quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Jornal de Letras, revisitado

Eduardo Lourenço numa foto publicada no JL em Maio de 2008

Há trinta anos, mais concretamente a 3 de Março de 1981, a Imprensa portuguesa viu surgir do seio das Publicações Projornal (empresa responsável pelos saudosos semanários O Jornal, de algum modo o antecessor da revista Visão, e Se7e, entre muitas outras edições, entre as quais a primeira versão de A Europa Desencantada de Eduardo Lourenço) um projecto que tudo indicaria estar votado ao fracasso ou pelo menos a uma existência efémera. Tratava-se do JL jornal de letras, artes e ideias, um quinzenário (publicava-se então às terças) que, no seu primeiro número, era vendido ao público pela módica quantia de vinte e cinco ... escudos! Felizmente o JL sobreviveu às diversas crises que o país entretanto atravessou e continua hoje a desempenhar um papel muito útil não só em Portugal, como em todo o mundo lusófono, gozando por exemplo de um prestígio surpreendente no Brasil.

foto Ler Eduardo Lourenço

Nessa edição de estreia em Março de 1981, o JL oferecia ao leitor, para além de uma magnífica entrevista a José Cardoso Pires realizada pelo director José Carlos de Vasconcelos (que ainda hoje dirige a publicação), extensos artigos de, entre outros, Agustina Bessa Luís, Eduardo Prado Coelho, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Belo, Alexandre Pinheiro Torres, Nuno Bragança, Manuel Maria Carrilho, Paula Morão e João Mário Grilo.
Eduardo Lourenço, então habitual cronista de O Jornal, também participa neste número inaugural do JL com o ensaio “Encontro com Jorge de Sena”, fazendo desde logo juz ao estatuto de colaborador permanente que mantém até hoje. De facto, muitos dos ensaios de Eduardo Lourenço tiveram a sua primeira vinda a público nas páginas do JL. Seria fastidioso dar aqui conta de todos eles. Ler Eduardo Lourenço destaca, ainda assim, três edições muito especiais: o nº 231de 6 de Dezembro de 1986, o nº 667 de 8 de Mario de 1996 e o nº 851 de 14 de Maio de 2003. Em cada uma dessas edições o leitor pôde encontar um extenso e rico dossier com testemunhos e artigos sobre a obra de Eduardo Lourenço e até inéditos ou entrevistas com o próprio ensaísta.
A edição de hoje do JL, o nº 1074 mais precisamente, apresenta em pré-publicação excertos de “Joaquim de Carvalho e a Ideia de uma Filosofia Portuguesa”, um dos capítulos de Heterodoxias, o primeiro volume das Obras Completas (cujo lançamento ocorre na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, depois de amanhã, pelas 18h30m). É uma forma feliz de assinalar o que o JL considera ser «sem dúvida, um dos grandes acontecimentos editoriais do ano». A ler, portanto.

foto Ler Eduardo Lourenço

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Heterodoxias: lançamento em Lisboa e sessão de apresentação em Évora

Ler Eduardo Lourenço tem o enorme gosto de convidar todos os visitantes do blog para o lançamento oficial de Heterodoxias, a realizar no próximo dia 2 de Dezembro (sexta-feira), pelas 18h30m, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Três dias depois, no Auditório do Colégio do Espírito Santo na Universidade de Évora, Eduardo Lourenço estará também presente pelas 18h numa sessão de apresentação daquele que é o primeiro volume das suas Obras Completas.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Filosofia e o Tempo

Ler Eduardo Lourenço não quer deixar de recordar o Dia Mundial da Filosofia que se assinalou na passada semana. Como tal, oferece aos seus leitores um escrito de 1952, publicado muitos anos depois na Revista Metamorfoses (num dossier especial,  com o título Os trabalhos e os dias, dedicado ao ensaísta em que,  para além de inéditos, recolhe um excelente conjunto de testemunhos sobre Eduardo Lourenço). Trata-se de uma brevíssima mas profunda reflexão acerca do que se intitulou aqui a Filosofia e o Tempo. Como se depreende das palavras do Autor escritas há mais de meio século  não é este tempo favorável à Filosofia, ou aos verdadeiros filósofos. Pressionados pela ideia de novidade, o tempo presente não se deixa reflectir. É o tempo do jornal diário, mais do que o livro da minha vida. Mas que se dê passagem ao que interessa, ao texto.


Metamorfoses. Revista da Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros, nº 4, Rio de Janeiro, Setembro de 2003.

«Coimbra, 8 de Setembro de 1952.

Se as Investigações Lógicas ou as Ideias de Husserl tivessem sido publicadas há dois ou três séculos, os homens cultivados desse tempo, os universitários, as academias, teriam sido obrigados a consagrar-lhes comentários idênticos aos que durante mil anos de escolástica florescente teceram em torno da Metafísica de Aristóteles desde Alexandre de Afrodisia até Francisco Suarez. Publicado neste bendito século em que o mito da originaldiade conforta todo o aprendiz de filosofia na ideia de que é mais interessante ou inteligente que todos os Husserl (ou Bergson ou Russell) do mundo, verá sucederem-se e passarem sobre elas gerações e teorias que a sua simples leitura teria evitado. Terá sido esse o preço do que chamamos a Modernidade?
O nosso mundo é de tal sorte que o mais incapaz dos candidatos a doutor de Filosofia teria vergonha de si mesmo se se considerasse um discípulo. A verdade não interessa a ninguém. O que importa é ser diferente e como para ser diferente é preciso dizer outra coisa dir-se-á outra coisa sem precisar de examinar o que foi escrito antes. Comentários a Husserl não falta. Teve, terá a sua hora. Como uma moda, não como uma fonte de perplexidade renovada como os clássicos de outrora, como se o mais antigo fosse o mais venerável. Era um defeito sem dúvida mas fecundo. Agora os originais não chegam a ser lidos e ainda menos estudados. Só algum poeta célebre goza hoje daquele privilégio quase miraculoso de ser fonte e alimento do espírito como o foram Homero, Virgílio, Horácio. O melhor romance tem hoje o mesmo destino que o jornal. Ninguém o lerá duas vezes.»




Ler Eduardo Lourenço aproveita para lembrar, e saudar, o excelente trabalho desenvolvido pelo
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, na tradução e edição das obras de Edmund Husserl.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vasco Graça Moura



Foto publicada em Prelo.Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Maio de 1984.


Ler Eduardo Lourenço não pode deixar de assinalar a primeira reacção pública à edição do primeiro volume das Obras Completas do ensaísta. De facto, Vasco Graça Moura escreve hoje, no Diário de Notícias, o artigo “Heterodoxia e liberdade” (p. 54)* onde se refere à publicação de Heterodoxias. O destino neste caso terá sido especialmente sábio, pois Vasco Graça Moura, para além de poeta, ensaísta e tradutor de méritos amplamente reconhecidos, é também um amigo de longa data de Eduardo Lourenço, tendo chegado a ser, na década de Oitenta do século passado, o seu editor, na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em títulos como O Espelho Imaginário, Fernando Rei da Nossa Baviera e Nós e a Europa ou as duas razões. É, de resto, interessante que, em Setembro de 1988, na sequência do Prémio de Ensaio-Charles Veillon atribuído a Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura tenha publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias um curioso artigo onde dá conta das suas dificuldades como editor:
«Observo que Eduardo Lourenço, excessivamente modesto e desprendido, por vezes cede os originais sem guardar cópias e sem registar para onde os enviou para publicação avulsa..., o que torna dificílimo não só o trabalho de recolha dos textos, organização e produção de um livro como este [Nós e a Europa ou as duas razões], mas também o de forçar o próprio autor a convencer-me finalmente de que não se prescinde de publicá-lo dentro de um determinado calendário» (“A Europa está de parabéns”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 13/IX/1988, p. 8).












Para além de editor, Vasco Graça Moura foi também co-autor da edição francesa de Camões 1525-1580 (Bordeaux, L’Escampette, 1994), cuja capa acima se reproduz. Por seu turno Eduardo Lourenço dedicou ao seu amigo um ensaio chamado “Vasco Graça Moura – Um ensaísmo em arquipélago”, [AAVV (Org. de José da Cruz Santos), Modo Mudando. Sete ensaios sobre Vasco Graça Moura, Porto, Campo das Letras, 2000, Col. Campo da Literatura-Ensaio, nº 44, pp. 29-42]. Menos conhecidas serão talvez as afinidades de militância política entre os dois homens que se, por vezes, parecem em campos ideológicos bastante afastados, noutras ocasiões intervieram e intervêm política e culturalmente nas mesmas fileiras (cf. foto com que se inicia este texto). É o caso hoje, por exemplo, do Acordo Ortográfico de que ambos são ferozes opositores.





* O texto está disponível em http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2125905&seccao=Vasco

Sobre Jorge, junto ao Sena

Com a devida vénia a Ler Jorge de Sena, site da responsabilidade da Professora Gilda Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aqui se reproduz um testemunho de Eduardo Lourenço acerca do seu amigo e poeta Jorge de Sena. Para além da importância intrínseca do depoimento, colhido no passado mês em Paris, Ler Eduardo Lourenço assinala o facto de, segundo o ensaísta, a publicação do primeiro volume de Heterodoxia, em 1949, ter estado também  na génese de um intenso diálogo intelectual entre estas duas figuras cimeiras da cultura portuguesa do nosso tempo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Militares & Democracia

Entrevista recente de um dos mais destacados protagonistas da vida militar e política portuguesa das últimas décadas veio, provavelmente não da forma mais feliz, reacender o tema das relações entre a democracia e as Forças Armadas. Não pretende Ler Eduardo Lourenço discutir o teor das afirmações mais polémicas de tal intervenção pública, mas, sim, aproveitar o pretexto para sublinhar, uma vez mais, que o assunto representa uma parte não despicienda na obra do ensaísta. Para além dos textos incluídos no livro Os Militares e o Poder, já aqui mencionado em Abril último, Eduardo Lourenço escreveu noutras circunstâncias sobre o tema. Por exemplo, em Maio de 1976, num colóquio organizado pela Intervenção Socialista, Eduardo Lourenço afirmou o seguinte: «Temos a sorte de possuir, neste momento, um “statu” militar que é inegavelmente democrático e que faz a admiração e o espanto da Europa democrática e do Mundo. Mas a realidade portuguesa é uma realidade movente e dessa movência as Forcas Armadas e os seus dirigentes democráticos recebem os ecos e naturalmente as convulsões possíveis. Na medida em que as Forças Armadas constituem ainda, o fulcro essencial da vida política portuguesa e apesar delas próprias nós não estamos ainda numa sociedade consolidada democraticamente e, portanto, seria uma ilusão trágica pensar que já estamos».
Será que, tantos anos depois, a sociedade portuguesa está por fim democraticamente consolidada? A avaliar por algumas dessas afirmações, seria talvez uma ilusão trágica pensar que já está.


Jorge Sampaio

Esse colóquio internacional reuniu pessoas tão diferentes da vida política portuguesa, como Jorge Sampaio (que era então o Presidente da Comissão Directiva da I.S.), João Cravinho, Urbano Tavares Rodrigues, Nuno Bragança, João Martins Pereira, Maria Velho da Costa, Manuel Braga da Cruz, Maria Alzira Seixo, Carlos Aboim Inglês, Luís Salgado de Matos. Entre os intervenientes estrangeiros previstos, destaque para  Andreas Papandreau (sim, o Pai do até há muito pouco primeiro-ministro George Papandreau e que, tal como o seu progenitor, Georgios, também chefiou o Governo grego) que enviou uma mensagem ao Colóquio, justificando a sua ausência («Lastimo profundamente que razões políticas na Grécia impeçam absolutamente a minha presença aí como a presença dos meus camaradas»...). Ler Eduardo Lourenço não acredita que a História se repete, mas...
Não veio Papandreau, mas vieram Maurice Ronal, Luciano Gruppi, K.S. Karol, Stuart Holland, M. Achilli, entre outros. As actas do Colóquio foram publicadas nesse mesmo ano pela editora Diabril e o livro ainda se consegue encontrar nalguns bons alfarrabistas: foi pelo menos aí que Ler Eduardo Lourenço o encontrou.




Mais difícil de encontrar é o registo das conversas que se seguiram às intervenções dos participantes, embora alguns diálogos estejam transcritos nas actas. Um dos participantes no colóquio foi o sociólogo e professor do ISCTE José Carlos Ferreira de Almeida (1934-2009). Esta informação colheu-a Ler Eduardo Lourenço no blog de José Pacheco Pereira ephemera (http://ephemerajpp.wordpress.com/) onde o historiador dá conta de algumas das muitas preciosidades do seu monumental arquivo pessoal. Ora, um das aquisições mais recentes de Pacheco Pereira foi precisamente o espólio de Ferreira Almeida, que, para além de uma importante colecção de periódicos, tem também por exemplo notas pessoais acerca de congressos e colóquios em que esteve presente. O documento que apresentamos a seguir (com a devida vénia a ephemera) é precisamente a reprodução de um desses apontamentos em que Ferreira de Almeida se refere, pelo menos por duas vezes, à participação de Eduardo Lourenço no colóquio da Intervenção Socialista. No cimo da página, Ferreira de Almeida regista que, quando entrou na sala, o ensaísta já estava a falar. Mais abaixo, na sequência de um diálogo que, segundo parece, Eduardo Lourenço terá mantido com o seu amigo Urbano Tavares Rodrigues, é possível concluir que o assunto foram os mitos portugueses e se em Portugal houve, ou não, Lumières. A resposta de Urbano foi, a julgar pelo que se pode ver na nota de Ferreira de Almeida, algo ondulante.



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Regresso sem fim ... já no próximo sábado à noite!


Apresentado pela primeira vez ao público no passado dia 6 de Agosto em São Pedro do Rio Seco, durante uma homenagem a que Ler Eduardo Lourenço ofereceu o devido destaque, vai ser finalmente exibido, no próximo sábado, pelas 21 horas, na RTP 2, o documentário de Anabela Saint-Maurice, co-produzido pela RTP e pelo Centro de Estudos Ibéricos, Regresso sem Fim. De acordo com a nota informativa da RTP (de cujo site foram retiradas as imagens do texto de hoje), «Regresso sem Fim é um documentário de carácter autobiográfico protagonizado por uma das maiores figuras da cultura portuguesa: Eduardo Lourenço. Aos oitenta e oito anos, o escritor e ensaísta revisita a aldeia de São Pedro do Rio Seco e a cidade da Guarda, locais onde respectivamente nasceu e viveu na infância.

Com Pedro Mexia em São Pedro do Rio Seco

Com Gonçalo M. Tavares na Guarda


Com Hélia Correia

Nessa viagem às suas memórias é acompanhado pelos escritores Pedro Mexia, Gonçalo M. Tavares e Hélia Correia. Interlocutores escolhidos pelo próprio Eduardo Lourenço para participar neste “filme homenagem” em que se regressa ao que se deixou um regresso sempre desejado mas impossível. O documentário inclui uma incursão à vizinha cidade de Salamanca, onde Eduardo Lourenço fará a evocação de um intelectual que marcou a sua geração: Miguel Unamuno. O escritor, poeta e homem público espanhol era um apaixonado por Portugal e na sua atribulada vida manteve relações de amizade com importantes escritores portugueses, como Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoais. Em Regresso sem Fim revela-se a personalidade vibrante de Eduardo Lourenço, o seu incisivo sentido crítico, a permanente curiosidade e a capacidade de comunicar de forma clara, e com afecto. Há um sábio em viagem e com gosto pela vida. O documentário, realizado por Anabela Saint-Maurice, é uma coprodução da RTP2 e do Centro de Estudos Ibéricos em 2011. A duração é de cinquenta e dois minutos».
Na Plaza Mayor em Salamanca, durante a rodagem de Regresso Sem Fim


Ler Eduardo Lourenço acrescenta ainda que no filme, Eduardo Lourenço conversa com dois amigos e professores da Universidade de Salamanca: Ángel Marcos de Dios e Fernando Rodriguez de la Flor, com o primeiro acerca de Unamuno e com o segundo sobre as relações entre a Ibéria e a Europa. De registar também o depoimento do Dr. Adriano Faria, irmão de Eduardo Lourenço, acerca da vida em São Pedro nos tempos da infância do ensaísta.
A não perder, portanto.

Com a realizadora Anabela Saint-Maurice e a sua equipe