quinta-feira, 12 de julho de 2012

Europa, unde venis?

Não são fáceis de compreender os tempos que correm. Em Portugal, na Europa e no Mundo. Também por isso, a palavra de Eduardo Lourenço se revela tão necessária e urgente. É o caso do ensaio que, com chamada de primeira página, os leitores do (cada vez mais magro?) jornal Público podem hoje ler. Na capa, anuncia-se: “Eduardo Lourenço escreve sobre o futuro da Europa”. O que, não sendo inteiramente falso, não é ainda assim absolutamente verdadeiro.
O título do artigo, “Quod vadis, Europa?” (p. 47), é, de certo modo, ambíguo e nessa ambiguidade radicará talvez a equívoca ideia de que o assunto é realmente o porvir do Velho Continente. O último parágrafo (de resto, magnífico) é, por si só, esclarecedor de que o que está em jogo é, de facto, outra coisa. Senão, leia-se: «Se calhar a Europa não precisava – nem precisa – de ir para lado nenhum, nem ter um outro estatuto histórico, político, ideológico e pleonasticamente cultural mais adequado do que o da sua multíplice realidade que foi sempre o seu. aqui se forjou o mundo moderno. E a modernidade do mundo. Lembremo-nos disso. Não precisamos que ninguém nos salve. Precisamos de nos salvar nós mesmos. Já não é pouco. Não estamos à venda».
Ler Eduardo Lourenço admite que “Quod vadis, Europa?” não é porventura o texto mais esperançoso de um ensaísta que tem vindo a dedicar, nas últimas décadas, muita da sua atenção ao que costuma chamar o destino europeu. Ao afirmar que «talvez tenha sido um sonho mal sonhado desejar uma Europa “unida” tão outra daquilo que durante séculos foi e maravilhosamente o é ainda», Eduardo Lourenço como que regressa ao passado destas «“nações”vizinhas e inimigas». O ensaio de hoje talvez responda, por isso, a uma outra (e não menos decisiva) questão: Europa, unde venis? O que é, afinal, uma nova maneira de dizer que, à Europa dos tempos confusos e atribulados que são os nossos, falta sobretudo que ela seja Europa. Mas o leitor ainda vai com certeza a tempo de ir até a uma banca de jornais perto de si.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Negócios & reinos (pouco) heterodoxos

Ler Eduardo Lourenço admite a sua fraqueza semanal. Começa o seu weekend com a prazenteira leitura do suplemento homónimo do Jornal de Negócios. Fá-lo, aliás, respeitando os preceitos actuais de poupança e, quase envergonhado, confessa que retira o seu exemplar gratuito de uma banca estrategicamente situada numa esquina sombria dos corredores da Universidade. Sente-se quase economista, nessas alturas em que finge ler, com preocupação científica, que os Cortes nos salários vão ser para todos. Acomoda-se, por fim, numa esplanada e, enquanto espera que o café arrefeça, assalta o suplemento de fim de semana quase sempre com proveito. Hoje, não conseguiu evitar a leitura do texto de António Rego Chaves com o estranho título de No reino da heterodoxia, uma página inteira dedicada não, como seria eventualmente de esperar, ao pensamento de Eduardo Lourenço, mas, sim, a um livro (publicado em... 2008!) de Miguel Real. O artigo que, de resto, está também disponível em formato electrónico (https://sites.google.com/site/incensuraveisrecentes/miguel-real-eduardo-lourenco-e-a-cultura-portuguesa), merece talvez algumas considerações.
Em primeiro lugar, não estará o articulista contaminado pela maleita do que ele mesmo chama «jovens ensaístas encandeados pelo anacronismo histórico»? Não se trata de dizer que um livro como Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, mais de quatro anos após a sua edição, tenha esgotado todo o seu poder interpelativo. Pelo contrário. Apesar da sua larga consagração pública (recorde-se que ao livro foi atribuído o Prémio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Portuguesa de Críticos Literários) muitas das suas teses talvez não tenham merecido a discussão que, quer a sua originalidade, quer a sua acutilância, exigiriam. O anacronismo deste No reino da heterodoxia poderia, por isso, ser apenas aparente, caso nos ativéssemos somente à data do livro recenseado. Tanto mais que, na página seguinte, Fernando Sobral faz a crítica de quatro (!) obras de ficção, todas elas dadas à estampa em ... 2012! No poupar é que está o ganho.

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Um importante livro editado em ... 2008!


Mas o assunto é o artigo No reino da heterodoxia”. Este lapso temporal, semelhante ao de um ciclo olímpico, poderia ter dado ao recenseador a oportunidade de reflectir e questionar – ou até de ajudar a encontrar melhores alicerces para elas – as hipóteses de leituras avançadas por Miguel Real. Infelizmente não o faz. Dois exemplos, apenas.

1. «Salienta Miguel Real que “a principal característica do pensamento de Eduardo Lourenço, a partir da segunda metade da década de 1950, reside, pela negativa, no abandono dos estudos filosóficos de carácter académico, enquanto especialização universitária e, pela positiva, no empenhamento estético-cultural que rodeia a sua actividade como pensador que assume a história da literatura portuguesa como principal fonte de inspiração. Já em 1951, aliás, se demarcara daqueles a quem chamou “os racionalizadores, os ordenadores da coerência sintáctica, os cientistas da abstracção sem a carne e o sangue da história e do sofrimento do homem (…) neste nosso século em que a razão professoral invadiu o homem. Uma frase diz quase tudo: “A questão [Fernando] ‘Pessoa’ é, para Eduardo Lourenço, do domínio ontológico e para a Universidade do domínio literário. Segundo o autor, a consciência de uma “ínsita irrealidade do mundo, adquirida no profundo encontro com a poesia de Orpheu (“a experiência mais radical de quantas a história da nossa poesia dá conta) levá-lo-á a encarar a Poesia como “uma realidade absoluta, cujo estatuto substitui hoje, na consciência dos povos, o conteúdo das tradicionais mitologias e religiões europeias» [António Rego Chaves, No reino da heterodoxia”, Suplemento Weekend de Jornal de Negócios, 6/VII/2012, p. 20] .

Esta tese de Miguel Real afigura-se, no mínimo, discutível. É que convém recordar que o segundo volume de Heterodoxia, publicado em 1967 (embora com textos escritos anteriormente), inclui ensaios sobre o existencialismo, Kierkegaard, Camus, pelo que talvez seja demasiado ousado defender a ideia de que «a partir da segunda metade da década de 1950» se possa falar, no caso de Eduardo Lourenço de um «abandono dos estudos filosóficos de carácter académico». Ora, António Rego Chaves aceita esta interpretação de Miguel Real. E, registe-se, está no seu pleníssimo direito. Mas é curioso que, no artigo, se omita por completo que entretanto (em 2011, mais precisamente) Eduardo Lourenço editou Heterodoxias, o primeiro volume das suas Obras Completas que, como se sabe, reúne ensaios (escritos desde 1945 até 2010!) que, sem grande risco de equívoco, se podem considerar textos filosóficos. Miguel Real em 2008 não o poderia adivinhar, claro. Mas será esse o caso do seu anacrónico recenseador quatro anos volvidos?

2. «Adverte Miguel Real: “O nosso ensaio debruça-se exclusivamente sobre as duas primeiras fases da heterodoxia: 1.ª fase: heterodoxia aplicada à identidade cultural de Portugal: 1949-1978; 2.ª fase: heterodoxia aplicada à identidade cultural da Europa: 1980-1997. A 3.ª fase, a heterodoxia aplicada à cultura americana, será por nós objecto de um estudo a publicar com o título ‘O Último Eduardo Lourenço’.” Estamos à espera.» [António Rego Chaves, ibidem].

Ler Eduardo Lourenço confessa que a expressão heterodoxia aplicada lhe parece ser, por si só, bastante enigmática. Os seus supostos objectos de aplicação não o são menos. Mas seria especialmente estimulante que António Rego Chaves esclarecesse o que significa tão definitiva advertência. Ora, tal não sucede. Ler Eduardo Lourenço promete que, também ele, continuará à espera. Talvez num dos próximos weekends o mistério seja desvendado. E, ao contrário do que sucedeu no caso dos cortes dos salários, ter esperança não parece ser inconstitucional.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

António Marques

 António Marques
(foto http://www.ifl.pt)

No mais recente número da revista Colóquio-Letras encontrou Ler Eduardo Lourenço aquela que talvez seja, até agora, a mais completa recensão crítica publicada do primeiro volume das Obras Completas do ensaísta. De facto, António Marques analisa, ao longo de quatro densas páginas cheias de minúcia e rigor, as teses principais de Heterodoxias. Nada isto pode surpreender, no fim de contas. António Marques é, como se sabe, Professor Catedrático do departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e director do Instituto de Filosofia da Linguagem. É, para além disso, autor de variadíssimas obras de referência sobre filósofos como Kant, Nietzsche e Wittgenstein.Ora, o que talvez seja menos conhecido é a dimensão da sua actividade que o coloca, sem dúvida, como um dos mais atentos leitores de Eduardo Lourenço. Por outras palavras, o artigo “Eduardo Lourenço: antiniilismo e radicalidade” talvez ganhe em ser lido interpretado juntamente com dois outros escritos de António Marques. Por um lado, o já longínquo texto, dado à estampa no Diário de Notícias de 22 de Fevereiro de ... 1979(!!!), com o título “Psicanálise mítica e autognose”. Por outro, duas páginas do estudo “Autolegitimação e Autonomia. A Filosofia em Portugal desde finais dos anos sessenta até aos nossos dias”, incluído na injustamente esquecida obra, coordenada por Fernando PernesPanorama da cultura portuguesa (Porto, Afrontamento, 2002). Ler Eduardo Lourenço não garante que sejam apenas estes os textos que António Marques dedicou ao pensamento do autor de O Labirinto da Saudade, nem é isso decerto o mais relevante. O que importa sublinhar talvez seja outra coisa. Por exemplo, o seguinte: que António Marques é um dos (ainda?) raros olhares filosóficos que, do ponto de vista da universidade portuguesa, tem ousad debruçar-se sobre o pensamento de Eduardo Lourenço. Não é, evidentemente, o único. Mas é, com certeza, um dos mais significativos e estimulantes.


Assim, em “Psicanálise mítica e autognose”, António Marques analisa criticamente o texto “Contra o Previsível Post-Scriptum” que Eduardo Lourenço escreveu na sequência imediata da publicação do Labirinto. Fá-lo dizendo que a explicitação dos pressupostos metodológicos e epistemológicos que, no referido ensaio, Eduardo Lourenço faz do programa do seu título mais famoso se, por um lado, hipotecam o projecto de uma autognose cultural, precisamente porque tornam inviável o propósito de desocultarmos a nossa verdadeira imagem, por outro, são um convite para que a questão mereça e seja aprofundada. Daí a conclusão com que António Marques encerra o seu artigo: «Pela importância do tema e a inteligência do ensaísta, vale a pena estarmos atentos».
Em “Autolegitimação e Autonomia. A Filosofia em Portugal desde finais dos anos sessenta até aos nossos dias”, a aproximação de António Marques ao ensaísmo de Eduardo Lourenço faz-se enquadrando este no que aí se designa por uma filosofia da estética, da qual seriam também companheiros de viagem José Gil e Maria Filomena Molder. Não espanta, por isso, que António Marques considere a poesia de Pessoa como «a obra por excelência (...) [do] mitológico-ficcional que autenticamente interessa» a Eduardo Lourenço para quem «as obras literárias» não são, a bem dizer, um mero «material de estudo».
Em suma, precisamente porque discutíveis (no sentido preciso do termo, ou seja, porque merecem ser discutidas), as leituras que António Marques faz do autor de Heterodoxias revelam uma atenção e uma acuidade que fazem delas ocasiões de grande proveito filosófico. Não foge à regra “Eduardo Lourenço: antiniilismo e radicalidade”, cuja leitura reforça a impressão de que, ao seu autor, se devem   algumas das leituras mais filosoficamente estimulantes  daquele que o próprio António Marques considera ser o «mais universal filósofo português» (p. 165).

terça-feira, 26 de junho de 2012

Só Deus os viu jogar juntos...



Num país futebolisticamente obcecado pelo duelo ibérico de amanhã e em que jogará por fora (em vários dos múltiplos sentidos desta equívoca expressão) o argentino Lionel Messi, talvez interesse recuperar as palavras de Eduardo Lourenço acerca das impossíveis comparações sobre quem é ou quem foi o melhor futebolista do mundo. Deste e de todos os tempos. Por exemplo, será Cristiano Ronaldo superior a Figo? E Eusébio? Terá sido ele mais jogador do que os outros dois?





O ensaísta responde: «Os santos da nossa época são outros. Eusébio, por exemplo, que há dias manifestava a sua frustração por ter sido designado como o sexto melhor jogador do nosso século [século XX]. Sem se ter por incomparável – que se calhar até é – Eusébio pensava num segundo lugar. Que foi o melhor do seu tempo português, quem o duvida? Que talvez tenha sido o segundo ou o terceiro do tempo mundial de Pelé, ou de Di Stefano é hipótese que não escandaliza. A verdade é que, por incomparável, ele ou os outros ídolos do seu tempo nem deviam admitir ser comparados. De qualquer modo, o que não tem sentido é comparar gente de épocas, contextos, códigos diversos. Não só Alexandre com Aníbal ou este com Napoleão, comparação clássica, mas também Galileu com Newton ou com Einstein (que são, afinal, um só “homem”), mas muito menos Gil Vicente com Shakespeare, ou Monteverdi com Mozart. Antes de estarem isolados pelo génio, cada um está isolado pelo seu tempo. No tempo português, a hora de Eusébio não foi a de Vitor Silva, nem a de Pinga ou de Peyroteo, como a de Borg não foi a de Rod Laver ou a de Copi a de Merckx. Essa gente nunca se conheceu. Estão separados dos outros como as estrelas, mesmo as próximas. Ninguém os pode comparar. Que mais não fosse, só por isso já seriam “incomparáveis”. Só Deus os viu jogar juntos. Mas não confiou as suas apreciações a ninguém.» (“Incomparáveis ou a tristeza de Eusébio”, Visão, 21/I/1999, p. 98).

quinta-feira, 21 de junho de 2012

José e Eduardo foram a exame


Ler Eduardo Lourenço não quer correr o risco de se equivocar desnecessariamente, mas julga que, pela primeira vez, o autor de O Labirinto da Saudade é tema de exame de Filosofia (que este ano regressou ao calendário oficial das provas, decisão que, sem qualquer ironia, vivamente se saúda) no ensino secundário. Tratar-se-á de mais uma consagração pública do ensaísta? Será que, por exemplo, o conceito de heterodoxia começou a constar das cábulas dos estudantes liceais? A bem dizer, não é esse exactamente o caso. E talvez seja mesmo exagero falar-se em tema de exame. O que sucede é que Eduardo Lourenço (na óptima companhia do seu amigo José Gil) aparece como protagonista de um argumento de lógica, cuja validade formal os examinandos teriam de testar, como se pode ver pela imagem que a seguir se apresenta.
Felizmente que o que estava em causa era apenas a validade do argumento e não a correcção do enunciado da primeira premissa que reza assim: «Se o António é um intelectual português contemporâneo, então leu Eduardo Lourenço e leu José Gil». O que está em questão não é averiguar quem é o António, tarefa interessante e seguramente não menos fácil do que a resposta à pergunta do exame, atendendo aos vários possíveis intelectuais portugueses contemporâneos que têm o nome em comum com o santo padroeiro de Lisboa. Tão pouco que os intelectuais portugueses contemporâneos, para o serem, têm de ler este ou aquele autor, ainda que estas não sejam, decerto, as piores sugestões de leitura. De resto, o consequente leitor de Eduardo Lourenço e José Gil é, desde logo, assinalável. Repare-se que os dois não são apresentados em alternativa, pois, de acordo com o enunciado da prova, quem lê Lourenço tem de ler Gil e isto surge com uma energia apodíctica. Felizmente que estas dúvidas e inquietações não são compatíveis com o espírito frio e calculador dos examinadores. E, de facto, a validade do argumento poderia ser testada mesmo se ele aparecesse expresso numa linguagem puramente simbólica. Dir-se-ia que, com sorte, é possível que alguns dos 5695 alunos (84% dos inscritos) que realizaram a prova sintam a curiosidade de pegar num livro de Eduardo Lourenço ou de José Gil. Se se chamarem António, então pode ser que, um dia, venham mesmo a ser considerados intelectuais portugueses contemporâneos. Nem que seja num argumento de exame.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Para Saramago*

 José Saramago e Eduardo Lourenço
(foto de Augusto Cabrita, Bruxelas, 1991)
Nenhuma Cassandra podia vaticinar que a geração da Utopia que foi a de José Saramago encontraria, entre estes muros lembrados do império perdido, a sua capela ardente e maravilhosamente imperfeita.
A realidade superou a ficcção. Mas só o fez porque, antes, a ficção, os sonhos de papel de um poeta filho da terra e da sua transcendência, converteu as suas fábulas em fábulas de ninguém e de toda a gente. os muros sem norte desta casa que a capital do País achou por bem conceder ao romancista que pôs o nome da sua terra no ecrã literário do mundo são o rosário de contos que o nosso fabulista-mor consagrou à sua musa Blimunda e ao numeroso séquito que a acompanhará para sempre.
Com Saramago entra nesta casa uma geração que desejou de olhos abertos, se não mudar o mundo, torná-lo digno de ser salvo da sua irredenta inumanidade. Cada um à sua maneira, Jorge de Sena, Vergílio Ferreira, Agustina, traz a sua luminosa sombra para fazer companhia ao autor de Memorial do Convento e de Todos os Nomes. Cada autor digno de memória resume a literatura do povo a que pertence e do mundo inteiro.
Que ao menos aí sejamos a chama da única pátria que os ventos da História não apagam da nossa memória precária.
Vence, 12 de Junho de 2012
*Mensagem enviada por Eduardo Lourenço por ocasião da abertura da Fundação José Saramago na Casa dos Bicos em Lisboa e publicada em Diário de Notícias de 13 de Junho de 2012, p. 50. Cf. também http://josesaramago.org/292010.html

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Finalmente Sociólogo?

Eduardo Lourenço (à direita) com o seu amigo Vergílio Ferreira numa época da pré-história da Sociologia em Portugal

Acaba de chegar às mão de Ler Eduardo Lourenço o muito interessante livro de Rita Ribeiro, A Europa na Identidade Nacional (Porto, Afrontamento, 2011). Trata-se de uma versão revista da Dissertação de Doutoramento em Sociologia defendida pela autora na Universidade do Minho em Setembro de 2008. Nas referências teóricas mobilizadas por  A Europa na Identidade Nacional destaca-se o ensaísmo de Eduardo Lourenço, designadamente algumas das suas reflexões acerca da cultura portuguesa e do seu diálogo (ou falta dele) com a Europa. Aliás, o prefácio do livro foi redigido por Maria Manuel Baptista que, como é sabido, tem dedicado grande parte da sua investigação académica ao estudo de Eduardo Lourenço e que não deixa de frisar a marca do ensaísta no trabalho que apresenta, designadamente através do conceito de hiper-identidade da cultura portuguesa.

O justíssimo relevo que é concedido por Rita Ribeiro ao autor de A Europa Desencantada não pode, nos nossos dias, surpreender quem quer que seja. Ainda assim, esse facto não deixa de ser sintomático de que alguma coisa talvez tenha mudado no reino epistemológico da Sociologia. A tal ponto que é aceitável que se recorra agora (finalmente?) às teses de um ensaísta cuja obra chegou, em tempos não muito distantes, a ser caracterizada como tendo uma «função profética [que], como é sabido, pertence ao domínio do sagrado e é incontrolável. Por sua vez a função analítica (psicanálise, psicologia, sociologia, antropologia) pertence ao domínio controlável da ciência» [José Veiga Torres, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 2, Coimbra, Setembro de 1978, p. 132]. Esta má vontade manifestada por sociólogos profissionais (e outros exemplos, inclusivamente de sociólogos mais célebres,  se poderiam dar...) em relação aos livros de Eduardo Lourenço talvez nunca tenha preocupado demasiadamente o ensaísta. Mas não há dúvida que ela decorria de alguns equívocos, ao que parece agora (definitivamente?) removidos.
Sobre este tópico talvez valha a pena recuperar até um parágrafo do estudo “Situação do Existencialismo”, publicado pela primeira vez em 1954 (!!!), ou seja, em plena pré-história da sociologia portuguesa, e que o leitor pode reencontrar no primeiro volume das suas Obras Completas, «Não temos outro remédio senão enquadrar a intenção que nos move dentro de uma preocupação geralmente qualificada de sociológica. Mas fazemo-lo sob certas reservas, a primeira das quais é a de atribuir um sentido e um alcance à explicação sociológica que poucos sociólogos estariam dispostos a admitir. Como se verá, a questão resume-‑se, em suma, em denegar à sociologia o carácter de ciência, relegando-a para aquilo que ela de resto nunca deixou de ser, como todas as chamadas “ciências do espírito”, isto é, Retórica, “discurso verosímil” à antiga e sábia maneira aristotélica. Os cultivadores dessas famosas “ciências do espírito” imaginar-se-ão mais pobres por não se suporem “científicos”, mas os seus estudos só serão sérios quando forem menos sérios do que eles os imaginam» [Heterodoxias, Lisboa, Gulbenkian, 2011, p. 230] .
A genuína satisfação que Ler Eduardo Lourenço agora testemunha pela publicação de A Europa na Identidade Nacional não se ressente minimamente por causa de um pormenor que talvez mereça uma levíssima reserva. Assim, quando se refere ao problema da chamada filosofia portuguesa, Rita Ribeiro afirma que «os nomes que se associaram ao Movimento da Filosofia Portuguesa constituíam a nata da intelligentsia nacional com aprovação e reconhecimento por parte do regime [Estado Novo]» [p. 90]. É, sem dúvida, uma tese discutível (para não dizer empiricamente refutável ou não controlável, se se preferir usar o jargão de um certo sociologismo) e que, porventura, desagradará quer aos adeptos do Movimento, quer aos ... defensores do próprio Estado Novo. Mas esse é assunto para discutir em outra ocasião, naturalmente.