Acerca de Eduardo Lourenço e dos Poetas, Carlos Mendes de Sousa fala de
uma «projecção desejante», talvez traduzida numa «tensão – entre o recuo
e a paixão – que pensa (vive) a poesia dos outros» (“Eduardo Lourenço: a
cidade, o poema”, Relâmpago, nº 22, 2008, p. 93). Daí a
recorrente confissão, onde o humor não oculta ainda assim uma verdade mais profunda,
do ensaísta sobre o seu sonho de ser poeta. No entanto, é bom lembrar
que um dos primeiros textos publicados por Eduardo Lourenço foi,
precisamente, um poema. De facto, no número terceiro da revista Vértice,
publicado em Fevereiro de 1944 (tinha o Autor vinte e um anos!), o
leitor encontra na página 9 um breve poema com o título “Aceitação”. Não
será com certeza por causa destas quase adolescentes dez linhas que
Eduardo Lourenço inscreve o seu nome entre as páginas mais importantes
da cultura portuguesa contemporânea. No entanto, “Aceitação”, tal como
outros textos do período a que Eduardo Lourenço chama “Tempo da Vértice”,
constitui decerto um dos múltiplos motivos de interesse de Sentido e a Forma da Poesia Neo-Realista e outros ensaios, o segundo volume das Obras Completas
que, dentro de semanas chegará às livrarias. Nesse volume, que conta
com um texto introdutório de António Pedro Pita com o título “Inventar o
Sentido do Tempo – Eduardo Lourenço e o «neo-realismo» como problema”,
poderá o leitor regressar a uma cidade e tempo mágicos, a Coimbra dos
anos Quarenta, e (re-)descobrir as origens daquele que é também um Escritor de um Poema
Só.
Blog do Projecto Edição Obras Completas de Eduardo Lourenço(www.eduardolourenco.uevora.pt), financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e a funcionar, desde Julho de 2010, na Universidade de Évora. Toda a colaboração é bem-vinda(eduardolourenco@uevora.pt).
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Não apenas mais uma entrevista...ou onde se fala do Brasil, da Itália e de Patrice Chéreau!
Acaba de aparecer nos escaparates das livrarias mais um livro de Eduardo Lourenço. Ou talvez melhor: um livro com Eduardo Lourenço. Na verdade, trata-se de uma extensa entrevista que José Jorge Letria realizou com o ensaísta a 20 de Fevereiro de 2011, ou seja, um dia antes de este ser distinguido com o Prémio Vida e Carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores, instituição de que Letria é o Presidente. Compreende-se por isso o tom (excessivamente?) laudatório do livro que constitui, antes de mais, uma homenagem a Eduardo Lourenço. A própria entrevista, que efectua uma revisão de alguns dos acontecimentos mais relevantes da vida do homenageado e de alguns dos temas mais importantes do seu pensamento, constitui uma muito interessante introdução à figura e à obra de Eduardo Lourenço, pelo que o leitor, por assim dizer, não-iniciado encontrará aqui uma boa ferramenta de trabalho. Para quem conhece mais ou menos bem Eduardo Lourenço, é possível que não haja em A História é a Ficção Suprema (belo e bastante lourenceano, o título, aliás!) muitas novidades. Ainda assim, Ler Eduardo Lourenço respiga duas passagens que talvez mereçam destaque especial. A primeira, narrada por José Jorge Letria, e que se reporta à Gala da Sociedade Portuguesa de Autores, realizada no Centro Cultural de Belém, e que reza assim:
«Guardei na memória um episódio dessa noite que definiu a personalidade de Eduardo Lourenço. Sendo o premiado internacional da gala o encenador e realizador francês Patrice Chéreau, recentemente falecido aos 68 anos, Eduardo Lourenço fez questão de o acompanhar nos bastidores e de traduzir para francês o que estava a passar-se no palco, para que o artista, realizador de filmes como A Rainha Margot, não se sentisse marginalizado e num ambiente estranho. O velho professor, durante mais de duas horas, generosa e solidariamente, serviu de cicerone e de intérprete a Patrice Chéreau, que muito lhe agradeceu a gentileza, embora desconhecesse a dimensão e a importância desse companheiro de circunstância. No final percebeu e ficou sensibilizado. É assim Eduardo Lourenço (p. 20)».
«Guardei na memória um episódio dessa noite que definiu a personalidade de Eduardo Lourenço. Sendo o premiado internacional da gala o encenador e realizador francês Patrice Chéreau, recentemente falecido aos 68 anos, Eduardo Lourenço fez questão de o acompanhar nos bastidores e de traduzir para francês o que estava a passar-se no palco, para que o artista, realizador de filmes como A Rainha Margot, não se sentisse marginalizado e num ambiente estranho. O velho professor, durante mais de duas horas, generosa e solidariamente, serviu de cicerone e de intérprete a Patrice Chéreau, que muito lhe agradeceu a gentileza, embora desconhecesse a dimensão e a importância desse companheiro de circunstância. No final percebeu e ficou sensibilizado. É assim Eduardo Lourenço (p. 20)».
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| Patrice Chéreau (1944-2013) |
A segunda nota que aqui se assinala tem a ver com uma declaração de Eduardo Lourenço acerca da sua tão importante como breve passagem pelo Brasil. E sobretudo como esse seu ano brasileiro lhe suscitou o desejo de conhecer aquilo que, só então, teve a plena consciência de que não conhecia verdadeiramente, ou seja, a Europa.
«Estive lá [na Bahia], foi uma experiência interessantíssima, mas eu não estava preparado para enfrentar esse país que foi filho da nossa História mas que é outra coisa. É outro planeta. E eu já ia muito marcado por este europeísmo quase orgânico, e depois, quando estava no Brasil, a única coisa em que eu pensava era que nunca tinha ido a Itália, estando ali a 500 quilómetros, em Montpellier. Por isso, a primeira coisa que fiz, assim quando regressei do Brasil, foi ir direito a Itália, direito a Veneza. Foi um dos grandes momentos de encontro com a velha Europa, com aquilo que ela tem de mais extraordinário e mais sublime» (p. 30).
«Estive lá [na Bahia], foi uma experiência interessantíssima, mas eu não estava preparado para enfrentar esse país que foi filho da nossa História mas que é outra coisa. É outro planeta. E eu já ia muito marcado por este europeísmo quase orgânico, e depois, quando estava no Brasil, a única coisa em que eu pensava era que nunca tinha ido a Itália, estando ali a 500 quilómetros, em Montpellier. Por isso, a primeira coisa que fiz, assim quando regressei do Brasil, foi ir direito a Itália, direito a Veneza. Foi um dos grandes momentos de encontro com a velha Europa, com aquilo que ela tem de mais extraordinário e mais sublime» (p. 30).
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Sobre a pintura de Vieira da Silva*
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| Vieira da Silva, Biblioteca em Fogo, óleo sobre tela, 1974 |
Poucas obras impõem como a de Vieira da Silva a evidência dessa temporalidade criadora e iluminante de uns quadros por outros e cada um pelo conjunto deles. Há pintores de múltipla pintura. Dir-se-á que coabitam neles vários pintores, ou antes, várias pinturas. O exemplo de Picasso acode logo mas é um mau exemplo. As “fases” ou “maneiras” de Picasso procedem, em princípio, dele mesmo ou ele as integra com um génio e uma desenvoltura únicas num mundo seu. Pintores de múltipla pintura são aqueles cujas diversas “maneiras” visivelmente têm neles uma motivação acidental e exterior. São inúmeros. São a grande coorte dos seguidores em perpétuo atraso mas hábeis em fazer crer (ou crendo eles mesmo) que as “mudanças” nasceram por intrínseca necessidade. Vieira da Silva é o oposto de tais pintores. Ela aparece, na luz desta retrospectiva, como a pintora de um quadro único, mas quadro conquistado dia a dia num combate dos seus olhos e do seu espírito, com a aparência jamais domesticada da luz e suas metamorfoses sobre a face dos céus, da terra, da água e das cidades. A pintura de Vieira da Silva é um “fazer” e um “desfazer”, um tecer e destecer perpétuos, como se cumprisse um voto de incoercível fidelidade, de devoção a um só senhor, essa realidade espacial, visível, tão fabulosamente real e visível que para a aprisionar nas malhas de uma tela é necessário tecê-la às avessas, compor a presença com a ausência, o visível com o invisível, fiar o dia na estriga da noite. Daí que tal pintura pareça a muitos como marcada por um halo de irrealidade e mesmo de fantástico ou em todo o caso de uma evanescência próxima de uma e outro. Mas esse é possivelmente o preço que a fundura de certos combates com a aparência, a fim de a salvar, tem pago sempre. Debussy foi um bom exemplo. A musical pintura de Vieira da Silva, outro. Irrealista e fantástica – não serviu ela para a evocação dos mundos imaginários da ficção científica? é a pintura de Vieira da Silva apenas aos olhos dos que não vêem a quotidiana aparência que nela é mais do que simples ponto de partida, por ser obsessão ou, se se prefere, inesgotável fonte de encantamento. A sua necessidade de visível, e mesmo de “tocável”, é tão imperiosa que ela mesma, antecipando a vivência futura dos espectadores, remete as suas imateriais e quase fantásticas tapeçarias para uma quotidianidade que as não esgota, mas à qual esse infalível baptismo confere uma realidade de arquétipo. Vieira da Silva parece ter horror do “inominado” e do “não-situado” e por isso baptiza a posteriori estruturas cuja fascinação não precisava de etiqueta. Tão próxima, quando superficialmente olhada, de certos aspectos da pintura de Klee, é uma démarche oposta que os quadros de Vieira da Silva nos mostram. A Biblioteca de Vieira da Silva não é fantástica, no sentido em que o seria um quadro com semelhante título de Klee, cuja pintura é realmente a mais fantástica que se conhece, mas apenas recriadora – em nós – do “fantástico” de uma Biblioteca, entre outros possíveis, que afinal é pouca coisa comparado à fascinação pura do espelhismo ambíguo e múltiplo do quadro, em suma, à pura música espacial que o constitui.
O que ainda se podia crer em face de um só quadro torna-se insustentável diante de uma série deles. Vieira da Silva nada tem de comum com a pintura “fantástica” ou do “imaginário”. Num sentido, que não tem, sob a nossa caneta, nada de pejorativo, Vieira da Silva é um pintor sem imaginação. Entendamo-nos: um pintor não criador de imagens, um pintor cuja imaginação se exerce sobre a própria matéria sensível. Não é esta, por excelência, a vocação pictural suprema, a de um Velasquez, de um Manet, de um Vuillard? Nos seus últimos quadros rondam, quase que com a mesma força, a tentação do lirismo abstracto puro e a sombra da abstracção descarnada e violenta, a meio caminho entre Poliakoff e De Staël, mas sente-se que o pintor está à beira do abismo e como que desamparado. De resto seria um abandono da sua pintura tal como a retrospectiva a manifesta. A preocupação única de Vieira da Silva supõe distância entre o gesto do pintor ou o seu resultado e a matéria dele, esse espaço que a sua pintura fará estilhaçar do interior, mas mantendo-o. A pintura de Vieira da Silva é assim, enquanto intenção, tradicional. O quadro supõe algo fora dele, embora, uma vez existente, seja ele mesmo uma realidade subsistente, autónoma, um duplo e até mais do que isso, uma virtualidade de espaços mais rica que o espaço real. É neste pulsar elementar da sua pintura como gesto e visão amorosa desenraizavelmente prisioneiros do visível, ou para ele nos reenviando, que nós seríamos tentados a discernir o carácter lusíada desta “portuguesa de Paris”. O inegável realismo lírico que se ultrapassa em lirismo cósmico parece-nos mais revelador e mais profundamente nosso do que a simples verificação do gosto de Vieira da Silva pelas cores suaves, a paixão pelo branco ou a obsessão temática do “quadradinho-azulejo” de lisboeta memória.
Pintura ao rés-dos-olhos e ao rés-das-mãos, quase artesanal e paciente modelar da luz e seus jogos, mas mediada por um espírito perfeitamente ao par da situação pictural e das exigências que a atravessam nos anos decisivos da sua formação. Vieira da Silva não é uma “primitiva”, mas uma muito consciente pintora travando por sua conta e em limites precisos um geral combate da pintura consigo mesmo que nela se vencerá sem catástrofe, mas não sem inquietude. As suas arquitecturas imaginárias – e mais imateriais não há nenhumas na pintura contemporânea – são sempre encantamento do real, mas de um real colhido ao nível da sua estrutura mais ténue, no limite em que a visão pende para a ilusão ou a ilusão mesma se reestrutura em visão. Esta referência “ao real” é tanto mais significativa quanto é certo que, objectivamente considerada, a maioria dessa pintura já a nada reenvia senão a si mesma e é concebida mesmo como um “fazer” autónomo, uma aventura sem outra dimensão, nem necessidade, que a de se constituir como realidade pictural. Mas não há contradição alguma entre esta “abstracção” estrutural e o não-consentimento ou o abandono de toda a significação capaz de estabelecer o quadro nessa definitiva abstracção que a pintura de Vieira da Silva até hoje recusou. O tema único do espaço basta para que a pintura de Vieira da Silva permaneça no horizonte “realista”. Mas esse tema igualmente basta para explicar a ambiguidade e a fascinação dessa pintura que é jogo com o que a experiência sensível oferece aos homens de mais presente (pois nele tudo está) e de mais ausente (ele em nada está).
Se é exacto que a estrutura mais autêntica da nossa sensibilidade é a nostalgia – amor celeste a um visível sempre corroído pelo tempo, um tocar sem tocar, uma posse despossuída, como a poesia de Camões, Pascoaes ou Pessoa no-lo mostram – pintura alguma nos exprimiu jamais melhor do que esta, sob aparências cosmopolitas. Nela se dá na verdade um mundo cuja presença maravilhante nos é sensível pela alusão e pela ausência. Se a pura memória das coisas pintasse – e ela só – nós teríamos estes espaços que são espelho de outros espaços e todos em conjunto como que a sensível ausência de um mágico e fabuloso Espaço, porventura o nosso, mas que está diante de nós como um paraíso fulgurante e impercorrível. O “fantástico” da pintura de Maria Helena Vieira da Silva situa-se, nasce, no interior desta nostalgia visual que misteriosamente repercute, símbolo ou paráfrase, a nostalgia do espírito, próximo e separado de si mesmo. Se jamais o Espaço foi fonte de Poesia aqui o foi. A história que conta o inteiro percurso da pintura de Vieira da Silva é a de uma luta e de uma libertação. Luta e libertação de antemão perdidas, pois é do Espaço que se trata, irredutível presença, mas ganha, tanto quanto o pode ser, na sua pintura. O lugar de todas as viagens, aquele de que Kant só concebia o percurso em linha recta, na pintura de Vieira da Silva o viajamos em todos os sentidos. Basta sentarmo-nos diante de um dos seus quadros e deixar esse Espaço meter-nos dentro dele.
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| Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva (imagem FAVS) |
*A correspondência, sobretudo gráfica e alguma inédita, trocada entre
Maria Helena Vieira da Silva e o marido, Arpad Szenes, vai ser
apresentada numa exposição que é inaugurada amanhã, dia 6 de
Fevereiro, pelas 18h30, em Lisboa. A exposição intitula-se Escrita íntima e reúne, em torno da
correspondência trocada por Arpad e Maria Helena, uma selecção de obras
de ambos.Na maioria são desenhos, testemunhos e retratos um do outro e da sua
intimidade, segundo um texto da Fundação sobre esta mostra de obras
pouco conhecidas, algumas inéditas.A exposição “Escrita Íntima” fica patente na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (FASVS) até 19 de Abril. Na sessão com que abre a exposição participarão, entre outros, a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto e Eduardo Lourenço. Antecipando o evento, Ler Eduardo Lourenço recupera um excerto do artigo “O itinerário de Vieira da Silva ou da poesia como espaço. A propósito da exposição retrospectiva de Grenoble 1964”, O Tempo e o Modo, nº 24, Lisboa, Fevereiro de 1965, pp. 199-209, mais tarde reimpresso no livro O Espelho Imaginário, Pintura, anti-pintura, não-pintura, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
De regresso ao comentário político
Eduardo Lourenço esteve ontem à noite no Jornal da Noite de Mário Crespo, em pleno prime-time da SIC Notícias. Foram cerca de trinta minutos de filosofia em directo que o visitante do blog poderá ver (ou rever), bastando para tal clicar no seguinte endereço:
http://sicnoticias.sapo.pt/programas/jornaldas9/2014/01/23/situacao-social-e-politica-em-analise
Ler Eduardo Lourenço permite-se destacar as últimas palavras da entrevista, na qual Eduardo Lourenço lembrou a figura e a obra do poeta e professor universitário José Terra que faleceu na semana passada em Paris. José Terra, poeta de uma geração imediatamente posterior à de Eduardo Lourenço, foi juntamente com António Luís Moita, António Ramos Rosa, Raul de Carvalho e Luís Amaro, um dos elementos fundadores e principais responsáveis pela revista Árvore - Folhas de Poesia (1951-53), onde, recorde-se, logo no primeiro fascículo (publicado no Outono de 1951) Eduardo Lourenço publicou o luminoso ensaio Esfinge ou a Poesia, mais tarde inserido no livro Tempo e Poesia. Dir-se-á que esta espécie de nota de rodapé que Eduardo Lourenço dedicou à memória de um poeta extravasou, de alguma maneira, os limites do comentário político. De um certo ponto de vista, mais técnico, talvez isso seja certo. Mas, por outro lado, que melhor forma poderia escolher o ensaísta para intervir politicamente senão reclamando, perante o olhar ao mesmo tempo admirativo e desconcertado de Mário Crespo e as câmaras da televisão, a atenção para a importância da função dos poetas? Em suma, tratou-se de um momento televisivo e político inesquecível.
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| José Terra (1928-2014) |
Esta intervenção pública segue-se a, pelo menos, duas outras que ocorreram na passada quarta-feira, dia em que participou num AAA (Animado Almoço Ânimo), organizado pela Associação 25 de Abril em Lisboa e de que a foto acima, de autoria de Rui Gaudêncio no jornal Público, dá testemunho. Nela pode ver-se o ensaísta e o capitão de Abril Vasco Lourenço.
Ao fim da tarde desse mesmo dia 22, no Museu Nacional de Arte Antiga, Eduardo Lourenço falou sobre o Retrato de D. Sebastião do pintor quinhentista Cristovão de Morais. Poder-se-á talvez dizer que a intervenção televisiva condensou de certa forma elementos das duas outras alocuções. Ler Eduardo Lourenço saúda o regresso do ensaísta ao comentário da actualidade política. Talvez Portugal precisasse deste regresso, mesmo se o ensaísta recuse, como sempre o fez de resto, desempenhar o papel de qualquer mítica Cassandra.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Extremo Centro ou o partido com iconografia vagamente duchampiana que nunca chegou a existir
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| José-Augusto França |
Em tempos não muito recuados, já Ler Eduardo Lourenço se referiu à interessantíssima obra de José-Augusto França Memórias para o Ano 2000 (Livros Horizonte, 2000). Conhecida como é a longa amizade entre o historiador (e crítico de arte) e Eduardo Lourenço, não custa perceber como nesse volume memorialístico (género algo raro na cultura portuguesa) sejam feitas inúmeras referências ao autor de O Espelho Imaginário. Muito recentemente, José-Augusto França decidiu dar à estampa uma espécie de sequela a que chamou simplesmente Memórias para após 2000 (Livros Horizonte, 2013). Trata-se, no fundo, de uma espécie de apêndice ao volume de há treze anos atrás pelo que não deixa de haver uma certa decepção, se fizermos uma comparação entre as duas Memórias. O livro agora editado é mais curto e, por vezes, algo redundante para quem tenha lido o anterior. Pouco importa. O segundo tomo dá ao leitor a ocasião para regressar ao primeiro e, por exemplo, revisitar a tão conturbada como fascinante época do pós-25 de Abril.
José-Augusto França relembra esse período e narra a proposta que fez ao autor de O Fascismo Nunca Existiu para criarem um partido moderadamente radical (ou seria antes radicalmente moderado?) e com programa ideológico talvez vagamente inspirado num famoso ready-made de Marcel Duchamp. No excerto que a seguir se publica, José-Augusto França evoca também um abaixo-assinado que Eduardo Lourenço promoveu nesse mesmo ano e que foi susbscrito por 58 pessoas. Dado que as Memórias não esclarecem exactamente de que texto se trata, Ler Eduardo Lourenço recupera o texto que foi publicado no Expresso e convida os seus visitantes a descobrir quem foram os subscritores que se juntaram a Eduardo Lourenço, José Augusto Seabra, Liberto Cruz, José-Augusto França, João Palma-Ferreira, Fernando Echevarria, Vergílio Ferreira e José Sasportes. E apetece mesmo perguntar: não poderia ter sido esta uma possível Comissão Política do Extremo Centro, o partido imaginário que nunca chegou a ser fundado?
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| Fountain (Duchamp) |
«Em Março [de 1975], eu decidira inscrever-me no PS pedindo para isso a apresentação da praxe, a dois amigos vindos do estrangeiro por preferência significativa: Sarmento Pimentel e Eduardo Lourenço. As razões da adesão, dei-as num artigo que me pediram do jornal do partido (…). Por essa altura, em conversa incerta e displicente, já em despedida no patamar da minha porta, pelas duas da manhã, como tais coisas se fazem, ainda propus ao Lourenço a fundação de um partido de Extremo Centro único extremismo possível ou único centrismo lógico na situação utópica que se ia nacionalmente gerando. Teria como emblema apropriado, e como instrumento de trabalho, um autoclismo, purificador de fezes de meio século, e lavagem de nós próprios, bem precisa... Defendera-o muitos anos antes do 25 de Abril, ante um cordial agente da oposição católica que me veio à fala, com isso se assustando. E tanto que, depois, ele seria marcelista e depois ainda soarista, simpaticamente sempre. De qualquer modo, uma acção de bom senso para opor algo aos histerismos comunista do Sul e anti-comunista do Norte, com fronteira em Rio Maior. À sua falta, considerei-me, como sempre disse, da ala anarquista do PS – solitário, felizmente e ipso facto, nessa posição.
Logo em Junho os resultados eleitorais foram ironicamente contestados por [Álvaro] Cunhal ao explicar a um jornal italiano que «o processo eleitoral não era mais do que um complemento marginal da dinâmica revolucionária»: sempre o fantasma de 1917, mantido num atraso mental e político de sessenta anos. O oficial mais culto e crítico dos Capitães de Abril, Melo Antunes, que assinara um famoso mas improfícuo Documento dos Nove de urgentes gáspeas no MFA [Movimento das Forças Armadas], comentou sibilinamente para um jornal francês que «os comunistas (tinham sido) lógicos para si próprios»... Encontrei-o, mais tarde, desiludido e lento, contratado pela UNESCO em Paris.
(...)
Cunhal entrara em paranóia; provocou afrontamentos no 1º de Maio seguinte e no caso simbólico da tomada do jornal República (terá o filme de Ginette Lavigne sido mostrado em Portugal?), levando, por inacreditável falta táctica, a uma manifestação enorme de resposta e apoio ao PS, três dias depois, em 22 de Maio – que me passou à porta, tendo-me nela levado até S. Pedro de Alcântara, facto único na minha biografia. Como não desejaria iludir-se Cunhal se, dias atrás, a Associação Portuguesa de Escritores, num congresso dominado pelos comunistas, ao fim aclamara Vasco Gonçalves, a pé e unânime? Não terei sido única mas sem dúvida rara excepção, ao ficar sentado, na sala sobreexcitada, à vinda ao palco do coronel primeiro-ministro que discursou qualquer coisa a propósito de tanto sucesso...
Não fui, porém, excepção, na minha própria comunicação (que publiquei no Jornal Novo), friamente recebida, como a de Sophia [Mello Breyner], voltadas ambas para uma liberdade de criação e de expressão que nos parecia ser condição necessária da revolução que muitos de nós ali presentes (embora nem sempre capazes de reivindicar a sua natureza) tínhamos ajudado a fazer. Enfim...
Pouco antes, o Eduardo Lourenço procurara-me na Universidade, com o José Augusto Seabra e um texto-proclamação contra a ditadura intelectual que se instaurava. Redigira-o ele, aumentara-o o Seabra, e devia acrescentá-lo eu, mas disso me abstive para evitar mais confusões de estilo, e apenas o subscrevi. Outras assinaturas o apoiaram depois, como a de Sophia de Mello Breyner (e de quem mais?) que apareceram na publicação da imprensa, que não encontro» (Memórias para o Ano 2000, pp. 242-243).
Cunhal entrara em paranóia; provocou afrontamentos no 1º de Maio seguinte e no caso simbólico da tomada do jornal República (terá o filme de Ginette Lavigne sido mostrado em Portugal?), levando, por inacreditável falta táctica, a uma manifestação enorme de resposta e apoio ao PS, três dias depois, em 22 de Maio – que me passou à porta, tendo-me nela levado até S. Pedro de Alcântara, facto único na minha biografia. Como não desejaria iludir-se Cunhal se, dias atrás, a Associação Portuguesa de Escritores, num congresso dominado pelos comunistas, ao fim aclamara Vasco Gonçalves, a pé e unânime? Não terei sido única mas sem dúvida rara excepção, ao ficar sentado, na sala sobreexcitada, à vinda ao palco do coronel primeiro-ministro que discursou qualquer coisa a propósito de tanto sucesso...
Não fui, porém, excepção, na minha própria comunicação (que publiquei no Jornal Novo), friamente recebida, como a de Sophia [Mello Breyner], voltadas ambas para uma liberdade de criação e de expressão que nos parecia ser condição necessária da revolução que muitos de nós ali presentes (embora nem sempre capazes de reivindicar a sua natureza) tínhamos ajudado a fazer. Enfim...
Pouco antes, o Eduardo Lourenço procurara-me na Universidade, com o José Augusto Seabra e um texto-proclamação contra a ditadura intelectual que se instaurava. Redigira-o ele, aumentara-o o Seabra, e devia acrescentá-lo eu, mas disso me abstive para evitar mais confusões de estilo, e apenas o subscrevi. Outras assinaturas o apoiaram depois, como a de Sophia de Mello Breyner (e de quem mais?) que apareceram na publicação da imprensa, que não encontro» (Memórias para o Ano 2000, pp. 242-243).
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