quarta-feira, 6 de junho de 2012

O que eu queria mesmo era voar, voar!

 foto de António Pedro Santos (jornal i, 26/V/2012, p. 36)


foto de Alfredo Cunha (revista up, Maio de 2012, p. 31)
 
«José Carlos Vasconcelos: Gosta de História, dedicou-se à Filosofia, desejava ser poeta, escritor de ficção, autor de teatro - tendo escrito, na cabeça, pelo menos uma peça -, a música proporciona-lhe hoje uma emoção ímpar. O que não queria ser é o que é?
Eduardo Lourenço: Isso é agir por defeito (risos). Não me quero caluniar, mas sou muito consciente de que me falta a criatividade e originalidade de grandes figuras do passado e do presente. Tenho o sentimento dessa riqueza imensa e não me consigo situar, mesmo numa escala mínima, nessa família de gente que também quis atingir qualquer coisa. Eu só tenho existência ... física, embora quisesse ter uma espécie de existência angélica.O que eu queria mesmo era voar, voar!»
(entrevista: Visão, 22/V/2003, p. 154)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sobre Sílvio Lima

Sílvio Lima



Numa semana em que o recém-criado Grupo de História e Desporto organiza, com o apoio do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e do CEIS20 da Universidade de Coimbra, o I Congresso de História do Desporto, é com certeza oportuno evocar a figura de Sílvio Lima. Com efeito o autor de Ensaio sobre a Essência do Ensaio, que para muitos é o primeiro filósofo do desporto português,  foi sem dúvida quem iniciou, de modo academicamente fundamentado, o estudo da temática desportiva de um ponto de vista inserido no que hoje se chama as ciências sociais e humanas, ao publicar, nos finais dos anos Trinta do século passado, três livros de ensaios que, através das suas teses polémicas, como era timbre de Sílvio Lima, ainda hoje são de muito proveitosa leitura. O desporto era, na altura, um objecto científico bastante mais exótico do que é hoje, sobretudo aos olhos de uma Universidade pouco atenta às mutações vertiginosas da sociedade. Por isso, a audácia de Sílvio Lima em pensar o desporto é ainda mais surpreendente e digna de admiração.Como já aqui se disse, Sílvio Lima foi, juntamente com Joaquim de Carvalho, um dos Professores que decisivamente  marcou a passagem de Eduardo Lourenço por Coimbra. Ora, se, sobre Joaquim de Carvalho, existem vários textos do antigo discípulo (cf. Heterodoxias, o primeiro volume das Obras Completas), já em relação a Sílvio Lima as referências são mais escassas e sobretudo dispersas. É por isso do maior interesse recuperar dois excertos de uma entrevista realizada por Paulo Archer a Eduardo Lourenço e que, embora parcialmente, vem reproduzida em Sílvio Lima: um místico da razão crítica (Da incondicionalidade do amor intellectualis), uma volumosa e muito documentada Dissertação de Doutoramento em História, defendida em 2009, na Universidade de Coimbra e cuja publicação em livro já tarda. O primeiro dos excertos que, com a devida vénia, Ler Eduardo Lourenço hoje apresenta diz respeito a Sílvio Lima como pedagogo, designadamente através de uma comparação com Joaquim de Carvalho. 

«Joaquim de Carvalho era um Mestre austero, um universitário e académico de tipo clássico, embora afável e por vezes acessível, transportava para as aulas um mundo de conhecimentos. Era um peso pesado de erudição. Solidamente alicerçadas no cartesianismo as suas aulas de Filosofia, sobretudo as de teoria do conhecimento, eram o espelho lógico dum pensamento racionalista e crítico, do qual ele próprio dava modelo exemplar, quer na inventariação dogmática quer na exposição metódica e equilibrada dos diversos passos. Era um professor clássico, repito, que impunha respeito pela sua presença e capacidade de saber. Mas era pessoalmente acessível. Talvez certa aura de inacessibilidade tenha a ver com a toca familiar. Joaquim de Carvalho vivia num primeiro andar, em sua casa, e aí se isolava daquela familota toda, daqueles filhos todos, que viviam por baixo, no rés-do-chão, num mundo à parte, do qual se distanciava.
Sílvio Lima apenas foi meu professor de Psicologia (penso que durante o meu tempo de estudante universitário apenas estava confinado à leccionação de Psicologia), pelo que é mais difícil fazer um cotejo sob a estrita perspectiva crítico-filosófica. No entanto, é claro que as suas aulas eram de uma abertura e elasticidade surpreendentes, os temas, as áreas de conhecimento abriam-se umas às outras, as exposições eram empolgantes e o diálogo era procurado, estimulado e mantido. Sílvio Lima era um professor brilhante, mas de um raro brilhantismo que deslumbrava pela sua capacidade de interrelacionamento, fascinando o auditório com uma comunicação penetrante e um poder de argumentação muito lúcido. Com uns olhos muito vivos e inquietos que espreitavam assuntos e inquietações, Sílvio Lima seduzia-se por Renan, por Guyau, sobretudo por Guyau, que citava e comentava muito. Nas suas aulas procedíamos a leituras críticas de textos, discutiam-se obras e autores com a maior amplitude, eram aulas diferentes, não se confinava aos codicilos da Psicologia ou da Psicologia Experimental, ao domínio científico restrito. De resto, a Faculdade no contexto da Universidade, mantinha uma certa imagem de escola. Repare que mesmo Miranda Barbosa, que era um tomista ou um neotomista, com quem me iniciei na leitura de Kant (não foi possível com Joaquim de Carvalho porque estava confinado então à teoria do conhecimento, lamento porque era um neokantiano clássico na linha de Cohen e Natorp), não só permitia como estimulava o contraditório, a opinião contrária. De certa maneira, Kant fez parte do itinerário da minha autoformação, foi um trabalho de autoaprendizagem. Mas pela agilidade intelectual e pelo virtuosimo prático da comunicação pedagógica, Sílvio Lima sobressaía do conjunto dos meus mestres e professores».

O segundo excerto aqui repescado reporta-se ao livro O Amor Místico, obra polémica e apreendida devido ao seu carácter ousado ou até, aos olhos dos espíritos mais sensíveis (ou menos, conforme a perspectiva que se pretenda adoptar...), escandaloso. Eis como Eduardo Lourenço se refere ao tema:

 
«O livro não existiu, por assim dizer, não chegou a existir, era um projecto do qual apenas conhecemos uma parte e mesmo essa foi proibida e penso que a edição foi apreendida. No meu tempo de escolar universitário, na primeira metade dos anos Quarenta, as duas obras de Sílvio Lima, aquelas Notas Críticas ao livro do Cardeal Cerejeira e o Amor Místico, apareciam por vezes na papelaria do Cunha das Valsas (assim chamada porque se especializara na venda de colecções partituras e libretos), na Rua Ferreira Borges, perto já do Largo da Portagem, onde as procurávamos, imagine, entre outros livros escondidos de alfarrábio. Por isso, aqueles livros de Sílvio Lima não tinham existência oficial. Mas foi, na época, uma aventura, uma estranha aventura escrever esses textos. Parece que a ninguém, à época, interessava o tema, mesmo as prioridades intelectuais da Esquerda em oposição declarada ao regime não se encaminhavam nesse sentido. Foi uma perigosa aventura destemida e Sílvio Lima agiu e colocou-se numa arriscada posição solitária, fragilizando-se.
Como era possível escrever livros daqueles, naquele tempo? Parece absurda a posição em que se estava a situar Sílvio Lima, mas era um claro acto de coragem. Cerejeira, manteve-se em silêncio, durante toda a polémica, mas Trindade Salgueiro, não sei se por indicação de Cerejeira, talvez nem fosse preciso, talvez nem tenha existido, para mostrar serviço e para mostrar que sabia fazer esse serviço, executou o trabalho de condenação pública do culposo

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Começamos a existir quando se repara na nossa ausência.



... Em geral tarde. Em Portugal, nunca.Vence, 16-5-92.



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S. Pedro do Rio Seco,  junto da Mãe, irmãos e Tia Conceição, 1937



Guarda, junto da Mãe e irmãos, 1939



«A relutância ao auto-retrato – mesmo sem Freud ao fundo – deve ser um dos traços da biografia que tenho como toda a gente. Nasci em certa época, num certo lugar, com uma História acumulando glórias e desastres que me não diziam respeito e eram meus por fora, fiz estudos, tive sucessos e insucessos neles, cumpri-me sem intenção disso em actos e obras que os outros me atribuem e eu sou obrigado a aceitar como meus e a incluir na hipotética biografia. Mas tudo isso, mesmo que fosse minucioso até à prolixidade e por isso inenarrável, não me define tanto como o reflexo instintivo de não sentir uma relação necessária entre a sucessão imprevisível dos eus que foram sendo eu e o meu imaginário retrato, tirado por outrem ou por mim. O tirado por mim só seria diferente por ser apenas mais imaginário que o tirado por um outro que, ao menos, veria o que de fora se vê. A opinião do incorruptível Schopenhauer diz o que basta. «Toda a biografia é uma pa­tografia». O que pensaria da autobiografia, se a julgasse possível?...Na verdade é possível, mas não como a ima­ginamos. É a vida mesma que nos biografa – por isso é a nossa vida – e escrevendo­-se em nós nos autobiografa sem que a ninguém, salvo a essa vertiginosa musa, possa­mos imputar tão extraordinária façanha. Nis­so, quem está a menos, somos nós, e a vida tão excessivamente a mais que só a conhece­mos por nossa nos intervalos em que a temos como se de um outro fosse. Só os outros nos tiram retratos e só a colecção aleatória destas vistas ocasionais dos outros sobre nós cuida­dosamente arquivadas, se isso valesse a pena, para termos mais tarde e acabada a vida que não nos tem, seria então um “auto-retrato”. Toda a autobiografia é, ao mesmo tempo impossível e pleonástica. O menor dos nossos traços nos revela e nos trai. Estes, por exem­plo.» Jornal de Letras, Artes e Ideias, 8 /X/1997.

Bordéus, com Annie, 1949

Luchan, 1972, com o filho, Gil




Vence, 1997. Com as netas, no Natal.








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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Hoje, às 18h



Eduardo Lourenço, António Lobo Antunes, José Peixoto. Três razões de peso para ir hoje ao Museu da Eletricidade em Lisboa, acompanhar a última das Conversas às Quintas. Trata-se de uma iniciativa da Visão, no âmbito das comemorações da edição 1000 da revista.


http://visao.sapo.pt/venha-assistir-as-conversas-as-quintas-com-a-visao=f659292




Imagem retirada do blog do escritor J. L. Peixoto que também nos dá conta da notícia:
http://joseluispeixoto.blogs.sapo.pt/64364.html

Mais um evento a não perder!!


quarta-feira, 16 de maio de 2012

As Portas que Pessoa Abriu




Na passada segunda-feira, o Expresso disponibilizou no seu site, o manuscrito do texto proferido por Eduardo Lourenço, na cerimónia de entrega do Prémio Pessoa 2011. O texto, que Ler Eduardo Lourenço reproduz, com a devida vénia, foi dedicado aos seus amigos Antonio Tabucchi e Agustina [Bessa-Luís].











No mesmo sítio pode encontrar-se a fotogaleria do evento,

e a reportagem:


terça-feira, 15 de maio de 2012

Recortes de uma celebração...

Realizou-se ontem no Grande Auditório a Culturgest, em Lisboa, a entrega do Prémio Pessoa 2011 a Eduardo Lourenço, condecoração já noticiada neste blog. O prémio foi entregue pelo Senhor Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e pelo Presidente do Júri, Francisco Pinto Balsemão. Ler Eduardo Lourenço lamenta não ter podido estar presente numa cerimónia que, uma vez mais, reconheceu  o trabalho incansável e em construção do Autor ao serviço de um pensamento crítico, mas deixa aos seus visitantes alguns recortes da imprensa de hoje. Afinal, como relata o Correio da Manhã na página 39, todos «somos puros mutantes (...) para viagens sem itinerário».
Correio da Manhã, p. 39
Presidente da República e Presidente do Júri aplaudem Eduardo Lourenço

Diário de Notícias, p.47
O Presidente da República entrega Prémio a Eduardo Lourenço.

Público, p. 28
Secretário de Estado da Cultura e o galardoado.

Jornal de Notícias, p. 43.
«Precisamos de E. L. para nos ajudar a reflectir sobre muitas questões que atravessam e afligem o nosso tempo», sublinhou o presidente do júri, Dr. Pinto Balsemão.

Correio da Manhã, p. 2
Assinala-se a exemplaridade da obra do Autor.


Público, Ter 15 Maio 2012, p. 46
«O vintage dos prémios Pessoa».




Por ocasião da distinção, a RTP exibe hoje, no canal 1, às 22.38, o documentário autobiográfico Regresso Sem Fim. Para quem ainda não teve a oportunidade de ver este filme realizado por Anabela Saint-Maurice e no qual intervêm também Pedro Mexia, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Angel Marcos de Diós, Fernando Rodriguez la Flor e o Dr. Adriando de Faria (irmão mais novo do ensaísta), esta é claramente uma ocasião a não perder.

Correio da Manhã, p.46

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Uma semana rosa(...) em três andamentos!


1. No sábado passado, no Auditório da Feira do Livro em Lisboa, realizou-se o lançamento oficial do novo livro de Eduardo Lourenço. Na sessão, merecem especial destaque as intervenções do Autor e da Coordenadora deste volume, Barbara Aniello. Assim, depois de a investigadora italiana ter relatado o processo que conduziu à edição de Tempo da Música, Música de Tempo e que, tal como afirmou a Ler Eduardo Lourenço, corresponde apenas a um terço do material encontrado e transcrito (que, como já aqui se noticiou, será integrado num dos volumes das Obras Completas) Eduardo Lourenço deliciou os presentes com uma intervenção apaixonada (e apaixonante) sobre a sua relação com a música, desde os tempos felizes de S.Pedro do Rio Seco.

Foto Ler Eduardo Lourenço

Foto Ler Eduardo Lourenço


2. Entretanto, ontem, quinta feira, Eduardo Lourenço publica na revista Visão a sua perspectiva sobre as recentes eleições presidenciais de França. O título do texto (La vie en rose...) talvez seja enganador quanto à leitura que o ensaísta faz das implicações da vitória de François Hollande, quer no seu país de adopção, quer na Europa (e, portanto, em Portugal). Mas as reticências do título indiciam, de certa forma, o tom moderadamente esperançoso com que Eduardo Lourenço lê o regresso de um socialista ao Eliseu. Devido à raridade das intervenções políticas de fundo do autor, nos últimos meses, Ler Eduardo Lourenço considera que se justifica a reprodução do texto que na manhã de ontem chegou às mãos dos leitores da Visão.






3. Na próxima segunda feira, dia 14, em sessão que evoca os vinte cinco anos do Prémio Pessoa, será entregue um dos mais importantes galardões da cultura portuguesa ao vencedor de 2011, Eduardo Lourenço. Eis o programa oficial da sessão: