sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dia de Camões

Muitas nações se revêem com natural complacência nos seus grandes poetas, a Itália em Dante, a Inglaterra em Shakespeare, a França em Molière, ou Alemanha em Goethe, mas nenhuma delas é Dante,  Shakespeare, Molière, ou Goethe, como nós somos Camões. O que cada um desses poetas encarnou pode separar-se deles sem afectar a imagem dos povos a que pertencem. Sem dúvida, a Alemanha é a Alemanha  de Goethe como a Itália é a pátria de Dante. Mas só Camões, graças a Os Lusíadas, se converteu para nós, ao longo do tempo, na imagem mesma de Portugal, e o poema, na tão celebrada “bíblia da pátria”, alma da nossa alma. A quem escapa o que este fenómeno tem de prodigioso e que responsabilidade impõe o confrontarmo-nos todos com o mito cultural que implica com a ideia que fazemos, ou devemos fazer, da nossa missão e vocação na História, ou na simples vida colectiva?
É inegável que a osmose e a identificação entre o Poeta e o Livro, entre o Livro e a consciência nacional é não só um facto, mas o facto capital da nossa Cultura. Se o não fosse, não estávamos aqui, reunidos colectivamente em volta de Camões, refazendo neste templo de prodígios siderais, uma nova versão dos painéis de Nuno Gonçalves. Podíamos estar aqui apenas para evocar aquele que continuamos a considerar o maior Poeta da língua portuguesa e um dos grandes poetas do Ocidente. Talvez fosse mesmo a mais pura homenagem que lhe pudéssemos prestar. O sentido da nossa presença ultrapassa, contudo, os puros imperativos de uma Cultura em estado de auto-dilaceramento. De qualquer modo, Os Lusíadas, enquanto mito nacional, escapa a esses imperativos ou transcende-os. Não é a sua música eloquente, o milagre estético que representa na poesia épica moderna, a emoção que ainda hoje pode provocar, o que fundamentalmente celebramos enquanto comunidade nacional. É a imagem camoniana de nós mesmos, a nossa imagem épica, sublimada ou mesmo sublime, tal como Os Lusíadas a configuraram há quatro séculos e continuam a irradiá-la até ao presente. Como evocá-la, sem sucumbir à tentação de um narcisismo que nos perverteria a nós e diminuiria o Poema, convertendo-o em espelho deformado de um nacionalismo cego, fonte de irrealismo histórico e de esquizofrenia ideológica e cultural? O perigo não é imaginário porque essa tentação foi e é permanente. Tanto mais que Os Lusíadas, como todos os poemas de génio, não é uma obra de pura beleza intemporal, neutra, que possamos consumir na paz erudita de uma devoção de encomenda ou de uma admiração necrófila. Por ter sido e ser ainda obra viva, o Poema confere à visão do mundo um dia encarnou, à experiência humana e colectiva de que é reflexo, à ideologia datada de que é fruto maduro e exemplo incomparável, uma força que continua a trabalhar e interpelar em profundidade o nosso presente de portugueses. É o único Livro que não podemos depor na prateleira da História porque é ele mesmo História.


Excerto do discurso proferido por Eduardo Lourenço nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, realizadas em Leiria em 1980. O texto integral pode ser lido em “Camões ou a nossa alma”, AAVV, Camões e a Identidade Nacional, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Col. “Temas Portugueses”, 1983, pp. 99-107. Texto reimpresso em Poesia e Metafísica. Camões, Antero, Pessoa, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1983, pp. 87-96 [Vence – Lisboa, 10 de Junho de 1980].

terça-feira, 7 de junho de 2011

Não sei que poema entrou como um ladrão na minha alma

Escola Primária de São Pedro do Rio Seco onde Eduardo Lourenço aprendeu as primeiras letras (Foto Ler Eduardo Lourenço, Maio 2011)


«[...] Não sei que poema entrou como um ladrão na minha alma. Pode nem ter sido uma daquelas singelas poesias de João de Deus que, como a Engeitadinha, figurava na minha selecta como exemplo da lusíada comoção da arte da tristeza da vida. Ou alguma do Junqueiro, como a abertura do Os Simples, no mesmo registo mas mais optimista. Mas pensando bem, talvez nada me tenha deixado mais perplexo, abrindo-me a porta do sonho, que uma mera frase destinada a ilustrar o uso do no meu primeiro livro de escola: O filho do Zeferino foi a casa dos filhos da mãe do Zebedeu. Nessa hora fora da vida toda a poesia do mundo estava inteira neste enigma prosaico. E ainda hoje lá permanece.»*
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
* Excerto do prefácio que Eduardo Lourenço redigiu para o número 21 da colecção, dirigida por José Cruz dos Santos, os poemas da minha vida (Lisboa, Público, 2006, pp. 7-8). Nessa antologia, Eduardo Lourenço incluiu poemas de Petrarca (traduzido por Vasco Graça Moura), Luís de Camões, S. João da Cruz (por Jorge de Sena), Novalis (por Fiama Hasse Pais Brandão), Baudelaire (por Jorge de Sena e por Fernando Pinto do Amaral), Antero de Quental, Cesário Verde, Camilo Pessanha, António Machado (por José Bento), Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, António Osório, Ruy Belo, Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho, Gastão Cruz, Vasco Graça Moura, Al Berto, Nuno Júdice e Paulo Teixeira.

sábado, 4 de junho de 2011

A Amarga Fúria. Na não-morte de Jorge de Sena*

                                                                                                                                                       Só disso existirás. Que te não leiam,

                                                                                                                                                        te não entendam ou de ti não falem

                                                                                                                                                         os que de imagens e sons se vivem.
                                                                                                                                                                                                   Exorcismos




Quando todos nos esquecermos que Jorge de Sena está hoje tipograficamente “morto” em letra maiúscula, com aquela evidência de notícia que já merecia vivo, dele falaremos. É impossível suportar do além onde não está, mesmo em pensamento, aquele fabuloso desprezo que ele sabia comunicar ao que por rito existe e se perpetua. Não sei se é tempo para “viúvas” de Jorge de Sena, que o poeta superconjugal que ele foi não deve ter deixado, lhe florirem a agreste e apátrida tumba onde a sua épica violência de se sentir roubado da pátria morada não cabe, enjeitando flores, sempre para tal homem amoroso delas como alegria da terra, tardias. Tardio tudo lhe foi, mesmo o que o coroou, ou aquilo com que se coroou como o Indesejado-mor do reino que não foi, mas com alguma razão se pôde supor. Tardio, porque ele vivia em avanço, e com uma fúria de quem sabia a vida contada, um combate que não tinha outros adversários que aqueles que o seu camoniano génio de monstros a ven­cer num mar mais fundo e tenebroso que o antigo, sob cada pedra ou livro, levantava. A sua morte só uma misteriosa voz, rolando como outrora sobre as margens daquele Mediterrâneo onde no tarde deuses redivivos o premiaram, a poder ir anunciando como um eco em todo o lugar lusíada: «o grande Sena morreu».

Duro e violento foi o seu combate com uma morte que não quis deixar tempo a quem, com um humor digno de Quevedo, anunciara a intenção de a esvaziar à força de diatribes e insultos (última forma do desespero e amor) da sua nula omnipotência. Dele mesmo, como de ninguém, mas de outra maneira, a morte não levara sequer o cadáver adiado que nun­ca foi. Jorge de Sena ficou, está, ficará inteiro, com aquela espécie de nudez ofuscante dos jazentes reais da época turva dos fins do Renascimento, tão sua conhecida, numa poesia que desencoraja as glosas estéticas por lhe ter sido arma sem cessar brandida contra os céus imaginários por conta de um amor descomedido a uma vocação pânica sem igual na nossa Literaturas, se a palavra não lhe excita ainda a verve sarcástica e o verbo justiceiro até ao suicídio. Jorge de Sena a si mesmo se comentou com um despudor grandioso e para sempre estará vedado aos que no seu labirinto poético se aventurarem, passar ao lado desse olhar que no centro dele o defende e cobre com sombrio e altivo esplendor. Que mais glosa da sua morte precisa aquele que sabia que o seu (imaginariamente) sonegado cadáver futuro iria crescer e avassalar a nossa exígua cena caseira para se converter, como nas metamorfoses que tanto explorou, em qualquer ainda não conhecida constelação celeste? Que mais dilacerada que aquela que mil vezes insinuou na trama tão lusitanamente hipertrofiada e amarga da sua prodigiosa provocação poética que a ninguém se destinava senão a si mes­mo, parecendo destinar-se, com nomes e tudo, à humanidade quase inteira? Que requiem desapiedado, que música de lágrimas devolvidas à por ele negada “sensibilidade lusa”, pode superar o exorcismo de olhos abertos e alma jamais ren­dida ao inevitável com que da tentação da piedade por si se defendeu?



Pouco a pouco me esqueço e não sei nada,

Assim será a morte, e o que da morte

é sono e dor aguda que me crispa plácido

em sonhos dissolvidos sem anseio ou mágoa.



Este ficar de longe num cansaço;

o ouvir das vozes como outrora infância;

o estar-se imóvel mais, e devagar

perder, um após outro, o gosto a um gesto



mesmo pensado nesta horizontal

que alastra entre o passado e coisa alguma.

Este não ter senão a solidão

como silêncio e treva finalmente aceites.



A vida tão vivida e desejada,

o ser como o fazer, o sexo em tudo visto,

as coisas e as palavras possuídas,

tudo se não dissolve mas se afasta



alheio e sem saudade. Nem repouso

ou calmo abjurar da fúria amarga.

Apenas não sei nada, não recordo nada,

já nada quero, e aos outros deixo tudo.



Deixou tudo, deixando-se em versos que como a prosa de Montaigne de mais ninguém falaram, mas com uma incomplacência complacente que apaga no seu prodigioso desnua­mento as fronteiras imaginárias entre nós e o mundo. Ninguém calou a boca daquele que sobre esta terra andou com «os dois pés sem medo das palavras». É inútil calá-lo agora com flores póstumas, decorar-lhe



a dor de haver nascido em Portugal

sem mais remédio que trazê-lo na alma



que tudo, elogio ou evocação, saudade ou remorso, glória ou descaso, de ninguém os pode receber quem em vida os teve por lusitana antropofagia, necrofágico reflexo de recuperar na morte o mais duro ofício de admirar na vida a vida sem morte que nela ia. Ou como só ele o podia escrever:



Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!



                                                                                                                       [Vence, 6 de Junho de 1978]



                                               

* Ler Eduardo Lourenço assinala hoje o trigésimo terceiro aniversário do desaparecimento físico de Jorge de Sena, escritor e amigo de Eduardo Lourenço, com a transcrição de um texto que o ensaísta escreveu dois dias após a morte do autor de As Evidências mas que só seria publicado um mês depois no  no Suplemento “Letras & Artes” de Diário Popular, Lisboa, 7/VII/1978, p. I. A seguir o leitor deste blog poderá consultar um repertório dos textos mais importantes que Eduardo Lourenço dedicou à figura e à obra de Jorge de Sena. Tal como em outras ocasiões, Ler Eduardo Lourenço agradece a colaboração da Professora Gilda Santos nesta homenagem à amizade  entre Eduardo Lourenço e Jorge de Sena e, ao mesmo tempo, remete uma vez mais para o site Ler Jorge de Sena que também ele evoca a efeméride.



ALGUNS TEXTOS DE EDUARDO LOURENÇO SOBRE JORGE DE SENA

1) “Nótula a Uma Canção de Camões de Jorge de Sena”, Suplemento Cultura e Arte de O Comércio do Porto, Porto, 5/XII/1967, p. 14.
2) “A Amarga Fúria. Na não-morte de Jorge de Sena”, Suplemento Letras & Artes de Diário Popular, Lisboa, 6/VII/1978, p. I. [Vence, 6 de Junho de 1978].
3) “Encontro com Jorge de Sena”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1, Lisboa, 3/III/1981, pp. 14-16.
4) “Jorge de Sena e o demoníaco”, O Tempo e o Modo, nº 59, Lisboa, Abril de 1968, pp. 324-331. Texto reimpresso em AAVV (Org. Eugénio Lisboa), Estudos sobre Jorge de Sena, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984, pp. 49-59 e em O Canto e o Signo. Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa, Editorial Presença, 1994, Col. “Biblioteca de Textos Universitários. Nova Série”, nº 9, pp. 72-79.
5) “As evidências do Eros”, Colóquio-Letras, nº 67, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Maio de 1982, pp. 5-13. Texto reimpresso em nº especial “La Poésie portugaise de Fernando Pessoa à nos jours”, Março de 1998, pp. 91-100 [Vence, 27 de Março de 1982].
6) “Poesia e poética de Jorge de Sena”, AAVV (Org. de Maria Alzira Seixo), Poéticas do Século XX, Lisboa, Livros Horizonte, 1984, Col. “Horizonte Universitário”, nº 42, pp. 195-204. Texto de comunicação no Colóquio sobre a Poesia do Século XX, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 4-5/IV/1983 e reimpresso em Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 149, Lisboa, 14/V/1985, pp. 19-21 e em Quaderni Portoghesi, nº 13-14, Pisa, Giardini Editori, Primavera de 1983, pp. 23-33 [Vence, 27 de Março de 1983].
7) “Evocation de Jorge de Sena”, AAVV, Actes du Colloque, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, 1986, pp. 175-185. Texto de conferência em “L’enseignement et l’expansion de la Littérature Portugaise en France”, Paris, 21-23/XI/1985. Uma versão deste texto com o título “Evocação de Jorge de Sena”, tradução do francês por Teresa Cristina Cerdeira, foi publicada em Boletim do SEPESP, nº 6, Rio de Janeiro, SEPESP - Seminário Permanente de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras UFRJ, Setembro 1995, pp. 9-22.
8) “Sinais de Fogo: a invenção de um poeta”, Arquivos do Centro Cultural Português, vol. XXV, Lisboa-Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 73-75.
9) “Cartas para Jorge de Sena”,  Mécia de Sena, Eduardo Lourenço/Jorge de Sena. Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Col. “Biblioteca de Autores Portugueses”, 1991. Inclui cartas de e para Eduardo Lourenço e um texto de prefácio “Carta para ninguém”, pp. 9-11 [Lisboa, 25 de Julho de 1982]. Algumas cartas foram reimpressas com o título “Jorge de Sena e Eduardo Lourenço: Portugal a duas vozes” em Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 462, Lisboa, 19/III/1991, pp. 13-15.
10) “Viagem no imaginário crítico de Jorge de Sena”, AAVV (Org. de Gilda Santos), Jorge de Sena em Rotas Entrecruzadas, Lisboa, Edições Cosmos, 1999, Col. “Cosmos Literatura”, nº 45, pp. 43-50 [Rio de Janeiro, 26 de Agosto de 1998].
11) “Jorge de Sena”, Relâmpago. Revista de Poesia, nº 21, Lisboa, Outubro de 2007, Fundação Luís Miguel Nava, pp. 15-16.
12) “O regresso do (In) desejado” [Sobre Jorge de Sena], Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1017, Lisboa, 23/IX/2009, p. 6.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O que será hoje uma Heterodoxia ... III?

O projecto de edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço prevê como primeiro volume o título Heterodoxias que se encontra agora em processo final de revisão de provas tipográficas. Neste tomo inaugural das Obras irão aparecer, para além de todos os textos já publicados em Heterodoxia I (1949) e Heterodoxia II (1967) e do extraordinário prefácio à reedição de 1987 (“Escrita e Morte”, Heterodoxia, 2ª edição Lisboa, Assírio & Alvim, 1987), um conjunto de textos dispersos e inéditos que foram redigidos e/ou publicados em épocas mais ou menos contemporâneas às duas primeiras heterodoxias. Por outro lado, Eduardo Lourenço decidiu enriquecer este livro inicial das suas Obras com um novo capítulo que designou por “Heterodoxia III”. De que consta essa terceira heterodoxia? Encontram-se no espólio de Eduardo Lourenço (como se sabe, reunido e organizado por João Nuno Alçada, em projecto ainda em curso)  inúmeros esboços de livros, de capas, de títulos e de índices que o ensaísta pensou fazer, sendo que muitos deles não passaram dessa fase preliminar. Muitos destes esboços foram, de resto, dados a conhecer ao público em número especial da revista Colóquio-Letras (nº 171, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Maio de 2009). Ora, um dos planos que Eduardo Lourenço, por diversas ocasiões, terá arquitectado tinha precisamente a ver com um hipotético terceiro volume de Heterodoxia. Por diversas razões, umas mais circunstanciais, outras mais substantivas, essa Heterodoxia III nunca chegou a conhecer a luz do dia.

O documento, completamente inédito, que hoje Ler Eduardo Lourenço partilha com os seus leitores consiste precisamente num manuscrito não datado que corresponde a uma tábua de matérias de um desses esboços e que, sem grande margem de erro, se poderá situar entre os finais dos anos  Sessenta do século passado e a primeira metade da  década seguinte. Que textos podemos descobrir neste índice? Alguns deles serão relativamente fáceis de identificar. Por exemplo, “Situação Africana e Consciência Nacional” corresponderia, com certeza, ao que veio a ser o livro com o título homónimo (Amadora, Génese, 1976, Col. “Cadernos Critério 2”), até porque, quando o opúsculo é editado (naturalmente já depois do 25 de Abril, devido à delicadeza política do tema colonial), Eduardo Lourenço esclarece os seus leitores que se trata de um texto elaborado nos primeiros anos da Guerra de Angola.


Por outro lado, é muito provável que, mesmo que não haja uma total coincidência entre os dois textos, “O Exército e a Inteligentzia”  venha, ao menos em parte, a desembocar em Os Militares e o Poder (Lisboa, Arcádia, 1975). Quanto a outros, embora seja possível identificar (e parece que é) certos manuscritos inéditos que permitam antever o que poderia vir a ser essa nunca concretizada Heterodoxia III, eles talvez nunca tenham ido além do título. Ou se foram, o seu rasto perdeu-se...



Em 2010, quando Eduardo Lourenço renova, tantos anos volvidos, o projecto de compor uma Heterodoxia III os textos já serão completamente diferentes (uns já publicados de modo disperso, outros absolutos inéditos) e, dentro de algumas semanas, o leitor das Obras Completas poderá conhecer a resposta actualizada do ensaísta à pergunta que, em entrevista publicada em 1987 na revista Phala, Francisco Belard lhe dirigiu: «O que seria hoje uma Heterodoxia III?»

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Miranda Barbosa, Carlos de Oliveira e ... Marx!





Decorre hoje e amanhã, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, o Colóquio Internacional Carlos de Oliveira, iniciativa tão oportuna quanto merecida, em virtude da reconhecida importância que a obra do escritor português (Belém do Pará, Brasil,10 de Agosto de 1921 - Lisboa, 1 de Julho de 1971) indiscutivelmente tem. Infelizmente e ao contrário do que estava previsto, Eduardo Lourenço, retido em Vence por motivos de saúde, não pode participar no colóquio.
Como já se referiu em texto anterior deste blog, Carlos de Oliveira e Eduardo Lourenço foram, além de colegas de curso, amigos muito próximos, mesmo que nem sempre estivessem de acordo entre si, tendo chegado mesmo a ter uma séria desavença pessoal. Mas, para já, recorde-se um episódio passado em plena aula do Doutor Arnaldo Miranda Barbosa, Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade Coimbra e em que, para além do autor de A Essência do Conhecimento (1947), intervem Carlos de Oliveira e, embora de forma mais discreta, ... Eduardo Lourenço. Quem narra o acontecido é Alexandre Pinheiro Torres numa “Sessão testemunhal sobre o neo-realismo”, mesa-redonda realizada em Matosinhos, a 10 de Fevereiro de 1996. O texto da sessão encontra-se na revista Vértice (II Série, n.º 75, Lisboa, Dezembro 1996, pp. 59-89).



O quartanista Carlos Alberto Serras de Oliveira

«Alexandre Pinheiro Torres: Recordo de Carlos Oliveira me ter contado (não sei se ele estava a fazer blague) que numa determinada aula tinha considerado Karl Marx como um filósofo e [o Professor Arnaldo] Miranda Barbosa teria dito “não posso admitir que se diga nesta aula que o Karl Marx era um filósofo”. Carlos de Oliveira conta que disse “se eu não posso dizer, nesta aula, que Karl Marx é um filósofo, então não estou aqui a fazer nada”. Sai da aula imediatamente seguido por Eduardo Lourenço. O que há de verdade nisto?
Eduardo Lourenço: Espero que seja verdade... mas não me lembro. Se foi assim, foi óptimo. Primeiro, porque é exacto: Karl Marx é efectivamente um filósofo, além de ser um sociólogo, um grande economista, um grande ideólogo, etc. É certamente um filósofo e eu, como estudante de filosofia, já naquela altura estava pelo menos a par disso: existia um grande autor do século XIX, autor de O Capital e de outras obras importantes. mesmo só a título de simples informação filosófica, já sabia que esse homem contava... Nessa altura, não tinha provavelmente consciência de o que era o marxismo na História, o marxismo já encarnado propriamente na História enquanto doutrina que condicionou uam revolução que é já a sua expressão» (p. 62).

 A julgar pela caricatura de Vasco (na revista Prelo de Maio de 1984) Marx sempre foi uma dor de cabeça para Eduardo Lourenço que, em 1979, publicará O Complexo!

Como se disse atrás, nem sempre a amizade resistiu às peripécias da vida dos antigos colegas e, numa entrevista bastante mais recente, Eduardo Lourenço explica por que motivo o livro O Sentido e a Forma da Poesia Neo-Realista, onde analisa a obra poética de Carlos de Oliveira (e também a de João José Cochofel e Joaquim Namorado), constituiu, de certo modo, uma forma de mostrar a amizade que sempre sentiu pelo autor de Uma Abelha na Chuva:  «A verdade é que escrevi esse livro para me reconciliar com o Carlos de Oliveira, não ideologicamente, mas pessoalmente. Por isso é que a parte que trata dele é particularmente cuidada. Eu era muito amigo do Carlos e, por ocasião de umas eleições quaisquer, houve uma trapalhada entre ele e o dr. Paulo Quintela, que também era da oposição, mas da corrente liberal, ou social-democrata, embora não se usasse o termo. Não sei reproduzir bem a história, mas era já o PCP com aquela coisa de ser muito severo com quem não alinhava pelas posições deles. O Carlos parece que disse que uma delegação desses liberais que fora a Lisboa tinha traído, ou feito isto ou aquilo. Eu estava ali metido porque o Carlos me tinha falado no assunto, e eu falei ao Torga, que por sua vez contou ao dr. Quintela. Quando soube das acusações do Carlos de Oliveira, o dr. Quintela ficou danado e houve um confronto muito chato numa livraria, que acabou aos empurrões. Uma coisa horrível. O Carlos achou que eu tinha estado na origem daquela peripécia, e eu fiquei com muita pena de nos termos afastado. Penso que a motivação para escrever o livro foi essa, ainda que também houvesse da minha parte uma certa nostalgia por essa que tinha sido a minha geração. O livro é uma espécie de romance disfarçado. Deve ser a coisa mais sincera, mais no primeiro grau, que eu escrevi» (“Eduardo Lourenço. Retrato de um pensador errante”, por Luís Miguel Queirós, Revista Pública de Público, Lisboa, 13/V/2007).
Esta entrevista está disponível no seguinte endereço electrónico: http://static.publico.pt/docs/cultura/eduardolourenco/08.html





Recorde-se, por fim, que já em Maio de 1945, ou seja, no ano em que Eduardo Lourenço concluiu a sua Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, aparece, precisamente na revista Vértice, uma recensão crítica (que, não sendo totalmente elogiosa, não deixa também de se referir a algumas virtudes literárias do autor) ao romance Alcateia de Carlos de Oliveira. Entre outros aspectos, Eduardo Lourenço assinala o que considera ser a excessiva gravidade nos livros do seu colega (que apenas concluirá o curso em 1947), escrevendo que, em Carlos de Oliveira, «O humor é possivelmente a ausência mais visível no tecido psicológico dos seus romances. Raríssimos os personagens que riem alguma vez. Todos eles são ressentidos físicos ou morais e as suas almas foram caldeadas, ressequidas, pelo vento do ódio e da violência» (Vértice, nº 12-15, Coimbra, Maio de 1945, p. 53). A verdade é que o próprio Carlos de Oliveira também não ficou propriamente muito satisfeito com Alcateia e, por isso, deixou indicações precisas para que este romance (cuja reescrita por diversas vezes terá tentado) não mais viesse a ser editado (Cf. “Nota dos Editores”, Obras de Carlos de Oliveira, Lisboa, Caminho, 1992, p. 9).

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Uma carta inédita de António Sérgio

Casa de António Sérgio, Travessa do Moinho de Vento, nº 4, à Lapa (Lisboa)

Considerados quase unanimemente dois dos maiores ensaístas portugueses da época contemporânea, seria natural que António Sérgio e Eduardo Lourenço tivessem merecido da parte da crítica e dos leitores em geral uma permanente e vigilante atenção. Ora, infelizmente, nem sempre tem sido esse o caso, sendo que, salvo raras excepções, o pensamento do primeiro parece algo fora de moda (o que se atendermos aos modismos dos dias de hoje não é necessariamente algo de censurável...). Antes que o leitor do blog vocifere, justamente indignado talvez mais com os factos do que com a interpretação deles, pergunte-se: à parte algumas bancas da Feira do Livro e certos alfarrabistas, onde é possível encontrar à venda os Ensaios de Sérgio?
Quanto às relações específicas entre o pensamento de António Sérgio e o pensamento de Eduardo Lourenço ainda em menor número são aqueles se têm dedicado a estudar ou pelo menos a publicar sobre o assunto. Este facto é tanto mais estranho porquanto a recepção de Sérgio virá a ser profundamente marcada pelas críticas que, sobretudo a partir dos anos Sessenta do século passado, lhe são dirigidas por Eduardo Lourenço. Para o bem e para o mal, com certeza. O assunto é demasiado complexo e importante para aqui ser aprofundado com o pormenor que exige, mas esta é com certeza uma óptima pista para quem quiser investigar o ensaísmo português do século XX.


No verso desta serigrafia de Leonel Moura, vinda a lume na revista Pública de 29 de Outubro de 1996, aparece um texto de Eduardo Lourenço com o título A Crítica como Mitologia.





Ora, neste contexto, afigura-se especialmente valiosa a carta de Sérgio achada no espólio de Eduardo Lourenço e que a seguir se publica. É um documento dactilografado, com a data de 2 de Fevereiro de 1950, e que, pela sua leitura, se calcula dever ter sido enviado como resposta à oferta do na altura jovem assistente da Universidade de Coimbra de um exemplar da sua primeira obra Heterodoxia I, editada, como se sabe, em 1949. Ler Eduardo Lourenço tomava como certo que, para além desta, haveria no mínimo mais duas missivas endereçadas por Eduardo Lourenço a António Sérgio. Assim, em Maio de 1946, Eduardo Lourenço publica no nº 30-35 da revista Vértice um «inquérito acerca da existência de uma Filosofia Portuguesa» (pp. 156-158). O primeiro (de dois...) respondente a esse questionário foi ... António Sérgio, que, presume-se, terá sido convidado a fazê-lo por carta. Seis anos mais tarde, em Abril de 1952, no âmbito da organização de Bicórnio (segundo número da célebre publicação dirigida por José-Augusto França), Eduardo Lourenço insiste e apresenta um novo inquérito, desta vez com o título Como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal? e que, a avaliar pelo número de respostas, teve maior êxito. Entre as várias figuras que enviaram resposta, conta-se ... António Sérgio.
A descoberta desta carta de António Sérgio parecia um sinal prometedor para investigar a relação entre os dois ensaístas. Daí a contactar a Casa António Sérgio foi naturalmente um pequeno passo. Localizado na Lapa, exactamente no mesmo endereço de onde foi enviada a carta a Eduardo Lourenço, este edifício alberga, entre muitos outros documentos de inegável valor, o espólio (que infelizmente ainda não teve catalogação e o tratamento que há muito justifica!) de António Sérgio. Contudo, e apesar dos esforços de quem muito simpatica e diligentemente recebeu Ler Eduardo Lourenço no número 4 da Travessa do Moinho do Vento, a busca revelou-se infrutífera. Nem cartas, nem sequer nenhum exemplar de uma obra de Eduardo Lourenço que se visse! É no mínimo bizarro, porque estão lá livros (alguns deles bem menos interessantes, dir-se-ia!) da mesma época e porque António Sérgio parece ter acusado a recepção de Heterodoxia I, como se pode depreender da leitura da carta. A pergunta a fazer é, portanto, esta: ter-se-ão perdido as (pelo menos três) cartas de Eduardo Lourenço, já que o espólio viajou por várias casas? É bem possível. Mas o leitor concordará que é bem mais difícil explicar o desaparecimento dos livros do jovem heterodoxo.
Sem prejuízo de Ler Eduardo Lourenço pretender voltar mais tarde a uma análise desta carta de Sérgio, aconselha-se o leitor do blog, que quiser aprofundar o tema nela tratado, a confrontá-la com um dos últimos parágrafos de um capítulo de Heterodoxia I, com o título de Europa ou o diálogo que nos falta, em que Eduardo Lourenço, apesar de se elogiar o racionalismo sergiano (tal como a modernidade europeia da geração da Presença, aliás), defende a ideia segundo a qual «o neocartesianismo de António Sérgio [não] adquiriu a maleabilidade suficiente para integrar certos aspectos do real (a criação artística, por exemplo)». À falta da carta inicial do mais novo dos dois ensaístas, fica esta referência, que talvez ajude a interpretar a resposta (algo explicativa, como o próprio reconhece) do mais velho.





quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ler, o que é?


Ao entrar na magnífica Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, localizada numa antiga quinta em pleno centro da cidade da Guarda e onde se encontra parte bastante considerável do espólio bibliográfico de Annie Salomon de Faria e Eduardo Lourenço (são cerca de três mil obras das áreas da literatura e da história, sobretudo), o visitante depara-se com um texto do ensaísta, escrito à mão e afixado numa parede à direita do hall principal. É talvez uma das formas mais felizes de receber aqueles que, mais do que mergulhar nos livros, querem ser submersos pela leitura.

Como se pode ler naquele mural caligrafado (o termo é mesmo este, pois desconfia-se que, neste caso, a letra de Eduardo Lourenço terá sido alvo de uma operação plástica que a tornou mais perceptível...):
«Ler é ser lido a partir de um texto que de todos os lados nos inunda e submerge perservando sob a vaga que nos fascina um esplendor imóvel como o do mar».
Mas todo o texto, ao que se julga escrito propositadamente para este fim, justifica que o visitante da biblioteca faça uma breve paragem antes de se deslocar à sala Nós Como Futuro...












...ou embarcar na Nau de Ícaro


 ... ou até conhecer o espaço Eduardo Lourenço e Annie Salomon.


Em resumo, se se encontrar na Guarda, o visitante deste blog pode continuar sem saber qual a definitiva resposta para a questão que serve de título ao texto de hoje, mas já não tem desculpas para dizer que não sabe onde ler naquela a que Eduardo Lourenço chamou a sua capital. Nestes dias quentes de quase Verão, Ler Eduardo Lourenço sugere como espaço privilegiado as sombras do jardim exterior da Biblioteca onde, ao que parece, por vezes ocorrem piqueniques literários.