terça-feira, 8 de novembro de 2011

Correspondência com Delfim Santos (1954)

Delfim Santos no Congresso Internacional de Filosofia (Instituto Brasileiro de Filosofia, São Paulo,1954)

por Felipe Delfim Santos


Carta de Eduardo Lourenço a Delfim Santos :

Lille, 22 de outubro de 54

Senhor Doutor

Certamente o Senhor Doutor teve ocasião de viver muitas vezes uma experiência semelhante à minha: ser afectado em grau, talvez excessivo, por uma novidade pátria, sobretudo se ela não é precisamente do género agradável. O isolamento no estrangeiro tem essa propriedade curiosa.

A novidade (para mim) é como deve calcular a da celebração do 1º Congresso de Filosofia em Portugal sob a égide dos jesuítas. Não há dúvida que é um autêntico golpe de mestre jesuíta no bom e no mau sentido. Para mim é antes de mais e quase fisicamente, um golpe. Mas, fazendo esforços para conservar toda a serenidade, tenho de reconhecer que é bem feito e mesmo, embora o escreva com toda a tristeza, bem merecido. Eles fazem o que devem e fazem-no bem. É o resto das pessoas que persistem no sonho vago de acreditar que pensam, quando o seu pensamento não tem nenhuma eficácia sobre a realidade da sua pátria, que está em erro e lhe oferece a ocasião de um triunfo fácil.

Eu não me excluo desse número. A única escusa perante mim próprio reside no facto da minha nula influência. Contudo, na medida do possível, não abdico da luta por um estado de coisas mais decente e por isso aqui estou junto de alguém que tem prestígio e influência capazes de contribuir para modificar aos poucos a nossa subordinação mental.

Não sei qual será a reacção do Senhor Doutor em face desse facto consumado (ou a consumar) do famoso Congresso. Eu, pessoalmente, não sou anti-jesuíta, se se entende por isso ser contra a existência da “ordem” ou contra o direito de um jesuíta ser jesuíta. Não sou contra a sua existência em Portugal, nem contra o direito que lhes reconheço de “jesuitar” o mundo inteiro, pois no fundo cada um de nós o deseja “jesuitar” à sua maneira e como cristãos lhes incumbe cristianizar o mundo. Mas a questão muda de figura quando se passa da nuvem teórica à acção concreta. O que se está passando em Portugal é claro como água e se não o fosse, o preâmbulo do prospecto do Congresso que hoje me chegou às mãos, o esclareceria. Trata-se da contrarreforma em todo o esplendor possível em 1955, trata-se de arregimentar o pensamento nacional sob uma cor única, de lhe vincular uma directriz precisa de “bom pensamento” e a uma tal manobra não se pode ficar indiferente. Eu dou o direito a um jesuíta de o ser (mesmo se o não desse, eles o seriam…) mas como não sou jesuíta reivindico um igual direito de o não ser em toda a liberdade. Mas ao contrário de Ibsen que dizia que o homem forte é o homem só, eu creio com a Bíblia que é o homem que faz o homem e que a simples oposição individual, moralmente válida, é praticamente nula se não se congrega num esforço supra-individual. Por isso, aqui isolado, lhe envio esta espécie de S.O.S., esta alerta que sei desnecessária, mas que ao menos me dá a ilusão de não reagir só.

O que está feito está feito e o mal que isso causa já é irremediável: o 1º Congresso de Filosofia em Portugal é obra dos Jesuítas e o que é mais triste, obra da impotência dos pensadores independentes de toda a “consigne” religiosa e política. Participar nele ou não significa uma derrota igual e talvez maior se não se estiver presente. Como estou escrevendo sob o império do “prospecto” ainda não o sei bem. Mas creio que desde já há qualquer coisa a fazer e o Senhor Doutor é das pessoas mais autorizadas para pôr mãos à obra. Assim uma primeira e notável derrota seria ocasião para uma primeira semi-vitória e, mais tarde e aos poucos, a condição de permanência e existência de um pensamento realmente eficaz e livre. Livre para poder ser tudo, mesmo jesuíta, e não livre para não poder ser nada, senão jesuíta.

O Senhor Doutor já deve imaginar a que me refiro: à nado-morta Sociedade de Filosofia. Eu sei o que lhe custou já de dissabores e decepções. Sei ou prevejo os que pode custar-lhe ainda, mas nem por isso vejo neles ocasião para desistir. Agora, menos do que nunca. Muitos, todos ou poucos, é preciso que essa famigerada Sociedade nasça, exista, viva, para não apresentar ao público internacional (e o que é mais importante, a nós mesmos) a única face contrarreformista e implicitamente inquisitorial que ela lhe pode mostrar dentro em pouco. Não creio que seja uma utopia aquilo que mesmo os brasileiros conseguiram criar, segundo penso. O Senhor Doutor sabe melhor do que ninguém a cara de espanto que todos fazem quando confessamos no estrangeiro que tal Sociedade não existe.

Dificuldades? É natural que as haja, mas não podem ser insolúveis. É preciso que ela exista mesmo sem sede, sem dinheiro, sem coisa alguma, excepto a presença e a vontade das pessoas para quem ela representa algo de necessário e importante. A primeira coisa a fazer para a manter independente é renunciar a toda e qualquer espécie de ligação com o Estado, exceptuando naturalmente as estabelecidas por Lei. Enfeudá-la a qualquer Inst. de Alta Cultura é matá-la, a menos que condições claras de independência não sejam fixadas. Eu creio, e o Senhor Doutor me dirá, que a base material não seria difícil de realizar, fazendo apelo a “beneméritos de honra”, capitalistas, etc., sempre dispostos a dar algum dinheiro se se sabe manejá-los com a arma cósmica da vaidade, que neste caso seria perdoável.

Pessoas? É o nó-górdio da questão, mas também não me parece irresolúvel. A escolha do presidente não faria talvez dificuldade de maior e para harmonizar gregos e troianos estabelecer-se-ia uma espécie de triunvirato de vice-presidentes (por exemplo) de modo a dar representação a Lisboa, Coimbra e Braga. E se isso não bastasse podia recorrer-se a um “roulement” das honras, estabelecendo prazos ou recorrendo para o “2º governo” da Sociedade a eleição dos seus corpos. Em resumo, se houvesse boa vontade, não faltariam processos para levar avante essa necessária Sociedade.

Espero que o Senhor Doutor me perdoe a extensão do arrazoado, tanto mais que sei que partilha certamente de alguns desses pontos de vista e que não veja nele impertinência mas simples reacção de quem realmente se considerou afectado com a novidade do Congresso e se apressou na busca de um remédio junto de quem está em condições de o propor.

Este ano não me foi possível ir a Portugal e naturalmente só lá para o verão terei oportunidade de conversar como Senhor Doutor. Volto à Alemanha no fim do mês onde como sabe me tem às suas ordens. Procurei-lhe por diversas vezes o [livro do] Kerschensteiner e não o encontrei. Hamburgo não é famosa em matéria filosófica mas eu tenho que voltar para lá. Pedi ao Instituto para me enviar para Freyburg mas até agora nem resposta.

Deseja-lhe um bom fim de férias e um novo ano escolar propício, com os melhores cumprimentos.

Eduardo Faria



















Resposta de Delfim Santos a Eduardo Lourenço:



19.XII.54


Meu caro Amigo:

Li e reli a sua carta e só não respondi imediatamente por não saber que lhe dizer… A situação é a que expõe na sua carta e não é possível demovê-la. A solução que propõe já foi testada e até nos pormenores que indica: triunvirato recorrente. Mas não, nada foi possível e eu já estou descrendo de que, nas circunstâncias actuais, seja possível fazer outra coisa do que nada fazer. Eu irei lá como sempre só e também nada mais desejo. Não pertenço a nenhum coro e a minha situação profissional é também a mesma: sempre só. A “coisa” não me indignou tanto a mim como a si, pois ela é consequência de outras que imensamente me têm indignado. Era o esperado. Pois não lhe parece? E julgo que outras consequências ainda surgirão… Do Brasil vim surpreendido e desde a minha chegada ainda não readquiri o equilíbrio. Surpreendeu-me realmente… Agradeço-lhe a sua prova de confiança que a sua carta testemunha, creia na muita simpatia, apreço e consideração do seu colega e amigo

Delfim Santos


P.S. Talvez esta carta lhe pareça evasiva. É-o na verdade.






Nota Explicativa de Felipe Delfim Santos:

Eduardo Lourenço escreve a Delfim Santos em 1954 por ocasião do anúncio do Primeiro Congresso Nacional de Filosofia que estava a ser organizado pelos jesuítas da Faculdade de Filosofia de Braga, em comemoração do IV Centenário da entrega do Colégio das Artes à Companhia de Jesus. O seu claro propósito é o de contar armas para uma guerra, mas não deixa de nos surpreender onde tentou buscar um seu aliado «de prestígio e influência», surpresa que, como veremos, se espelhará quer na própria reação de Delfim Santos ao receber esta carta quer nos previsíveis efeitos da resposta que lhe resolve dar.

O argumento de Eduardo Lourenço desdobra-se em dois pontos: um tal Congresso deveria ter tido diferentes promotores e fora a demora na constituição da Sociedade Portuguesa de Filosofia que deixara aos jesuítas esta iniciativa que naturalmente lhe caberia. A derrota que invoca em primeiro lugar é fruto da carência que aponta em seguida.

Delfim Santos não entende o S. O. S. de Lourenço nem sente a iniciativa jesuíta como uma derrota. É certo que teve os seus livros resenhados com hostilidade nas páginas da Revista Portuguesa de Filosofia e mais ainda nas da Brotéria, as duas revistas da Companhia, que o têm por ateu e heideggeriano, cultivador de um tipo de existencialismo oposto aos princípios do cristianismo. Talvez por essa razão nunca escreveu nem escreverá nessas duas publicações. Mas este retrato que inicialmente de si fizeram os jesuítas não está correto: nascido no ateísmo da casa paterna, convertera-se na juventude à Igreja Evangélica de que aos poucos se foi distanciando. Sem qualquer ligação institucional ou afetiva ao catolicismo, cultivou boas relações com alguns sacerdotes individualmente. Pode-se afirmar que quando estas cartas são escritas ele é um pensador nem crente nem descrente, para quem as questões religiosas não constam da agenda filosófica.

Com mais propriedade, Eduardo Lourenço escreve a Delfim Santos por reconhecer nele o filósofo independente, solitário, avesso a ortodoxias e a dogmatismos. Mas bastariam tais circunstâncias para ele se situar no campo contrário ao da organização pelos jesuítas do Congresso? Entenderia ele também a constituição da Sociedade Portuguesa de Filosofia como uma solução e uma profilaxia ao ascendente eclesiástico nos meios filosóficos?

A resposta de Delfim Santos é desconcertante.

Começa por adotar um tom um pouco frio ao não nomear o seu correspondente, contrastando com a carta que lhe escreverá quatro anos depois, em melhor momento, e que será iniciada por «Meu caro Eduardo Faria». As razões para esta reserva estão não tanto na recusa em sintonizar com o alarme soado por Eduardo Lourenço sobre a hegemonia “contrarreformista” dos seguidores de Loyola mas muito mais porque o remédio apresentado é na verdade a causa da “doença”.

Eduardo Lourenço ignorava certamente que Delfim Santos e os jesuítas se tinham aproximado por circunstâncias casuais: em 1949 o Professor da Faculdade de Letras de Lisboa coincide na viagem para Mendoza, onde se celebraria o Primeiro Congresso Nacional de Filosofia da Argentina, com o Padre Severiano Tavares – homem de espírito aberto e temperamento jovial – acabando por contrair uma grave pneumonia que o reteve em Buenos Aires. A atenção e dedicação ao doente pelo seu acidental companheiro de viagem não seriam esquecidas. A partir dessa data iniciaram relações epistolares e tanto ele como os seus companheiros da Faculdade de Filosofia de Braga foram olhando mais favoravelmente o pensador portuense. Corolário desta aproximação é que Delfim Santos será precisamente o convidado de honra que pronunciará a alocução inaugural na sessão solene de abertura do Congresso de 1955*. Encontramos assim, à partida, um desconhecimento por parte de Eduardo Lourenço da estreita ligação de Delfim Santos aos organizadores do Congresso.

Constrangido pela falta deste dado na informação do seu correspondente, Delfim Santos tarda e hesita em responder. Mas uma outra questão, mais incómoda ainda, se lhe sobrepõe: a da impaciência de Lourenço pela demora na constituição da Sociedade Portuguesa de Filosofia. É este o tema que carreia para o diálogo as profundas clivagens da comunidade filosófica nacional e que lhe reaviva «os custos em dissabores e deceções» pagos pela tentativa do seu arranque com o seu amigo Severiano Tavares e sob a inspiração do Instituto Brasileiro de Filosofia, fundado em 1949 pelo paulista Miguel Reale. O mais delicado é que se a Sociedade não nascera, tal se devia precisamente à recusa de Joaquim de Carvalho, mestre e mentor de Eduardo Lourenço e espírito pouco dado a acolher iniciativas que não partissem de si próprio, em presidir a este corpo associativo, bem como às manobras dilatórias por ele promovidas para que a Sociedade nunca visse a luz do dia. É por isso que em 1950 o Professor de Coimbra tentará chamar a si a paternidade da ideia, que afinal já estava parcialmente concretizada dado que nesse mesmo ano a Sociedade vê os seus estatutos serem aprovados pelo Ministro da Educação. Porém não passa de um «nado-morto», como diz Lourenço, devido às divisões que persistem quanto a cargos, estatuto institucional, dependência ou não de órgãos oficiais, meios de financiamento, etc. Quatro anos mais tarde Eduardo Lourenço, talvez pela distância geográfica do meio português, ainda a julgava ressuscitável, mas Delfim Santos desengana-o.

É na verdade esta a questão à qual Delfim Santos responde desde o início do seu texto até às palavras “Eu irei” e é este o motivo do seu desconforto perante a inesperada carta que o interpelava. Replica que as soluções tentativamente propostas por Eduardo Lourenço já foram exploradas sem sucesso e se encontram esgotadas. Quanto ao Congresso reafirma precisamente a sua solidão e isolamento de grupos, essa mesma independência que fora a causa do pedido de apoio que recebera, deixando contudo explícito que não encontra motivo, na sua organização pelos jesuítas, para o escândalo invocado por Eduardo Lourenço.

Delfim Santos remata a carta com uma referência à sua ida ao Congresso Internacional de Filosofia que decorrera em São Paulo nesse mesmo ano de 1954, obra precisamente dos homens do Instituto Brasileiro de Filosofia, bem como ao seu deslumbramento pelo Brasil, ominosa referência a posteriores desenvolvimentos que se darão quando Eduardo Lourenço irá aceitar o convite para ensinar Filosofia nesse país e Delfim Santos o recusará – ver as cartas trocadas entre ambos em 1958 e 1959 neste blogue http://leduardolourenco.blogspot.com/2011/02/correspondencia-com-delfim-santos-1958.html e outros materiais em Filipe Delfim Santos, ed. (2011) Meu caro Delfim: Delfim Santos e o Brasil, Lisboa: Arquivo Delfim Santos.

Consciente da perturbação que as suas linhas introduzem na comunicação entre os dois, Delfim Santos acrescenta ainda uma nota metaepistolar: pois que muita coisa não foi dita e prescindiu de apontar as razões do fracasso da Sociedade (ou seja, de acusar Joaquim de Carvalho), a missiva pode parecer que foge às questões e que é evasiva. Delfim Santos simultaneamente concede essa falta e transforma-a em virtude: declara então que a carta é evasiva propositadamente.



Todos os documentos trocados entre Delfim Santos e os jesuítas da Faculdade de Filosofia de Braga sobre a organização do Primeiro Congresso Nacional de Filosofia e a tentativa de constituição pelo Padre Severiano Tavares e por Delfim Santos da Sociedade Portuguesa de Filosofia serão publicados na obra de Filipe Delfim SANTOS & José António ALVES, orgs. (2011) Escola de Braga: A Correspondência com Delfim Santos, Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia.

* O texto será publicado no número especial da Revista Portuguesa de Filosofia onde constam as actas do Congresso: Filosofia como Ontologia Fundamental, Actas do I Congresso Nacional de Filosofia, Revista Portuguesa de Filosofia Vol. 11, 1956, pp.  10-15.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ruy Belo: Em Louvor do Vento


«O vento vem na sua suavíssima voz e toda a gente morre de súbito para mim»



«Deve haver algures no meu corpo um lugar expressamente reservado para a voz do vento
uma cavidade qualquer assim como as salas de aeroportos destinadas às pessoas muito importantes
mas esta minha só para o vento a única pessoa muito importante agora para mim»



Esta é uma semana marcada justamente pela presença de Ruy Belo, a cuja obra poética é dedicado o Colóquio Internacional Ruy Belo Homem de Palavra(s) a realizar na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, nos próximos dias 3 e 4, tendo como pretexto os cinquenta anos da publicação do livro Aquele Grande Rio Eufrates. Ler Eduardo Lourenço não pode deixar de se associar à ocasião, mesmo se é necessário reconhecer que Ruy Belo não é, de facto, dos poetas sobre quem Eduardo Lourenço mais tenha escrito. Também por isso se aguarda com especial atenção a intervenção do ensaísta na sessão de encerramento do colóquio, agendada para as 18 horas da próxima sexta feira. Registe-se que estará disponível, ao longo dos dois dias do colóquio, uma transmissão ao vivo on line de todas as sessões. Cf. http://www.livestream.com/fcglive


Ler Eduardo Lourenço relembra ainda que Ruy Belo é um dos autores escolhidos por Eduardo Lourenço para a sua antologia Os Poemas da Minha Vida (Lisboa, Público, 2006), onde figura precisamente o longo e magnífico Em Louvor do Vento, de que acima se citaram dois pequenos excertos. E assinala que é a esse poema que o ensaísta dedica um texto incluído em Século de Ouro. Antologia Crítica de Poesia Portuguesa do Século XX onde se pode ler o seguinte: «O que há de singular e de maravilhoso na aventura vital e poética de Ruy Belo, talvez pelo precoce sentimento de que ela ia estatelar-se absurda e fatalmente nos baixios da fatalidade pura, é que a sua epopeia não está ao serviço de nada» (Lisboa, Cotovia e Angelus Novus, 2002, p. 216).
A não perder também o dossier dedicado esta semana a Ruy Belo pelo Jornal de Letras.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Chroniques de la Rive Gauche nº 4- ... ou la vie écrite!


Cesário Verde


Ler Eduardo Lourenço confessa a sua fraqueza. Colóquio sem lançamento de livros não é, a bem dizer, colóquio. A última chronique de la Rive Gauche tem, por isso, de abordar o inescapável tema. A abrir o segundo dia, procedeu-se ao lançamento de Entre deux mondes. Poèmes de Cesário Verde suivis d'un essai d'Eduardo Lourenço (2011), segunda edição da tradução para francês do Livro de Cesário Verde. Trata-se da segunda edição, porque, em 1920, havia sido publicada esta tradução das poesias de Cesário, pela mão do seu irmão Jorge ... Verde. A editora l'Escampette explica em nota que decidiu respeitar integralmente a versão do irmão do poeta, apesar de «algumas imperfeições gramaticais», compreensíveis dado que «o francês não é a língua do tradutor».







Como o título anuncia, esta edição, que teve o apoio da Gulbenkian, vem acompanhada de um ensaio de Eduardo Lourenço. Trata-se de um inédito, traduzido uma vez mais por Annie de Faria, cujo final a seguir se reproduz: «[Cesário Verde] ne savait pas – ou le savait-il, comme les poètes savent tout sans le savoir? – que ce dédain pour la littérature était le secret qui l'a distingué des autres, et lui a donné ce regard différent, cette poèsie de la vie sans littérature qui fut son bref destin» (p. 81). Registe-se, porque é da mais elementar justiça, o papel extraordinário que a editora l'Escampette tem vindo a fazer, desde há largos anos, no sentido de divulgar a literatura portuguesa junto dos leitores em língua francesa. O próprio Eduardo Lourenço tem publicado vários títulos nesta editora. Um deles trata-se de Montaigne ou la vie écrite, ensaio escrito directamente em francês, que agora também se encontra no primeiro volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, chamado Heterodoxias. A última foto da chronique anterior já indiciava que também deste livro se falou em Paris. De facto, aos participantes do Colloque Eduardo Lourenço – La passion du humain foi oferecido um exemplar do tão aguardado primeiro tomo. Ler Eduardo Lourenço confessa ainda que, mesmo não tendo sido um lançamento oficial de Heterodoxias (a realizar brevemente em Lisboa, com a promessa de que o acontecimento terá o devido destaque neste blog), o Colloque de Paris fica indelevelmente associado à concretização material de um projecto que, embora ainda muito longe do seu fim, percorreu já uma importante e primeira etapa.

Eduardo Lourenço autografa em Paris
um dos primeiros exemplares de Heterodoxias
(foto Ler Eduardo Lourenço)


Chroniques de la Rive Gauche nº 3- À quoi sert un colloque?


Eduardo Lourenço, ladeado por João Pedro Garcia e Maria Graciete Besse,
na sessão de encerramento do Colloque La passion du Humain
(foto Ler Eduardo Lourenço)

Falando por vezes de si como sendo um autor mais conhecido do que propriamente lido, Eduardo Lourenço começa, desde há algum tempo, a não poder queixar-se de falta de atenção de um grupo de estudiosos da sua obra. Dissertações de Mestrado e de Doutoramento, antologias de textos críticos, artigos e recensões críticas, entrevistas e colóquios sucedem-se a um ritmo, por vezes descontínuo, mas quase sempre acelerado. Depois de em Outubro de 2008, na sede de Lisboa da Fundação Calouste Gulbenkian, se ter realizado o Congresso Internacional Eduardo Lourenço, que reuniu um número vastíssimo de investigadores e escritores (cf. Colóquio-Letras, nº 170, Janeiro de 2009), o Colloque Eduardo Lourenço – La passion du humain, efectuado na passada semana, nas novas instalações da Fundação em Paris não deixa também de suscitar algumas reflexões acerca dos colóquios e daquilo para que servem. Não se trata aqui de comparar os dois encontros, muito menos de menosprezar a sua importância. Tudo o que seja ocasião para divulgar um pensamento e uma obra de um ensaísta com a relevância de Eduardo Lourenço merece, sem dúvida, aprovação e aplauso. E, de facto, mesmo se nos dois eventos Eduardo Lourenço não deixou de expressar a sua surpresa e quase incomodidade por assistir a um colóquio de que ele mesmo era o objecto de estudo (expressão bastante infeliz que alguém deixou escapar durante um dos debates em Paris), importa registar a generosidade quase estóica com que o ensaísta suporta estas longas jornadas, aceitando expor-se e discutir-se como se fosse um outro.


Eduardo Lourenço em Paris: soi-même comme un autre
(foto Ler Eduardo Lourenço)


Para que serve, então, um colóquio como este? Desde logo, para os participantes apresentarem as suas leituras da obra em questão. Ora, no caso de Eduardo Lourenço, a extensão e a complexidade dos seus textos são de tal ordem que é tarefa suficientemente dura dar conta daquilo que um dos seus leitores pode considerar essencial dizer. Ler bem (seja lá o que isso possa em rigor significar…) Eduardo Lourenço é missão quase impossível. E o quase é imprescindível porque, nestes colóquios, há quem, por diversos e até contraditórios caminhos, leia bem. Mas será isso suficiente? Talvez não. Os momentos verdadeiramente raros destes encontros são aqueles em que os participantes arriscam, muitas vezes por singular intuição, noutras ocasiões após uma longa maturação reflexiva, caminhos inéditos.

Ler Eduardo Lourenço considera que no número 39 da Boulevard de La Tour-Maubourg houve boas sínteses e excelentes novidades. Assim, assistiu-se à apresentação de leituras sólidas de textos de Eduardo Lourenço e de discussões vivas em torno da especificidade de um ensaísmo que não evita os mitos. Para os desconstruir? Para sublinhar a sua inevitabilidade? Fica a questão. É curioso como várias intervenções, numa coincidência surpreendente e por isso sintomática, sublinharam a importância de se retornar aos escritos de Eduardo Lourenço sobre a experiência colonial portuguesa. Maria Manuel Baptista, por exemplo, efectuou uma leitura quase exaustiva dessas teses dos anos sessenta e setenta, ou seja, da época do declínio de um Império talvez mais mítico do que real. Mas vários outros participantes centraram a sua a atenção nesse período, o que levou a Eduardo Lourenço a confessar, com uma divertida perplexidade, na intervenção final do Colloque, que se sentia o autor de um livro só, O Labirinto da Saudade, situação tanto mais desconcertante quanto, para ele, esse será o mais contingente dos títulos que publicou. Em suma, ficou a certeza de que para pensar o colonialismo, a descolonização e até o projecto da lusofonia é inevitável revisitar os textos sobre o tema de Eduardo Lourenço. É provável que já se soubesse isso, mas é sempre importante perceber porquê.

Quanto a novidades propriamente ditas, Ler Eduardo Lourenço regista pelo menos três. Em primeiro lugar, a intervenção desassombrada do antigo Comissário Europeu António Vitorino que, na sua assumida condição de não especialista (mas o pensamento de Eduardo Lourenço não é precisamente um daqueles casos em que é absurdo falar-se em especialistas?), desafiou o ensaísta a desvendar a saída da Europa para o impasse em que esta se encontra, insinuando que o autor de A Europa Desencantada conheceria a chave do problema. Mera provocação? Aguarde-se pelos próximos textos que Eduardo Lourenço irá com certeza dedicar à questão e talvez se possa saber a resposta.

Depois Vasco Graça Moura, numa comunicação ao mesmo tempo densa e luminosa, acercou-se como poucos o fizeram ainda do tema Eduardo Lourenço leitor de poesia. Não por acaso o ensaísta sublinhou, ao encerrar o colóquio, o rigor e a originalidade de uma leitura que verdadeiramente o parece ter comovido. A publicação das actas do Colloque irá confirmar com certeza a justeza desta impressão.


Roberto Vecchi, em Paris, desfolhando o primeiro volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço
(foto Ler Eduardo Lourenço)

Por fim, the last but not the least, Roberto Vecchi revelou, uma vez mais (pois a sua intervenção no Congresso de Lisboa e em especial a sua magnífica obra Excepção Atlântica. Pensar a Literatura da Guerra Colonial, que talvez não tinha tido ainda o eco que realmente merece, já apontava nessa direcção), aquilo que talvez sejam as vantagens hermenêuticas de se considerar Eduardo Lourenço, antes de mais, como um filósofo europeu do nosso tempo. Explicando melhor, Vecchi lê Eduardo Lourenço como se este fosse um autor que interessa pôr em diálogo com o pensamento de Agamben, Benjamin, Derrida, Foucault, Nancy, tarefa que, comportando alguns riscos (e aí reside um dos seus maiores méritos, afinal), pode ser de uma proficuidade imensa. É possível que para muitas pessoas em Portugal, demasiado habituadas como estão a considerar Eduardo Lourenço como a figura tutelar da cultura portuguesa, talvez não seja tão fácil realizar essa operação intertextual. Daí que haja muito a aprender com esta abordagem de Roberto Vecchi. Ler Eduardo Lourenço arrisca mesmo dizer que talvez passe por aí também o futuro das leituras deste tão singular ensaísmo que não cessa de fascinar. Só estas três novidades bastariam para achar que o colóquio de Paris valeu bem a pena, mas esta ainda não é a última chronique de la Rive Gauche.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Chroniques de la Rive Gauche nº 2- Robert Bréchon

Robert Bréchon

Ler Eduardo Lourenço prossegue hoje as suas chroniques parisienses. Outro momento muito alto do Colloque Eduardo Lourenço - La passion du humain, que contou com a presença de muitos jovens estudantes da Sorbonne interessados na cultura portuguesa, foi sem dúvida a comunicação de Robert Bréchon. Aquele que é justamente considerado um dos maiores especialistas mundiais de Fernando Pessoa evidenciou, numa síntese emocionante, não só a importância que a obra do poeta de Ode Marítima tem no percurso intelectual de Eduardo Lourenço, como o modo como as leituras do ensaísta se revelaram decisivas na sua (de Bréchon) compreensão do universo pessoano. Bréchon tem hoje 91 anos, mas o seu humor e a sua simplicidade desarmantes são característicos de uma inteligência e de uma sagesse sempre renovadas. Chapeau!, Monsieur Robert.
A seguir, Ler Eduardo Lourenço reproduz, com a devida vénia, a recensão crítica que, em Novembro de 1974(!), Robert Bréchon publicou na revista Colóquio-Letras a Pessoa Revisitado. Trata-se de um texto notável pelo rigor e pela concisão da leitura que apresenta.



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Chroniques de la Rive Gauche nº 1- Cleonice

Ler Eduardo Lourenço inicia hoje uma série de posts alusivos ao Colloque Eduardo Lourenço - La passion du humain, realizado na passada semana nas novas instalações da Gulbenkian em Paris, mais precisamente no número 39 da Boulevard de la Tour Maubourg, ou seja, na margem esquerda do Sena. Importa começar por dizer que o evento só foi possível devido ao empenho dos organizadores, Maria Graciete Besse (Professora na Sorbonne) e João Pedro Garcia (Director da delegação parisiense da Fundação), magnificamente secundados por Maria Teresa Salgado. Não se trata aqui de reproduzir as comunicações apresentadas (que serão em breve reunidas em livro), mas apenas de destacar alguns dos momentos mais relevantes destes dois dias em Paris. Daí que esta primeira chronique tenha de ser dedicada a uma das participantes mais especiais do Colloque. Cleonice Berardinelli é professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sendo certamente uma das principais responsáveis pela atenção que os universitários brasileiros dedicam à literatura portuguesa. Autora de uma Obra imensa, foi também Cleonice quem propôs o doutoramento honoris causa de Eduardo Lourenço pela sua Universidade. Encontrando-se a recuperar de alguns problemas de saúde que a impedem de viajar com a frequência desejada, Cleonice Berardinelli fez questão de atravessar o Atlântico para saudar o seu Amigo Eduardo Lourenço. E o modo como o fez, não poderia ter sido mais comovente. O Colloque iniciou-se assim com a leitura de um texto luminoso, impossível de sintetizar tal a forma como nele se cruzam uma inteligência e uma sensibilidade verdadeiramente singulares. E Eduardo Lourenço não deixou de, por mais de uma vez, manifestar quanto esse momento o sensibilizou. Ler Eduardo Lourenço assinala o raro acontecimento reproduzindo um video, realizado no Brasil em 2010, onde Cleonice Berardinelli lê admiravelmente dois poemas de ... Fernando Pessoa.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Carlos de Oliveira, no centro da vida.

Para os que lamentaram a sua ausência (por motivos de saúde), no Colóquio Internacional dedicado a Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço abre agora a  revista pessoa - numa excelente edição bilingue - em número dedicado a esse autor e à ocasião (pessoa, Revista de Ideias, nº4, edição da Casa Fernando Pessoa e Câmara Municipal de Lisboa, Setembro 2011). O texto, que com a devida vénia Ler Eduardo Lourenço transcreve, é uma celebração da memória do autor de Uma Abelha na Chuva, "ícone canónico do neo-realismo", mas "bem longe dos seus chavões literários". Carlos de Oliveira "ficou inteiro nos seus poemas" onde ilustrou "uma poética materialista não no sentido ideológico do século XIX onde o seu imaginário se alimentou, mas realista e paradoxalmente matérica como a terra que descreveu como criadora da gesta em busca do fogo central que continua a consumi-la. Como se estivesse a ponto de descer ao centro da vida como um herói de Júlio Verne".


Eis o passo final da citação que Eduardo Lourenço selecciona para a revista:
 "Ocorreu-lhe então esta ideia, que o gelou de pavor: quem sabe se ela não é a própria morte a insinuar-me dia a dia a miséria de viver, uma missão de Deus junto de mim para que eu entenda que tudo é passageiro e inútil e de livre vontade renuncie a tudo. (...) Nunca entendera verdadeiramente." Uma Abelha na Chuva, in Obras de Carlos de Oliveira, edição Camilho, Lisboa, 1992.