segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sobre "La Passion de l'Humain"

por José Cândido Oliveira Martins*


José Cândido Oliveira Martins

 Em Outubro de 2011, foi organizada uma merecidíssima homenagem a Eduardo Lourenço, reunindo um assinalável número de especialistas da obra do reconhecido ensaísta. A iniciativa pertenceu à Universidade de Paris – Sorbonne (Paris IV), através do centro de investigação CRIMIC, e em associação com a Delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em França.
Sob a forma de colóquio internacional, a referida homenagem materializou-se no presente volume, tendo ambos a dinâmica organização da investigadora Maria Graciete Besse, que assina a indispensável “Note liminaire” (p. 9-15) deste livro, em honra da figura maior da cultura portuguesa. Tendo publicado uma obra muito influente, iniciada em 1949 com o ensaio Heterodoxia e prolongada até aos nossos dias em cerca de duas dezenas de títulos,  o impacto de Eduardo Lourenço atravessou as fronteiras nacionais, sobretudo no espaço da lusofonia. Em Portugal, além de homenagens diversas, o autor tem sido objecto de vários estudos académicos, bem como de volumes monográficos de revistas.
Agrupando tematicamente as catorze intervenções, de estudiosos provenientes de diversos países, o volume estrutura-se em cinco partes,  “L’intellectuel Eduardo Lourenço”; “La question de l’Europe”; “Repenser l’identité portugaise”; “La fascination de la littérature”; e “La réjouissance de la pensée”. De permeio, deparamo-nos com um “Cahier de photographies d’Eduardo Lourenço / Lettre inédite”, endereçada a Miguel Torga e datada de 1957 (pp. 113-135); e a terminar, uma breve intervenção autor homenageado, seguida de um breve quadro do seu percurso biográfico (pp. 219-232).
Como sugerido, esta obra procura abarcar a riqueza temática da produção ensaística de Eduardo Lourenço, assinalando algumas das grandes dominantes da sua heterodoxa escrita reflexiva, marcada “par la passion de l’humain”, como assinala a organizadora.  O reconhecimento de Eduardo Lourenço fora de Portugal é exemplificado por Cleonice Berardinelli, entre outros. Lembrando a estada do ensaísta no Brasil e ao salientar a admiração suscitada pelo pensamento do intelectual homenageado, através da relevância ímpar da sua vocação ensaística para os estudiosos da cultura e da literatura portuguesas, a distinta investigadora carioca rememora emotivamente a atribuição do doutoramento honoris causa a Eduardo Lourenço pela Univ. Federal do Rio de Janeiro em 1995.
Num segundo momento, destaca-se o pensamento do escritor sobre a questão da Europa, axial no labor do ensaísta. Desde logo, toda a reflexão crítica sobre o projeto europeu e o seu potencial, nomeadamente em contextos de crise, revela-se oportuníssima e fecunda, nas palavras de António Vitorino, ex-Comissário Europeu. Ao mesmo tempo, não é possível pensar a imagem da Europa idealizada e plural fora de uma mitografia específica, aliás essencial na interrogação ontológica sobre Portugal e a sua hiper-identidade nacionalista (Miguel Real). De facto, Eduardo Lourenço desenvolveu um pensamento “euro-excentrique”, destacando a “mythologie européenne”, ao mesmo tempo, ao pensando o diálogo assimétrico entre a utopia europeia e o percurso do Portugal contemporâneo – ler Portugal “en forme de quiasme” ao espelho da Europa (Roberto Vecchi). Neste domínio, é possível demarcar fases de evolução do pensamento lourenciano: primeira, uma Europa “pensée en fonction du Portugal”, a partir de uma matriz iluminista e da visão pessimista da Geração de 70; depois, um pensamento “autonome sur l’Europe”, nas palavras de José Eduardo Franco: “Eduardo Lourenço est donc l’illustre héritier de ce courant qui cherche à établir le diagnostic et l’analyse de la situation portugaise face au paradigme progressiste de l’Europe” (p. 72).



Consabidamente, outra das linhas de força do ensaísmo de Eduardo Lourenço detém-se continuadamente sobre a questão fundamental da identidade portuguesa. Para Guilherme d’Oliveira Martins,  o pensamento lourenciano sobre a “aventura portuguesa” é indissociável da herança romântico-oitocentista e, em particular, da influente Geração de 70, ao equacionar os mitos configuradores da ideia de “Portugal como destino”. Neste contexto, e a partir do desafio de Manuel de Oliveira, há quem se interrogue sobre o ensaísmo de Eduardo Lourenço enquanto “écrivain postmoderne”, na sua obsessão de explicar Portugal e a questão identitária, em contraponto com Espanha, como o faz João Tiago Pedroso de Lima, um dos responsáveis pela edição crítica, em curso, da obra completa de Eduardo Lourenço.
As sucessivas indagações lourencianas em torno do “labyrinthe de l’identité” inserem-no numa “longue et três riche tradition de l’éssai d’auto-gnose, commun parmi les grandes figures du monde ibéro-américain” (p. 100), como destaca Onésimo Teotónio de Almeida. Porém, seguindo a fundamentada argumentação deste investigador, impõe-se a necessidade de desfazer alguns equívocos; e, sobretudo, de não vincular o ensaísmo de Eduardo Lourenço a um contestável pensamento essencialista sobre a cultura ou “filosofia portuguesa” – associada a certos intelectuais conservadores –, como parece ser a tentação de certa perspetiva “científica”, ideológica e crítica da sociologia atual. Em todo o caso, neste domínio, há diferenças significativas entre os pontos de vista de Boaventura Sousa Santos ou de Ingemai Larsen, entre outros.
Um outro filão que manifestamente atravessa o pensamento de Eduardo Lourenço é o seu fascínio pela literatura, destacando-se alguns autores e obras numa recorrente biblioteca afetiva – de Camões a Pessoa, passando Eça Queirós, Antero, Oliveira Martins e tantos outros, sem esquecer vários contemporâneos. Ora, entre essas figuras tutelares, avulta Camões, mais o épico do que o lírico. Ao longo de uma vintena de ensaios, de 1967 a 2008, como analisado por Ángel Marcos de Dios, sobressai a figura do “essayiste  de la vie portugaise quotidienne et de sa conscience civique” (p. 140), em que Camões é indissociável do ensaísmo lourenciano sobre a consciência e identidade portuguesa, bem como sobre a dimensão iberista, presente quer no autor de Os Lusíadas, quer no próprio Eduardo Lourenço. Enfim, das revisitações do Poeta e do Livro, sobressai a figura de “Camões, héros, image et héraut d’un peuple entier” e sobretudo “la conscience aiguë de son temps historique comme le temps de l’agonie des propres valeurs heroïques qui lui servaient de référence”  (pp. 145, 153).
O universo pessoano ressalta como outra das grandes obsessões do ensaísta,  constituindo objeto de eloquente reflexão para Robert Bréchon. Para este reconhecido estudioso, que nos deixou em 2012, evoca o seu percurso de devoção pela obra de Pessoa, a partir de Pessoa Revisitado.  Segundo Bréchon, o ensaísmo de Eduardo Lourenço operou uma profunda revolução hermenêutica nos estudos pessoanos, pela extraordinária perspicácia das suas propostas críticas, desde o “drama em gente” heteronímico à leitura do Livro do Desassossego – e tudo servido “d’une finesse et d’une justesse parfaite” (p. 161).
Eduardo Lourenço revelou-se também um agudo crítico de poesia, quer sobre a sua trindade poética (Camões, Antero e Pessoa), quer acerca de outras vozes. Sobretudo a partir de Tempo e Poesia, configura-se uma singular “poética” de acentuada argúcia e densa “expression philosophique”, como ilustrado por Nuno Júdice. Poesia concebida como palavra intemporal e enigmática, expressão do mistério e do silêncio e, sobretudo, como “iluminação” ou fonte de claridade, nomeadamente no contexto específico do “tempo português”: “(...) la question du temps de la poésie dans la relation avec le temps de l’Histoire: une relation toujours paradoxale car un rapprochement excessif détruit solvent l’autonomie du poétique” (p. 172). Igualmente Vasco Graça Moura, sob a sugestão de R. M. Rilke, destaca a enriquecedora experiência da leitura da crítica poética de Eduardo Lourenço, sempre inovadora ao propor “un dialogue incessante avec les arts de la parole d’autruit”, desvendando sempre “dimensions insoupçonnées” (p. 176).
Por fim, “penseur fascinant et fasciné” (na palavra de Mª Graciete Besse), o ensaísmo do autor de Nós e a Europa, ou as duas razões filia-se numa multissecular matriz europeia (de Montaigne e Bacon), já que o seu pensamento, historicamente inscrito numa moderna e humanista República das Letras – como exposto por Helena Buescu – se mostra umbilicalmente “héritère d’une longue lignée de pensée de souche européenne, caractérisée par son ouverture médiatrice et sa capacite dialogale” (p. 186). Vocação congenialmente ensaística, em diálogo e revisitação crítica constante, numa permanente tensão e heterodoxia argumentativa, “Eduardo Lourenço revisite et transforme [la tradition], par son constante inquietude réflexive” (p. 189).
Também não poderia faltar uma reflexão que destacasse o contributo do escritor para o pensamento pós-colonial, a partir da revisão crítica sobre conceitos de identidade, imaginário e mito que plasmaram certa perspetiva do Portugal imperial e pós-imperial. Para Maria Manuel Baptista, uma das vertentes do ensaísmo lourenciano reside justamente na análise e desconstrução de certa “mythologie impériale” cara ao Estado Novo, “mythes de peuple découvreur, non violant, non colonialiste, civilisateur et, surpassant toute possibilité de racisme, capable de se mêler aux races autochtones, pour créer le mulâtre” (p. 199). Assim se questiona expressamente a enraizada ideia cara ao regime, de “génie civilisateur des Portugais”, legitimando de forma reiterada, na retórica oficial do salazarismo, a sua missão civilizadora e evangelizadora. O mesmo afã desmitificador estende-se à ideia de uma “décolonisation exemplaire”, na hora de regresso à original casa lusitana.
Do que fica sugerido, pode concluir-se estarmos perante um volume de significativa e justíssima homenagem de estudiosos da obra lourenciana, por um lado; e por outro, diante de uma obra que, a partir de agora, constituirá importante referência na mais atualizada bibliografia crítica sobre o pensamento absolutamente fundamental de Eduardo Lourenço. 

* José Cândido Oliveira Martins  é Professor Associado na Universidade Católica Portuguesa, onde ensina  e investiga nas áreas de Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, entre outras. O texto que aqui hoje se apresenta é a recensão crítica a Eduardo Lourenço et la Passion de l‘Humain, Paris, Éditions Convivium Lusophone, 2013 (232 pp.) publicada em Colóquio-Letras, 186, Maio/Junho 2014, pp. 269-272. Refira-se que este volume organizado por  Maria Graciete Besse, e do qual já se falou anteriormente neste blog,  está praticamente esgotado, estando prevista uma nova edição.  
Ler Eduardo Lourenço agradece a simpática colaboração de  José Cândido Oliveira Martins.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Repensar o colonialismo

Margarida Calafate Ribeiro (imagem recolhida em http://angnovus.wordpress.com)
Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi acabam de organizar mais um volume da colecção que a editora Gradiva tem dedicado, desde 1998, às obras de Eduardo Lourenço, publicando (ou recuperando edições há muito esgotadas), à media de um volume por ano, diversos títulos do ensaísta. O nome do livro agora dado à estampa, Do Colonialismo como Nosso Impensado, poderia indiciar uma novidade absoluta. Em rigor, não se trata bem disso, pois o leitor dispõe agora, isso sim,  de uma reunião de ensaios (uns dispersos e outros completamente inéditos, recolhidos no Acervo de Eduardo Lourenço) que se juntam em torno do opúsculo Situação Africana e Consciência Nacional (1976), que, desde há muito se, encontrava indisponível no mercado.
Essa é, de facto, a primeira boa notícia pois, como assinala Eduardo Lourenço no belo texto introdutório, «os quarenta anos de atraso com que estas páginas são publicadas, ou reeditadas, não são, paradoxalmente, um anacronismo, como poderiam aparentar» (p. 11). Com efeito, a reflexão que o autor de O Fascismo Nunca Existiu dedicou à colonização, à descolonização e ao que hoje se chama mundo lusófono são, não apenas peças essenciais da sua obra, como algumas das páginas mais lúcidas que, em língua portuguesa, se escreveram sobre cada um dos três temas e, talvez mais importante, sobre o modo eles se articulam entre si. 
Roberto Vecchi (foto Ler Eduardo Lourenço)
Em breve e rigorosa nota editorial que integra este volume, Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi explicam os critérios usados na escolha dos textos aqui incluídos e, ao mesmo tempo, propõem uma hipótese hermenêutica que confere, sem dúvida, uma maior legibilidade global a Do Colonialismo como Nosso Impensado que, por outro lado, muito ganha em ser relacionado com vários capítulos de A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia (Lisboa, Gradiva, 1999 e São Paulo, Companhia das Letras, 2001).
Ler Eduardo Lourenço nada tem a apontar quanto à metodologia seguida, nem quanto aos seus pressupostos que, de resto, aparecem muito bem explicitados. A qualidade dos dois investigadores, a quem se deve, por exemplo, o notável trabalho realizado no âmbito da Cátedra Eduardo Lourenço na Universidade de Bolonha, tem aqui nova e eloquente demonstração. Ainda assim, e numa primeira leitura de Do Colonialismo como Nosso Impensado, um pormenor não deixa de saltar à vista. É que parece complicado compreender que alguns dos textos que constam deste livro tenham sido já publicados em outros volumes da colecção Gradiva, prática (desnecessária, sobretudo se atendermos ao volume e à riqueza consideráveis da produção ensaística de Eduardo Lourenço) que, de resto, sucedera também em volumes anteriores. No livro de 2014, esse é o caso, entre outros, de “A Africanização”, ensaio publicado no Expresso, em Agosto de 1975 e reimpresso depois no livro Os Militares e o Poder (1975). Ora, Os Militares e o Poder conheceu uma segunda edição na Gradiva em ... 2013! Ou seja, quem tiver comprado os dois últimos volumes desta colecção depara-se, por duas vezes, com “A Africanização”, o que talvez pudesse ter sido evitado. Dir-se-á que “A Africanização” se enquadra perfeitamente neste volume e isso é verdade, como, de resto, o seria talvez para outros textos tematicamente afins que aqui não aparecem e que também se adequariam.
Mas o essencial é que, com Do Colonialismo como Nosso Impensado, poderão os leitores e admiradores de Eduardo Lourenço regozijar-se com a divulgação em estreia de vários belíssimos ensaios sobre a (des)colonização, de que se destacam talvez “Ideologia multirracialista ou defesa do Apartheid?” (curto texto que vai muito mais longe do que uma certeira denúncia das incongruências diplomáticas do Estado Novo, pp. 36-39) ou “As contradições da mitologia colonialista portuguesa” (pp. 53-91), e com a recuperação integral do magnífico Situação Africana e Consciência Nacional, uma reflexão poucas vezes citada* e cuja leitura (ou re-leitura) se recomenda vivamente. 

foto Ler Eduardo Lourenço




*Sobre esta dimensão menos conhecida do ensaísmo de Eduardo Lourenço, cf. também os seguintes estudos:
Miguel Real, “Eduardo Lourenço e o conceito de colonialismo orgânico”, Colóquio-Letras, nº 170, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 2009, pp. 273-277.
Maria Manuel Baptista, “Identité, Imaginaire et Mythe dans l’Oeuvre d’Eduardo Lourenço”, AAVV (Org. de Maria Graciete Besse), Eduardo Lourenço et la Passion de l’humain , Paris, Convivium Lusophone, 2013, pp. 197-211.
João Tiago Lima, Falar Sempre de Outra Coisa. Ensaios sobre Eduardo Lourenço, Lisboa, Âncora Editora, 2013, pp. 111-130.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Escrever títulos para capas

A divulgação de um óptimo video (vale bem a pena vê-lo: o link encontra-se no final desta prosa), produzido para lançar as reimpressões de vários títulos de José Saramago numa diferente casa editorial, dá a conhecer uma das singularidades desses agora novos livros.
É que cada um deles tem a capa, por assim dizer, assinada por uma figura da cultura portuguesa, a saber, Álvaro Siza Vieira, Baptista-Bastos, Eduardo Lourenço, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Júlio Pomar, Lídia Jorge, Mário de Carvalho e Valter Hugo Mãe, todos eles naturalmente admiradores do autor de Ensaio sobre a Cegueira. A Eduardo Lourenço coube, como se pode confirmar no pequeno filme, a missão de escrever o título de A Caverna. Participam também neste curto documentário Dulce Maria Cardoso que desenha o título de O Ensaio sobre a Lucidez e Mário de Carvalho encarregue de intitular A Viagem do Elefante.
Capa da nova edição do romance A Caverna de José Saramgo, com o título desenhado pela caligrafia de Eduardo Lourenço
Ora, apesar da sua sempre afirmada condição de ensaísta, não é impossível sustentar a tese segundo a qual a obra de Eduardo Lourenço, na sua prodigiosa e inacabada dispersão ou, como o próprio gosta de dizer, na sua deriva sem fim, tenha sido escrita, por assim dizer, de costas voltadas para a ideia de livro. Se é certo que muitos títulos de Eduardo Lourenço são, antes de mais, a recolha de ensaios e de estudos redigidos em circunstâncias muito díspares (dessa quase regra seria Pessoa Revisitado uma sintomática excepção), também não deixa de ser curioso e porventura relevante que, no espólio do ensaísta, haja um número considerável de folhas manuscritas de capas que prometem livros aparentemente sempre ainda por escrever. Como se, ao contrário do que se poderia pensar à primeira vista, o projecto de Eduardo Lourenço fosse também, num certo sentido, o de desenhar capas para os seus ensaios. Ou, pelo menos, títulos para essas capas. E, de facto, foi dessa incansável tarefa de imaginar capas que sairam títulos tão magníficos como, por exemplo, Fernando Rei da Nossa Baviera, O Esplendor do Caos ou As Saias de Elvira e outros ensaios.

http://vimeo.com/96604423

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Gerações e utopias censuradas

Vergílio Ferreira
Se calhar as coisas não poderiam ter seguido um rumo diferente. Contudo, quem conheceu o jornal Público nos seus momentos iniciais e o lê agora, nestes tempos que parecem de desencanto sem remédio, sente uma quase inevitável amargura. O número de páginas diminuiu consideravelmente. Os cronistas não são já os mesmos ou, quando o são, parecem, eles também, sofrido um indisfarçável desgaste. Mesmo assim, o  Público mantém traços que fazem dele um caso singular na imprensa portuguesa. É o caso, sem dúvida, da imprescindível colecção Livros Proíbidos que, desde Abril e até Julho, tem recuperado um precioso conjunto de títulos que sofreram a interdição da censura, instrumento tão repugnante quanto decisivo do Estado Novo. Ao indiscutível interesse histórico desta série, que nos faz regressar a um tempo e a uma mentalidade tão longínquos e, paradoxalmente, tão próximos, junta-se a soberana oportunidade de descobrir ou reencontrar livros há muito afastados das livrarias (não será esta uma nova forma de censura?). É o caso do romance Vagão 'J' de Vergílio Ferreira editado e censurado em 1947. Dir-se-á que este não é um dos melhores romances do autor de Aparição e esta é uma tese dificilmente refutável. No entanto, é possível que as desgraças e as contradições da família Borralho («a família mais asquerosa do povoado», para usar a expressão do não menos asqueroso documento que justifica a proibição do livro) revelem já alguns sinais da saída de Vergílio de uma geração a que Eduardo Lourenço chamou a da utopia. Não por acaso, como lembra Helder Godinho, em texto que ontem apresentava esta reedição, «Vagão 'J' foi o único dos três romances da chamada fase neo-realista de Vergílio Ferreira que o autor decidiu republicar mais tarde» (Palavras que dizem e organizam o mundo”, Público, 21/V/2014, p. 47). Sobre Vergílio e as suas relações com a geração da utopia talvez valha a pena regressar às magníficas páginas, escritas ao longo de mais de trinta anos e que Eduardo Lourenço reuniu em O Canto do Signo (Lisboa, Presença, 1993), de que a seguir se reproduzem alguns excertos.




«(…) Uma “geração” autêntica, mesmo em sentido restrito, é mais rara do que se pensa. O que assim se denomina é ramagem ou sub-rama­gem de uma “geração”, de uma insólita eclosão espiritual e histórica. A quantas “adolescências” tocou como dádiva um tempo e um lugar em que a realidade humana se levantou dois dedos acima de si mesma?
A “adolescência” é dada, pertence ao reino da natureza. A “geração” é merecida, conquistada, guardada através de um perpétuo combate ou tristemente falhada. Pertence ao mundo propriamente humano da história e do espírito (pp. 83-84)».
«Todos os jovens camaradas de Vergílio Ferreira tiveram como ele a possibilidade de se não perder, mas poucos possuíam tantos meios para se salvar. Uma sólida e extensa cultura humanística coloca-o muito cedo ao abrigo de soluções verbais simplistas ou simplistamente vividas. Contudo, a mais decisiva das suas defesas foi, porventura, a experiência contada em Manhã Submersa. É uma das mais comuns aventuras essa do adolescente português a braços com um tipo de educação muito particular. Tal como é contada em Manhã Submersa essa aventura é uma verdadeira experiência da “morte de Deus”, pelo menos sob a forma histórica que a vivência religiosa assume na sociedade portu­guesa. Tal decepção foi vivida na sua dupla forma – contemplação do vazio por ela criado em sua alma adolescente e desejo de preencher de novo o lugar do deus morto. Aparentemente, e isso aconteceu a mui­tos, Vergílio Ferreira ficou à mercê da primeira idolatria. Ela surgiu, no plano intelectual, sob a forma de uma ideologia capaz de beber como uma esponja a antiga dor do homem e o mistério da vida. É de louvar que Vergílio Ferreira, como muitos outros jovens coerentes e honestos, a tenham preferido ao estéril ruminar de um cepticismo sem grandeza e sem risco ou a um indiferentismo que perpetua na impotência um mal com a nossa própria figura. Mas aqueles a que Deus morreu não podem aceitar, com a facilidade dos outros, deuses subalternos, mil vezes mais dispensáveis (87-88)».
«[Onde tudo foi morrendo, Vagão J, Manhã Submersa]Todos estes romances são ainda romances em primeiro grau, per­feitamente clássicos. A relação do personagem-narrador ao mundo pode ser diversa, como diverso também o olhar pousado sobre o mundo, como mundo exterior ou sociedade em crise, utopicamente imaginados como susceptíveis de uma redenção de perfil social na primeira fase ou metafísica na segunda. Todavia, a relação do narrador com a sua própria nar­ração e ainda menos com a sua escrita não estão ainda verdadeiramente em causa (124)».

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Uma conversa deliciosa!

Eduardo Lourenço e José-Augusto França
No mês em que completa noventa e anos e em que edita, na Gradiva, Do Colonialismo como Nosso Impensado, de que aqui se falará a breve trecho, Eduardo Lourenço e o seu Amigo de mais de meio século, José-Augusto França, correspoondem ao desafio de Anabela Mota Ribeiro e transformam uma amena conversa num delicioso retrato das suas vidas e do nosso tempo português.
Vale bem a pena ler este magnífico momento de jornalismo, felizmente à distância de um simples clicar.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Não por acaso Sena e Casais são poetas

Fernando Pessoa (imagem recolhida em http://revistanaipe.com)



Se o tempo de hoje cultivasse a memória, seria escandalosamente inútil recordar a importância decisiva que Fernando Pessoa teve na configuração do percurso intelectual de Eduardo Lourenço. Por outro lado, talvez não seja menos verdade que as interpretações do autor de Fernando, Rei da nossa Baviera desempenharam igualmente um papel relevante na recepção crítica – mas esta expressão é tudo menos exacta neste contexto… – do autor de Ode Marítima. Mas, até para combater uma espécie de amnésia mais ou menos eufórica destes dias, convém, por vezes, recordar que, muitas décadas antes de Alain Badiou falar na urgência filosófica de se ser contemporâneo de Pessoa, outros leitores do poeta dos heterónimos sublinharam a novidade radical desta espécie de aventura nos confins de uma ontologia negativa. Em Pessoa Revisitado, Eduardo Lourenço reconhece que, ainda antes dele, outros intérpretes deram conta dessa essencial ruptura que o poeta de Orpheu significava. Nesse livro, começado a escrever durante a década de Sessenta e publicado já depois do 25 de Abril, podemos ler o seguinte: «Não temos nem queremos outro guia que o próprio Pessoa. Recentemente, um dos seus clássicos exegetas admitiu a hipótese de ser ele o seu mais lúcido comentador. É o que alguns sempre pensaram, em particular Casais Monteiro e Jorge de Sena, que não por acaso são poetas e posteridade autêntica de Pessoa».  
Pessoa Revisitado é um confronto, duro mas leal, com a exegese clássica de Pessoa, designadamente a de João Gaspar Simões, Jacinto do Prado Coelho e Mário Sacramento. Para melhor compreender o diálogo com este último, que, de certa maneira, representa a leitura neo-realista de Pessoa, dever-se-á também tomar em consideração um artigo que Eduardo Lourenço publicou em 1952 no “Suplemento Das Artes, Das Letras” de O Primeiro de Janeiro com o título “Explicação pelo inferior ou a crítica sem classe contra Fernando Pessoa”. Décadas mais tarde, saber-se-á que “Explicação pelo inferior” é, antes de mais, uma resposta a Mário Dionísio. Desse debate, retomado não sem equívocos na década de Oitenta do século passado, poderá o leitor do II Volume das Obras Completas, com o título Sentido e a Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios, neste momento em fase de revisão de provas tipográficas, ficar em breve com um retrato bastante pormenorizado. 

Jorge de Sena


Por agora, Ler Eduardo Lourenço centra a sua atenção naqueles que, por assim dizer, anteciparam alguns traços da interpretação que o ensaísta fez de Pessoa: Casais Monteiro e Jorge de Sena. E que, como Eduardo Lourenço assinala, «não por acaso são poetas e posteridade autêntica de Pessoa».
No mesmo “Suplemento Das Artes, Das Letras” de O Primeiro de Janeiro, mas oito anos antes, ou seja, em 9 de Agosto de 1944, aparece um dossier com o título “A ressurreição de Fernando Pessoa”. Dele constam, um autógrafo e dois poemas inéditos, um artigo anónimo intitulado “O Homem Universal” e ainda dois importantes textos “Carta ao Poeta” e “O mais português e universal dos poetas deste século”, assinados respectivamente por… Jorge de Sena e Adolfo Casais Monteiro. A curiosíssima carta de Jorge de Sena foi recolhida postumamente no I Volume de Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Edições, 70, 1982, pp. 25-30), sendo por isso bastante conhecida. Nela encontramos, por exemplo, a recusa da tese segundo a qual a heteronímia é uma mistificação, recusa essa que Eduardo Lourenço retomará em Pessoa Revisitado.
 
Adolfo Casaes Monteiro


O ensaio de Casais Monteiro talvez tenha sido menos divulgado. Não se encontra, pelo menos, no livro, também ele póstumo, A Poesia de Fernando Pessoa, organizado por José Blanco (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, 2ª edª). É, de facto, pena, pois “O mais português e universal dos poetas deste século” revela imensas qualidades, a menos importante das quais será a precocidade de algumas das suas teses. Sobretudo se se atender à época em que foi publicado. Por um lado, Casais Monteiro afirma que, na poesia de Pessoa, se se descontar «o quanto há nela de positivo (…), quer no seu nacionalismo sebastianista, quer no seu ocultismo, (…) tudo o mais é dúvida, angústia, desânimo, ou então a doçura que uma sensibilidade excepcional chega a encontrar na ausência de qualquer amarra forte que a prenda ao mundo». Por outro lado, o autor de A palavra essencial debruça-se sobre algumas das críticas dirigidas a Pessoa, a saber: o seu decadentismo burguês. O modo como o faz é pouco menos que categórico: «É um grave erro esperar da poesia que nos indique caminhos para qualquer parte, que nos dê a solução de problemas, etc. Além do essencial, que é bela por si mesma, o enriquecimento que nos pode vir da poesia será antes de o de nos ajudar a ser quem somos, isto é, ajudar-nos a ver melhor para dentro de nós próprios, graças à luz que da poesia como que se reflecte para as nossas profundezas. De não se entender assim resulta, por exemplo, aquele erro tantas vezes cometido de se desvalorizar uma obra poética por ela ser decadente, ou doentia, ou imoral, e coisas assim; como por não ser forte, ou optimista, ou construtiva, e assim sucessivamente. O facto é que o verdadeiro leitor dos poetas nunca reage em função de tais exigências; e a mais ‘decadente’ das poesias pode dar-lhe a mesma intensidade de emoção que o mais candente hino à vida. Quer isto dizer que a intensidade da emoção do leitor verdadeiro não está em função do valor de aplicação à acção da poesia, mas sim da realidade por ela expressa».
Nestas palavras de Casais Monteiro ecoam, sem dúvida, elementos fortes da estética presencista (por muito difícil que seja falar em uma estética da presença), mas, ao mesmo tempo, elas parecem começar a abrir «em nós avenidas para nenhum jardim», caso se queira retomar a magnífica expressão de Pessoa Revisitado. Neste livro, significativamente dedicado à sua Mulher, Annie, e a Adolfo Casais Monteiro, e em quase tudo o que escreveu sobre Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço retirará múltiplas consequências filosóficas destas intuições que os seus Amigos Poetas tão matinalmente arriscaram. Daí não se infira que Eduardo Lourenço não leu diferentemente Pessoa. Claro que leu e, por isso, nem sempre concordou com Jorge de Sena e Casais Monteiro. Mas fê-lo porque estes, antes dele, souberam e puderam ver, no autor de Tabacaria, “O mais português e universal dos poetas deste século”. E isso, em 1944 pelo menos, estava longe de ser uma evidência. Menos para Sena e para Casaes que, como diz Eduardo Lourenço, não por acaso são poetas.