O III Congresso Internacional Fernando Pessoa, organizado pela Casa Fernando Pessoa, realizou-se nos dias 28, 29 e 30 de Novembro, no Teatro Aberto em Lisboa.No segundo dia, entre as 10 e as 11 da manhã, no painel Narrei-me à sombra e não me achei sentido, Eduardo Lourenço leu De Pessoa como pura virtualidade, texto que é um prefácio inédito escrito para uma obra de Leyla Pérrone-Moisés. Participaram também nesta sessão, moderada por Maria Manuela Viana, Teresa Rita Lopes e Fernando Cabral Martins.
Blog do Projecto Edição Obras Completas de Eduardo Lourenço(www.eduardolourenco.uevora.pt), financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e a funcionar, desde Julho de 2010, na Universidade de Évora. Toda a colaboração é bem-vinda(eduardolourenco@uevora.pt).
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Annie Salomon de Faria (1928-2013)*
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| Annie Salomon de Faria nos anos 60 (imagem publicada em Eduardo Lourenço et la Passion de l'Humain) |
Nunca me imaginei na situação de quem recebe uma homenagem. Uma situação nada confortável para uma pessoa que recebeu, como eu, uma educação que sempre exaltava mais a modéstia do que o aparecer. Mas anima-me a convicção de que este acto que me honra é devido à estima sincera de pessoas amigas que teimam em ver-me como uma mulher auxiliar em “primeira fila” na realização da obra de Eduardo Lourenço. Auxiliar, eu fui, em certa medida, mas não me atreverei a julgar a importância efectiva do meu auxílio... Recebi uma formação universitária de hispanista, e tudo levava a pensar que a minha carreira se dedicasse ao mundo hispânico. Previsão demasiado lógica que ignorava o papel do destino que levou um jovem português a cruzar o meu caminho na Universidade de Bordéus.
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| Annie e Eduardo Lourenço em Bordéus no ano de 1949 (imagem publicada em Tempos de Eduardo Lourenço-Fotobiografia) |
Ele era filósofo e falava mal francês. Mas este handicap não o
impedia de intervir com veemência nos debates de vários círculos
culturais da cidade. Ele era fascinante. A tal ponto que um dia
atrevi-me a dizer-lhe: «Vous êtes un bavard sympathique». Uma frase
fatal que selou o meu destino. Casei com Eduardo Lourenço em 1954. Desde
o início soube que não escolhera a facilidade. Mas quem tinha, como eu,
vivido desde a infância numa terra onde chuva, ventos e fúrias do
oceano batiam no granito, ao ritmo das marés, tinha – dizia – que ter
uma alma aventureira. Gostava dos desafios e sonhava poder ultrapassar o
horizonte ad infinitum. A minha bifurcação cultural não me
assustou. É certo que eu não tinha escolhido «un lecho de rosas», como
se diz no México. Mas a minha firmeza, ou dizendo melhor, a minha
teimosia, soube resistir, contra ventos e marés, no correr da minha
vida. À medida que eu ia descobrindo a cultura portuguesa e, mais tarde,
o mundo brasileiro, estabeleceu-se entre nós os dois – Eduardo e eu –
uma troca contínua de impressões, opiniões, comparações, etc., sobre
tantos assuntos, temas, livros. Chegou a ser mesmo um verdadeiro «partage», em momentos privilegiados de cumplicidade e identidade. Sentia isso particularmente quando traduzia os seus livros. «Partage»
que a chegada do nosso filho Gil, hoje aqui presente, veio confortar
afectivamente. E neste momento de celebração festiva, penso com ternura
na nossa nora Laurence e nos nossos netos Morgane e Robin, que não nos
puderam acompanhar. Também em nome deles quero agradecer a todos os que
me quiseram honrar com o testemunho do próprio afecto e amizade neste
dia da inauguração da Biblioteca Eduardo Lourenço. Muito obrigado,
pois.
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| Fotografia publicada em Jornal de Letras, Artes e Ideias |
*Annie Salomon nasceu Côte du Nord, na Bretanha, a 11 de Agosto de 1928. Licenciou-se em Línguas Hispânicas na Universidade de Bordéus, cidade onde conheceu Eduardo Lourenço, com quem se viria a casar em 1954. Dez anos volvidos foi convidada a leccionar na Universidade de Nice, tendo o casal passado mais tarde a viver em Vence. Hospitalizada há algumas semanas, Annie Salomon de Faria morreu ontem em Lisboa. O texto de sua autoria que acima se reproduz foi lido em 25 de Novembro de 2008 durante a cerimónia de inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (e na qual Annie foi também homenageada) na Guarda, tendo sido publicado no Jornal de Letras na página 42 da edição de 17 de Dezembro desse mesmo ano.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Evento em Curitiba
Ler Eduardo Lourenço defende, desde há muito tempo, que um dos maiores serviços que os amigos do pensamento de Eduardo Lourenço podem prestar à obra do ensaísta consiste em alargar o âmbito dos seus leitores. Tal passa por criar e pôr a circular mecanismos de divulgação do seu pensamento junto dos meios da comunicação social e das escolas. Mas passa também por apostar numa irradiação dos ensaios de Eduardo Lourenço para um público não-português. Enquanto não existir uma política coerente e sistemática de traduções dos livros de ensaísta para inglês, essa aposta será sempre limitada. Mas a verdade é que, no Brasil – onde o obstáculo da língua não existe – o conhecimento da obra e da importância de Eduardo Lourenço desde há muito são relevados.
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| Manuel Bandeira |
A título de mero exemplo ou de curiosidade pouco citada, já em 1960, numa das várias reedições de uma sua muito curiosa obra pedagógica, o grande poeta e crítico literário Manuel Bandeira destacava a importância do ensaísta «nos domínios da crítica, já literária, já filosófica, já social», associando-o a nomes como «Abel Salazar, já falecido, José Bacelar, António Salgado Júnior, Rodrigues Lapa, Rebelo Gonçalves» e também «Augusto Saraiva, Hernâni Cidade, Agostinho da Silva» (Noções de História das Literaturas, Rio de Janeiro, Editora Fundo da Cultura, 1960, 5ª ed, p. 407). Mas, como é evidente, inúmeros outros exemplos poderiam ser fornecidos.
Não espanta por isso que se vá realizar na próxima semana, em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná, o colóquio Literatura, Identidade e Cultura nos noventa anos de Eduardo Lourenço. Trata-se de uma muito meritória iniciativa, sob a responsabilidade do Centro de Estudos Portugueses daquela Universidade, tendo na sua Comissão Organizadora os Professores António Augusto Nery, Marcelo Côrrea Sandmann e Patrícia da Silva Cardoso. O programa estende-se por dois dias e meio (de terça à tarde, dia 3, até quinta à tarde, dia 5) e oferece amplos motivos de interesse, quer em funções das aliciantes temáticas, quer em função dos numerosos oradores, a saber: Vilma Arêas, Antonio Augusto Nery, José Vanzell, Silvio Alves, Patrícia Cardoso, Marcella Lopes Guimarães, Marcelo Sandmann, Adriano Drummond, Edna Polese, Jaqueline Koehler, Luís Bueno, Fátima Bueno, Rogério Almeida, Rodrigo Xavier, Caio Gagliardi, Caroline Vargas, Andréa Trench, Marcelo Fran, Anamaria Filizola, Naira Nascimento e Luis Maffei.
No texto de apresentação do evento, pode ler-se o seguinte: «Há décadas uma referência para os que estudam a literatura portuguesa, Eduardo Lourenço é um crítico cuja importância registra-se no modo como articula elementos literários a outros, de caráter mais amplo, vinculados à história e à cultura portuguesas, para além das leituras argutas sobre os temas a que se dedica. Ponto alto de sua contribuição aos estudos lusófonos é O labirinto da saudade, livro exemplar das qualidades do crítico aqui apontadas, em que se observa o lugar privilegiado que ele dedica ao literário, promovendo seu deslocamento para o centro das atenções quando se trata de investigar o perfil identitário de uma coletividade.
Trata-se de um movimento ousado, se considerar-se o modo como a literatura costuma ser abordada – e não apenas no âmbito da crítica em língua portuguesa: em paralelo aos grandes eventos de ordem política e social ou como elemento acessório, mero reflexo do mundo social. Eduardo Lourenço inverte a relação, colocando a produção literária como chave para a compreensão da vida nacional portuguesa, cultural e historicamente falando.
Para lembrar os 90 anos de nascimento deste grande pensador e os 35 anos de publicação de O labirinto da saudade, o Centro de Estudos Portugueses da Universidade Federal do Paraná reunirá pesquisadores interessados em revisitar os temas consagrados por Lourenço num evento que abre espaço para a divulgação de estudos que tenham sua vasta obra como paradigma e/ou com ela dialoguem» (http://eventoeduardolourenco.blogspot.com.br/)
Na óbvia impossibilidade, devido à distância, de estar presente em Curitiba nestes três magníficos dias heterodoxos, o blog Ler Eduardo Lourenço deseja a todos os participantes um óptimo congresso. E anseia pela publicação do respectivo livro de actas.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Jacinto do Prado Coelho: mais do que um Prémio
A notícia, divulgada ontem, de que o Prémio Jacinto do Prado Coelho (uma iniciativa da Associação Portuguesa dos Críticos Literários) foi atribuído ao livro de Eduardo Lourenço Tempo da Música, Música de Tempo não pode deixar de encher de alegria todos os amigos do ensaísta e da sua obra. Dir-se-á que se trata apenas de mais um prémio que distingue um autor a quem não têm faltado, sobretudo nos últimos anos, inúmeras consagrações e homenagens. Esta ideia é, de certo modo, verdadeira. Mas também é exacto que o júri deste prémio, composto por Clara Rocha, Maria João Reynaud e Teresa Martins Marques, ao distinguir Tempo da Música, Música de Tempo, não se limitou a premiar Eduardo Lourenço. Como se sabe, este livro, editado no ano passado, colige uma série de anotações, até então inéditas, que o ensaísta foi fazendo ao longo de décadas. Esses apontamentos manuscritos foram identificados por João Nuno Alçada no espólio do ensaísta e, em seguida, minuciosamente editados por Barbara Aniello, daí resultando um volume luminoso e singular que, sem a preciosa colaboração destes investigadores e amigos de Eduardo Lourenço, provavelmente nunca teria sido dado à estampa.
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| Jacinto do Prado Coelho |
Este prémio reveste-se ainda de um significado especial, porque Jacinto do Prado Coelho constitui um dos principais interlocutores de Eduardo Lourenço ao longo dos anos, designadamente no que se refere às interpretações (que, muitas vezes, coincidiram apenas no reconhecimento da grandeza do poeta) que ambos fizeram de Fernando Pessoa. Relembre-se que Pessoa Revisitado constitui também, e em parte bastante significativa, um diálogo, rigoroso e nunca complacente, com a obra de Jacinto do Prado Coelho Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. De resto, Prado Coelho, em novas edições deste livro seminal (que, recorde-se, foi, entre nós, a primeira investigação universitária sobre Pessoa), irá retomar esse debate, respondendo explicitamente a algumas teses de Eduardo Lourenço.
Por outro lado, também na imprensa lisboeta a discussão viva (embora sempre amigável) entre os dois ocorreu. Assim, em 12 de Agosto de 1971, no “Suplemento Literário” do Diário de Lisboa Eduardo Lourenço publica o artigo “Kierkegaard e Pessoa ou a comunicação indirecta”, texto que vem datado do seguinte modo: Hamburgo, Montpellier (1954-56). Tratando-se, como de facto se trata, de uma desenvolvida leitura das teses de Jacinto do Prado Coelho, não espanta que, cerca de um mês depois, este responda a Eduardo Lourenço, desta vez no Suplemento “Cultura e Arte” de A Capital.
É uma carta, redigida em 16 de Agosto na Ericeira, onde Jacinto do Prado Coelho discorda, com argúcia e alguma ironia, da perspectiva de Eduardo Lourenço. Desta missiva não houve, tanto quanto Ler Eduardo Lourenço saiba, outros ecos públicos. Mas a verdade é que, quando, já nos anos Oitenta, Eduardo Lourenço vier a incluir “Kierkegaard e Pessoa ou a comunicação indirecta” no magnífico Fernando, Rei da Nossa Baviera, o texto aparece largamente modificado, o que talvez permita concluir que a argumentação do autor de Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa foi, pelo menos em parte, acolhida favoravelmente pelo seu amigo e interlocutor.
Do que não restam dúvidas é que quer Jacinto do Prado Coelho, quer Eduardo Lourenço, cada um a seu modo, contribuíram ambos decisivamente para uma melhor compreensão do infinito mundo pessoano. Ou melhor, como diria talvez Eduardo Lourenço, para o reconhecimento de que, no limite, essa compreensão é uma tarefa simultaneamente infinita e impossível.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Sobre "Lumen Fidei"*
* Filme disponível no you tube da sessão A Luz da Fé e os desafios das periferias que, com a organização do Centro de Reflexão Cristã, se realizou no passado dia 17 de Setembro em Lisboa e no qual participaram José Tolentino Mendonça e Eduardo Lourenço.
A Luz da Fé é uma carta encíclica do Papa Francisco que pode ser consultada em http://www.vatican.va/holy_father/francesco/encyclicals/documents/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei_po.html
A Luz da Fé é uma carta encíclica do Papa Francisco que pode ser consultada em http://www.vatican.va/holy_father/francesco/encyclicals/documents/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei_po.html
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Meter a foice em Seara alheia?
Para além da importância, mais ou menos relativa, mais ou menos indiscutível, do papel que todos desempenham na configuração da cultura portuguesa do século XX, o que há de comum a nomes tão variados como António Sérgio, Jorge de Sena, Raul Brandão, Sílvio Lima, José Marinho, Raul Proença, José Rodrigues Miguéis, Jaime Cortesão, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, Joel Serrão, Eduardo Lourenço, José Saramago, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, Eduardo Prado Coelho, José Bacelar, Adolfo Casaes Monteiro, Mário Sacramento, Mário Dionísio ou João Martins Pereira, por exemplo? Todos eles (e a lista está muito longe de ser exaustiva) estiveram ligados e/ou assinaram textos nas páginas da revista Seara Nova, fundada precisamente há noventa e dois anos, ou seja, no dia 15 de Outubro de ... 1921.
Torna-se, também por isso, impossível compreender a vida intelectual e literária do Portugal Contemporâneo, para usar o nome de uma obra emblemática de Oliveira Martins, sem dúvida uma das figuras tutelares da Seara, sem revisitar as páginas de uma publicação que, importa não o esquecer, ainda hoje se publica, mesmo que nem sempre pareça fazer juz ao espírito e à exigência estética dos seus fundadores, entre os quais se destacaram Raul Proença, Jaime Cortesão e Aquilino Ribeiro. Recorde-se que António Sérgio, nome que que é habitual (e inteiramente justo, como é óbvio!) ver associado à revista, ingressará apenas em 1923 nas fileiras da Seara Nova.

Em primeiro plano, da esquerda para a direita, vemos Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.Atrás, Raul Proença é o terceiro a contar da esquerda. (Foto: Arquivo da Família de Aquilino Ribeiro Machado)
Ora, a verdade é que também se tornou costumeiro associar Eduardo Lourenço a um certo anti-sergismo e, por via disso, a um certo anti-searísmo. Há alguns motivos para tal e o famoso ensaio que dedicou a António Sérgio nos finais dos anos Sessenta nas páginas de O Tempo e o Modo não é, decerto, um dos menos relevantes. Mas a verdade é que, em muitos aspectos, o ensaísmo de Eduardo Lourenço não é antagonista do ideário da Seara. Tanto mais que, entre 1947 e 1952, Eduardo Lourenço escreveu para a revista. Primeiro com dois textos que aparecem assinados por Eduardo... Coimbra!


Depois, já como Eduardo Lourenço lui-même. Claro que esta participação escassa e pontual não faz de Eduardo Lourenço um seareiro ortodoxo, desde logo porque este adjectivo não casa bem com o seu percurso e a sua atitude intelectual. Contudo, talvez seja igualmente excessivo considerar que, quando escreveu os seis artigos que adiante se indicam, o ensaísta estava a meter a foice em Seara alheia.
1) [Com o pseudónimo Eduardo Coimbra], “Nota sobre a pretendida genialidade da Confissão de Lúcio”, Seara Nova, nº 1018, Lisboa, 1/II/1947, pp. 62-63.
2) [Com o pseudónimo Eduardo Coimbra], “Sobre Jangada de António de Sousa”, Seara Nova, nº 1025, Lisboa, Março de 1947, pp. 199-200.
3) “Literatura e simplicidade de espírito”, Seara Nova, nº 1078, Lisboa, 27/III/1948, pp. 1-3.
4) “NADA – um invulgar romance espanhol ou a metafísica que um romance suporta”, Seara Nova, Ano XXVII, Lisboa, 12/VI/1948, pp. 97-99.
5) Humanismo e Terror ou a Denúncia do Pacifismo Hipócrita” [Sobre Maurice Merleau-Ponty, Humanisme et Terreur], Seara Nova, nº 1248-49, Lisboa, 1-29/III/1951, pp. 42-43 (Texto reimpresso em Ocasionais).
6) “Alexandria Ano Zero ou a 26ª Hora”, Seara Nova, nº 1262-63, Lisboa, 4-25/X/1952, pp. 150-151 (Texto reimpresso em Ocasionais).
Torna-se, também por isso, impossível compreender a vida intelectual e literária do Portugal Contemporâneo, para usar o nome de uma obra emblemática de Oliveira Martins, sem dúvida uma das figuras tutelares da Seara, sem revisitar as páginas de uma publicação que, importa não o esquecer, ainda hoje se publica, mesmo que nem sempre pareça fazer juz ao espírito e à exigência estética dos seus fundadores, entre os quais se destacaram Raul Proença, Jaime Cortesão e Aquilino Ribeiro. Recorde-se que António Sérgio, nome que que é habitual (e inteiramente justo, como é óbvio!) ver associado à revista, ingressará apenas em 1923 nas fileiras da Seara Nova.

Em primeiro plano, da esquerda para a direita, vemos Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.Atrás, Raul Proença é o terceiro a contar da esquerda. (Foto: Arquivo da Família de Aquilino Ribeiro Machado)
Ora, a verdade é que também se tornou costumeiro associar Eduardo Lourenço a um certo anti-sergismo e, por via disso, a um certo anti-searísmo. Há alguns motivos para tal e o famoso ensaio que dedicou a António Sérgio nos finais dos anos Sessenta nas páginas de O Tempo e o Modo não é, decerto, um dos menos relevantes. Mas a verdade é que, em muitos aspectos, o ensaísmo de Eduardo Lourenço não é antagonista do ideário da Seara. Tanto mais que, entre 1947 e 1952, Eduardo Lourenço escreveu para a revista. Primeiro com dois textos que aparecem assinados por Eduardo... Coimbra!


Depois, já como Eduardo Lourenço lui-même. Claro que esta participação escassa e pontual não faz de Eduardo Lourenço um seareiro ortodoxo, desde logo porque este adjectivo não casa bem com o seu percurso e a sua atitude intelectual. Contudo, talvez seja igualmente excessivo considerar que, quando escreveu os seis artigos que adiante se indicam, o ensaísta estava a meter a foice em Seara alheia.
1) [Com o pseudónimo Eduardo Coimbra], “Nota sobre a pretendida genialidade da Confissão de Lúcio”, Seara Nova, nº 1018, Lisboa, 1/II/1947, pp. 62-63.
2) [Com o pseudónimo Eduardo Coimbra], “Sobre Jangada de António de Sousa”, Seara Nova, nº 1025, Lisboa, Março de 1947, pp. 199-200.
3) “Literatura e simplicidade de espírito”, Seara Nova, nº 1078, Lisboa, 27/III/1948, pp. 1-3.
4) “NADA – um invulgar romance espanhol ou a metafísica que um romance suporta”, Seara Nova, Ano XXVII, Lisboa, 12/VI/1948, pp. 97-99.
5) Humanismo e Terror ou a Denúncia do Pacifismo Hipócrita” [Sobre Maurice Merleau-Ponty, Humanisme et Terreur], Seara Nova, nº 1248-49, Lisboa, 1-29/III/1951, pp. 42-43 (Texto reimpresso em Ocasionais).
6) “Alexandria Ano Zero ou a 26ª Hora”, Seara Nova, nº 1262-63, Lisboa, 4-25/X/1952, pp. 150-151 (Texto reimpresso em Ocasionais).
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Mário Botas ou os sonhos de um estrangeiro na própria casa
Como se sabe, há afirmações que
podem ter mais do que uma leitura. Quando se diz que Eduardo Prado Coelho é um
dos primeiros leitores de Eduardo
Lourenço, a frase pode pelo menos querer significar duas teses. Pode traduzir
um juízo factual ou objectivo: Eduardo Prado Coelho é uma das pessoas que mais
cedo começou a ler o autor de O Espelho
Imaginário e dessas leituras deu
quase imediato testemunho nítido através das recensões críticas dedicadas a
livros como Sentido e Forma da Poesia
Neo-realista ou Heterodoxia II e
publicadas logo nos finais dos anos Sessenta. Mas a frase pode também expressar
um juízo valorativo, se visar conferir à expressão um dos primeiros o
sentido seguinte: um dos principais, mais importantes ou até melhores leitores
de Eduardo Lourenço. Neste segundo caso, a tese é evidentemente discutível,
embora haja fortes motivos para a tomarmos como válida.
Ora, num dos muitos textos que
dedica à especificidade do ensaísmo de Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho
fala no que chama um princípio de amizade, que, do seu ponto de vista,
caracteriza a escrita do autor de Pessoa
Revisitado. E explica melhor o que significa esse princípio: «não pretendo dizer que ele elogia os seus
amigos (o que certamente lhe acontece, e ainda bem), mas precisamente outra
coisa: que ele se aproxima sempre de uma obra literária, seja ela de quem for, como
se a amizade fosse a forma privilegiada do conhecimento». Talvez não haja exemplo tão claro da
ilustração desse princípio de amizade praticado por Eduardo Lourenço
como quando escreve sobre o pintor Mário Botas (Nazaré, 1952 – Lisboa, 1983). A
leitura do extraordinário ensaio “Mário Botas ou a pintura como poesia”,
inserido na segunda edição de O Espelho
Imaginário, bastará decerto para confirmar esta hipótese. Por exemplo, é aí que encontramos a fabulosa expressão que serve de título a estas linhas: os sonhos de um estrangeiro na própria casa. Nela ecoa a inapagável marca pessoana, referência decisiva quer em Eduardo Lourenço, quer em Mário Botas.
De Mário Botas, figura
injustamente caída num certo esquecimento, acaba de chegar às livrarias (embora com a data de 2012), numa
corajosa edição da Averno, o volume Aventuras de um crâneo e outros textos.
Trata-se de um excelente documento não apenas pela sua beleza gráfica, como
pelo valioso conjunto de textos e informações sobre a vida e a obra de Mário
Botas, trágica e prematuramente interrompidas com a sua morte. Nesse conjunto
de escritos destacam-se três cartas dirigidas a Eduardo Lourenço e que se
encontram no espólio do ensaísta. Duas delas, datadas de 18 de Setembro de 1979
e de 4 de Outubro de 1979, tinham sido já publicadas em Colóquio-Letras (nº 171, Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, Maio de 2009, pp. 415-418), mas a terceira que,
neste caso, se trata em rigor da primeira (foi escrita com a data de 1 de Maio de
1977) permanecera até agora inédita. É uma carta belíssima e mostra como a
amizade entre Eduardo Lourenço e Mário Botas não se pode dissociar da recíproca
admiração das respectivas obras. Mas Aventuras
de um crâneo tem muitos outros motivos de interesse e por isso a sua
leitura afigura-se imprescindível.
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| Mário Botas fotografando Eduardo Lourenço em Vence (imagem retirada de Tempos de Eduardo Lourenço. Fotobiografia, Campo das Letras, 2003) |
Ler Eduardo Lourenço teve o privilégio de ser recebido pelo
ensaísta há algumas semanas em Vence. Foi uma tarde inesquecível na qual, uma vez
mais, Eduardo Lourenço deu provas da sua generosidade e simpatia infatigáveis.
Assim, para além da visita à famosa Chapelle du Rosaire, uma criação
esplendorosa de Henri Matisse, e
da ida a uma impressionante exposição de Marc Chagall no Museu de Vence
(e que prazer
insubstituível é ouvir os comentários de Eduardo Lourenço que, sempre em
passo apressado, percorreu as várias salas do museu), houve lugar a uma
emocionada evocação de … Mário Botas, pintor que, tal como Matisse e
Chagall,
também passou por esta cité des artistes.
À passagem pela célebre fonte que recebe quem se prepara para entrar na zona
amuralhada de Vence, Eduardo Lourenço exclamou: «O meu Amigo Mário Botas tirou-me uma vez
uma fotografia junto a esta fonte!»
E, assim, de uma certa forma, se revisitou a hospitalidade de alguém que, muitas vezes, também se parece sentir um estrangeiro na sua própria casa.
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| Eduardo Lourenço em foto de Mário Botas (imagem retirada de Tempos de Eduardo Lourenço. Fotobiografia, Campo das Letras, 2003) |
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| Eduardo Lourenço em Vence no passado dia 29 de Agosto. Foto de Ler Eduardo Lourenço |
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