sexta-feira, 6 de maio de 2011

O meu Paris Texas

Por alturas da edição que reunia os dois volumes de Heterodoxia (Lisboa, Assírio & Alvim, 1988), Eduardo Lourenço concedeu uma importante e longa entrevista a Francisco Belard e a Vicente Jorge Silva. A conversa foi publicada na saudosa  Revista do Expresso  a 16  de Janeiro desse ano. Vale a pena com certeza reler todo o texto, que foi também incluído no livro de José Gil e Fernando Catroga, O ensaísmo trágico de Eduardo Lourenço (Lisboa, Relógio d’Água Editores, 1996, pp. 44-75) e que consitui uma óptima introdução à vida e à obra do ensaísta, natural, como se sabe, de São Pedro do Rio Seco, pequena aldeia do concelho de Almeida no distrito da Guarda, cuja foto de satélite, extraída de Google Map, a seguir se reproduz.



A entrevista termina com a pergunta seguinte. «E qual é a sua cidade?» ao que Eduardo Lourenço responde: «Nenhuma. O meu Paris Texas é São Pedro do Rio Seco».
Aos seus visitantes menos cinéfilos ou mais jovens, Ler Eduardo Lourenço oferece um link para um pequeno excerto de Paris Texas, filme-ícone da década de Oitenta do século passado realizado por  Wim Wenders e que, algo estranhamente, parece hoje bastante esquecido. A música (magnífica) do filme foi composta por Ry Cooder. Com o argumento de L.M. Kit Carson e  Sam Shepard, conta com a interpretação, entre outros, de Harry Dean Stanton e de Nastassja Kinski.

http://www.youtube.com/watch?v=b44paD20O3M

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Repensar ou transformar Portugal? Ainda sobre o “espírito de Mateus 1978”



Ler Eduardo Lourenço  volta à Casa de Mateus e especialmente ao encontro que aí decorreu entre 7 e 9 de Julho de 1978, constatando que, em algumas coisas (nas essenciais?) Portugal, afinal, não mudou assim tanto desde então. Ora, para Eduardo Lourenço, em entrevista-balanço da reunião de Vila Real (de duas páginas e com destaque na capa!), ao Diário de Lisboa do dia 15 desse mês, «repensar Portugal, imaginar Portugal é importante. Mas mais importante ainda é transformá-lo» (p. 11).









Por exemplo, grande número dos protagonistas da vida política portuguesa não mudou, de tal modo que muitos dos intervenientes no encontro transmontano com o título “Repensar Portugal” desempenhavam então e/ou vieram depois a desempenhar um papel preponderante na vida cultural, política e económica do País. Outros aspectos há que permitem estabelecer um paralelismo entre aquele longínquo ano de 1978 e os dias de hoje. Ler Eduardo Lourenço efectuou uma revisitação daquele tempo, consultando a imprensa diária daquela época quente, e não só em termos meteorológicos... O contexto é como sempre importante, pelo que talvez se justifique um breve enquadramento histórico. À frente do destino político de Portugal encontrava-se ainda o chamado III Governo Constitucional, chefiado pelo Primeiro-Ministro Mário Soares, que tinha sido empossado em Janeiro e que haveria de terminar funções em Agosto. Tratou-se portanto de um Governo (formado por uma coligação do PS, partido maioritário no quadro parlamentar, e o CDS) que não ultrapassou os oito meses de vida e cujos últimos dias foram passados numa arrastada crise. O conceito de estabilidade governativa talvez não tivesse o significado que hoje se lhe atribuí. Ou se calhar tinha. Devido às enormes dificuldades da economia portuguesa o Estado português teve recorrer à ajuda financeira do FMI e Álvaro Cunhal declarou que, na perspectiva do PCP, essa intervenção externa iria ser devastadora para o povo português. Neste ponto muito preciso, é difícil encontrar grandes diferenças entre as duas épocas.
Por outro lado, é de realçar (aos olhos de hoje, é mesmo surpreendente...) a relevância mediática conferida à edição de 1978 de “Repensar Portugal”. Assim, pelo menos três dos jornais consultados destacaram enviados especiais para cobrir o acontecimento e lembre-se que os acessos rodoviários eram na altura bastante mais penosos. Claro que a crise nacional obrigava a imprensa a correr atrás dos políticos. E nem sempre pelas melhores razões. Um exemplo, apenas. A Capital, vespertino lisboeta dirigido por Francisco Sousa Tavares (um dos protagonistas desse fim de semana, aliás, como adiante se pode ver), dá honras de caixa ao evento na capa da edição do dia 8, encontrando o leitor o seguinte título a toda a largura da primeira página: “Repensar Portugal em Trás-os-Montes”. Logo a seguir, o jornal cita outro dos intervenientes, António Barreto, acerca da sua hipotética expulsão do PS (de que era militante na altura, antes de vir depois abandonar efectivamente este partido) e que tinha sido sugerida em supostas afirmações realizadas por ... Manuel Alegre. Dizia Barreto na primeira página de A Capital: «Se Manuel Alegre disse isso é porque não sabe o que diz». Importa referir que, nessa mesma edição, Alegre desmente ter proferido tais declarações. Só que esse desmentido quase passa despercebido, pelo que na edição seguinte o poeta expressa o seu desagrado pelo que chama «uma cabala (...) que não posso deixar de considerar parte integrante de uma manobra política que visa não tanto a minha pessoa como o partido ao qual me orgulho de pertencer» (A Capital, 10/VII/1978, p. 4). António Barreto, por seu turno, dizia-se «alvo de campanha telefónica» (Ib.). Para quem se queixa hoje da fulanização da política à portuguesa, poder-se-á dizer que esta é uma pecha já com alguma tradição.
No entanto, para além dos fait-divers político-partidários, que então (como agora...) aguçavam e alimentavam a curiosidade informativa nacional, a verdade é que os jornais desses quentes dias de Julho que Ler Eduardo Lourenço foi reler dão grande destaque ao que se discutiu na Casa de Mateus (o que não sucedeu agora, por ocasião da edição homónima de 2011: sinal dos tempos?). Disso se dá conta a seguir com uma foto, cuja fraca qualidade da reprodução se lamenta, que capta Eduardo Lourenço numa das suas intervenções na sessão aberta à Imprensa, e com alguns excertos das reportagens feitas pelos jornalistas presentes em Vila Real (com as declarações do ensaísta em itálico) e da referida entrevista ao Diário de Lisboa. É um modesto contributo para uma arqueologia da política portuguesa deste tempo e também uma revisitação do pensamento de Eduardo Lourenço na segunda metade da década de 70 do século passado.




Fotografia tirada por José Macário e publicada na página 8 da edição de 11 de Julho de 1978 de O Comércio do Porto,
com a seguinte citação do ensaísta:«Lamento que o diálogo nacional não esteja aqui representado (...)
neste encontro informal e não conclusivo (...) da classe política que tem uma certa conotação».


«O seminário “Repensar Portugal” que ontem terminou na Casa de Mateus, em Vila Real, vai constituir, certamente, uma vertiginosa rampa de lançamento de novas ideias no futuro a curto prazo deste País.
A contra-classe política agita-se e, de repente, Vila Real mais parece a “Colombey-les-deux-Eglises” portuguesa. Ausentes, com explicação, o CDS e sem explicação, o PCP e outras forças à esquerda do PS. O breve debate final, principalmente com a intervenção de Eduardo Lourenço, foi já o lamiré das ressonâncias nacionais do espírito de Mateus», O Comércio do Porto, 10/VII/1978, p.8.
«(...) Foi particularmente evidente a especial atenção com que o enviado especial de O Diário seguia intervenção no debate do dr. Eduardo Lourenço (UEDS), e muito mais quando ele afirmou que a palavra dos comunistas representada neste País em igualmente o direito ao diálogo e deve ser combatida e discutida frente a frente (...)», Silva Tavares, O Comércio do Porto, 11/VII/1978, p.8.

«(...) Apesar de repetidamente afirmado ao longo do encontro que ele se destinava apenas a permitir um encontro informal de personalidades de quadrantes diferentes e não se apresentariam conclusões, o relatório final de Sousa Tavares, cuja leitura demorou cerca de 45 minutos, surgiu com uma articulação e um peso que não escaparam aos presentes.
Eduardo Lourenço insurgir-se-ia contra o tom do referido relatório e lamentaria que o colóquio fosse o encontro de uma nova classe política.
«Este colóquio, disse, lembra-me a escola em que nos ensinavam os três estados: gasoso, líquido e sólido. Aqui também foi assim. A cultura foi o estado gasoso, a estrutura do Estado foi o estado líquido e o grupo político foi o estado sólido. Todos se devem dar conta de que o que aqui se disse foi muito grave e muito sério (...)», Diário de Notícias, 10/VII/1978, p. 2.
«(...) Um dos participantes da sessão pública, Eduardo Lourenço, denunciou a ausência de elementos de uma certa esquerda nomeadamente do PC, dos ex-GIS e de alguns socialistas. (...) Aliás, no que respeita à Constituição foi defendida, com coragem, no período do diálogo, por Eduardo Lourenço (...)», Orlando Inocentes, Jornal de Notícias, 10/VII/1978, p. 4.

«(...) No grupo “Cultura e Estado”, participaram, entre outros, António Reis, secretário de Estado da Cultura, Carlos Lellis, Eduardo Lourenço, José Sebastião da Silva Dias e Vasco Graça Moura. A descentralização cultural, os aspectos globais da política educativa do Governo, o levantamento dos obstáculos que se opõem a uma renovação cultural do País, foram os temas focados neste grupo (...)», Mário Alexandre, A Capital, 10/VII/1978, p. 2.

«(...) A intervenção de Eduardo Lourenço no colóquio final centrou-se na exposição dos trabalhos daquele terceiro grupo (o Estado) muito embora ele tivesse participado no grupo que se debruçou sobre a Cultura e a Educação. Comparando as três exposições dos relatores aos três estados da natureza. Eduardo Lourenço diria que o grupo cultural foi «gasoso» («en­tramos numa espécie de nebu­losa, tudo muito vago»), o grupo do desenvolvimento foi «líquido» («problemas apresentados por uma certa fluidez») e que no terceiro grupo houve o estado «sólido» com uma exposição «o mais articulada possível e séria». Efectivamente, enquanto nos outros grupos se referiram as questões abordadas e os diversos pontos de vista, no da questão do Estado fizeram-se afirmações e ataques muito claros de tal modo que Eduardo Lourenço diria que se estava no fim: «mas agora é efectivamente o princípio, porque aquilo que foi apre­sentado formalmente como ati­tudes de que denotam um certo pluralismo em relação a concepção do Estado, tinha afinal uma grande coerência interna» que interessava começar a discutir para haver então o diálogo. Eduardo Lourenço salientou que contrariamente à representativi­dade verificada nos outros gru­pos, no do Estado, «a Esquerda portuguesa ou uma parte da Es­querda portuguesa não estava representada» assistindo-se a uma formulação da ideia de Es­lado e de projecto nacional que era feita apenas «com uma classe política que tem uma certa conotação».
(...) Eduardo Lourenço referiu-se depois à maneira como a Constituição da República havia sido encarada, tenha os defeitos de estrutura ou de conteúdo que ti­ver, acrescentando não conce­ber «que ela seja objecto de uma espécie de destruição anteci­pada», pois a sua possível revisão «não é um objectivo da classe política mas da nação inteira que se representa pelo voto, que elegerá os seus depu­tados e que a modificará ou não».
Depois do eng. Fernando Al­buquerque [principal organizador do encontro] ter referido que mui­tos outros convidados não compareceram (citou Miguel Galvão Teles e João Martins Pereira, além de figuras do CDS) Sousa Tavares discordou da posição de Eduardo Lourenço dizendo que a Constituição «não é uma Bíblia, um documento tabu». Eduardo Lourenço ripostou que não se insurgia contra a discussão teórica da Constituição e o que estra­nhava era «uma espécie de impaciência em querer modificá-la antes do prazo que nela própria está escrito», e que ela fosse considerada um factor de divisão entre os portugueses. À afirmação de Sousa Tavares, Eduardo Lourenço respondeu «Penso que essa frase, essa afirmação, é igualmente um factor de divisão entre os portugueses», Diário de Lisboa, 10/VII/1978, p. 9.

«(...) Afinal este colóquio lembra-me a escola em que nos falava de 3 estados: o gasoso, o líquido e o sólido. Aqui também foi assim. O gasoso foi a cultura, que foi algo nebuloso, genérico, flutuante. O líquido foi o económico - e nem outra coisa era de esperar em assunto tão fluído como o desenvolvimento. O sólido foi o grupo político - esse foi sólido e sério. A ninguém escapou certamente a gravidade e a seriedade do que aqui acaba de ser dito».
Assim saltou Eduardo Lourenço sobre Sousa Tavares quando este acabou o seu magistral truque de prestidigitação política, tirando do chapéu do colóquio que (quase) todos julgavam vazio um coelho branco sob a forma de um inocente discurso final que “apenas pretendia completar o relato que se acabou de ouvir”.
Tinham-se passado na Casa de Mateus dois dias de debate à porta fechada sobre o tema “Repensar Portugal” e domingo era o terceiro dia em que estava prevista a leitura de resumos dos trabalhos de cada grupo, “a título meramente informativo e sem nenhum carácter conclusivo” como pressurosamente se repetiria a todos desde o início.
Eram quarenta e tal políticos (no activo e na reserva aparente) e homens da cultura (das letras, das ciências e da informação) os que, de longe, acorreram (de Lisboa, do Porto, de Coimbra, mas também da Madeira, dos Açores e da França) ao convite de Fernando Albuquerque. Ia-se repensar Portugal em descomprometida cavaqueira, que abarcaria interlocutores de todos os quadrantes, do CDS ao PCP.
Apenas aconteceu que o CDS – talvez por ser dia de decisivo conselho nacional – não se fez representar, o PCP também não, e o colóquio de Mateus acabou por converter-se, com uma evidência que os próprios que o idearam não previram, num medir de forças entre o poder actual e a sua possível alternativa futura. (...) «A Universidade está em crise em toda a parte» diria Eduardo Lourenço. «Repensar o país é necessariamente repensar a universidade.» E, a propósito de elitismos, diria «a cultura é um fenómeno elitista por definição. E a ciência o que é, senão um elitismo continuado?». Afirmando não ver razões para má-consciência, disse: «não gosto de cuspir na sopa que eu próprio como».
(...) Quando o público quer a Crónica [Feminina, que, com os seus 600 mil exemplares foi apontada como exemplo da cultura massificada] ou a Escrava Isaura ou pornografia deve-se dar-lhe isso? interrogaram-se as pessoas. Não proibir mas dificultar o acesso, era a posição de António Reis, enquanto Eduardo Lourenço e Graça Moura entendiam ser difícil precisar o que é e não é objecto cultural.
(...) Sophia [de Mello Breyner] diria que a noção de cultura de direita é a noção de “cultura para alguns”, ao que Eduardo Lourenço, com o seu eterno de anjo vingador, responderia que «cultura de direita é muito simplesmente aquela que serve uma sociedade de direita».
(...) «Temo que a europeização apareça ainda sob as espécies de uma alternativa colonial, agora ao contrário» ouvi a Silva Dias. E Eduardo Lourenço: «Uma das falências do antigo regime foi não ter dito o discurso cul­tural que lhe correspondesse.» (...) Passo no jardim setecentista, com buchos bem tratados e uma japoneira de sombra convidativa. Debaixo dela, está a começar um debate para a televisão moderado por Eduardo Lourenço. Oiço nacos. «Toda a sá­bia convivência é cultura» diz [Gonçalo] Ribeiro Telles. «A dignidade humana é que marca... uma campanha de alfabetização pode ser um perigo...» e, de Horácio Menano, chega-me a ideia de que há rupturas irreversíveis: «agora há uma expectativa, dantes não havia». Eduardo Lourenço diz: «Um novo espaço de autodeterminação dos indivíduos e dos gru­pos, isso é que é o facto democrático».
Vejo entrar e sair gente perante as certa­mente atónitas câmaras de televisão, tão habituadinhas a estar quietas. Entra um profes­sor, sai um político, atravessa um jornalista com a família. Senta-se um ex-ministro no chão, mergulha um ministro na piscina... E Alfredo Tropa, que começara a filmar como sempre filmou, de repente parece que se dei­xa tomar daquela vertigem de ver formigar tantos VIPS. Uma conversa entre Vítor Constâncio, António Reis e Eduardo Lou­renço é já filmada de dentro da piscina, nu­ma girândola que chego a temer seja final.
Discute-se a Psicanálise mítica do desti­no português que Lourenço acaba de publi­car, interpelam-no o homem da cultura e o tecnocrata. O Poder e o escritor enfrentam­-se em fato de banho», Helena Vaz da Silva, Opção, nº 116, 13/VII/1978, pp. 23-25.

«Quando eu disse que o que se estava ali a passar era “sério” e “grave”, queria dizer que era grave por estar ali ser posto em causa o estatuto em que a nossa vida política está a ser vivida, e que era sério porque por exem­plo as proposições de um Medei­ros Ferreira são interessantes. Posso não as partilhar, e de facto não partilho muitos dos pontos de vista que exprimiu. Ainda menos partilharia o espírito que a Imprensa atribuiu ao encontro, o de uma neodireita, ou de um desvio claramente direitista de membros conhecidos do PS.
(…) Discordei do espírito que presidia em geral ao discurso, e que foi apresentado pelo dr. Sousa Tavares: da ideia de que a Constituição é desestabilizadora e de que o Conselho da Revolução tem uma função nefasta. Disse que me pareci m tais ideias tão ou mais desestabiliza­doras do que o texto constitucio­nal.
Pareceu-me que o que estava em causa, e se desejava modifi­car, era o espírito mesmo da Constituição, em pontos funda­mentais, o que representaria efectivamente uma ruptura política com o espírito do 25 de Abril.
(...) Embora eu saiba que a Constituição sofreu o condicionamento do período histórico em que foi concebida, há certos pontos que me parecem capitais, particularmente à sua clara vocação socialista. Ora a verdade é que no relato que nos foi feito a pala­vra socialismo nunca aparece mencionada.
(…)Não acredito que haja qualquer Constituição, seja de que natureza for, que não tenha um conteúdo ideológico. Pretende-se é um conteúdo ideológico diferente ao do ac­tual.», entrevista ao Diário de Lisboa, 15/VII/1978, pp. 10-11.


A piscina da Casa de Mateus (Vila Real)





























domingo, 1 de maio de 2011

De regresso à Casa de Mateus

Conforme se pode ler em informação da Lusa que, com a devida vénia, se passa a citar, Eduardo Lourenço regressou à Casa de Mateus, em Vila Real no âmbito de um seminário com o objectivo de Repensar Portugal.
 Casa de Mateus (Vila Real)

«A situação actual do país é uma espécie de pesadelo momentâneo, mas confia que irá ser ultrapassado porque a barca Europa não deixará Portugal afundar-se. Este é o retrato de Portugal feito pelo ensaísta e professor universitário, Eduardo Lourenço, no Encontro PensarRE Portugal, em Vila Real, a que a Lusa assistiu.
Para Eduardo Lourenço, a actual crise económica foi uma surpresa e o país foi apanhado num tsunami de ordem económico-financeira cujo centro é a Europa. Mas, Lourenço retira dramatismo à situação pois, quando se pensa no que foi o passado português, a verdade é que Portugal já atravessou problemas semelhantes e sempre conseguiu superá-los.
Ou seja, a história de Portugal é uma espécie de milagre contínuo porque os portugueses vivem numa oscilação constante entre uma crença de estabilidade e um desânimo total. Neste momento, Portugal está na vertigem de poder desaparecer e o país parece não ter piloto a bordo ou provavelmente tem vários.
Sem dramas, mas com ironia: As pessoas que visitam Portugal não imaginam na aflição em que estamos porque parecemos ricos. Os portugueses estavam convencidos de que, entrando na Europa, parte das dificuldades do país se iriam resolver porque tinham acesso a uma casa rica e mesmo sendo convidados de última hora iam mudar de estatuto. Essa era a convicção. Ressalva, no entanto, que os cidadãos podem estar descontentes com o que se passa entre Portugal e a Europa, mas «e não entrássemos nesta experiência europeia estaríamos muito pior»[Lusa].

A notícia da Lusa não se refere, no entanto, ao facto de nos dias 7, 8 e 9 Julho de 1978 cerca de cinquenta personalidades da vida portuguesa terem participado numa reunião nessa mesma Casa de Mateus que teve o mesmo tema ou, pelo menos, um título extremamente parecido com o seminário que, por estes dias, decorre também em Vila Real.

Em crónicas assinadas respectivamente por Joaquim Letria e por Helena Vaz da Silva para o número 116 da revista Opção, pode ler-se que a intervenção de Eduardo Lourenço teve alguns laivos de polémica. Por um lado, Letria sublinha que o ensaísta denunciou em tom de protesto «a ausência de certos sectores do PS, do PC, da UEDS, enfim, de vastos sectores da esquerda portuguesa» (Opção, 13/VII/1978, p. 22), ao mesmo tempo que se interrogava se o encontro não significa antes de mais «o lançamento de uma nova classe política» (Ibid., p. 21). Ora, se se recordar quais os participantes neste primeiro Repensar Portugal (designação que parece ter sido inspirada no título homónimo de um artigo de Eduardo Lourenço na revista Abril e que veio a consituir um capítulo de o Labirinto da Saudade, publicado semanas antes, e que por sua vez irá ser também o nome de um livro, editado no ano seguinte, de Manuel Antunes, que também esteve na Casa de Mateus), encontrar-se-ão inúmeros protagonistas da vida política, cultural e económica portuguesa das últimas décadas.

Por outro lado, se os futuros Presidentes da República Mário Soares, ao centro na foto, e Jorge Sampaio, à direita, não estiveram presentes há trinta e três anos na Casa de Mateus (talvez fizessem parte daqueles sectores da esquerda cuja ausência Eduardo Lourenço então criticou), já Vitor Constâncio (à esquerda) participou activamente nos trabalhos, fazendo parte do painel com o nome de Modelos de Desenvolvimento. Como se sabe, Constâncio era então Ministro das Finanças de um Governo liderado por Mário Soares e, mais tarde, será o futuro Governador do Banco de Portugal por duas ocasiões: entre 1985 e 1986 e durante a quase totalidade da primeira década do presente século (2000-2009).
Ora, Helena Vaz da Silva informa-nos que o então jovem Ministro socialista terá mantido aceso diálogo com Eduardo Lourenço, reproduzindo na referida reportagem-crónica partes das intervenções de ambos.
Assim, Vítor Constâncio afirmou: «Nenhum povo pode viver sem uma imagem positiva de si próprio que lhe dê um mínimo de confiança e de orgulho nacional. O nosso povo sempre teve um grande pessimismo em relação a si próprio. O que me preocupa é a forma de superação disso. Muitas vezes, na reflexão dos nossos intlectuais prevalece um desconhecimento das condições económicas objectivas que criam uma situação difícil que não pode ser superada ao nível da mera reflexão filosófica. Assumindo a consciência da nossa modéstia penso que devemos pensar em termos mais prosaicos a construção dessa imagem realista, que inclui o esforço, o trabalho e outras condições necessárias para superar o problema económico... E penso que há algo de mórbido neste tipo de reflexão sobre a identidade nacional...» (Ibid., p. 25)
Estas palavras parecem ter um destinatário muito preciso: Eduardo Lourenço que responde, por assim dizer, à provocação.
«Não enjeito a acusação de ter contribuído para uma mitificação da revolução portuguesa. Não só não enjeito, como reinvindico o coeficiente de utopia, de esperança utópica falhada. Quando eu falo de imagem irrealista que os portugueses têm vivido, refiro-me à imagem irrealística que uma parte da classe política dá hoje... e que é bem evidente quando se lê a imprensa portuguesa com os seus títulos, os seus exageros. O que me preocupa nos políticos não é tanto a continuidade manifesta de imagens irrealistas mas uma insuficiente consciência desse irrealismo» (Ibid.).
Ler Eduardo Lourenço não quer aqui entrar num pseudo-debate entre economistasfilósofos, mas julga que hoje é possível encontrar exemplos de irrealismo quer numa, quer na outra área do cohecimento. E não resiste a dizer que há algo de mórbido em alguns dos episódios da história recente da economia portuguesa.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Gestos e Fragmentos ou evocação comemorativa do cinema-ensaio

Alberto Seixa Santos

A ilustrar o anterior texto deste blog e no qual Teresa Filipe fala, entre outras coisas, dos prefácios que Eduardo Lourenço escreveu para os dois livros de Otelo de Saraiva de Carvalho, surge uma foto em que se vê este último de costas. Trata-se de uma cena do filme Gestos e Fragmentos realizado por Alberto Seixas Santos, no qual participam, para além de Otelo, o realizador  Robert Kramer (1939-1999) interpretando um jornalista americano e ... Eduardo Lourenço. Não é seguramente por causa destes noventa minutos rodados entre 1980 e 1982 que o ensaísta-actor passará à imortalidade, mas...
Robert Kramer

... claro que esta circunstância de Eduardo Lourenço participar em Gestos e Fragmentos seria mais do que suficiente para que a ela aqui se fizesse menção. A película, que nunca chegou a ter distribuição comercial, conheceu a sua estreia há precisamente vinte e oito anos na Ar.CO em Lisboa, ou seja, em 29 de Abril de 1983. É certo que a data que hoje aqui se evoca não corresponde ao início de uma fulgurante carreira de Eduardo Lourenço na 7ª Arte, mas Ler Eduardo Lourenço não podia deixar de se referir a esse momento, retratado na imagem anterior.
No entanto talvez interesse reparar no sub-título do filme que aparece quase escondido no magnífico cartaz de João Botelho. Trata-se Ensaio sobre os Militares e o Poder, explícita citação do livro quase homónimo do ensaísta. De resto, Ler Eduardo Lourenço confessa ter presenciado o filme apenas uma vez, numa episódica transmissão no segundo canal da RTP (mas nem isso pode garantir, admitindo até a hipótese de essa exibição não ter sequer existido senão em sonhos...), mas sublinha que Eduardo Lourenço aparece starring as himself, se é permitida a expressão, lendo (longamente?) passagens dos seus textos de Os Militares e o Poder e ainda numa conversa com o militar-herói da Revolução portuguesa que, apesar do seu cinéfilo nome de código de Óscar durante as operações militares que conduziram ao golpe de 25 de Abril, também não chegou a enveredar por uma carreira em Hollywood.

Cartaz de Gesto e Fragmentos por João Botelho

Na impossibilidade de se visionar o filme (haverá dvd?), Ler Eduardo Lourenço aconselha vivamente a leitura de Alberto Seixa Santos (Lisboa, 2008), catálogo organizado e editado pelo ABC Cine-Clube de Lisboa por ocasião de uma retrospectiva realizada entre 23 de Março e 1 de Abril de 2006, onde se poderá encontrar um valioso conjunto de ensaios sobre a filmografia e o ensaísmo crítico de Seixa Santos, bem como as fichas técnicas de todos os seus filmes (incluindo, como é óbvio, Gestos e Fragmentos). De entre esses ensaios e documentos destaca-se, por exemplo, o texto em Robert Kramer, autor de uma importante obra no âmbito do cinema documental, relata a sua experiência no filme. E, por outro lado, uma muito interessante entrevista que João Fagundes, Joaquim Diabinho e Manuel Neves fizeram ao realizador homenageado e no qual Seixa Santos se refere a vários aspectos da sua obra. Relativamente a Gestos e Fragmentos diz o seu autor: «Os Gestos é completamente pensado, plano a plano, ângulo a ângulo, com um rigor absolutamente milimétrico. Por exemplo, as entrevistas na própria casa de Otelo de Saraiva de Carvalho têm umas barras escuras nas paredes como se fossem grades, falso reflexo de janelas de marquise de alumínio, e a casa dele não tinha nada disso. Era uma teia de fita adesiva com projectores por detrás que faziam uma espécie de grelha, davam a sugestão de prisão, de grades de cadeia projectadas na parede. Estava tudo pensado desde o início. Os décors foram escolhidos milimetricamente» (Alberto Seixa Santos, op. cit., p. 25). E, mais à frente, Seixa Santos apresenta os motivos pelos quais se considera um cineasta-ensaísta. «Tanto Brandos Costumes como Gestos e Fragmentos são ensaios. Eu tenho uma cabeça de ensaísta. Acho que isso vem de duas fontes. Uma é o cimena de Godard, evidentemente. O cinema de Godard tem um período que ele próprio chamava, se não me engano, de cinema do quadro preto. Um cinema-ensaio. E isso fascinava-me bastante. Por outro lado, há a influência de textos teóricos e de peças de Brecht, que tiveram para mim uma grande importância» (Ibid., p. 26).


terça-feira, 19 de abril de 2011

A propósito de Democracia



                                                                                por Teresa Filipe

A propósito de democracia: dois Prefácios de Eduardo Lourenço a Otelo Saraiva de Carvalho. O primeiro de 1977 (“Um homem do (nosso) destino”, Otelo Saraiva de Carvalho, Alvorada em Abril, Lisboa, Bertrand, 1977, pp. 9-14), o segundo de 2011 (“Prefácio”, Otelo Saraiva de Carvalho, O Dia Inicial. 25 de Abril. Hora a Hora, Lisboa, Objectiva, 2011, pp. 13-20). Trinta e sete anos de democracia – uma criança, portanto.








«Mais importante que o destino é a viagem», escreve algures o autor que dá nome e sentido a este blog. Independentemente do destino – democrático – a que este singular momento da nossa história nos tenha conduzido, o mais importante foi ter sido levado a cabo. Ainda que o seu herói epónimo, se soubesse o que sabe hoje talvez não tivesse feito o que fez, o importante foi, e é, tê-lo feito. E independentemente do que se pense agora ou antes acerca do homem, o mais importante é ele ter sido quem foi naquela madrugada. De repente, um cidadão anónimo avança para a boca de cena e assume o papel principal. Não se exigem características especiais, nem se consegue encontrar a receita precisa para fabricar heróis. Serão talvez o resultado de condições específicas no tempo? Mais tarde ou mais cedo, alguém teria de assumir o controlo do nosso destino. Por isso lemos Fernando Pessoa logo na epígrafe ao Prefácio de 77: «Deus é o agente/ O herói a si assiste, vário/ E inconsciente». Deus, destino ou Fado, maior que o herói que o leva a cabo. Esse é também o sentido da famosa réplica aludida pelo autor do Prefácio de 2011. Vítor Alves, quando questionado por Spínola acerca da paternidade da revolução, dita: «Fomos todos!». Diluída a responsabilidade dos actos praticados, assumindo cada um a sua parte na voz do Coro, cada um reclamando o seu lugar na conquista da Liberdade, aquilo que enquanto acção individual se pune transforma-se, enquanto acção colectiva, no poder de punir. Essa é a dialéctica. Essa é a força e o poder da união. A união faz a força e não se pode prender todo um País.


Independentemente das condições paradoxais da nossa Revolução, independentemente de se verificar hoje a subversão dos valores e ideais que inspiraram os homens e as mulheres de 74, o mais importante é eles terem existido daquela maneira, naquela madrugada. Poderemos sempre tentar procurá-los no nosso espírito. É esse o poder dos que inspiram, é esse o poder do sonho sobre a realidade. Independentemente das subversões e desleituras – conceito de Eduardo Lourenço já utilizado neste blog – a que estão sujeitos todos aqueles que tomam parte na coisa pública, continuam a chamar-nos à boca de cena, a transmitir-nos a confiança que é precisa para agir, a confiança de que é possível mudar. Aristóteles disse algures que a democracia perfeita seria uma tirania. Eduardo Lourenço chama a atenção que esta forma de governo, não chegando sequer a ser perfeita, exige um país adulto. Aqueles que pela sua acção desinteressada nos chamam à responsabilidade colectiva pelo que é nosso são os nossos heróis. No Prefácio de 2011, Eduardo Lourenço fala de dois Otelos. O idealista, e posteriormente, já mais informado pela experiência, o político. Mas acerca do encenador da revolução, o próprio exprime em entrevista ao Expresso, em 17 de Abril de 1999: «No dia 25 de Abril não tinha noção do que tínhamos acabado de fazer.» E mais à frente: «O meu afastamento da vida político-partidária na clandestinidade era tão grande que eu nunca tinha ouvido falar de Álvaro Cunhal.» Otelo é o personagem anónimo que em dado momento, dadas as condições singulares do drama histórico e a sua posição nela, é chamado a agir, e age. Muito possivelmente, pelo sentido de algo que hoje nos escapa com alguma facilidade: o dever.





A liberdade, empírica ou ideal, pressupõe o obstáculo e a vontade de o ultrapassar. Nessa vontade está envolvido o sentido do dever, o compromisso com os outros e com o destino que se assume nosso, e então, a possibilidade de transformar. A isso também se pode chamar maioridade, própria e política. Condição necessária para o exercício livre de democracia.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Edmundo Lucena: acerca de um lapso indesculpável




Ler Eduardo Lourenço não sabe ao certo se foi por lamentável ignorância ou por não menos absurdo esquecimento, mas a verdade é que, no texto de Janeiro passado com o título “Quem é Edmundo Lucena?”, induziu os seus visitantes em erro, quando disse que «nunca até hoje ninguém revelou a identidade deste “assistente de filosofia, a respirar inteligência e inquietação”» a que Miguel Torga, em A Criação do Mundo, chamou Edmundo Lucena.
Carlos Mendes de Sousa

Ora, isso é falso! De facto, num belíssimo artigo publicado na revista Relâmpago com o título “Eduardo Lourenço: a cidade, o poema”, Carlos Mendes de Sousa esclarece que em «A Criação do Mundo, é-nos dado a conhecer como o consultório médico do narrador-protagonista, nas horas de desafogo, se transformava num “centro de cavaqueira e conspiração”. Há um parágrafo onde são referidas algumas personagens desse círculo, em relação às quais é fácil de descodificar os nomes verdadeiros, concretamente duas personagens que já tinham tido um papel digno de registo na diegese, Gonçalo e André (Martins de Carvalho e Paulo Quintela) e que constituíam o núcleo forte do grupo. O narrador faz ainda referência a alguns jovens, sem direito a nome, que também frequentavam as tertúlias. Contudo, neste contexto, há um jovem que é nomeado. Desde logo o identificamos a partir das iniciais: “Edmundo Lucena, assistente de filosofia, a respirar inteligência e inquietação”» (Carlos Mendes de Sousa, “Eduardo Lourenço: a cidade, o poema”, Relâmpago. Revista de Poesia, nº 22, Lisboa, Abril de 2008, p. 104).

Miguel Torga

Feita a rectificação devida, Ler Eduardo Lourenço arrisca uma outra pista para decifrar as razões da escolha do nome Edmundo. Não será ela também uma discreta homenagem (ou até uma subtil brincadeira...) ao fundador da fenomenologia, Edmund Husserl, e que o jovem “assistente de filosofia” descobria com entusiasmo por essa época nas bibliotecas da sua Faculdade? Tratando-se de um autor como Torga será isto com certeza pouco provável, mas não deixaria de fazer algum sentido.

Edmund Husserl

terça-feira, 12 de abril de 2011

Limites da leitura ou desleitura sem limites?


Ler Eduardo Lourenço apresenta hoje um exemplo-limite do que possa ser uma desleitura de Eduardo Lourenço. Perguntará o leitor, e com toda a pertinência: como definir o lugar a partir do qual se determina onde acaba uma leitura e começa uma desleitura? Não será qualquer leitura, por assim dizer, ventriloquada por uma desleitura? Ou seja, ler não significa desde logo e inevitavelmente desler? Os limites da leitura ou os limites da interpretação (e não é talvez da mesma coisa que nos dois casos se trata) constitui um tema já clássico no campo da tradição hermenêutica (bíblica, jurídica, etc), da filosofia e dos estudos literários e não é, com certeza, este o local adequado para prosseguir essa aparentemente interminável discussão.
O assunto talvez seja outro, portanto. Em Julho de 2001, Eduardo Lourenço publica na revista Visão um ensaio de duas páginas com o título “O naufrágio do PS”. Para quem acompanha o percurso do ensaísta, nada existe de estranho quer no texto, quer no nome que ele lhe dá. Situado desde sempre numa área política relativamente próxima da do Partido Socialista, Eduardo Lourenço nem por isso evitou lançar as críticas que muito bem entendeu quer à estratégia, quer à acção dos dirigentes do PS. Sem querer fazer agora nenhuma desleitura ilegítima, não deixa de ser curioso que, nos últimos meses (porventura, anos), o ensaísta tenha mantido um silêncio quase total acerca das últimas peripécias (chame-se-lhe assim, para simplificar) da vida política portuguesa. Como ler este silêncio (apenas interrompido muito esporadicamente, como foi o caso da subscrição do texto assinado pelas 47 personalidades de que aqui se fez eco nos últimos dias), se é que a expressão pode ter algum sentido? Mas é preciso voltar dez anos atrás e reler o referido naufrágio do PS.




À primeira vista, nada tem de especialmente relevante este artigo de análise política de Eduardo Lourenço, semelhante a tantos outros que, desde do 25 de Abril, tem vindo a publicar na nossa imprensa. Quanto a este ponto, o leitor que decida – aliás, como sempre. No entanto, alguns dias depois, na revista DNA que, nessa época, se publicava juntamente com a edição de sábado do Diário de Notícias, alguém menos atento era surpreendido com a página que a seguir se apresenta:





Vagamente inspirada em algumas metodologias surrealistas, a leitura (será este o termo adequado?) que Carlos Oliveira Santos faz de “O naufrágio do PS” parece ignorar, de forma deliberada, as regras mínimas de uma ética da interpretação. [Por exemplo: como citar este texto? Quem é o seu autor? Eduardo Lourenço? Carlos Oliveira Santos? As dúvidas não param...]. Esse não é com certeza o menor e o menos divertido dos seus (poucos? muitos?) méritos. No fundo, tudo se passa como se fosse possível levar até aos limites mais inesperados e inauditos o poder da (des)leitura. Mas, pergunta-se, quando se tropeça, por exemplo, numa frase segundo a qual «Eduardo Lourenço tem dedicado toda a sua vida a desvendar criticamente os mistérios da identidade portuguesa» (e esta citação é, obviamente, inventada por Ler Eduardo Lourenço, pelo que se ela corresponder, nem que seja aproximadamente, a uma qualquer declaração efectivamente feita por alguém, tratar-se-á apenas de mera e absoluta coincidência!), não será esta ainda uma maior desleitura? E, no entanto, há desleituras que provocam mais escândalo do que outras. Depois de Carlos Oliveira Santos, todas as leituras e desleituras parecem possíveis. E de facto são. Por muito que isso possa irritar os guardiões dos limites da leitura, categoria a que este blog, pelo menos a partir de hoje, deixa de poder aspirar.