quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Urbano Tavares Rodrigues: Um adeus ao último expressionista*

O expressionismo é a máscara. 
MICHEL BUTOR, 1979 
Que se fale do Eterno ou do nada, 
confessa-se a impotência comum 
de colocar o valor no perecível. 
GEORGES BATAILLE, 1947

Ninguém na nossa geração escreveu mais à flor do tempo que Urbano Tavares Rodrigues. As mais vibráteis pulsações do quotidiano sentimental, erótico, literário, político, vieram, como se fossem feitas para ele e ele para elas, fixar-se sem pena e sem fadiga aparente na sua prosa efervescente, nervosa, encandeada pelas reverberações do instante. Nem por acaso o autor de Bastardos do Sol se debruçou um dia sobre o donjuanismo, epopeia ou tragédia da fulguração vital do instante humano vivido como grau zero e ao mesmo tempo passagem obrigatória daquilo que designamos, por carência, como “eterno”. Urbano Tavares Rodrigues foi desde muito jovem demasiado consciente e instruído para poder ser apenas em Portugal um jornalista de tradição gloriosa que não há ou se perdeu. Também era por temperamento e inquietude em excesso ávido de colher e beber na hora que passa a espuma dos dias para esperar com paciência as supremas e acaso ilusórias decantações. Nascido à sombra mais mitificada que tutelar de d’Annunzio e Teixeira Gomes, foi construindo com talento, e uma vertigem cultural gémea dele, a crónica mais repassada da experiência agónica de uma época que a si mesma se revelava e vivia como uma sucessão ininterrupta de miragens, alucinações, delírios, fogos fátuos de uma decomposição subterrânea de que um dia o autor da Porta dos Limites se fará menos o cronista devorado pelo espectáculo que o analista convulso, revoltado, mas sempre, em qualquer recanto, conivente sem ser cúmplice. Não houve metamorfose da sensibilidade ocidental dos últimos trinta anos, ética, artística, ideológica, curiosidade real ou suporte que não tivesse encontrado eco fascinado, espasmódico ou aflito no homem de espírito romântico e romanesco que é Urbano Tavares Rodrigues. Um eco bem lusíada, entenda-se, pois o peregrino de sítios, paisagens, atmosferas, corações alheios soube transmigrar para o horizonte da leitura pátria, com inegável sucesso, a ilusão do insólito e do aventuroso tão cara a um povo que há muito só se desloca no imaginário através das máquinas de devorar o tempo inventadas por outros. A um público que nos anos cinquenta das suas novelas cosmopolitas não saía ainda de casa senão para voltar excitado às doçuras arcaicas de um mundo estofado em pele maternal, Urbano comunicou o frisson nouveau de visões, experiências, encontros, notícias, sonhos no limite do escândalo caseiro, esses sonhos e visões que toda a gente vivia só por procuração cinematográfica, caídos do céu de celulóide dos “países onde se passava alguma coisa”. Dessa gente, desses lugares, desses costumes, vícios, Urbano Tavares Rodrigues não fornecia ao seu público uma versão voyeuriste subalterna como tantas outras habituais no país culturalmente poluído que todos habitamos. Urbano esteve lá como pedia Eça a Oliveira Martins, lá onde se fazia e desfazia o tecido miraculoso da contemporaneidade que fulgura e ninguém contempla sem se destruir e construir nela e com ela. Generosamente, a lusíada disponibilidade de Urbano ofereceu-se a esse circo da vida, em perpétua e dolorosa alegria, deixou-se absorver por ele para melhor fascinar os seus leitores-ouvintes, criando-lhes ao lado do quotidiano morno onde se desvivem um mundo de fantasmagoria, brilhante, febril, apaixonado, de que ele é, senão o principal protagonista, ao menos o primeiro espectador. Alguns acrescentarão, vítima, mas toda a paixão tem em si mesma a sua redenção. Desta paixão pelo que entusiasma, agride, comove, enoja, deste amor quase mórbido pelo fait-divers do sentimento ou da violência, os seus leitores lhe serão gratos e fiéis por adivinharem que sob eles se oferece desarmado um homem sensível à mistura indiscernível de esplendor e ignomínia que brilha no coração de cada um de nós.
Com o mesmo fervor e exaltação, com a mesma equívoca fascinação com que sempre se moveu nas atmosferas onde a pulsão de morte se oferece os refinamentos do desejo ou dos seus simulacros, Urbano Tavares Rodrigues se fará em casa, na plácida e silenciosa casa portuguesa dos anos sessenta, o novelista da subversão nocturna, da revolução marginal que aos poucos, mas sem recuos, mudará o subsolo do viver íntimo lusíada, antes de se traduzir em libertação colectiva de tabus ancestrais, e, por ancestrais, menos mortos do que seria útil suponho eu confessá-lo. Casa de Correcção pertence a essa viagem no interior do horrível quotidiano português, inundado de luz exterior e sepultado em doçuras piores que todos os suplícios. Mundo de máscaras por ser visceralmente o de uma mascarada histórica e social, só podia distrair-se em “carnavais negros”, em pseudo-estridências que não podiam acordar o sonambulismo colectivo de que eram ao mesmo tempo imagem e reflexo. O antigo horizonte ético que enquadrava as audácias novelistas do promeneur de Paris ou de Hamburgo, sem ter desaparecido, compartilha a sua presença com o horizonte crítico e à acusação-fascinação do jovem Urbano associa-se, como pano de fundo, a música da denúncia irónica ou virulenta de um mundo às avessas em transe de agonia. Mais que o lamentável baile de máscaras, é difícil saber quem conduz o baile, se a angústia nua de uma fauna humana prisioneira de uma sociedade oficialmente imaculada ou o gosto do próprio narrador pelos abismos e jogos em que o sadismo joga à cabra-cega com uma compaixão que parece sair em linha recta das páginas gesticulantes de Raul Brandão ou de Fialho, país longínquos da visão que em Urbano agoniza ou derrapa em estridências miméticas do mundo alucinado e suicidário dos James Dean irrisórios do nosso marialvismo sem drama verdadeiro.
Para meu gosto, não é tanto essa pintura de uma juventude à deriva, imagem apenas caricatural, de uma sociedade que não conhece do percurso do Desejo senão os traços da sua ausência, que constitui o essencial da menos alegórica que metafórica Casa de Correcção. Paradoxalmente, na produção imensa daquele que será, acaso, o nosso último “expressionista” não são as páginas mais exteriormente perturbadas ao nível da escrita, mais carregadas de referências e sinais do mundo exorbitado, desaxé, que através delas se evoca, aquelas que melhor traduzem a visão profunda do seu autor. São as mais contidas, as mais ao rés da sua voz interior como as breves páginas de A Morte da Cegonha com que todo o pathos lírico de Urbano se poderia resumir, páginas de desnuamento e deslumbramento como só a memória infantil revisitada é capaz de oferecer ao que em todos nós se salvou do naufrágio alegre ou triste do pascaliano divertimento social. Mas a grande novela deste livro é Tio Deus, meticulosamente conduzida, plena de um sarcasmo à altura do mundo hipócrita que dois anjos do lar português se encarregarão de exterminar com o rigor delirante de dois funcionários do absoluto, para que de tão ordenada, “correcta”, obscena e monstruosa realidade social e moral com a espessura de séculos não fique pedra sobre pedra. Como as “criadas” de Genet, os dois “monstros” devolvem à sua verdade a mentira de um mundo que foi, e acaso é ainda o nosso. É uma novela sóbria, em meias tintas, voluntariamente domesticada, “suspensa”, para que o efeito do cataclismo redentor se recorte diante de nós como um gume de navalha. O moralismo e a ideologia fundem-se na implacável mecânica de uma narrativa que os eleva à altura do mito. Uma espécie de calma, de silêncio narrativo sobrepõe-se aqui ao frenesi estilístico, um pouco voyant, do Carnaval Negro. É para este expressionismo vencido do interior que a longa marcha do autor de Vida Perigosa, ou Nus e Suplicantes, sem dúvida orientou a sua barca em demanda do melhor porto. A violência mais subversiva contra a violência histórica e eterna da “brandura dos nossos costumes”: que mais conveniente espelho da metamorfose do antigo caçador de instantes em virtuose dos rituais onde o seu tempo e o tempo de muitos outros se fixou com tão depurada eficácia? 

* Urbano Tavares Rodrigues deixou-nos no mês passado. O elevado número de testemunhos sobre a sua generosidade (poucos escritores terão acolhido com tanta paciência e interesse os mais novos) e a sua coragem comprovam a importância do papel desempenhado por Urbano na cultura portuguesa contemporânea. No entanto, salvo raras excepções, à originalidade da sua obra talvez não tenha sido concedido o mesmo destaque. Regressado de férias, Ler Eduardo Lourenço recupera, em homenagem a Urbano, um magnífico ensaio de Eduardo Lourenço, com o título interrogativo “O último expressionista?” e escrito em Vence, a 23 de Março de 1979. O texto depois serviu de prefácio à terceira edição do livro Casa de Correcção (Europa-América, 1987, pp. 15-20). A foto que ilustra este post foi recuperada pelo Diário de Notícias em Agosto e refere-se à apresentação pública que o ensaísta fez de uma outra obra do seu amigo de longa data. Infelizmente, Ler Eduardo Lourenço desconhece se desta última apresentação resultou algum texto escrito.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Remodelações governamentais na Cultura?


Eduardo Lourenço e Luís Machado no Martinho da Arcada (30/IX/2009)
 Em tempo de mudanças governamentais, seja lá o que tal conceito possa significar (atendendo ao que os últimos acontecimentos políticos têm feito para o enriquecimento semântico irrevogável? da língua portuguesa, nada hoje parece seguro), interessa recuperar uma quase nomeação de Eduardo Lourenço para a pasta governamental da Cultura. Ou melhor, duas. É o próprio quem se refere a esses dois episódios durante uma curiosa conversa mantida com Luís Machado no café lisboeta Martinho da Arcada, realizada em 30 de Setembro de 2009, transposta para capítulo de livro no ano seguinte. À pergunta  de Luís Machado sobre se teria mesmo sido convidado para ministro da Cultura, responde o ensaísta nos seguintes termos:

Artur Portela Filho, director do...
 


«Fui, duas vezes. Uma vez, “virtualmente”, nomearam-me ministro sem me dizer nada, veio num jornal. Nessa época, como sabem, saía um jornal dirigido pelo meu amigo Artur Portela que se chamava Jornal Novo. Nesse jornal foi publicada uma lista do novo Governo, que era tutelada pelo famoso Grupo dos Nove. Vinha então nessa lista: “Ministro da Cultura fulano”. Naquela altura estava eu em férias, e a minha mulher chegou com um telegrama na mão e disse-me assim: “Mon cher, te voilà ministre”. Eu, atónito, indaguei: “Mas que é isso?” Ela respondeu: “Parece que és ministro.” Mas com o ar mais francês possível. Do que se tratava? De gente do teatro, do cinema, que me mandava um telegrama a felicitar-me por eu ter sido nomeado ministro. Tudo aquilo só existiu num jornal, não teve nenhuma espécie de resultado. Quando fui convidado, foi mais tarde, pelo major Vítor Alves. Os meus problemas eram os mesmos de sempre. Eu não seria nunca a pessoa certa para o local certo. Não podia aceitar uma coisa dessas. Não fui feito para mandar em ninguém. Talvez porque não gosto que mandem em mim. Veleidades de fazer qualquer coisa pela cultura portuguesa, noutro sentido, sim, mas não ter esse tipo de responsabilidades. Não tenho nenhuma apetência de ordem política» (Luís MACHADO, Rostos da Portugalidade com Mário Soares, Júlio Pomar, Eduardo Lourenço, Manoel de Oliveira, Carlos do Carmo, Ruy de Carvalho, Lisboa, Vega, 2010, pp. 104-105).
Major Vitor Alves

Com a descontracção de quem se prepara para ir a banhos (com a firme promessa de regressar em Setembro), Ler Eduardo Lourenço confessa que  lhe agrada muito a nenhuma apetência do autor de O Labirinto da Saudade para funções governativas. Quase tanto como lhe desagrada a apetência em excesso por pastas governativas, manifestada alguns dos políticos da nossa praça. Boas Férias!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Escolher Outro Nome ou Ler Gastão Cruz

cansa-nos o verão (Gastão Cruz, Outro Nome, 1965)

E se escolher fosse outro nome para ler? Leitor de poesia como poucos, Eduardo Lourenço escolhe, como é óbvio, os poemas sobre os quais escreve. Costuma dizer que na sua vida há poucas escolhas. Pelo menos em duas ocasiões, curiosamente no mesmo ano, essa escolha assumiu a forma de livro. Em 2006, a revista Visão e o Jornal de Letras, Artes e Ideias pediram ao ensaísta que organizasse uma Antologia Poética de Fernando Pessoa. Trata-se de uma edição importante a vários títulos, desde logo porque ajuda a perceber alguns aspectos da exegese que o ensaísta realiza do universo pessoano. Quase ao mesmo tempo, o jornal Público organizou uma colecção a que chamou os poemas da minha vida, pedindo a colaboração de vários nomes, alguns deles bastante inesperados, como é o caso de Jerónimo de Sousa, António Ramalho Eanes ou Miguel Cadilhe. Menos surpreendente terá sido o convite a nomes Urbano Tavares Rodrigues, Maria Alzira Seixo, Vasco Graça Moura ou até Maria Barroso. Coube a Eduardo Lourenço a organização do número vinte e um de os poemas da minha vida. Que poemas e poetas foram incluídos nos poemas da vida de Eduardo Lourenço? Para além do verso quase mítico «O filho do Zeferino foi a casa dos filhos da mãe do Zebedeu» que o jovem aluno da escola primária de São Pedro do Rio Seco descobriu no manual de leitura e de que Eduardo Lourenço fala no prefácio da antologia (cf.http://leduardolourenco.blogspot.pt/2011/06/nao-sei-que-poema-entrou-como-um-ladrao.html), são convocados nomes como Petrarca (traduzido por Vasco Graça Moura), Luís de Camões, S. João da Cruz (por Jorge de Sena), Novalis (por Fiama Hasse Pais Brandão), Baudelaire (por Jorge de Sena e por Fernando Pinto do Amaral), Antero de Quental, Cesário Verde, Camilo Pessanha, António Machado (por José Bento), Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, António Osório, Ruy Belo, Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho, Gastão Cruz, Vasco Graça Moura, Al Berto, Nuno Júdice e Paulo Teixeira. 
No limite, cada poeta e talvez cada poema escolhido justificaria uma análise em pormenor. Por exemplo, é curioso como, tendo reunido quinze textos de Fernando Pessoa para os poemas da minha vida, o primeiro dessa lista não conste, por sua vez, da Antologia Poética de Fernando Pessoa. Haverá razões para aquilo que, em rigor, não é necessariamente uma incoerência? Eis um assunto que talvez mereça a pena ser estudado.
Um outro caso é Gastão Cruz, poeta que aparece com duas canções em poemas da vida de Eduardo Lourenço. Trata-se da primeira e da última (a décima) das dez que compõem Outro Nome. Uma pergunta surge: porquê dois textos de um mesmo livro, tratando-se a obra deste poeta um conjunto de livros que, já em 2006, excedia os vinte títulos? Claro que Outro Nome não é um livro qualquer de Gastão Cruz, supondo que algum deles o seja. Mas é um livro para o qual, no caso de poder ser explicado (e sobre esta possibilidade as dúvidas são, pelo menos, infinitas), estas palavras, recentes e iluminadoras, de Pedro Eiras deveriam, com certeza, ser aproveitadas: «(…) Outro Nome é denso. As palavras são revistas em incansáveis jogos de permutas: tornam-se outras, sendo as mesmas (efeito perturbador: o leitor começar a ler, nas palavras presentes, a repetição das palavras repetidas; fogo, areias, vidraças, lisboa, nome, canção são palavras que se tornam esmagadoras, pela memória que obrigam o leitor a gerir: pois o leitor ouve, sob as palavras, os ecos das palavras já lidas). Multiplicidade e unidade: mesmo as canções, dez como em Camões, são só uma, se lembrarmos o subtítulo original “Poema em dez canções” (…). Um único, extenso, poema. Únicas, extensas, palavras» (Pedro Eiras, “A lição do rigor sobre Outro Nome”, Luis Maffei; Pedro Eiras, A Vida Repercutida – Uma Leitura da Poesia de Gastão Cruz, Lisboa, Esfera do Caos, 2012, p. 46).
A esta enumeração de únicas e extensas palavras furtou-se uma que joga papel decisivo na canção décima: neve. Ou porventura dever-se-ia dizer: la neige de René Char. É que a epígrafe do poeta francês, tantas vezes citado por Eduardo Lourenço noutras ocasiões, faz parte integral da canção que encerra Outro Nome. Desde a edição original, saída em 1965. Nem sempre será assim, no entanto. Por exemplo, em Poesia 1961-1981 a epígrafe não aparece, como se tivesse sido enterrada no “fogo da paz falsa” das areias do verão. Na mais recente versão conhecida, inserida em Os Poemas (Assírio & Alvim, 2009, p. 85), o leitor encontra-a de novo. Ora, também da leitura que Eduardo Lourenço faz desta belíssima canção de Gastão Cruz, l’inexorable neige de Char não foi escolhida. Ou, se escolher for outro nome para ler, poder-se-á perguntar: não foi a neve lida por Eduardo Lourenço?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Philosophe de la Provence


O leitor desprevenido ficará com certeza intrigado com uma breve alusão feita por Eduardo Lourenço em Vida Partilhada, o seu último livro, saído recentemente com a chancela da Âncora Editora. De facto, no capítulo designado “Eu ensaísta me confesso”, Eduardo Lourenço, discorrendo sobre as diferenças entre a filosofia e o ensaio, deixa escapar uma pequena confissão. «Há um autor espanhol, da primeira metade do século XX, chamado Azori, que tem um livro delicioso e sempre invejei muito o título desse livrinho chamado El pequeño filósofo. À falta de ser um grande filósofo posso consentir ser apelido de “el pequeño filósofo”, como dizia um crítico jovem piedoso, implacável, há uns anos atrás, que eu era um filósofo de província. Aceito a designação ... sou gostosamente, um filósofo de província, outra versão do que é um ensaísta» (p. 82).
Deixando para outra altura a referência a Azorin, importa centrar a atenção no aparentemente enigmático “crítico jovem piedoso, implacável”. Convém dizer, entretanto, que o texto “Eu ensaísta me confesso” é a transcrição de uma intervenção oral, realizada por Eduardo Lourenço na Guarda, no dia 23 de Maio de 2008. Ler Eduardo Lourenço desconhece se essa transcrição foi objecto de uma prévia revisão por parte do Autor, quer para a edição de Vida Partilhada, quer para uma primeira publicação do texto, ocorrida logo em 2008, na revista Iberografias (Centro de Estudos Ibéricos, nº 4, Guarda, pp. 50-52). Mas, ao mesmo tempo, Ler Eduardo Lourenço tem de admitir que estava nessa mesma tarde no Salão Nobre da Câmara Municipal da Guarda e que se recorda perfeitamente de ter associado a inesperada alusão a um jovem crítico e a um texto muito concretos. Sem efectuar uma confrontação com o registo gravado da comunicação oral, não é possível apresentar certezas absolutas, mas Ler Eduardo Lourenço julga mesmo que dos três adjectivos usados para caracterizar o crítico, é possível que tenha havido um lapso na audição e/ou transcrição de um deles. Terá dito Eduardo Lourenço piedoso ou impiedoso? A dúvida talvez venha a subsistir ad eternum. A proverbial ironia de Eduardo Lourenço autoriza, de resto, qualquer uma das duas hipóteses. O mesmo já não sucede em relação aos adjectivos jovem e implacável, clara e distintamente ouvidos pelo menos por um dos presentes.
Mas, impiedoso ou não, de que jovem e implacável crítico se trata? Nesta como em muitas outras ocasiões, é difícil chegar a conclusões categóricas e definitivas. É preciso reconhecer que uma das dificuldades que a escrita de Eduardo Lourenço suscita tem a ver com o facto de o ensaísta muitas vezes não ser absolutamente claro quanto às fontes de que se serve. Mesmo assim, Ler Eduardo Lourenço aceita correr o risco de defender a tese de que o texto que está na origem da alusão feita por Eduardo Lourenço é o artigo que, em 25 de Janeiro de 2002, João Pereira Coutinho escreveu nas páginas do semanário O Independente: trata-se da crónica “Animais, porteiros & provocadores” e que em baixo se reproduz.






Vida Independente era uma espécie de diário que o jovem cronista mantinha nas páginas do jornal, concebido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e que talvez vivesse nessa época um período de algum declínio. O que diz, nesse dia, João Pereira Coutinho? Enquanto jantava com um colega, o jovem crítico terá ficado a saber que Eduardo Lourenço tinha sido escolhido por uma universidade portuguesa para receber um doutoramento honoris causa. Pouco importa agora saber de que instituição se tratava (o cronista não o diz e os dois doutoramentos honoris causa atribuídos em Portugal a Eduardo Lourenço foram concedidos em 1996 e 1998!) e a que outra personalidade essa distinção terá supostamente sido recusada. Interessa, isso sim, atentar na reacção do jovem implacável: «Ouvi esta história encantadora e nem o vinho conseguiu aliviar o pasmo que sinto. Não vou comentar as virtudes filosóficas do pensador Lourenço, um provinciano que ganhou estatuto de iluminado entre os selvagens». E mais à frente remata: «Eduardo Lourenço (...) publicou meia dúzia de banalidades» (O Independente, 25/I/2002, p. 28).




Será excessiva falta de rigor insinuar que a notoriedade de João Pereira Coutinho não conhece hoje, algo perdido nas páginas do Correio da Manhã, os seus melhores dias? É possível, mas a verdade é que, em 2002, o jovem autor era já um escritor premiado, pois Jaime e Outros Bichos (Lisboa, Difel, 1997) recebera, seis anos antes, o Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro. Consagração precoce? Nem por isso, especialmente se se atender ao que vem escrito na bandana desse mesmo Jaime sobre o contista, na altura quase a deixar de ser teenager: «Jornalista desde os dezasseis anos. acumulou até aos dezanove duas centenas de crónicas, dezenas de reportagens, entrevistas, um livro e dois processos por abuso de liberdade de imprensa». Reconheça-se que se trata de um currículo pelo menos intimidante.
Posteriormente, O Independente recolheu numerosas crónicas de João Pereira Coutinho no volume, duplamente prefaciado por Miguel Esteves Cardoso e Alberto Gonçalves, Vida Independente 1998-2003 (Lisboa, 2004), mas nele não incluiu “Animais, porteiros & provocadores”. O visitante deste blog poderá, sem dúvida, interrogar-se se João Pereira Coutinho é mesmo o crítico jovem piedoso (ou impedioso?) e implacável de que fala Eduardo Lourenço em Vida Partilhada. A interrogação é legítima, sobretudo porque o autor de Heterodoxias não reproduz ipsis verbis a violenta frase do cronista em O Independente. Será uma imprecisão decorrente do facto de se tratar de uma citação de memória num breve improviso oral? Ou, pelo contrário, havia ainda um outro adversário, tão implacável como desconhecido, do nosso philosophe de la Provence?

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Filmar o pensamento!


A Poética do Pensamento de Eduardo Lourenço (2003) é um belo documentário dedicado à vida e ao pensamento do ensaísta. Tratando-se de uma produção, de autoria de Ana Paula Antunes e com a realização de Abel Cardoso, já com dez anos de idade, nem por isso perdeu frescura e interesse. Com uma articulação feliz entre o registo fotobiográfico e um muito curioso conjunto de depoimentos do próprio de Eduardo Lourenço, Maria Manuel Baptista, José Gil (com intervenções notáveis de rigor e clareza), Onésimo Teotónio Almeida (deliciosa, a estória de um frustrado telefonema, narrada aos 4m 39s) e Miguel Real. Desses depoimentos, talvez suscitem especial curiosidade as confissões de Eduardo Lourenço acerca da sua experiência não muito feliz no Colégio Militar que terá incentivado, por assim dizer, a sua ânsia de liberdade e a declaração, praticamente no fim do filme, sobre a quase decepção de não ter cumprido o sonho do Pai que teria gostado que tivesse seguido a carreira médica.
Ler Eduardo Lourenço contactou o realizador A Poética do Pensamento e Abel Cardoso amavelmente recordou esta experiência, dizendo: «guardo a tremenda impressão que me ficou do labor rigoroso de Eduardo Lourenço e o brilho do seu pensamento». Vendo hoje o documentário, é lícito concluir que o realizador conseguiu traduzir filmicamente essa tremenda impressão. Soube, em suma, filmar o pensamento!

Três Novos Títulos da Colecção Iberografias


No passado dia 6 de Junho, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, em sessão que integrava o programa do Colóquio Portugal e o seu Destino, uma organização do Centro de Estudos Ibéricos por ocasião do 90º aniversário de Eduardo Lourenço, foram lançados três novos títulos da colecção Iberografias, uma série que, numa primeira fase esteve associada à antiga casa portuense Campo das Letras (entretanto extinta), mas que nos últimos anos ganhou um novo fôlego com a ajuda de uma nova parceria estabelecida com a Âncora Editora. Em que consistem os três livros apresentados, que estão a partir de agora disponíveis nas principais livrarias de todo o país?

Vida Partilhada, Eduardo Lourenço, o CEI e a Cooperação Cultural (nº 21 da colecção) é um conjunto de textos dispersos (alguns deles inéditos) da autoria de Eduardo Lourenço que têm como elemento comum a cidade da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos. A dimensão circunstancial destes escritos não lhes retira importância, pois, bem vistas as coisas, não é, como o próprio Eduardo Lourenço tantas vezes o refere, toda a obra do ensaísta fruto de uma certa contingência?


Falar Sempre de Outra Coisa. Ensaios sobre Eduardo Lourenço (nº 22), de João Tiago Lima, e Metafísica da Revolução. Poética e Política no Ensaísmo de Eduardo Lourenço (nº 23), de Teresa Filipe são dois novos contributos para a cada vez mais extensa bibliografia sobre a obra do ensaísta.
Na foto que a seguir se reproduz é possível ver, da esquerda para a direita,  Teresa Filipe, João Tiago Lima (que falou sobre Metafísica da Revolução), António Pedro Pita (a quem coube “lançar Vida Partilhada), Eduardo Lourenço, Fernando Catroga (apresentador de Falar Sempre de Outra Coisa) e António Baptista Lopes, da Âncora Editora.




quarta-feira, 10 de julho de 2013

Augusto Abelaira: dez anos agora

Augusto Abelaira (Ançã, 1926 - Lisboa, 2003)





 Da ubiquidade*



Há 20 anos – ou até há dez – a morte de autor de A Cidade das Flores, referência primaveril dos nossos anos de silêncio, teria suscitado, além da ritual tristeza, uma forte emoção cultural. Merecida. Parece não ter sido o caso. Como se ninguém – nem o “povo de esquerda”, a que ele emprestou durante tantos anos a sua atenção crítica e paixão ética – não soubesse já muito bem quem “nos” morria com Augusto Abelaira. É verdade que o tempo da sua disparição, o do Portugal que o vê morrer sem adivinhar quem lhe morre, em quase nada se parece com o país cinzento e tutelado onde a sua obra surgiu. E de que foi uma espécie de cadinho onde todas as perplexidades de uma situação histórica, ideológica, societal, condenada a viver sob o modo críptico da alusão, da virtualidade, eram uma saída alegórica por contra de um futuro sem saída. Todas as saídas possíveis do que não tinha saída – e não apenas em termos de politica e de ideologia – encontraram na obra de Augusto Abelaira a sua expressão mais refinada e sinuosa. Se alguém foi, entre nós, o romancista desse tal “fascismo que nunca existiu” e nos serviu da vida real que nos condicionava os pensamentos e a respiração, foi o autor de Sem Tecto Entre Ruínas. Como respirar quando a atmosfera era tão rarefeita como nos parecia então? Imaginando cenários para tempos futuros, duvidando deles, oferecendo-se quase ludicamente ao labirinto de uma realidade que era mais ficcional do que todas as ficções. Iluminista e racionalista por convicção, céptico por temperamento, Augusto Abelaira fez da ubiquidade impossível o seu terreno de eleição. Nada era o que parecia. Tudo era ou tudo podia ser outra coisa. O inaceitável e o desejável, o mundo que o sufocava e o mundo que o libertaria se fosse como o sonhava. Não era um fanático, era só um apaixonado que mesmo ao mais consolador dos sonhos – e nenhum maior do que a paixão – não podia entregar o seu apetite quase patológico de lucidez. Um século antes, teria sido um fiel adepto, se a expressão não fosse contraditória, de uma filosofia então célebre, a do “como se...”, jamais o amante das certezas que em si repousam ou sobre si se fecham. Profundamente “hamletiano”, a tragédia estava-lhe vedada, era a sua face sthendaliana, o seu lado Fabrizio del Dongo conservando-se paradoxalmente distraído e disponível no meio do Waterloo da vida. Disse-me um dia que a única questão que o interessava era a do Tempo. Não a insolúvel ou vã questão “metafísica” do Tempo, apenas a das visagens e miragens que ele assume, a expressão musical dele, como no seu muito amado Mozart. O Mozart de Cosi Fan Tutte e de Dom João. Mas também de todos os Dons Joões. Do de Lenau, sobretudo, velado de além túmulo pelas suas criaturas amadas, traídas mas nunca realmente abandonadas a que a sua ficção consagrou a única vigília sem cansaço nem remorso. 


* O texto de Eduardo Lourenço que aqui se reproduz foi publicado em Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 9/VII/2003, p. 11. Foi redigido em Vence, a 7 de Julho de 2003, ou seja, poucos dias depois do falecimento de  Augusto Abelaira (Ançã, 18/III/1926 - Lisboa, 4/VII/2003). Infelizmente, dez anos após a morte do autor de romances tão marcantes como A Cidade das Flores, Bolor, Sem Tecto Entre Ruínas ou Outrora, Agora, a sua obra parece que continua a não suscitar o interesse que indiscutivelmente justifica. Professor de Filosofia, Abelaira foi também um notável cronista. Na esperança que a sua obra não seja apenas escrita na água, Ler Eduardo Lourenço recorda aqui a sentida homenagem do ensaísta ao Amigo e ao Escritor.