domingo, 6 de julho de 2014

Aquela a que chamam apenas Sophia*

Sophia de Mello Breyner Andresen



Voam no firmamento os seus cabelos 
Nas suas mãos a voz do mar ecoa 
Usa as estrelas como uma coroa 
E atravessa sorrindo os pesadelos. 
Dia Do Mar 


Da música escreveu Hoffman que era «a essência misteriosa da natureza». Digamos, a canção de embalar do nosso inconsciente ou o nosso inconsciente como canção de embalar. Tudo isto se pode aplicar à poesia que nasceu da música, ou com ela, e conservou sempre essa umbilical referência à sua origem. Mas a poesia enquanto palavra-canto e palavra encantatória não é apenas como a música esse abandono ao mistério da natureza em nós, mas o mistério – ao mesmo tempo o do poeta e do universo que através dele é nomeado – em plena luz, ou naquilo que mais perto dela se aproxima. Poesia, mistério repassado de claridade, a poucos poetas contemporâneos se aplica tão óbvia e viva evidência, como a Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela que nós todos, seus amigos e leitores subjugados há muito, chamam apenas Sophia
Há nomes predestinados. Ou talvez nomes que foram para os seus ocasionais suportes uma luz íntima que os guiou com presciência para o lugar e a posse do que no nome mágico já se anunciava. Sophia – sabedoria mais funda do que o simples “saber”, conhecimento íntimo, ao mesmo tempo atónico e luminoso do essencial, comunhão silenciosa e sem cessar reverberante com tudo aquilo que, por original, a reflexão e seus intérminos labirintos deixarão intacto. Sibila, maga, desde a sua precoce aparição no nosso mundo de masculinos e altos combates poéticos, que Sophia encarnou essa vocação da simplicidade original recusada aos que se debruçam sem fim sobre o poço íntimo, onde se a verdade se esconde nunca volve à superfície senão envolta na túnica mortal de Narciso. 
Poesia de precoce e hoje de matura sabedoria, a de Sophia foi desde o início a de uma busca no espelho do mundo e num mundo de evidências aurorais, embora por isso mesmo ocultas, a evidência elementar do vento, da bruma, do mar, do jardim exposto e secreto, com a sua divina e opaca linguagem à espera que o poeta a descubra para aceder do seu próprio silêncio à revelação da sua íntima e indevassável evidência. 
Identificada como uma sílfide com a vida silenciosa e as metamorfoses dos elementos mais fluidos do universo, a poesia da Sophia ainda quase adolescente pôde parecer irreal, etérea, aristocrática, vaga tardia de um simbolismo tão fundo que nem de símbolos precisava, espécie de voo sem matéria através de experiências, evocações, presságios, de tão musical ressonância que bem audacioso seria quem descobrisse nela, para lá de rilkeanos acertos ao imponderável sentimento de si perante o universo e seu perfil indeciso, a amorosa das coisas e dos gestos que o nome justo e a visão clara subtraem à perpétua evanescência para que fiquem na nossa memória como anjos em perpétua e fulgurante vigília. Mas desde o início que a exigente nomeadora das aparências do mundo visível ou de ordem-desordem humana, que o Livro Sexto, Dual e Nome das Coisas consagrarão como uma espécie de voz anónima do ser que em cada ser se revela por uma plenitude à medida da ausência que dele nos separa, a si mesma se anunciava. Há poucos itinerários poéticos em língua portuguesa tão impregnados de positividade, original, tão de raiz canto ao rés de uma realidade aceite como esplendor efémero e eterno e por isso tão isentos de polemismo e intrínseca negatividade, como o de Sophia Mello Breyner. E simultaneamente, por esse mesmo autónomo florir, tão fiel inspiração adolescente que, à parte o natural êxtase ou terrífica anunciação com que recebe a revelação do original esplendor do mundo ou a sua súbita ocultação, jamais deixará de trilhar um caminho de serenidade e irradiante presença, confundindo, com felicidade sem exemplo, na trama da sua visão, o olhar equânime de Apolo Muságeta, deus do “primeiro dia inteiro e puro” e o olhar de fogo do Anjo, mensageiro da transcendência que a não divide mas a liberta:

Ele que indiferente olha e me escuta 
Sofrer, ou que feroz comigo luta, 
Ele que me entregara à solidão, 
Poisava a sua mão na minha mão. 
E, foi como se tudo se extinguisse, 
Como se o mundo inteiro se calasse, 
E o meu ser liberto enfim florisse, 
E um perfeito silêncio me embalasse.

Com uma simplicidade que Caeiro só em irónica visão pôde antever, Sophia harmonizou, como quem dança ou canta para si mesma no meio do mundo, aquela conciliação que desde Pascoaes sonhava unir Apolo e Cristo e depois se transfigurou em dispersão absoluta por obra e graça de Pessoa e em tormento e drama ou escolha candente de um dos pólos da nossa aventura espiritual em Régio e Torga e cujos ecos repercutem ainda no primeiro Jorge de Sena e no próprio Eugénio de Andrade. Deste combate ficaram nos poemas da jovem Sophia esparsas referências, mas recobertas pelo sentimento pânico, inocente e vibrante de uma identificação imemorial com o coração do mundo de que o seu será para sempre o iluminado centro e a incircunscrita circunferência:

As ondas quebravam uma a uma, 
Eu estava só com a areia e com a espuma 
Do mar que cantava só para mim.

Uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio, deve ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional. Talvez apenas a precoce e inaudita leitura de Homero em que, mais fascinada ainda que Nausica com a presença de Ulisses, terá absorvido a claridade grega que um dia arrancará à sua musa alguns dos mais altos poemas da língua portuguesa. Não haverá desde então nem «caos nem luto», nem tirania, nem treva humana, que a façam abdicar daquela «verdade e harmonia, caminho puro e absoluto» que adolescente grega do século XX visionará no rosto de Alexandre, nos passos de Dionisios, no arquipélago das Cyclades, conclusão mítica de um percurso que da ausência mesma remete para uma eterna e informulada plenitude. 
Como o dos seus mais ilustres companheiros de geração poética – Jorge de Sena, Blanc de Portugal – o espaço cultural de Sophia Mello Breyner não se recorta com aquela nitidez que tão cómoda é para arrumar os criadores nos túmulos das escolas e das correntes. Quando surge, a Presença está na sua máxima visibilidade e Pessoa um pouco na invisibilidade dela. Permeáveis aos ventos do largo ou sensíveis a formulários que lhes não convém, cada um desses poetas, de rara cultura todos eles, remarão sós entre os mais conhecidos arquipélagos, mas talvez nenhum ao mesmo tempo tão distante e tão conivente com vozes que na sua ecoam como distraída escolta, jamais como autêntica companhia. Torga, Rilke, Hölderlin, Shelley, camaradas de geração, são “atravessados” como espelhos transparentes por uma Alice que descobrira antes o seu reino claro e inacessível. E da avassaladora presença de Pessoa nos anos quarenta e cinquenta não se vislumbra na autora de Dia do Mar e de Coral, aparentemente, um sinal de conivência. Como poderia a maga do sentimento pânico e harmonioso do mundo encontrar-se com o “dividido”, a ausência feita voz, a multiplicidade sem centro, o «viajante no anverso»? Na topologia da nossa aventura poética, Sophia e Pessoa ocupam os pólos opostos e nesse sentido a poesia de Sophia, de uma maneira bem diversa e muito mais radical que a de poetas que conscientemente se quiseram outros que Pessoa, inaugura ou põe termo à longa travessia da consciência poética como consciência infeliz que começa em Antero e tem em Álvaro de Campos a sua expressão “épica”. Todavia, é sem surpresa que nas últimas obras de Sophia, a presença de Pessoa surge com uma insistência enigmática, como se Sophia sentisse a necessidade de integrar a sua sombra imersa ou a plenitude inversa que ela instalou na consciência poética contemporânea no seu mundo, exactamente à hora em que nele é mais fulgurante que nunca o sentimento da realidade, a sua fosforescência irresistível de ser que impõe ao poeta a sua exacta nomeação como dever de justiça, de justeza, de libertação e íntima transparência. Contradição? Ou nova maneira de iluminar às avessas a Ítaca imortal da realidade que jamais teve forças para a dispersar e dividir pelo seu tumulto mortal? 
É no Livro Sexto que Sophia esboça o primeiro retrato-diálogo com Pessoa, sem que a sua escrita, como sempre, deva a sua música e a sua forma ao invocado «deus de quatro rostos». Sophia louva-lhe «o canto justo que desdenha as sombras» e nesta posteridade formal se recupera nele. A esse título a poesia de Pessoa e de Sophia estão ambas inscritas no círculo de uma inegável classicidade. Só o surrealismo a quebrará de vez entre nós. Mas o grande aprofundamento surge com Dual, que em si podia ser já uma homenagem ao “dividido”, e é em Dual que Pessoa como Ricardo Reis é assumido e comungado, com uma perfeição gémea do original, pela visão de Sophia. O que não era pagão, mas o paganismo, é invocado como «irmão do que escrevi», não para lhe ensinar a estóica conformidade com a essência efémera da vida, apenas para lembrar lição de deuses ausentes e 
O seu olhar ensina o nosso olhar: 
Nossa atenção ao mundo 
É o culto que pedem

Estranha integração que no mesmo livro se prossegue, agora sob a égide evocadora de Campos, debruçada «sobre o rosto do real – mais preciso e mais novo do que imaginado», real ofuscante do mundo grego que lhe traz aos lábios o seu nome, o seu «ambíguo nome», como o de Odysseus Persona: 
O teu destino deveria ter passado neste porto 
Onde tudo se torna impessoal e livre 
Onde tudo é divino como convém ao real.

Dois anos depois, na mesma Grécia real e mítica, Sophia completa o mais profundo retrato de Pessoa que alguma vez foi tentado e com ele abre o seu último livro, O Nome das Coisas, que se nada mais contivesse bastaria para colocar a sua autora e a inatenta obra que provisoriamente culmina entre as maiores presenças líricas nossas contemporâneas. 
Através da evocação de Pessoa é o itinerário inteiro de Sophia, a sua específica e original visão que se purifica na lâmina da mais aguda consciência poética, não para se deixar observar por ela mas a situar e situar-se como não errante na errância do nosso Ulisses que nunca regressou a Ítaca por nunca dela ter partido. Jamais se revisitou, por dentro, a aventura sem fim de Fernando Pessoa, poesia e vida confundidas, como nesse admirável poema Cíclades. Não é um texto escrito à margem de um texto. Pessoa, mas um Pessoa-texto que é a um tempo foco e claridade, espelho e imagem, leito e rio, platónica e sublime visão da ideia de Pessoa, oferecida como arquipélago imaginário e real aos nossos olhos de alma incrédulos. Cada estrofe é como uma estátua solitária e silenciosa que espera da seguinte a palavra do enigma e lha devolve, e esse povo de estátuas é a impossível e para sempre inexistente estátua daquele que foi ninguém para ser tudo em todos e todo em tudo, imparcial como a neve, disperso como o fogo. No espaço insituável das evidências perdurará para sempre de Pessoa este retrato que acaso só uma mulher e um grande poeta podiam conceber oferecendo a sua disponibilidade maternal ao que não chegou a tocar-se como existente, «nascido depois quando em verdade a verdade se gastara» e «o caminho da Índia já fora descoberto» deixando a quem viesse, e ele foi o primeiro que veio depois, o percurso «no avesso», a viagem «incessante do inverso» que Sophia invoca. Na Grécia irreal donde procede o olhar imaginariamente real de Alberto Caeiro, Sophia se reconstrói em positivo no negativo que o arquipélago submetido àquela Unidade que Pessoa nunca conheceu senão como infinita nostalgia dela revela ao poeta da presença ao mundo como presença que ela mesma é:
Porém obstinada eu invoco – ó dividido
O instante que te unisse 
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste

“Anima” e “animus” se fundem no texto de Sophia, convertido em texto-Pessoa e texto de Pessoa convertido em texto-Sophia. Instalada na diferença que de Pessoa a separa e une, Sophia restitui a túnica dilacerada do imaginário português, a sua fragmentação sem remédio, na sua poesia unificante, fazendo dos plurais rostos de um continente disperso e inscrito em ausência em cada ilha, a Ítaca luminosa que desde sempre lhe foi barco e cais divino:
Pudesse o instante da festa romper o teu luto 
Ó viúvo de ti mesmo 
E que ser e estar coincidissem 
No um da boda.

Pessoa não viveu esta festa nem Sophia por ele a revive. Mas fazendo da claridade frontal do lugar grego, da noite nele renovada, do irreal vivido como real e do real bebido como irreal o corpo místico, a presença real de Pessoa, Sophia resumiu num só poema o seu destino de Penélope, a si mesma fiel, tecedora do mais alto dia e da mais viva esperança no meio da noite, nossa e da vida.




* Com o título  “Para um retrato de Sophia” o texto de Eduardo Lourenço que hoje aqui se republica serviu de prefácio à quarta edição aumentada de uma célebre Antologia de Sophia de Mello Breyner Andresen (Lisboa, Moraes Editores, 1975, 4ª ed. aumentada, 1978, pp. I-VII). O estudo aparece com a seguinte data: Vence, 17 de Fevereiro de 1978. Na semana em que se realizou a transladação da grande escritora portuguesa para o Panteão Nacional, Ler Eduardo Lourenço homenageia assim Sophia.

sábado, 5 de julho de 2014

Levar de um lado para o outro o melhor de cada sítio

Antonio Sáez Delgado - Prémio Eduardo Lourenço 2014 (foto CEI)

  Na passada quinta-feira, ao fim da tarde, a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço na Guarda acolheu uma sessão que ficará para sempre na memória de todos aqueles que tiveram a oportunidade de nela participar. Tratava-se da entrega do Prémio Eduardo Lourenço, iniciativa do Centro de Estudos Ibéricos (CEI), que, na sua décima edição, distinguiu este ano o professor e investigador da Universidade de Évora, tradutor e poeta extremenho Antonio Sáez Delgado. Intervieram na cerimónia, realizada na sala Tempo e Poesia da Biblioteca, Álvaro Amaro (Presidente da Câmara Municipal da Guarda), Mariano Esteban de Vega (Vice-Reitor da Universidad de Salamanca), João Gabriel Silva (Reitor da Universidade de Coimbra) que nas suas, breves mas ricas, alocuções elogiaram o premiado, sublinhando a exemplaridade do seu trabalho na cooperação cultural entre Portugal e Espanha. 

Eduardo Lourenço falando sobre o poeta Antonio Sáez na presença do premiado e do Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva (foto CEI)
Tomou depois a palavra Eduardo Lourenço que, após aludir ao facto de ele mesmo ser, tal como o galardoado, um raiano, se debruçou, com o brilho e a sabedoria habituais, sobre Antonio Sáez, o poeta, referindo-se sobretudo aos livros Ruinas e Yo menos Yo, cuja importância estética não deixou de evidenciar. Em seguida, Margarida Almeida Amoedo e João Tiago Lima, do Departamento de Filosofia da Universidade de Évora (entidade que propôs a candidatura vencedora), fizeram o elogio do candidato, recorrendo também à leitura de vários passos da obra de Antonio Sáez, como a que agora se recupera e que inspirou o título desta crónica: 
«Pasar media semana en España y la otra media en Portugal tiene sus ventajas. También las tiene atravesar cada día la frontera para regresar a dormir al país donde nacieron tus padres. Compro el pan, las frutas, el café y las verduras en Portugal. La leche, los frutos secos y los caramelos en España. Uno se imagina haciendo con placer aquello que antes se llamaba traficar: llevar de un lado a otro lo mejor de cada sitio. Los recuerdos son también otra forma de tráfico. De cada lado nos llevamos, sin pasaporte ni explicaciones, aquello que más nos gusta. (...) Cuando menos lo esperamos, nos atenaza la angustia: español en Portugal, medio portugués en España. El miedo es el policía de la conciencia» (En otra patria. Gijón: Llibros del Pexe, 2005, pp. 26-27).

O discurso de Antonio Sáez foi muitíssimo aplaudido (foto CEI)
 Após a entrega do Prémio, Antonio Sáez tomou a palavra e a sessão atingiu, sem dúvida, o seu momento mais alto. Lendo, com uma firmeza que não conseguiu esconder a emoção, um discurso extraordinário, Antonio Sáez deu conta da sua condição de «espanhol em Portugal e meio português em Espanha» e recuperou a concepção pessoana de fronteira que se, por um lado, separa, por outro, pode também aproximar. O texto de Antonio Sáez, cuja publicação é um imperativo cívico urgente e absoluto, foi muitíssimo aplaudido pelos presentes (onde, entre outros, se destacava a presença do Senhor Embaixador de Espanha em Portugal e da Reitora da Universidade de Évora, Ana Costa Freitas) e, como é óbvio, não se deixa resumir no espaço desta nota, que termina com o imenso júbilo de quem pôde viver um momento singular num entardecer inolvidável na cidade da Guarda.
No link seguinte, os visitantes deste blogue poderão ainda acompanhar uma reportagem televisiva sobre o evento e onde Eduardo Lourenço e Antonio Sáez Delgado são entrevistados: http://v2.videos.sapo.pt/4azNscdb8A2NogyAk4np

Família, Amigos e Colegas da Universidade de Évora de Antonio Sáez na Guarda
(foto Ler Eduardo Lourenço)



domingo, 29 de junho de 2014

Incomodidade e Humor


Comemora-se amanhã o centenário do nascimento de Joaquim Namorado (Alter do Chão, 30 de Junho de 1914 – Coimbra, 29 de Dezembro de 1986), uma das figuras mais relevantes do que se convencionou chamar neo-realismo coimbrão. Licenciado em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, foi professor no ensino particular e, após o 25 de Abril, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da sua Universidade. Como poeta e crítico, colaborou em diversas publicações, a saber: Cadernos da Juventude, Altitude, Seara Nova, Vértice, O Diabo, Sol Nascente, entre outras. Embora tal possa parecer surpreendente, Joaquim Namorado chegou até a colaborar com a revista presença, onde publica em Março de 1938, o poema “Navegação à Vela”. Publicou os seguintes títulos de poesia: Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945) e A Poesia Necessária (1966).
Segundo António Pedro Pita, em muito recente texto de introdução ao II Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço (em breve disponível nas livrarias), o capítulo de Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista a que o ensaísta chamou “Joaquim Namorado ou a epopeia impossível” «permanece ainda hoje o ensaio mais compreensivo da poesia do autor de Incomodidade». Se assim for, poder-se-á avançar com duas explicações. Será o texto de Eduardo Lourenço um ensaio dificilmente ultrapassável? Será que à poesia de Joaquim Namorado não tem sido prestada a devida atenção? Talvez se passe um pouco dessas duas coisas. E, por isso, vale com certeza a pena reler o que, nos anos Sessenta, o ensaísta heterodoxo, e que por isso nunca foi propriamente neo-realista, escreveu sobre um poeta que, pelo menos em alguns dos momentos da sua obra, soube condensar «toda a mitologia neo-realista»: «Como os cavaleiros nos torneios, Namorado entra na liça anunciando o seu dístico e a sua Dama. É a sua uma poesia clara, imperativa, sem simbolismos complicados, nem complexos, sem esteticismo, mas não sem perfeita consciência dessa voluntária ausência pois ela lhe servirá precisamente de tema». Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Lourenço não deixa de sublinhar como Joaquim Namorado fui tudo menos insensível a um humor de recorte quase surrealista. É, sem dúvida, o caso da tão breve como inesquecível “Aventura nos mares do sul”: «Eu nunca fui lá».

Também por isso é possível dizer com justeza que o lançamento de Sentido e Forma da Poesia Neo-realista e outros Ensaios é ainda uma outra maneira de homenagear Joaquim Namorado, de quem Eduardo Lourenço, por ocasião da morte do poeta de Incomodidade, chegou a afirmar ser uma espécie de «completa antítese» do famoso crítico oriundo da presença, João Gaspar Simões (“O Sacerdote da Literatura” [Depoimento sobre João Gaspar Simões], Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 236, Lisboa, 12/I/1987, p. 6).

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sobre "La Passion de l'Humain"

por José Cândido Oliveira Martins*


José Cândido Oliveira Martins

 Em Outubro de 2011, foi organizada uma merecidíssima homenagem a Eduardo Lourenço, reunindo um assinalável número de especialistas da obra do reconhecido ensaísta. A iniciativa pertenceu à Universidade de Paris – Sorbonne (Paris IV), através do centro de investigação CRIMIC, e em associação com a Delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em França.
Sob a forma de colóquio internacional, a referida homenagem materializou-se no presente volume, tendo ambos a dinâmica organização da investigadora Maria Graciete Besse, que assina a indispensável “Note liminaire” (p. 9-15) deste livro, em honra da figura maior da cultura portuguesa. Tendo publicado uma obra muito influente, iniciada em 1949 com o ensaio Heterodoxia e prolongada até aos nossos dias em cerca de duas dezenas de títulos,  o impacto de Eduardo Lourenço atravessou as fronteiras nacionais, sobretudo no espaço da lusofonia. Em Portugal, além de homenagens diversas, o autor tem sido objecto de vários estudos académicos, bem como de volumes monográficos de revistas.
Agrupando tematicamente as catorze intervenções, de estudiosos provenientes de diversos países, o volume estrutura-se em cinco partes,  “L’intellectuel Eduardo Lourenço”; “La question de l’Europe”; “Repenser l’identité portugaise”; “La fascination de la littérature”; e “La réjouissance de la pensée”. De permeio, deparamo-nos com um “Cahier de photographies d’Eduardo Lourenço / Lettre inédite”, endereçada a Miguel Torga e datada de 1957 (pp. 113-135); e a terminar, uma breve intervenção autor homenageado, seguida de um breve quadro do seu percurso biográfico (pp. 219-232).
Como sugerido, esta obra procura abarcar a riqueza temática da produção ensaística de Eduardo Lourenço, assinalando algumas das grandes dominantes da sua heterodoxa escrita reflexiva, marcada “par la passion de l’humain”, como assinala a organizadora.  O reconhecimento de Eduardo Lourenço fora de Portugal é exemplificado por Cleonice Berardinelli, entre outros. Lembrando a estada do ensaísta no Brasil e ao salientar a admiração suscitada pelo pensamento do intelectual homenageado, através da relevância ímpar da sua vocação ensaística para os estudiosos da cultura e da literatura portuguesas, a distinta investigadora carioca rememora emotivamente a atribuição do doutoramento honoris causa a Eduardo Lourenço pela Univ. Federal do Rio de Janeiro em 1995.
Num segundo momento, destaca-se o pensamento do escritor sobre a questão da Europa, axial no labor do ensaísta. Desde logo, toda a reflexão crítica sobre o projeto europeu e o seu potencial, nomeadamente em contextos de crise, revela-se oportuníssima e fecunda, nas palavras de António Vitorino, ex-Comissário Europeu. Ao mesmo tempo, não é possível pensar a imagem da Europa idealizada e plural fora de uma mitografia específica, aliás essencial na interrogação ontológica sobre Portugal e a sua hiper-identidade nacionalista (Miguel Real). De facto, Eduardo Lourenço desenvolveu um pensamento “euro-excentrique”, destacando a “mythologie européenne”, ao mesmo tempo, ao pensando o diálogo assimétrico entre a utopia europeia e o percurso do Portugal contemporâneo – ler Portugal “en forme de quiasme” ao espelho da Europa (Roberto Vecchi). Neste domínio, é possível demarcar fases de evolução do pensamento lourenciano: primeira, uma Europa “pensée en fonction du Portugal”, a partir de uma matriz iluminista e da visão pessimista da Geração de 70; depois, um pensamento “autonome sur l’Europe”, nas palavras de José Eduardo Franco: “Eduardo Lourenço est donc l’illustre héritier de ce courant qui cherche à établir le diagnostic et l’analyse de la situation portugaise face au paradigme progressiste de l’Europe” (p. 72).



Consabidamente, outra das linhas de força do ensaísmo de Eduardo Lourenço detém-se continuadamente sobre a questão fundamental da identidade portuguesa. Para Guilherme d’Oliveira Martins,  o pensamento lourenciano sobre a “aventura portuguesa” é indissociável da herança romântico-oitocentista e, em particular, da influente Geração de 70, ao equacionar os mitos configuradores da ideia de “Portugal como destino”. Neste contexto, e a partir do desafio de Manuel de Oliveira, há quem se interrogue sobre o ensaísmo de Eduardo Lourenço enquanto “écrivain postmoderne”, na sua obsessão de explicar Portugal e a questão identitária, em contraponto com Espanha, como o faz João Tiago Pedroso de Lima, um dos responsáveis pela edição crítica, em curso, da obra completa de Eduardo Lourenço.
As sucessivas indagações lourencianas em torno do “labyrinthe de l’identité” inserem-no numa “longue et três riche tradition de l’éssai d’auto-gnose, commun parmi les grandes figures du monde ibéro-américain” (p. 100), como destaca Onésimo Teotónio de Almeida. Porém, seguindo a fundamentada argumentação deste investigador, impõe-se a necessidade de desfazer alguns equívocos; e, sobretudo, de não vincular o ensaísmo de Eduardo Lourenço a um contestável pensamento essencialista sobre a cultura ou “filosofia portuguesa” – associada a certos intelectuais conservadores –, como parece ser a tentação de certa perspetiva “científica”, ideológica e crítica da sociologia atual. Em todo o caso, neste domínio, há diferenças significativas entre os pontos de vista de Boaventura Sousa Santos ou de Ingemai Larsen, entre outros.
Um outro filão que manifestamente atravessa o pensamento de Eduardo Lourenço é o seu fascínio pela literatura, destacando-se alguns autores e obras numa recorrente biblioteca afetiva – de Camões a Pessoa, passando Eça Queirós, Antero, Oliveira Martins e tantos outros, sem esquecer vários contemporâneos. Ora, entre essas figuras tutelares, avulta Camões, mais o épico do que o lírico. Ao longo de uma vintena de ensaios, de 1967 a 2008, como analisado por Ángel Marcos de Dios, sobressai a figura do “essayiste  de la vie portugaise quotidienne et de sa conscience civique” (p. 140), em que Camões é indissociável do ensaísmo lourenciano sobre a consciência e identidade portuguesa, bem como sobre a dimensão iberista, presente quer no autor de Os Lusíadas, quer no próprio Eduardo Lourenço. Enfim, das revisitações do Poeta e do Livro, sobressai a figura de “Camões, héros, image et héraut d’un peuple entier” e sobretudo “la conscience aiguë de son temps historique comme le temps de l’agonie des propres valeurs heroïques qui lui servaient de référence”  (pp. 145, 153).
O universo pessoano ressalta como outra das grandes obsessões do ensaísta,  constituindo objeto de eloquente reflexão para Robert Bréchon. Para este reconhecido estudioso, que nos deixou em 2012, evoca o seu percurso de devoção pela obra de Pessoa, a partir de Pessoa Revisitado.  Segundo Bréchon, o ensaísmo de Eduardo Lourenço operou uma profunda revolução hermenêutica nos estudos pessoanos, pela extraordinária perspicácia das suas propostas críticas, desde o “drama em gente” heteronímico à leitura do Livro do Desassossego – e tudo servido “d’une finesse et d’une justesse parfaite” (p. 161).
Eduardo Lourenço revelou-se também um agudo crítico de poesia, quer sobre a sua trindade poética (Camões, Antero e Pessoa), quer acerca de outras vozes. Sobretudo a partir de Tempo e Poesia, configura-se uma singular “poética” de acentuada argúcia e densa “expression philosophique”, como ilustrado por Nuno Júdice. Poesia concebida como palavra intemporal e enigmática, expressão do mistério e do silêncio e, sobretudo, como “iluminação” ou fonte de claridade, nomeadamente no contexto específico do “tempo português”: “(...) la question du temps de la poésie dans la relation avec le temps de l’Histoire: une relation toujours paradoxale car un rapprochement excessif détruit solvent l’autonomie du poétique” (p. 172). Igualmente Vasco Graça Moura, sob a sugestão de R. M. Rilke, destaca a enriquecedora experiência da leitura da crítica poética de Eduardo Lourenço, sempre inovadora ao propor “un dialogue incessante avec les arts de la parole d’autruit”, desvendando sempre “dimensions insoupçonnées” (p. 176).
Por fim, “penseur fascinant et fasciné” (na palavra de Mª Graciete Besse), o ensaísmo do autor de Nós e a Europa, ou as duas razões filia-se numa multissecular matriz europeia (de Montaigne e Bacon), já que o seu pensamento, historicamente inscrito numa moderna e humanista República das Letras – como exposto por Helena Buescu – se mostra umbilicalmente “héritère d’une longue lignée de pensée de souche européenne, caractérisée par son ouverture médiatrice et sa capacite dialogale” (p. 186). Vocação congenialmente ensaística, em diálogo e revisitação crítica constante, numa permanente tensão e heterodoxia argumentativa, “Eduardo Lourenço revisite et transforme [la tradition], par son constante inquietude réflexive” (p. 189).
Também não poderia faltar uma reflexão que destacasse o contributo do escritor para o pensamento pós-colonial, a partir da revisão crítica sobre conceitos de identidade, imaginário e mito que plasmaram certa perspetiva do Portugal imperial e pós-imperial. Para Maria Manuel Baptista, uma das vertentes do ensaísmo lourenciano reside justamente na análise e desconstrução de certa “mythologie impériale” cara ao Estado Novo, “mythes de peuple découvreur, non violant, non colonialiste, civilisateur et, surpassant toute possibilité de racisme, capable de se mêler aux races autochtones, pour créer le mulâtre” (p. 199). Assim se questiona expressamente a enraizada ideia cara ao regime, de “génie civilisateur des Portugais”, legitimando de forma reiterada, na retórica oficial do salazarismo, a sua missão civilizadora e evangelizadora. O mesmo afã desmitificador estende-se à ideia de uma “décolonisation exemplaire”, na hora de regresso à original casa lusitana.
Do que fica sugerido, pode concluir-se estarmos perante um volume de significativa e justíssima homenagem de estudiosos da obra lourenciana, por um lado; e por outro, diante de uma obra que, a partir de agora, constituirá importante referência na mais atualizada bibliografia crítica sobre o pensamento absolutamente fundamental de Eduardo Lourenço. 

* José Cândido Oliveira Martins  é Professor Associado na Universidade Católica Portuguesa, onde ensina  e investiga nas áreas de Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, entre outras. O texto que aqui hoje se apresenta é a recensão crítica a Eduardo Lourenço et la Passion de l‘Humain, Paris, Éditions Convivium Lusophone, 2013 (232 pp.) publicada em Colóquio-Letras, 186, Maio/Junho 2014, pp. 269-272. Refira-se que este volume organizado por  Maria Graciete Besse, e do qual já se falou anteriormente neste blog,  está praticamente esgotado, estando prevista uma nova edição.  
Ler Eduardo Lourenço agradece a simpática colaboração de  José Cândido Oliveira Martins.