância confluiriam para esse rio da preguiça como galgos e nessa alegre companhia desci pela minha vida como outros sobem. O resultado é o mesmo. Perto do meu coração corria o Tempo. Para não perder o contacto com a sua mão sempre jovem não olhei nunca para o lugar que acabava de deixar. A preguiça serve-me de anjo da guarda, presença deixada naquele lugar onde ninguém atina voltar. Ela me conservou próximo de mim, pois as razões porque não avancei para os cimos onde vemos o mundo pequeno e o mundo nos vê maiores do que somos, foram as imensas e sempre adiadas tarefas que nunca tive tempo de acabar. Aliás, mal as comecei. Enquanto os meus amigos se inventaram árvores de alto porte passei trinta anos a ver os meus braços transformar-se em galhos mortos como os dos santões do Ganges. Não nasci senão para ver e ouvir. O resto é superior às minhas forças e aos meus dons. O rio branco da preguiça estava correndo antes de eu nascer, não seria eu que o levaria ao mar. O meu gosto é seguir-lhe as margens, cortar rodelas de sabugueiro e correr atrás delas, como em garoto, deslumbrado pela música luminosa da corrente.»

Perspectiva da antiga casa em Vence (foto de Rui Jacinto)





*O texto que hoje aqui se reproduz é um excerto sem título do famoso diário de Eduardo Lourenço e foi escrito em Montpellier em 4 de Dezembro de 1956. Apareceu publicado inicialmente na série “Espelho que volto com lentidão para mim...Fragmentos de um diário inédito”, Prelo, Lisboa, número especial, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Maio de 1984, p. 117.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Lídia não gosta de Bach

Foto Ler Eduardo Lourenço

A publicação há dois anos do livro Tempo da Música, Música do Tempo, volume de fragmentos e micro-ensaios, quase todos inéditos e pacientemente organizados por Barbara Aniello, de Eduardo Lourenço sobre a arte a que o poeta Jorge de Sena dedicou um dos seus títulos mais conhecidos, veio finalmente chamar a atenção para aquela que é, sem dúvida, uma das mais paixões do ensaísta.

Mais ou menos por essa época, realizou-se em Lisboa o Ciclo de Conferências Construtores do Mundo que encerrou justamente 10 de Dezembro de 2012, com uma palestra de Eduardo Lourenço. E, na sequência deste ciclo, foi editado pela Associação Sons da Lusofonia um disco em vinil (cuja capa em cima se reproduz) com o significativo título: Eduardo Lourenço Playlist. Ou seja, uma espécie de músicas na minha vida que, no caso em apreço, deveria talvez em rigor chamar-se músicas da vida dele.
Carlos Martins
É que a selecção de composições foi realizada pelo saxofonista Carlos Martins, director artístico do Ciclo de Conferências Construtores do Mundo que, em nota incluída no disco, explica todo o processo: «[as] escolhas musicais [foram] feitas por mim a partir do livro Tempo da Música, Música do Tempo deste extraordinário pensador, ouvinte e construtor. Enquanto ouvinte, Eduardo Lourenço tem uma invulgar capacidade de relacionar a música com as palavras e as construções das suas frases, muitas vezes cheias de brilhante poesia, criam ambientes de pura sensibilidade que nos remetem para uma outra audição mais profunda e apaixonada. Nestas passagens do livro que me inspirou, com dezenas de referências musicais e outros mais textos a acompanhá-las, Eduardo Lourenço criou para nós um outro mundo, onde o fascínio e a paixão pela audição do universo musical é uma via para o sagrado. Eis uma grande luz para os críticos musicais.
A minha selecção, num gesto quase impossível, foi inspirada em dois momentos:
1. Bach, pelas razões que podem ler nos textos do próprio construtor e, porque mesmo que a Música do nosso tempo fosse aquilo que hoje é, sem Bach ficaríamos privados de um Universo onde “a comunicação humana com paraíso” se concretizou com infinita pureza e esplendor.
2. Debussy/ Ravel/Schönberg - Música que abriu caminho para todas as músicas que hoje povoam o nosso mundo e que são em si mesmas plasticidades sonoras das combinações instrumentais, à excepção do piano solo de Ravel, espelhos sonoros que criam uma atmosfera tão iniciática que parece que as ouvimos ainda com a frescura da “primeira manhã da criação”. A música que pratico, o jazz, deve muito a estes compositores aqui apresentados, e eu fico a dever a Eduardo Lourenço a luminosidade e a interioridade que deixou no meu coração com a audição e a leitura da sua grande playlist que compõe o seu livro».

 

O disco começa, de facto, com Tocata e fuga de Johann Sebastian Bach (de que aqui se apresenta uma versão), a que se segue, do mesmo autor, Missa em si menor. Depois comparecem Debussy (Martírio de S. Sebastião/Fragmentos Sinfónicos), Ravel (Gaspard de la nuit) e, por fim, Schönberg (Noite Transfigurada). O convite de Carlos Martins deve ser aceite e o leitor de Eduardo Lourenço pode, sem dúvida, realizar o exercício de ler os textos de Tempo da Música, Música do Tempo relacionando-os com a audição das composições de no livro se fala. Ainda assim, e como curiosidade, Ler Eduardo Lourenço repesca dois excertos do volume: o primeiro dedicado à Tocata e fuga de Bach e o segundo, já anteriormente conhecido através de uma selecção de fragmentos do diário de Eduardo Lourenço vinda a lume no jornal Público (21/IV/1996) e,  que tomando o músico alemão como pretexto, é pouco menos que delicioso:

1. «É o mais belo começo que jamais foi escrito, o mergulhar mais fundo no oceano da música. As próprias aberturas de Beeth[oven] empalidecem junto deste juízo final, desta vinda tumultuosa e divina do arcanjo da ressurreição» (Tempo da Música, Música do Tempo, Gradiva, 2012, p. 107). 
 2. «“O senhor doutor está a ouvir ópera? Ai não, é música da câmara. Em Portugal só quando morre assim alguma personagem é que põem essa música da câmara. Tenho-lhe cá uma raiva!
Que Bach me perdoe. Estas reflexões de Lídia, se não são umas definições de música da câmara, são uma descrição de Portugal.»
E, assim, Lídia, na altura (o texto leva a data de 29 de Março de 1967) empregada doméstica na casa de Annie e do Monsieur Faria, passou a ser uma personagem nesta espécie de romance diário que é todo o ensaísmo de Eduardo Lourenço. 
Bach decerto perdoará.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Resposta no litoral do espanto

Trata-se, talvez, da primeira entrevista de fundo concedida por Eduardo Lourenço à imprensa, publicada no Suplemento Literário do matutino portuense Jornal de Notícias. No Natal de 1969 (a peça, de página e meia, saiu no dia 24 de Dezembro), o ensaísta não era, propriamente, um desconhecido no mundo literário português, mas a verdade é que as suas obrigações profissionais no estrangeiro nem sempre permitiam que acompanhasse de perto as incidências da vida cultural portuguesa. E, talvez mais grave, essa ausência não facilitava a divulgação do pensamento de um escritor cuja escrita (caligrafia incluída) nem sempre prima pela clareza e nitidez. Percebe-se, pois, a intenção de Serafim Ferreira ao apresentar Eduardo Lourenço ao leitor do diário nortenho.
JN 24/XII/1969, p. 18
A entrevista merece leitura atenta e cuidada, pois constitui uma óptima introdução à figura e à obra do na altura já autor das duas Heterodoxias. Durante a conversa o ensaísta  discorre sobre a sua condição: «um ensaísta é uma consciência infeliz, uma serpente que morde a sua própria cauda...», enquanto discute com António Sérgio e o seu Mestre Sílvio Lima. Analisa também o momento literário da época que, do seu ponto de vista, «possui uma excepcional vitalidade», destacando na poesia António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e, numa das poucas referências que há em toda sua obra ao autor de Os Passos em Volta, «o magma poético de Herberto Helder». No quadro da prosa, os nomes citados pelo entrevistado são José Cardoso Pires, João Palma-Ferreira, Maria Isabel Barreno, Luís Pacheco, Maria Judite de Carvalho e, num aceno de simpatia, que hoje se sabe tão característico da sua personalidade, o visitante de Vence menciona o livro do seu anfitrião Litoral do Espanto. Esta reflexão merece ser enquadrada com a discussão mais vasta que Eduardo Lourenço manterá com Nélson de Matos acerca do conceito de literatura desenvolta, mormente nas páginas da revista O Tempo e o Modo.

Capa do romance de Serafim Ferreira Litoral do Espanto
O contexto próximo da entrevista é, todavia, o da publicação do volume Sentido e a Forma da Poesia Neo-Realista (Ulisseia, 1968). Instado por Serafim Ferreira a pronunciar-se sobre a controvérsia suscitada pelo livro junto da crítica, Eduardo Lourenço afirma: «Os críticos têm sempre razão. E é bem feito para aqueles que preferem ler as críticas antes das obras. No meu caso aliás, a dupla e contrária crítica acertou em cheio: o livrinho é, na verdade, ao mesmo tempo (será proibido?) uma consideração positiva do neo-realismo e uma arrumação dele nas prateleiras da História onde está (e a minha geração com ele). O meu ensaio desejou-se, além de viagem nostálgica às paragens e paisagens de uma geração que foi (e é) a minha, um exorcismo. Escrevi-o para poder falar de outra coisa e para ajudar, se é possível, a minha geração a libertar-se dos seus fantasmas. Isto parecerá supérfluo ou anacrónico às novas gerações, mas elas mesmas exorcizarão mais tarde os seus fantasmas de hoje» (Jornal de Notícias, 24/XII/1969, p. 18).
Ler Eduardo Lourenço reconhece, ao folhear agora as longas páginas do II Volume das Obras Completas do ensaísta e que debatem incansavelmente a problemática neo-realista, que este trabalho de exorcização (mas não é toda ela, também, uma auto-exorcização?) ficou, por aqueles anos, bem longe ainda do seu encerramento.  E hoje? Nas próximas semanas talvez seja já possível começar a responder a esta e a outras perguntas.