quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Ópera do Falhado ou o trágico desencontro entre o ser e o parecer*



por J.P. Simões


Ante tal discurso, a humilde pro­prietária do café reage de acordo com o que fazem quase
todos os eleitores, ainda hoje, perante o charme e a demagogia dos po­liticóides:
«O senhor presidente fala tão bem, que eu até sinto que percebo tudo!»










«Os portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a com­pensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desini­bida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós.»
Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade


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Apesar de todas as mudanças que os últimos 30 anos trouxeram a Portugal, houve uma coisa, profunda e movediça, que parece ter­-se mantido inalterável: a infatigável resistência à mudança, acompanhada sempre por uma obstinada necessidade de aparentar “progresso”, da sociedade portuguesa. Veja-se a Expo 98, ou o Euro 2004, e perceba-se até que ponto estes acontecimentos exuberantes e ostensivos, que servem para demonstrar que os portugueses “também conseguem” organizar extraordinários eventos, são contemporâneos da insuperável incapacidade de sair do sub-desen­volvimento social e cultural crónico onde nos arrastamos há, ouso dizer, milhares de semanas. Compare-se com o acontecimento-chave do Estado Novo, a Exposição do Mundo Português de 1940: salvaguardadas as devidas distâncias, o sintoma é o mesmo. Já agora, prosseguindo a aritmética, multiplique-se o sintoma pelos inúmeros outros exemplos que quotidianamente saltam pelas janelas da informação como se fossem novidades escandalosas, do tipo “estudo da União Europeia revela que os portugueses vivem acima das suas possibilidades” ou “a população da Lagoa Seca acolheu em festa os novos submarinos da armada portuguesa”. Por trás de uma enorme fachada de desenvolvimento tecnológico e social im­portado, as raízes de uma mentalidade do tipo feudal, baseada na predominância de algumas famílias e de toda uma horda de ca­ciques, que se assumem como donos das instituições públicas e que alimentam um sistema de ascenção social e económica baseado em esquemas de favores em cadeia, continuam fortemente implan­tadas. Enfim, foi a partir deste trágico desencontro entre o ser e o parecer que nasceu a ideia para a elaboração da Ópera do Falhado, comédia musical que serve aqui de pretexto a algumas considerações à volta dessa disposição mental que parece persistir ferozmente no nosso belo país.




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«é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma.» Essa mudança mágica, esse grande sortilégio que faz os falhados sentirem-se realizados sem terem que mudar nada de fundamental nas suas vidas, foi grandemente inspirado na análise que o ensaísta Eduardo Lourenço fez no Labirinto da Saudade à estratégia propagandística do Estado Novo: à grande miséria civi­lizacional do povo, contrapôs-se uma teia de imagens de glórias passadas, habilmente transformadas em elixir de orgulho e espartilho anti-revolucionário para uma nação estagnada. Se há coisa que é típica nos ditadores, é de facto este totalitarismo cultural: totalita­rismo entendido enquanto versão oficial de um povo e da sua história, imposto enquanto verdade total e impermeável a outras interpretações.




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Em resumo, o Falhado poderia ser um drama fáustico, visto que os seus personagens sofrem pela impossibilidade de se transforma­rem no que sonham, mas acaba por ser essencialmente uma comédia portuguesa pela forma como todos se satisfazem em apenas aparen­tar ser o que gostariam e também pelo modo mágico e simplista com que tudo se dá por resolvido porreiramente porque já ninguém tem vontade de discutir mais. Há coisas que não mudam ou que mudam muito lentamente e só quando existe vontade para tal ou alguma hecatombe: a Ópera do Falhado procurou ilustrar algumas imutâncias da nossa sociedade, nomeadamente essa dolorosa questão estética dos portugueses com a imagem que transmitem de si pró­prios aos outros e o grande fosso entre as expectativas irreais e o pouco empenho real na sua conquista, sendo que o fosso acaba por ser o sítio onde se vive. Naturalmente que também se procurou dar um contributo social mais imediato, através da sugestão de soluções para estes problemas, em particular pela voz e acção do Ditador que a todos encaminhou para um final feliz. Vendo a sua gloriosa memória ameaçada e a incapacidade dos vivos em resol­verem sozinhos os seus problemas, o Ditador, com um Grande Sortilégio, forneceu a todos a memória de um extraordinário passado individual, de modo a assegurar que todos ficassem satisfeitos com o presente, garantindo assim a alienação geral e a suave e discreta continuidade do seu reinado de resignação, de continhas bem feitas, de grandes eventos nacionaleiros e de saudade.


*Excertos do texto publicado com o título "A Ópera do Falhado: às voltas com uma ópera portuguesa" na revista Nau - Nacional A Universal, dir. António Coxito, nº1, s/p., Lisboa, Jan-Março 2005 e gentilmente cedido pelo Autor.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

No mundo como devir*

por António Pedro Pita

E qual é a sua cidade?
Nenhuma. O meu Paris Texas é São Pedro do Rio Seco

Eduardo Lourenço, em entrevista a Francisco Belard e Vicente Jorge Silva


Eduardo Lourenço é, ele próprio, a ficção inventada por Wim Wenders sob o título “Paris-Texas”: quem impôs o ensaio como efetivo modo de ser e de pensar, e não simplesmente como meio ou expressão, nisso se distinguindo de António Sérgio, seu adversário íntimo, só pode ser existência na errância infinita que encontra e desencontra, sem remissão nem finalidade.

Tentemos perceber.

Aconteceu ao jovem futuro filósofo começar a suspeitar da impossibilidade da filosofia.

Mas a impossibilidade da filosofia não é o fracasso do conhecimento. O discurso ensaístico é a escrita do aclaramento do devir, que é múltiplo, que é muitos, como os caminhos da floresta, os diabos e as bruxas. Uma escrita infinita, recomeçada mas nunca no mesmo ponto, uma escrita sem começo, porque sempre já começada noutras vozes e noutros tempos e noutras escritas e uma escrita sem fim, porque condenada, à maneira de um Sísifo feliz no seu encontro com Penélope, a ser outras, sem saber quais.

Mas, para além (ou aquém?) Eduardo Lourenço é, ele próprio, uma existência-ensaio, a viva e rara experiência da concentração do tempo no presente, uma captação deslumbrada do mundo, o desejo de percorrer todos os fios e os fios de todos os tempos que tecem o presente.

A dificuldade do seu pensamento reside aí: é fácil reduzi-lo ao cliché, permanecer no limiar da sedução poética do discurso, torná-lo fórmula ou citação.

Eduardo Lourenço não é, porque ninguém é, a consciência (moral ou ética ou cívica ou política) do Portugal contemporâneo.

Basta que continue a ajudar-nos a pensar – o que, se bem reparam, depende de nós. É da nossa capacidade de ler e escutar, de inscrever o imediato em mediações cada vez mais longas, de dar contexto e horizonte ao que parece irrelevante e local – é desta capacidade que depende a eficácia dos grandes pensamentos do nosso tempo.

Prudente e irónico, Eduardo Lourenço tem manifestado a convicção de não ser lido: homenageado, mesmo aclamado, sim; mas lido, fora de um círculo de estudiosos, verdadeiramente lido, isto é: efetivamente presente nas decisões sobretudo coletivas, aquelas que podem influenciar o percurso de um País que se diz (cliché:) ajudar a conhecer melhor, isso não.

Agora, em São Pedro do Rio Seco, Eduardo Lourenço não regressa ao Lugar de Origem nem ao Lugar de Destino ou Finalidade. A sua existência-ensaio inscreve-o na tensão de um singularíssimo devir entre uma Origem inabitável e sempre habitada e uma Finalidade habitada e sempre diferida. Eduardo Lourenço revisita, pois, o enigma do Tempo: entre o movimento permanente e a sua suspensão no plano da u-topia.

Com ele, adentramos o mundo como devir.



* Texto publicado em CNotícias, nº 28, Coimbra, 11/VIII/2011, p. 23 e gentilmente cedido pelo Autor. As fotos dizem respeito à Homenagem a Eduardo Lourenço realizada no passado dia 6 de Agosto na sua aldeia de São Pedro do Rio Seco e foram retiradas de http://www.facebook.com/#!/pages/Homenagem-a-Eduardo-Louren%C3%A7o/187656614624875?sk=photos

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O tempo de subir cinco andares*

Dinard


No máximo, dezasseis anos. Vem da praia ainda orvalhada de bruma, em fato de banho, fulgurante. Sobe comigo este elevador do acaso. Não sabe que me rouba o presente, que me expulsa para o antigo espaço em forma de abismo onde a minha vida desaparecia nula e gloriosa. A visão da beleza teve sempre para mim este efeito devastador. Esta rapariga perfeita, de pé a meu lado, ignorante da força destruidora das suas longas pernas nuas, ferozes como espadas, não me acordou o que se chama os sentidos. Não se tem vontade de fazer amor com o céu estrelado ou o mar. O amor teve sempre para mim este efeito de evasão da gravidade terrestre. Não é o da pulsão sexual mas o seu oposto. Tudo se passa como se o amor sexual fosse a sombra desse outro amor, aquele que nos subtrai à fatalidade de sermos apenas nós como sobrevivência egoísta. Possuir a fórmula do amor sexual - aliás inexequível - ser possuído, a do autêntico amor, viagem deslumbrada ao centro do sol, esquecimento positivo da pulsão da morte que nas profundezas do corpo lateja silenciosa. Estranho rosto o do amor, mesmo o de um segundo fulminante, sem futuro, como o estático e ascensional por esta desconhecida, me reconduz à morte por instantes suspensa no seu olhar de jovem arcanjo. Durante alguns instantes o tempo, o meu tempo de morte, pôs-me a correr às avessas e deixou-me algures à beira da praia dos meus vinte anos em que tudo era promessa e eu esperava ainda da mulher o olhar que me arrancasse para sempre, raio ou graça, à morte dos dias. O tempo de subir cinco andares.


* Este texto, publicado pela primeira vez no número especial dedicado a Eduardo Lourenço da revista Prelo em Maio de 1984, é um fragmento do famoso diário do ensaísta. Tem a data de 17 de Julho de 1970 e foi escrito na praia de Dinard (França). Ler Eduardo Lourenço recupera o que considera ser um dos mais peculiares escritos de Eduardo Lourenço e agora, ao partír para banhos de mar, deseja a todos os seus visitantes umas óptimas férias. Até Setembro!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

...falto de estudo profundo e demorado?



Embora a sua obra nem sempre tenha suscitado e suscite a unanimidade crítica (ao contrário do que, por vezes, se procura insinuar), a verdade é que o ensaísmo de Eduardo Lourenço colheu desde cedo públicos elogios. Foi o caso de Heterodoxia I logo em 1949, como já neste blog se referiu em texto anterior. No entanto, quatro anos depois, na Revista Portuguesa de Filosofia, publicação da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa aparece uma recensão crítica, assinada por Cassiano Abranches, que em baixo se reproduz. Ler Eduardo Lourenço pode não concordar - e não concorda, de facto - com muitas das observações desta recensão, mas julga que se trata de um texto que tem, pelo menos, alguma relevância histórica. Por isso, com a devida vénia, eis aqui aquela que talvez seja uma das primeiras reacções públicas (parcialmente) negativas a um livro de Eduardo Lourenço.
ABRANCHES, C. “LOURENÇO, Eduardo Heterodoxia”, Bibliografia de Revista Portuguesa de Filosofia, nº 9, Braga, 1953, pp. 98-99.


Registe-se, entretanto, que, tanto quanto é dado a conhecer a Ler Eduardo Lourenço, a Revista Portuguesa de Filosofia não dedicou à obra e ao pensamento do ensaísta a atenção que seria de esperar, até porque se trata de uma publicação que, desde o seu início, assumiu como declarada opção editorial abrir as suas páginas aos pensadores portugueses. Como muito relativa excepção desta tendência editorial, assinale-se, para além desta recensão publicada em 1953, um estudo de Pedro Calafate com o título Figuras e ideias da Filosofia portuguesa nos últimos cinquenta anos, dado à estampa no número 51 da Revista, saído em 1995, e onde o autor tece diversas considerações, ao mesmo tempo pertinentes e elogiosas, acerca do ensaísmo de Eduardo Lourenço. Mas, pergunta-se, não será isto pouco se atendermos à magnífica longevidade da Revista Portuguesa de Filosofia? Pura distracção? Ou será que, por bandas da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga, se continua a achar que se trata este de um pensamento falto de estudo profundo e demorado?


Pedro Calafate (foto em fl.ul.pt)












terça-feira, 19 de julho de 2011

S.Pedro do Rio Seco, no próximo dia 6

Há cerca de dois meses, Ler Eduardo Lourenço noticiou a homenagem que a Associação Rio Vivo, numa parceria com o Centro de Estudos Ibéricos da Guarda, vai promover no próximo dia 6 a Eduardo Lourenço, em S.Pedro do Rio Seco. Renova-se hoje a divulgação do evento, ao mesmo tempo que se chama a atenção para o programa do dia, disponível em http://www.facebook.com/pages/Homenagem-a-Eduardo-Lourenço/187656614624875. Esta página de onde, com a devida vénia, Ler Eduardo Lourenço retirou a imagem do cartaz da homenagem que acima se reproduz, merece sem dúvida uma visita dos amigos do pensamento de Eduardo Lourenço. Por múltiplas razões, sem dúvida. Mas que seja permitido o destaque para uma muito interessante entrevista concedida em 2003 à Radio Altitude e que, entre outras curiosidades, ajuda a conhecer um pouco melhor a infância do ensaísta e a sua aldeia. Registe-se ainda uma segunda conversa radiofónica, esta bastante mais recente (Junho de 2011), onde Eduardo Lourenço narra a sua passagem pela Guarda. Vale bem a pena ouvir.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Tempo e Poesia



O projecto de edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço tem sido uma aventura fascinante para todas as pessoas que nele estão envolvidas desde há cerca de um ano. Desde logo, porque não se trata apenas de reunir todo o material que se encontra já publicado em livros do ensaísta, em obras colectivas ou em periódicos (consultar bibliografia activa e passiva de Eduardo Lourenço e plano editorial das Obras Completas em http://www.eduardolourenco.uevora.pt/) ou ainda todos os manuscritos que até hoje permaneceram inéditos. Só isso seria já uma experiência imensa e inesquecível. Mas há um aliciante especial neste projecto: é que as Obras estão ainda a ser escritas todos os dias. Mais: o próprio desenho deste projecto editorial está ainda em fase de esboço. Nesse sentido, quer a escolha da sequência e do título dos volumes, quer a selecção dos textos a incluir em cada um deles tem sido um processo complexo e moroso, cabendo sempre, como é evidente, a última e decisiva palavra a Eduardo Lourenço. É importante registar que há muitos volumes em fase já bastante adiantada, tendo os respectivos Coordenadores e a Equipa do Projecto procedido à transcrição de muitos inéditos e à recolha de dispersos, para além de todo o trabalho de edição dos textos (correção de gralhas através do confronto com os manuscritos, por exemplo)
Um dos primeiros volumes a editar terá o título Tempo e Poesia, sendo organizado em torno do livro homónimo de 1974, mas incluindo também dispersos e inéditos com afinidades temáticas. Tempo e Poesia reuniu alguns ensaios mais famosos de Eduardo Lourenço e, através deles, é claramente perceptível como o texto poético se converteu num interlocutor privilegiado da reflexão do ensaísta. Ler Eduardo Lourenço descobriu recentemente um exemplar da primeira edição de Tempo e Poesia que tem como característica singular uma dedicatória a Paulo Quintela, autografada pelo autor e que aqui se reproduz: «Para o ilustre germanista e velho amigo Doutor Paulo Quintela, com o melhor abraço do seu muito admirador, Eduardo Lourenço. Porto, Abril de 1975». Reproduzem-se também imagens da capa e da contracapa do livro, esta última com uma fotografia da época de Eduardo Lourenço. Ler Eduardo Lourenço aproveita ainda para recordar o texto que o ensaísta dedicou ao antigo Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e muito conceituado tradutor: “Paulo Quintela. À sombra de Rilke”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 918, Lisboa, 21/XII/2005, p. 15.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

De volta a Coimbra...



Do riquíssimo programa do III Festival das Artes, a decorrer de amanhã até ao fim do mês na mítica Quinta das Lágrimas, em Coimbra, e que é uma organização da Fundação Inês de Castro, Ler Eduardo Lourenço teria forçosamente de destacar a sessão a realizar no próximo sábado, pelas 21h30 no Hotel da Vila Galé. Trata-se de A Paixão segundo Eduardo Lourenço, título enigmático e que, por si só, justificaria uma deslocação ao evento.
De Coimbra, em cuja Universidade viria a estudar e onde começou a ensinar, Eduardo Lourenço ouviu falar pela primeira vez falar com apenas dez quando à sua aldeia chegavam notícias «através de dois estudantes (...) [seus] vizinhos (...) de uma cidade encantada, propícia aos amores, à boémia, às musas e à grave ciência» ("Uma tão longa ausência", Jornal de Letras, Artes e Ideias, 8/V/1996, p. 7). Uma década depois seria a sua vez de descobrir essa Coimbra propícia aos amores. Daí que se aguarde com especial interesse esta Paixão segundo Eduardo Lourenço. No entanto, todo o programa do Festival (que se pode consultar no site do Festival: http://www.festivaldasartes.com/) é no mínimo tentador ou não fosse o tema da edição deste ano precisamente ... as paixões.
Em cima reproduzimos, com a devida vénia, o cartaz da edição do Festival das Artes 2011, elaborado a partir de uma belíssima fotografia de António Sachetti.
Rigorosamente, a não perder...