sexta-feira, 3 de maio de 2013

Pensar Nove Décadas de Amizade (nº 8): Armanda Manguito Bouzy*

Eduardo Lourenço dança flamenco com os estudantes durante uma homenagem na Universidade de Nice



L’Université de Nice Sophia-Antipolis s’enorgueillit d’avoir compté parmi ses professeurs, de 1965 à 1988, un des intellectuels portugais majeurs de la seconde moitié du XXe et du début du XXIe siècle : Eduardo Lourenço.
L’enseignant que l’université azuréenne connaissait sous le nom d’Eduardo de Faria était très apprécié pour ses remarquables qualités d’intellectuel humaniste. Parmi ses anciens collègues philosophes, unanimes à louer son impressionnante culture, le professeur Michel Prieur évoque encore leurs longues conversations sur le mysticisme de saint Jean de la Croix; le professeur Clément Rosset remémore quant à lui leurs échanges à propos des origines de la langue portugaise et de la poésie de Fernando Pessoa.
Dans sa modestie proverbiale, Eduardo de Faria ne parlait guère des écrits de son hétéronyme Eduardo Lourenço. C’est pourquoi la plupart de ses collègues ignorait la richesse de son œuvre alors en construction, une œuvre qui marque aujourd’hui tant la pensée portugaise que la pensée européenne. Toutefois, l’éminent intellectuel Jean-François Mattéi, ex-collègue de l’UNS, a su faire le lien entre l’universitaire et le philosophe de la culture(cf. Maria Manuel Batista, Eduardo Lourenço – a paixão de compreender, Porto, Edições Asa, 2003). Les deux hommes semblent d’ailleurs avoir une vision identique de l’Europe; dans Le regard vide ainsi que dans Le procès de l’Europe où il cite abondamment Fernando Pessoa , Jean-François Mattéi suit le sillon creusé par Eduardo Lourenço à propos de l’épuisement de la culture européenne.





Les collègues du Département d’Études Ibériques, Jean-Louis Brau et Monique Mustapha, se souviennent d’Eduardo et de sa femme Annie, elle aussi enseignante à l’Université de Nice, comme d’un couple attachant et dynamique qui participait avec entrain à la vie culturelle de la cité et de l’Université. Le nom d’Eduardo de Faria résonne toujours avec une émotion teintée de saudade aux oreilles d’Isabelle Bellissent, ancienne étudiante dont il a guidé les premiers pas dans la recherche.
Dans sonexil vençois, lieu où il a forgé l’essentiel de son œuvre, Eduardo Lourenço de Faria est parvenu à créer deux mondes bien distincts : celui du transmetteur de savoir et de culture et celui de l’écrivain créateur d’une pensée originale. Ces deux faces de sa personnalité lui ont permis de sublimer sa condition de patriote apatride et de se constituer une identité européenne à laquelle Érasme aurait souscrit sans sourciller, une identité où prime le culturel.


*Armanda Manguito Bouzy
Directrice du Département de Portugais de l'Université de Nice-Sophia Antipolis.
Maître de Conférences na Universidade de Nice.
Texto inédito enviado gentilmente pela Autora para Ler Eduardo Lourenço

Pensar Nove Décadas de Amizade (nº 7): Afonso Praça*


Afonso Praça




[A Eduardo Lourenço] não lhe custa nada admitir que tem o vício dos jornais: «Quando chego a qualquer país, primeiro leio os jornais, desde os artigos de fundo aos anúncios, mas hoje também vejo televisão». A hora de almoço é aproveitada para começar a matar o vício da televisão, a que dedicará mais algum tempo (horas por vezes), à noite. Annie [Salomon, mulher de Eduardo Lourenço] sem rodeios: «Vê muita televisão todos os dias e o que vale é que não temos parabólica... Se tivéssemos, ele passava a vida sentado diante do televisor...»

Além da informação e de programas cultu­rais, gosta muito de cinema (Annie: «Sobretu­do westerns e comédias musicais») e de des­porto. Ele confirma: «De desporto, vejo um pouco de tudo, com excepção de boxe, mas do que gosto mais é de ténis, Fórmula 1 e fute­bol, sobretudo quando se trata de jogos internacionais. Vejo no des­porto uma imagem ra­dicalizada do combate da vida. Uma final de ténis em Wimbledon é como uma tragédia grega, adquire grande conteúdo dramático. Com o futebol nem tanto, é preciso que a pessoa esteja envolvida nessa paixão, e isso nem sempre acontece.»

Eduardo Lourenço adopta um conceito la­to de cultura, à medida exacta da «aldeia glo­bal», e nem se importa de confessar as suas preferências clubísticas: «Quando estudante, era adepto da Aca­démica, mas também do Benfica por causa do ciclismo. Era a Volta a Portugal em bici­cleta que ia à província e não o futebol, e na altura havia a grande rivalidade entre José Maria Nicolau e Alfredo Trindade, e eu torcia pelo Nicolau, que era do Benfica».

Mas alto aí. Levado ao exagero, o clubismo também tem os seus riscos. E é por saber isso que, ao condenar uma certa euforia naciona­lista e chauvinista, que domina alguns secto­res da sociedade portuguesa, acentua que «o benfiquismo cultural é uma verdadeira praga.»



*Afonso Praça (Felgar, Torre de Moncorvo, 1939 - Lisboa, 2001), jornalista e escritor. 
O texto que aqui se reproduz é um excerto da reportagem "O Exilado de Vence" publicada em Visão, Lisboa, 7/IX/1995, pp. 80-85.

Pensar Nove Décadas de Amizade (nº 6): Manuel António Pina*


Todas as viagens, principalmente a vida, são de regresso. E para quem mais longe foi no mundo e na palavra e pensamento, seja o “expatriado” Eduardo Lourenço seja Montaigne encerrado na sua torre, o regresso tem uma natureza se possível ainda mais elementar.
A citação de “Aos simples”, de Junqueiro, que Eduardo Lourenço fez – evocando as andorinhas da infância e a memória de um velho jornal guardado pelo pai com a notícia da morte do poeta – no final da intervenção com que agradeceu a homenagem que lhe foi prestada em S. Pedro do Rio Seco, dá bem conta, sobretudo vinda de um pensador subtil (por pouco escrevia “complexo”) e heterodoxo, do radical sentido dessa elementaridade: «Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa,/ do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti./ Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares/ cruzavam-se voando em torno dos seus lares,/ suspensos do beiral da casa onde eu nasci.»
A palavra “naturalidade” é rica de consequências. Na aldeia de que é “natural” e de que se perdeu («Estava no mundo ou o mundo estava em mim. Depois, nunca mais soube, realmente, onde estou e nunca o saberei») o rio plural da existência de Eduardo Lourenço reencontrou, por um momento, a nascente para onde corre.
Por coincidência, também eu nesse dia regressara de uma longa viagem ao lugar (e ao quarto) onde nasci, o exausto círculo saudoso do, como diz Angelus Silesius, ponto que o conteve. 


*Manuel António Pina (Sabugal, 1943 - Porto, 2012), jornalista e escritor
O texto que aqui se reproduz foi publicado na secção "Por outras palavras" com o título, “O caminho de casa”, Jornal de Notícias, Porto, 8/VIII/2011, p. 56.