sábado, 9 de abril de 2011

47 personalidades apelam a compromisso nacional


1) Portugal está a viver uma das mais sérias crises da sua história recente. Essa crise tem uma dimensão financeira e económica, que se reflete no défice orçamental, no desequilíbrio externo, no elevado grau de endividamento público e privado e nos baixos índices de competitividade e crescimento da economia, com grave impacto no desemprego, em especial nas gerações mais novas; mas tem igualmente uma dimensão política e social grave, que se exprime numa crescente dificuldade no funcionamento do Estado e do sistema de representação política e em preocupantes sinais de enfraquecimento da coesão da sociedade e das suas expectativas.
2) A crise financeira e económica mundial que se iniciou em 2007,com origem nos Estados Unidos, gerou em 2009 a maior recessão global dos últimos 80 anos e transformou-se, mais tarde, na chamada crise da dívida soberana, que abriu no seio da União Europeia um importante processo de ajustamento político e institucional, afetando de modo especialmente negativo alguns dos Estados membros mais vulneráveis, entre os quais, agora, Portugal.
3) Nesta situação de grande dificuldade, em que persistentes problemas internos foram seriamente agravados por uma conjuntura internacional excecionalmente crítica, os signatários sentem-se no dever de exprimir a sua opinião sobre algumas das condições que consideram indispensáveis para ultrapassar a crise, num momento em que a dificuldade de diálogo entre os dirigentes políticos nacionais e a crescente crispação do debate público, nas vésperas de uma campanha eleitoral, ameaçam minar perigosamente a definição de soluções consistentes para os problemas nacionais.
4) Essas condições envolvem dois compromissos fundamentais:
a) em primeiro lugar, um compromisso entre o Presidente da República, o Governo e os principais partidos, para garantir a capacidade de execução de um plano de ação imediato, que permita assegurar a credibilidade externa e o regular financiamento da economia, evitando perturbações adicionais numa campanha eleitoral que deve contribuir para uma escolha serena, livre e informada; este compromisso imediato deve permitir que o Governo possa assumir plenamente as suas responsabilidades para assegurar o bem público e assumir inadiáveis compromissos externos em nome do Estado.
b) em segundo lugar, um compromisso entre os principais partidos, com o apoio do Presidente da República, no sentido de assegurar que o próximo Governo será suportado por uma maioria inequívoca, indispensável na construção do consenso mínimo para responder à crise sem a perturbação e incerteza de um processo de negociação permanente, como tem acontecido no passado recente; numa perspetiva de curto prazo, esse consenso mínimo deverá formar-se sobre o processo de consolidação orçamental e a trajetória de ajustamento para os próximos três anos prevista na última versão do Programa de Estabilidade e Crescimento; e, numa perspetiva de médio/longo prazo, sobre as seguintes grandes questões nacionais, relacionadas com a adaptação estrutural exigida à economia e à sociedade: a governabilidade, o controlo da dívida externa, a criação de emprego, a melhor distribuição da riqueza, as orientações fundamentais do investimento público, a configuração e sustentabilidade do Estado Social e a organização dos sistemas de Justiça, Educação e Saúde.
5) As próximas eleições gerais exigem um clima de tranquilidade e um nível de informação objetiva sobre a realidade nacional que não estão neste momento asseguradas. A afirmação destes compromissos, a partir de um esforço conjunto dos principais responsáveis políticos, ajudará seguramente a construir uma solução governativa estável, que constitui a primeira premissa para que os Portugueses possam encontrar uma razão de ser nos sacrifícios presentes e encarar com esperança o próximo futuro.

Adriano Moreira
Alexandre Soares dos Santos
Álvaro Siza Vieira
António Barreto
António Gomes de Pinho
António Lobo Antunes
António Lobo Xavier
António Nóvoa
António Ramalho Eanes
António Rendas
António Vitorino
Artur Santos Silva
Belmiro de Azevedo
Boaventura Sousa Santos
Daniel Proença de Carvalho
Diogo Freitas do Amaral
Eduardo Lourenço
Eduardo Souto Moura
Emílio Rui Vilar
Fernando Seabra Santos
Francisco Pinto Balsemão
Isabel Rodrigues Lopes
João Gabriel Silva
João Lobo Antunes
Joaquim Gomes Canotilho
Jorge Sampaio
José Carlos Marques dos Santos
José Carlos Vasconcelos
José Pacheco Pereira
José Pena do Amaral
José Silva Lopes
Júlio Pomar
Júlio Resende
Leonor Beleza
Luís Portela
Manoel de Oliveira
Manuel Braga da Cruz
D. Manuel Clemente
Manuel Sobrinho Simões
Maria de Sousa
Maria Fernanda Mota Pinto
Maria João Rodrigues
Mário Soares
Miguel Veiga
Rui Alarcão
Teresa de Sousa




quarta-feira, 6 de abril de 2011

Reler Sinais de Fogo


Os visitantes habituais destas paragens sabem-no bem. Desde o seu nascimento que Ler Eduardo Lourenço tem sublinhado a importância do (e até a sua modesta inspiração no) trabalho de divulgação que a Universidade Federal do Rio de Janeiro tem vindo a realizar, sob a orientação científica da Professora Gilda Santos (que já colaborou neste blog!), da figura e da obra de Jorge de Sena.
Inteiramente dedicado ao trabalho de Jorge de Sena enquanto poeta, ensaísta, contista, novelista, dramaturgo, tradutor (mas também amigo e correspondente de Eduardo Lourenço!) o site http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena constitui, para além do imenso prazer que proporciona a quem o visita, uma indispensável ferramenta para os estudiosos do autor de As Evidências. Perguntar-se-á: na sempre incompleta enumeração que se acabou de fazer das dimensões do enorme escritor que Jorge de Sena é não faltará ainda o termo romancista? É bem possível, mas, acerca de Sinais de Fogo (escrito durante a estadia de Sena em São Paulo, onde viveu na casa, cf. foto seguinte retirada do site da UFRJ), as leituras e as releituras nem sempre são (e haverá nisso algum mal?) coincidentes. Outra questão poder-se-ia colocar ainda: bastará a um autor escrever um romance para que o consideremos um romancista? Pouco importa. É possível até que estas questões sejam demasiadamente técnicas.


Araraquara, Rua Itália, 1437.


A verdade é que, por ocasião da recentemente anunciada edição brasileira deste livro único, o site Ler Jorge de Sena recupera um ensaio de Eduardo Lourenço, com o título “Sinais de Fogo: A Invenção de um Poeta”, dedicado ao que aí mesmo se chama «a crónica-romance da invenção de si como Jorge de Sena».
Preciosa é, como sempre, a apresentação deste texto de Eduardo Lourenço que, desde hoje mesmo, está disponível electronicamente e que, por isso, Ler Eduardo Lourenço se permite citar, com a devida vénia: «Este ensaio do Professor Eduardo Lourenço foi publicado em 1988 nos Arquivos do Centro Cultural Português, de Paris, numa “Hommage a Jorge de Sena”,  motivada pela então lançada tradução francesa de Sinais de Fogo (de Michèle Giudicelli), nos exatos 10 anos de falecimento de seu autor. Tanto quanto foi possível averiguar, não teve reedição este breve e fundamental texto lourenciano. Por isso, dada a relativa dificuldade na consulta, aqui o disponibilizamos, graças à sempre generosa aquiescência do nosso Mestre-maior».
capa da edição francesa de Sinais de Fogo


Vale com toda a certeza a pena ler o ensaio de Eduardo Lourenço, quanto mais não seja para se reler uma vez mais Sinais de Fogo.
http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/ressonancias/estudos/texto.php?id=237.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Correspondente de Arte de "O Comércio do Porto" (nº 4): às voltas com um lápis azul



Ler Eduardo Lourenço encerra hoje uma série de quatro textos dedicados à colaboração prestada ao longo de vários anos pelo ensaísta à página literária de O Comércio do Porto, dirigida por Costa Barreto. Esta série resultou da revelação do precioso lote de cartas e postais enviados pelo amigo de Valbom a Eduardo Lourenço e que se encontram no espólio deste. Mas, quem foi Costa Barreto? José-Augusto França, outro dos colabradores de “Cultura e Arte”, traça-nos um retrato impressivo nas suas Memórias, de onde se retira também esta fotografia.




Eduardo Lourenço e José-Augusto França em Nice (1982)


«Desde 1953, na página literária d’O Comércio do Porto, eu mantive uma colaboração regular que, começando também sobre Orson [Welles], logo passou, pela “Fotografia subjectiva” do Fernando Lemos, a temas de artes plás­ticas que me eram especialmente encomendados pelo Costa Barreto – e nunca encontrei ninguém mais correcto, certo e digno, em todos os jornais portugue­ses em que escrevi! Apartado pela Censura e pelo próprio reaccionarismo da direcção do velho e estimado quotidiano portuense, Costa Barreto, antigo oficial e monárquico de fé, era fiel aos seus colaboradores, dando-lhes inteira independência de opi­nião, e reunindo assim, no melhor suplemento dos jornais portugueses, em costume de então, alguns dos maiores nomes nacionais, e defendendo-os sem­pre, como ao Óscar Lopes policialmente obrigado a usar um pseudónimo, de Luso do Carmo. Só uma coisa ele não pôde evitar-me: a proibição do jornal de falar nas suas colunas do Amadeo de Souza Cardoso, por alguma misteriosa razão, não certamente estética (pobre do director!) mas que suponho ser por questões antigas de familias... A carta em que Costa Barreto recusava o meu artigo, que aliás lhe fazia falta, é um modelo de discreta dignidade, que guardei. Publiquei com ele 166 artigos até 1973, que foi a data da sua morte e do fim real da página, por fidelidade ao amigo» [José-Augusto França, Memórias para o ano 2000, Lisboa, Livros Horizonte, 2000, p. 118].





O testemunho de José-Augusto França vem também sublinhar o que, em textos anteriores deste blog, já se afirmou: Costa Barreto é um actor decisivo da vida cultural portuguesa da segunda metade do século passado, quanto mais não seja porque manteve uma intensa correspondência literária com alguns dos nossos mais importantes escritores e intelectuais. Mas o texto que se acaba de citar acrescenta um pormenor que é no mínimo curioso: Costa Barreto era um «antigo oficial e monárquico de fé» que, antes de mais, «era fiel aos seus colaboradores, dando-lhes inteira independência de opi­nião». Nesse sentido, poder-se-á dizer que Costa Barreto personificava aquilo a que Kant chamou, em texto célebre, o verdadeiro espírito da Aufklärung. Claro que a sua tenacidade nem sempre lhe permitia que saísse vencedor nas pelejas com o exército de lápis azúis que impunha a censura oficial do Estado Novo. Ora, tal como sucedeu com José-Augusto França, também Eduardo Lourenço foi vítima do irritante lápis que suspendeu e depois cortou um texto sobre Kierkegaard e ... Marx, como nos dão notícia estas duas cartas de Costa Barreto, com as datas de 17 de Dezembro de 1955 e de 3 de Janeiro de 1956.















Este episódio é, evidentemente, lamentável em si mesmo, como todo e qualquer acto censório. Todavia, compreende-se que tenha desagradado não só a Costa Barreto, como também e em especial a Eduardo Lourenço. Afinal, tratava-se do seu primeiro texto em “Cultura e Arte”. Por outro lado, sabe-se hoje como Kierkegaard constitui um interlocutor determinante para a configuração específica do pensamento do autor de Heterodoxia. Ora, neste texto até hoje inédito, Eduardo Lourenço, sem deixar de registar o diferente enfoque de cada um deles, sublinha a natureza revolucionária do pensamento de dois dos mais marcantes filósofos do século XIX. E, a partir deles, encontra uma nova perspectivação do clássico problema filosófico da verdade. Com efeito, «a verdade não é uma ideia, nem um sistema de ideias, nem uma realidade qualquer universal correspondente à sensibilidade, à vontade ou ao entendimento e da qual estes sejam o reflexo ou os criadores, mas sim uma realidade particular existente, uma realidade histórica para um, existencial para outro. Em estreita conexão com isto, o pensador não é o medium de um pensamento universal mas um existente cujo pensamento está em estreita dependência dessa realidade particular: o momento histórico da luta de classes para Marx, a relação pessoal do homem com Deus, para Kierkegaard. Fora desta dependência não há senão abstracção (e traição também) para um e vida inautêntica para outro».
Quem conheça hoje a obra e o pensamento de Eduardo Lourenço facilmente perceberá que, e não apenas neste parágrafo, algo de verdadeiramente essencial estava já escrito em 1956. Por isso, aqui se deixa uma cópia das provas de um artigo «cuja suspensão foi ditada no Porto e o corte em Lisboa», segundo Costa Barreto.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Reconhecimento

Técnica: Mista sobre tela
Dimensão: 400mm x 250mm
Serie: Wiki
por Carlos Botelho

Ler Eduardo Lourenço entende que o conceito de ler pode ser entendido de uma forma mais ampla do que o habitual. Por isso convida todos os visitantes que queiram expressar as suas leituras da figura e da obra do ensaísta através de outros meios que não os da escrita a fazê-lo entrando em contacto com o blog. Daí a proposta dirigida a Carlos Botelho para publicar em Ler Eduardo Lourenço esta reprodução de um retrato, solicitação generosamente atendida pelo artista plástico. Carlos Botelho afirma que «O retrato de Eduardo Lourenço, mais do que um exercício de expressão plástica, constitui o meu reconhecimento para com a obra e o Homem. Difundi-lo através da arte foi a melhor forma de tributo a uma das mais singulares e reconhecidas figuras do pensamento português dos séculos XX e XXI».

quarta-feira, 30 de março de 2011

Señor Lourenço*


por Sagar Forniés
* Sagar Forniés é um artista plástico de Barcelona que tem desenvolvido uma intensa actividade no quadro da banda desenhada e dos comics. Ler Eduardo Lourenço tropeçou numa revista luso-extremeña onde Eduardo Lourenço publicou um artigo (dele se falará proximamente) que é acompanhado por vários desenhos de Sagar Forniés, entre os quais o retrato que é aqui publicado.  Ler Eduardo Lourenço contactou o retratista para obter um depoimento acerca do retratado. E a resposta veio célere: «Os envio aqui la imagen que realicé, sobre el señor Lourenço, es un absoluto placer colaborar con vosotros.Por lo demás no puedo ayudaros mucho, es un encargo que realicé para la revista, no conocia al escritor, pese a que me pareció muy interesante el texto que tuve que ilustrar. Un fuerte saludo desde Barcelona». Muchas grácias, Sagar! Y un fuerte saludo desde Évora!!!

terça-feira, 29 de março de 2011

Do mar*





Ele é a concretização de dois mundos. Tem o efémero, na renda da espuma que cada vaga cria, e tem ao mesmo tempo, no mar propriamente dito, a essência do tempo, aquele tempo que se converteu em problema e que nos problematiza.





*Excerto da intervenção de Eduardo Lourenço na Mesa Redonda “Falta futuro a quem tem no presente ambições passadas” na útima edição das Correntes D'Escritas, citado por Ricardo Duarte no artigo “Diário das Correntes”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1055, Lisboa, 9/III/2011, pp. 6-7, onde se relata a sessão realizada na Póvoa de Varzim em 23 de Fevereiro de 2011. Ricardo Duarte esclarece ainda como o ensaísta preparou a sua participação na mesa redonda, moderada por José Carlos de Vasconcelos, e na qual intervieram também Aida Gomes, Almeida Faria, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Horta e Ricardo Menéndez Salmón. «De início, pensou que seria um daqueles enigmas que os jornais publicavam antigamente, para entreter leitores. Mas quando percebeu que era mesmo o tema da 1ª mesa das Correntes, Eduardo Lourenço pôs-se a pensar. Alinhou algumas ideias, revisitou a obra de vários pensadores e recordou textos que ele próprio escreveu. Só esta manhã, no entanto, ao olhar pela janela do seu quarto, encontrou a melhor imagem para abordar este verso de Armando Silva Carvalho, “Falta futuro a quem tem no presente ambições passadas”. “Para falar deste tema vou ter de falar do mar”, disse. E explicou porquê» (Ibidem).

Na impossibilidade, que se espera provisória, de ler o texto desta intervenção na íntegra, Ler Eduardo Lourenço oferece aos seus visitantes este fragmento. O título e as fotos (tiradas de uma janela de hotel português à beira-mar) que o enquadram são da responsabilidade do blog.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fórmula 1, avarias & amolgadelas

Ler Eduardo Lourenço confessa-se pouco adepto do chamado desporto automóvel. Ainda assim, não ignora que hoje vai para a estrada uma importante competição em Portugal. Talvez seja este um pretexto para falar das relações entre os automóveis e Eduardo Lourenço. Não, que se saiba (mas convém usar alguma prudência metodológica nesta matéria), o ensaísta não escreveu sobre rallies, embora, de acordo com a preciosa informação de Afonso Praça, que o visitou em Vence, seja apreciador das transmissões televisivas de Monza ou Nurburgring. «Além da leitura, é um grande entusiasta de televisão, quase um viciado, como reconhece. Começa a matar o vício à hora do almoço, mas é à noite (nas noites que não dedica à escrita) que passa mais tempo diante do televisor. Vê de tudo um pouco. Mas sobretudo muita informação, programas culturais e desporto, com destaque para futebol, ténis e Fórmula 1» (Afonso Praça, “Um beirão na Provença”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 667, Lisboa, 8/V/1996, p. 10).




Porquê, então, falar do tema Eduardo Lourenço e os automóveis? Antes de mais para evocar um relato de Eduardo Prado Coelho (publicado pela primeira vez num dossier do Jornal do Fundão) sobre uma famosa viagem que ambos fizeram e que é, a vários títulos, reveladora. Se não, veja-se. «Há muitos anos já, logo a seguir a Maio de 68, viajei com ele de Lisboa para Nice (eu ficaria por Aix-en-Provence, onde nessa altura era leitor de Português). Aprendi muito nessa viagem. Porque bastava dar um tema, um tópico, uma referência, a ponta esquiva de uma ideia, para que Eduardo Lourenço começasse a pensar em voz alta. E é muito bonito observar alguém que pensa em voz alta – e a gente a ver não apenas o que ele pensa, mas o espectáculo de pensar, a música das ideias – o mar agitando-se a si mesmo, numa intriga de luas e marés. Falámos de Glauber Rocha, mas tam­bém do homem que chegava à lua (“o homem nunca deixou de fazer aquilo que tecnicamente pode fazer” – frase mais ter­rível do que então me pareceu). A meio do caminho, um jor­nal anunciou-me a morte de Lucien Goldman. Percebi que a dialéctica de Goldman era demasiado a dialéctica do trágico, e não o trágico da dialéctica (que sempre foi o grande tema, o mar absoluto, de Eduardo Lourenço). De vez em quando, o carro avariava, punha-se aos soluços convulsivos, parecia que a alma se lhe ia arrancar das entranhas. Procurávamos uma garagem, ouvíamos a explicação do perito com religioso respeito (quase sempre ele começava por nos dizer como o anterior perito tinha sido um vigarista e um aldrabão, coisa para levar ao desespero qualquer racionalista dogmático). Mas, quando o técnico estava de costas, Eduardo Lourenço afagava discretamente o capot do carro e murmurava com ternura: “Vá lá, vamos lá ver se agora te portas bem, vais ser um menino bonito”. E comentava para mim: “Devemos jogar em todas as hipóteses, a científica e a mágica.” » (Eduardo Prado Coelho, O Cálculo das Sombras, Porto, Edições ASA, 1997, pp. 121-122).


Neste capítulo das viagens conversadas de automóvel merece também referência o magnífico testemunho de Henrique Diniz da Gama (cf. “Eduardo: o meu amigo”, AAVV, Cartografia Imaginária. Dos Poetas e Amigos, Org. de Maria Manuel Baptista, Maia, Ver o Verso, 2008, pp. 77-85).
Mas, apesar do gosto pela antropomorfização dos automóveis, sobretudo em momentos de aflição mecânica, não se pode dizer que Eduardo Lourenço tenha a perícia automobilística de, por exemplo, um ... Manoel de Oliveira (que foi, como se sabe, um exímio piloto desportivo). Pelo menos a julgar pelo testemunho de alguns observadores próximos do ensaísta. Por exemplo, Vergílio Ferreira refere-se a isso, num comentário quase malicioso escrito a propósito de uma das muitas visitas que o amigo lhe fazia em Fontanelas: «O Eduardo Lourenço esteve aqui esta manhã. Cavaco rápido e sintético sobre mexericos literários (o caso do Pacheco com início no último Popular), tricas políticas (o regateio do Torga de uma adesão ao Eanes), e, por fim, num desvio por largo, o incêndio da Polónia. Admitimos ser improvável que a URSS faça de bombeiro. Mas não há tempo para especularmos com mais vagar: Eduardo tem almoço em Belém. Muda para fato com mais cerimónia, parte de carro com alguma aceleração. Tem algumas esmurradelas. O carro.» (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1980-1981, Vol. III, Lisboa, Bertrand, 1983, p. 121).
Anos mais tarde, de novo Afonso Praça. Na inesperada sequência de uma descrição da antiga casa de Vence de Eduardo Lourenço, surgem novos elementos sobre este tema automobilístico. «A primitiva garagem foi transformada em escritório e inundada de livros. Num primeiro instante, a mulher, Annie, pensou que o problema dos livros estava resolvido. Mas não. A nova garagem, que foi acrescentada à casa, acabou também por ceder lugar a mais livros, e o carro é hoje [1996] arrumado num telheiro, cujo acesso é mais difícil, o que, aliado à consabida distracção de Eduardo Lourenço, já provocou marcas laterais na chapa do Citröen» (Afonso Praça, “O exilado de Vence”, Visão, Lisboa, 7/IX/1995, p. 81).



Ler Eduardo Lourenço não quer fazer publicidade à marca francesa, mas não deixa de referir que a escolha dos simpáticos Citröens parece típica de condutores distraídos ou amigos das amolgadelas.