quarta-feira, 30 de março de 2011

Señor Lourenço*


por Sagar Forniés
* Sagar Forniés é um artista plástico de Barcelona que tem desenvolvido uma intensa actividade no quadro da banda desenhada e dos comics. Ler Eduardo Lourenço tropeçou numa revista luso-extremeña onde Eduardo Lourenço publicou um artigo (dele se falará proximamente) que é acompanhado por vários desenhos de Sagar Forniés, entre os quais o retrato que é aqui publicado.  Ler Eduardo Lourenço contactou o retratista para obter um depoimento acerca do retratado. E a resposta veio célere: «Os envio aqui la imagen que realicé, sobre el señor Lourenço, es un absoluto placer colaborar con vosotros.Por lo demás no puedo ayudaros mucho, es un encargo que realicé para la revista, no conocia al escritor, pese a que me pareció muy interesante el texto que tuve que ilustrar. Un fuerte saludo desde Barcelona». Muchas grácias, Sagar! Y un fuerte saludo desde Évora!!!

terça-feira, 29 de março de 2011

Do mar*





Ele é a concretização de dois mundos. Tem o efémero, na renda da espuma que cada vaga cria, e tem ao mesmo tempo, no mar propriamente dito, a essência do tempo, aquele tempo que se converteu em problema e que nos problematiza.





*Excerto da intervenção de Eduardo Lourenço na Mesa Redonda “Falta futuro a quem tem no presente ambições passadas” na útima edição das Correntes D'Escritas, citado por Ricardo Duarte no artigo “Diário das Correntes”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1055, Lisboa, 9/III/2011, pp. 6-7, onde se relata a sessão realizada na Póvoa de Varzim em 23 de Fevereiro de 2011. Ricardo Duarte esclarece ainda como o ensaísta preparou a sua participação na mesa redonda, moderada por José Carlos de Vasconcelos, e na qual intervieram também Aida Gomes, Almeida Faria, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Horta e Ricardo Menéndez Salmón. «De início, pensou que seria um daqueles enigmas que os jornais publicavam antigamente, para entreter leitores. Mas quando percebeu que era mesmo o tema da 1ª mesa das Correntes, Eduardo Lourenço pôs-se a pensar. Alinhou algumas ideias, revisitou a obra de vários pensadores e recordou textos que ele próprio escreveu. Só esta manhã, no entanto, ao olhar pela janela do seu quarto, encontrou a melhor imagem para abordar este verso de Armando Silva Carvalho, “Falta futuro a quem tem no presente ambições passadas”. “Para falar deste tema vou ter de falar do mar”, disse. E explicou porquê» (Ibidem).

Na impossibilidade, que se espera provisória, de ler o texto desta intervenção na íntegra, Ler Eduardo Lourenço oferece aos seus visitantes este fragmento. O título e as fotos (tiradas de uma janela de hotel português à beira-mar) que o enquadram são da responsabilidade do blog.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fórmula 1, avarias & amolgadelas

Ler Eduardo Lourenço confessa-se pouco adepto do chamado desporto automóvel. Ainda assim, não ignora que hoje vai para a estrada uma importante competição em Portugal. Talvez seja este um pretexto para falar das relações entre os automóveis e Eduardo Lourenço. Não, que se saiba (mas convém usar alguma prudência metodológica nesta matéria), o ensaísta não escreveu sobre rallies, embora, de acordo com a preciosa informação de Afonso Praça, que o visitou em Vence, seja apreciador das transmissões televisivas de Monza ou Nurburgring. «Além da leitura, é um grande entusiasta de televisão, quase um viciado, como reconhece. Começa a matar o vício à hora do almoço, mas é à noite (nas noites que não dedica à escrita) que passa mais tempo diante do televisor. Vê de tudo um pouco. Mas sobretudo muita informação, programas culturais e desporto, com destaque para futebol, ténis e Fórmula 1» (Afonso Praça, “Um beirão na Provença”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 667, Lisboa, 8/V/1996, p. 10).




Porquê, então, falar do tema Eduardo Lourenço e os automóveis? Antes de mais para evocar um relato de Eduardo Prado Coelho (publicado pela primeira vez num dossier do Jornal do Fundão) sobre uma famosa viagem que ambos fizeram e que é, a vários títulos, reveladora. Se não, veja-se. «Há muitos anos já, logo a seguir a Maio de 68, viajei com ele de Lisboa para Nice (eu ficaria por Aix-en-Provence, onde nessa altura era leitor de Português). Aprendi muito nessa viagem. Porque bastava dar um tema, um tópico, uma referência, a ponta esquiva de uma ideia, para que Eduardo Lourenço começasse a pensar em voz alta. E é muito bonito observar alguém que pensa em voz alta – e a gente a ver não apenas o que ele pensa, mas o espectáculo de pensar, a música das ideias – o mar agitando-se a si mesmo, numa intriga de luas e marés. Falámos de Glauber Rocha, mas tam­bém do homem que chegava à lua (“o homem nunca deixou de fazer aquilo que tecnicamente pode fazer” – frase mais ter­rível do que então me pareceu). A meio do caminho, um jor­nal anunciou-me a morte de Lucien Goldman. Percebi que a dialéctica de Goldman era demasiado a dialéctica do trágico, e não o trágico da dialéctica (que sempre foi o grande tema, o mar absoluto, de Eduardo Lourenço). De vez em quando, o carro avariava, punha-se aos soluços convulsivos, parecia que a alma se lhe ia arrancar das entranhas. Procurávamos uma garagem, ouvíamos a explicação do perito com religioso respeito (quase sempre ele começava por nos dizer como o anterior perito tinha sido um vigarista e um aldrabão, coisa para levar ao desespero qualquer racionalista dogmático). Mas, quando o técnico estava de costas, Eduardo Lourenço afagava discretamente o capot do carro e murmurava com ternura: “Vá lá, vamos lá ver se agora te portas bem, vais ser um menino bonito”. E comentava para mim: “Devemos jogar em todas as hipóteses, a científica e a mágica.” » (Eduardo Prado Coelho, O Cálculo das Sombras, Porto, Edições ASA, 1997, pp. 121-122).


Neste capítulo das viagens conversadas de automóvel merece também referência o magnífico testemunho de Henrique Diniz da Gama (cf. “Eduardo: o meu amigo”, AAVV, Cartografia Imaginária. Dos Poetas e Amigos, Org. de Maria Manuel Baptista, Maia, Ver o Verso, 2008, pp. 77-85).
Mas, apesar do gosto pela antropomorfização dos automóveis, sobretudo em momentos de aflição mecânica, não se pode dizer que Eduardo Lourenço tenha a perícia automobilística de, por exemplo, um ... Manoel de Oliveira (que foi, como se sabe, um exímio piloto desportivo). Pelo menos a julgar pelo testemunho de alguns observadores próximos do ensaísta. Por exemplo, Vergílio Ferreira refere-se a isso, num comentário quase malicioso escrito a propósito de uma das muitas visitas que o amigo lhe fazia em Fontanelas: «O Eduardo Lourenço esteve aqui esta manhã. Cavaco rápido e sintético sobre mexericos literários (o caso do Pacheco com início no último Popular), tricas políticas (o regateio do Torga de uma adesão ao Eanes), e, por fim, num desvio por largo, o incêndio da Polónia. Admitimos ser improvável que a URSS faça de bombeiro. Mas não há tempo para especularmos com mais vagar: Eduardo tem almoço em Belém. Muda para fato com mais cerimónia, parte de carro com alguma aceleração. Tem algumas esmurradelas. O carro.» (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1980-1981, Vol. III, Lisboa, Bertrand, 1983, p. 121).
Anos mais tarde, de novo Afonso Praça. Na inesperada sequência de uma descrição da antiga casa de Vence de Eduardo Lourenço, surgem novos elementos sobre este tema automobilístico. «A primitiva garagem foi transformada em escritório e inundada de livros. Num primeiro instante, a mulher, Annie, pensou que o problema dos livros estava resolvido. Mas não. A nova garagem, que foi acrescentada à casa, acabou também por ceder lugar a mais livros, e o carro é hoje [1996] arrumado num telheiro, cujo acesso é mais difícil, o que, aliado à consabida distracção de Eduardo Lourenço, já provocou marcas laterais na chapa do Citröen» (Afonso Praça, “O exilado de Vence”, Visão, Lisboa, 7/IX/1995, p. 81).



Ler Eduardo Lourenço não quer fazer publicidade à marca francesa, mas não deixa de referir que a escolha dos simpáticos Citröens parece típica de condutores distraídos ou amigos das amolgadelas.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Correspondente de Arte de "O Comércio do Porto" (nº 3): o que seria um filosofismo pseudo-moderno em e para o 57?

Ler Eduardo Lourenço volta à correspondência com Costa Barreto existente no Acervo do ensaísta. Em postal enviado de Valbom-Gondomar, a 27 de Maio de 1957, o responsável pelo suplemento “Cultura e Arte” de O Comércio do Porto não deixa de se referir a aspectos editoriais da colaboração do seu Correspondente de Arte (cf. números anteriores desta série). Para além disso informa Eduardo Lourenço sobre alguns episódios na vida cultural e literária portuguesa, nalguns casos tratando-se quase de pura má lingua, como se pode ver na imagem que a seguir se reproduz da frente e do verso do postal.









Contudo, Costa Barreto acrescenta a este postal um segundo e longo post scriptum em que dá conta ao amigo da estreia «de um jornal literário intitulado 57 e dirigido pelo António Quadros (a capelinha do A. Ribeiro)». Com efeito, nesse mesmo mês saiu o primeiro número de 57, publicação que se viria a tornar de certo modo emblemática da chamada filosofia portuguesa. Recorde-se que o 57 (folha independente de cultura como a si mesmo se designava) irá ter onze números (um deles duplo), o último dos quais será publicado em Junho de 1962. Ora, logo nessa edição inaugural, Eduardo Lourenço merece honras de referência e é acerca dela que Costa Barreto, amigavelmente, informa o seu amigo e correspondente.








A que se deve essa referência? Precisamente ao número de “Cultura e Arte” dedicado à figura e ao pensamento de Sampaio Bruno, o qual contou com a colaboração, entre outros, de ... Eduardo Lourenço, com o artigo “Nota a uma apologia de Sampaio Bruno” [Suplemento Cultura e Arte de O Comércio do Porto, Porto, 29/I/1957, pp. 5-6]. Trata-se de um texto, que, de acordo com o previsto, será incluído no primeiro volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, e em que, a propósito de uma antologia do pensador portuense organizada por Álvaro Ribeiro [Sampaio (Bruno), Prefácio e selecção de Álvaro Ribeiro, Ed. S. N. I., 1947], se alude, por exemplo, à «insólita atitude espiritual» do prefaciador que, recorde-se, foi também o autor de O Problema da Filosofia Portuguesa (1943). Ler Eduardo Lourenço não pretende aqui reproduzir os termos de uma discussão que, nessa altura, provocou alguma ressonância e de que ainda hoje por vezes se ouvem alguns ecos. Ainda assim, não deixa de manifestar alguma perplexidade em relação ao que possa ser o filosofismo pseudo-moderno de Eduardo Lourenço, expressão usada pelo articulista anónimo do 57 que, deste modo, visa aparentemente desqualificar a “Nota a uma apologia”. Os companheiros de página (com  excepção de José Marinho, cujo texto é elogiado pelo 57) de Eduardo Lourenço, a saber, Agostinho Veloso (e o seu racionalismo escolástico), Vieira de Almeida (universitarismo anedótico), Joel Serrão (enciclopedismo francês [sic]), Delfim Santos (intelectualismo universitário) também não são, por assim dizer, poupados. Mas se as sumárias classificações que lhe são dirigidas podem ser inadequadas (e é talvez o minímo que se pode dizer acerca delas!), pelo menos são inteligíveis. Já em relação ao que possa ser qualquer coisa como um filosofismo pseudo-moderno, não parece ser tão fácil descortinar o seu significado. Saberão os visitantes deste blog de que coisa se trata? Ler Eduardo Lourenço aceita e agradece sugestões hermenêuticas para tão enigmática expressão, ao mesmo tempo que reproduz a capa e o artigo dessa histórica estreia do 57. Será isto suficiente para remover um «fortíssimo obstáculo à apreensão de um pensamento radicado em categorias nacionais» [sic]? Talvez não, mas que custa tentar?







No entanto, há também que ser justo e, por isso, Ler Eduardo Lourenço não pode omitir que, no nº 5 do 57, saído em Setembro de 1958, aparece uma outra (e última, aliás) referência ao autor de Heterodoxia. E, desta vez, não se menciona o seu (entretanto desparecido ou superado?)  filosofismo pseudo-moderno. Pelo contrário, agora lamenta-se, num artigo, também ele não assinado e com o título “Agostinho da Silva e a emigração dos intelectuais portugueses” (cf. em baixo) que Eduardo Lourenço seja o caso «de um outro valor [que] acaba de partir, desta vez para a Baía», naquilo que o jornal considera ser um verdadeiro suicídio mental do país.



Todas as reproduções do jornal 57 foram retiradas de http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/57/57.htm




quinta-feira, 17 de março de 2011

What We Talk About When We Talk About Eduardo Lourenço

Ler Eduardo Lourenço defronta-se por vezes com o problema de explicar ao leitor não-português (ou melhor, ao não-leitor de livros em português) a importância e a singularidade do pensamento do ensaísta. Felizmente que existem em cada vez maior número edições em língua estrangeira de livros de Eduardo Lourenço (cf. http://www.eduardolourenco.uevora.pt/), embora muito haja para fazer nesta área tão sensível e tão importante. Sem querer comparar aquilo que não é evidentemente da ordem da comparação, poder-se-ia perguntar qual seria a projecção internacional da obra de um autor como Kierkegaard, cuja influência se fez sentir decisivamente no existencialismo do século XX, sem o trabalho inestimável dos seus tradutores? Qual seria a repercussão internacional do filósofo de Temor e Tremor se os seus livros tivessem permanecido apenas disponíveis em língua dinamarquesa? Coisa semelhante se poderia afirmar em relação a Fernando Pessoa cuja dimensão universal, hoje facilmente reconhecida, dependeu, como é óbvio, da edição dos seus textos em inglês e francês, por exemplo. Ora, enquanto a tarefa dos tradutores (para usar a famosa expressão de Walter Benjamin) continua o seu longo e tantas vezes pouco reconhecido caminho, que há nesta altura de disponível para, em poucas linhas, apresentar Eduardo Lourenço em inglês?
Onésimo Teotónio de Almeida

Ler Eduardo Lourenço considera que existe pelo menos um texto que cumpre excelentemente esse propósito. Haverá com certeza outros. Pouco importa. A entrada que Onésimo Teotónio de Almeida redigiu para a monumental (2156 páginas!) Encyclopedia of the Essay, dirigida por Tracy Chevalier e editada pela Fitzroy Dearborn Publishers em 1997 (desconhece-se se há uma edição mais recente), constitui um modelo de concisão e rigor, pois em poucos parágrafos explica o ensaísmo de Eduardo Lourenço de uma forma ao mesmo tempo didáctica (no bom sentido do termo) e pessoal. Ler Eduardo Lourenço aprecia especialmente o termo entrada pois vê nele exactamente o sentido de uma porta que se pode abrir para outras leituras. Por isso, com a devida vénia, aqui se reproduz Lourenço, Eduardo, ao mesmo tempo que se recomenda a consulta de “O ensaio à Eduardo Lourenço. Existo, logo penso (e sinto)” [Colóquio-Letras, nº 170, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 2009, pp. 113-117] em que o autor da entrada, para além de apresentar o motivo pelo qual enquadra Eduardo Lourenço numa talvez inesperada tradição ibérica, narra algumas das peripécias que o levaram a escrever apenas três dos seis capítulos que pretendia publicar em Encyclopedia of the Essay.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Para um Tempo da Música e uma Música do Tempo


por Barbara Aniello






Folhas avulsas, amarelecidas pelo tempo, agendas de bolso minúsculas, páginas soltas ou agrafadas, por vezes numeradas, outras não, encontradas em forma beneditina entre as páginas de livros de Estética e de Filosofia, ou recolhidas em pequenas caixas frágeis de papelão branco: são migalhas raras do que teria pertencido a um diário “perdido” de Eduardo Lourenço, mas que, entre tantos papéis, pacientemente arrumados, inventariados e catalogados por João Nuno Alçada, começaram agora a ser reveladas. É a ele que devo a descoberta, no acervo do filósofo, dos escritos inéditos dedicados à música, foi ele quem me encorajou na tarefa da transcrição, trabalho minucioso e por vezes desconsolado, numa luta diária para decifrar palavras apagadas e incompreensíveis, a partir duma grafia difícil, miúda e fascinante.

Escritas entre 1948 e 2006, as 140 reflexões de Eduardo Lourenço sobre a música, quase todas inéditas, acompanham o inteiro arco temporal da sua carreira, abrangendo um leque vastíssimo de obras e autores, do gregoriano até à música serial, de Josquin de Prés a Stockhausen, de Bach a Bartók.

Auto-retratado na intimidade do seu escritório, nas viagens solitárias de carro, nas salas de concerto, nos teatros lotados, lugares privilegiados da sua audição, o autor revela um lado totalmente secreto da sua escrita.

Inicialmente relutante, Eduardo Lourenço não queria tornar público um material tão marginal e fragmentado, declarando-se um simples amador. Todavia não é o seu rigor musicológico que se pretende aqui testemunhar, mas o lado intuitivo, agudo e iluminante de um pensador que respondeu por completo a todos os campos da sua vocação estética. Apesar de não ter formação específica na área, o escritor alcança a essência do discurso musical, traduzindo-o por vezes em forma de poesia, outras de ensaio, de fragmento, de aforismo anotado à margem de outras especulações.

Emblemático é o exemplo aqui apresentado, onde a citação musical se torna pretexto, centelha primordial, a partir da qual os campos da arte, da literatura, da estética, da filosofia se incendeiam, sem renunciar à glosa irónica e auto-irónica do final.

Rendido ao projecto, Eduardo Lourenço escolheu intitular Tempo da Música, Música do Tempo o volume que fará parte das Obras Completas editadas pela Fundação Gulbenkian. Música como “pretexto” no sentido etimológico do termo, “encobrindo” o verdadeiro Tema, fio condutor de toda a obra lourenciana: o Tempo.



Henry Barraud (1900-1997)-




                                         Desintrodução à estética.

1 de Janeiro de1965



Obra de Henry Barraud. Suponhamos o auditor desprovido de consciência histórico-musical. Hipótese-limite mas que é o caso digamos do auditor incapaz por exemplo de distinguir Josquin des Prés de Rameau ou Monteverdi de Beethoven, ou Beethoven de Schönberg etc. Nessa hipótese ouvindo esta música de Barraud, prestando-lhe atenção ele será invadido por uma arquitectura sonora que lhe parecerá des-concertante e sobretudo será submetido a uma impressão caótica, angustiada, dilacerante e dilacerada que por comparação com o seu fundo próprio de melodia clássica lhe poderá parecer de uma total novidade, de uma originalidade poderosa. Dir-se-á que esse auditor não compreendeu essa música. Mas a compreensão da música não se esgota na absorção dela, não reside toda no conjunto de emoções, pensamentos, que faz nascer em nós? Como a da pintura na sua visão? De um certo modo sim e contudo mesmo aceitando-o o caso de encontro música-auditor ou pintura-espectador permanece e até se complica. Quem olhar “Guernica” por exemplo ou as “Nympheas” ou “Suzanne et les vieillards”, digo, quem olha detidamente tais quadros vê aparentemente tudo quanto há a ver neles. A mesma coisa para quem escuta uma música jamais ouvida. Todavia esse ver é de algum modo cego e esse ouvir, mudo, pela simples razão que quadro e música são histórias, são o lugar onde de um diálogo para entender o qual é literalmente exacto dizer que é necessário convocar o passado de onde emerge, o presente em que nasce e o futuro que transporta. Assim a perspectiva puramente fenomenológica só é fecunda quando a consciência em que a redução se dá está já de “plein pied” com o objecto a reduzir. Não é só o juízo que é impossível sem o halo que situando a obra oferece ao mesmo tempo os termos de comparação possível, sem os quais julgar é acto de vontade e não de entendimento, mas é a compreensão mesma que não pode efectuar-se. Colocado diante de “Guernica” o homem que nunca ouviu falar da guerra de Espanha que desconhece o passado recente da pintura (cubismo-expressionismo) que vê ele, vendo-a? A Zona de um encontro puro, virginal, entre uma consciência intemporal e a pura presença da obra é o encontro de dois espelhos se reenviando sem fim a nula imagem que um ao outro se reenviam. A História sem Fenomenologia é cega, a Fenomenologia sem História é vazia. Da análise fenomenológica só podemos extrair maravilhosos coelhos brancos com a condição de lá os termos postos antes ou de os levar nos bolsos como os bons prestidigitadores.




sexta-feira, 11 de março de 2011

Os portugueses como metáfora de escravidão e humanidade ou considerações (des)enrascadas à volta de um texto cortado pela censura

por Teresa Filipe

A canção Parva Que Sou, do grupo “Deolinda”, assume subitamente carácter de hino da geração à rasca.
Cartaz de “Homens da Luta”, os polémicos vencedores do Festival da Canção 2011, com a música A Luta é Alegria.

Dois episódios mediáticos recentes puseram o país a perguntar-se se a canção ainda é uma arma. Pelo menos, este ainda admite que já foi e terá deixado de o ser. A questão que se coloca então é a de saber se pode voltar a ser o que já foi. No país da revolução cantada discute-se (ou finge-se discutir, mas isso já não é pouco) o poder da canção e da rua. Não será isso uma maneira de discutir a possibilidade mesma da nossa democracia, ou seja, do poder real do povo? Sim, porque pode estar fora de moda falar de povo, mas que ele existe, existe. E continua a fazer sentido falar em elites, também. O que está em causa é a capacidade mobilizadora da palavra, a crença no poder da reivindicação, a crença de que é possível mudarmos. Mudarmo-nos. Em vez de permitir apaticamente uma sociedade sub-humana, exigir um novo metabolismo social.

Tudo isto nos remete, como não poderia deixar de ser, para o único momento da nossa pálida história contemporânea, em que o povo, saindo às ruas a cantar, se fez ouvir e mudou o estado de coisas: mudou o nosso mundo.

Em 1973, a pretexto de um filme de Alain Jessua, Tratamento de Choque (com interpretações de Alain Delon e da muito recentemente desaparecida Annie Girardot), Eduardo Lourenço escreve um texto para o Expresso, que, tendo sido inicialmente censurado, foi publicado em Maio do ano seguinte, já depois da Revolução. Segundo Eduardo Lourenço, o filme é uma sátira, pouco conseguida, à sociedade burguesa e à sua complacência para com os subprodutos humanos da sua tão desejada sociedade de consumo. 



Revista de Expresso, Lisboa, 4/V/1974, p. 31

Mas vai mais além. Tratamento de Choque não retrata apenas o modo como a sociedade burguesa cria sub-humanos, ou como os emigrantes pobres (e neste caso, poderíamos dizer, portugueses ou não) são o subproduto de uma sociedade burguesa, capitalista, e de consumo selvagem. Jessua elege o emigrante português como imagem daquele que vive alienado a sua condição. (Neste ponto, poderíamos falar da própria condição de emigrado que continua, aqui fatalmente, a perpetuar-se nesta imagem de alienação; basta para isso registar a actual discussão acerca da falência das sociedades multiculturais e a dificuldade em encontrar compromissos.) Deixa-se oprimir, resignado, como se para isso estivesse fadado.

«Bastou-lhe captar na mais quotidiana realidade francesa onde já é impossível não tropeçar neles (como “sangue” dela que são) a sua gentileza imemorial, o seu gosto de servir, a sua fabulosa capacidade de aguentar de que já Garrett dizia que nem nos degraus do patíbulo se desmentia, a sua doçura quase feminina sob o machismo impenitente, para lhes confiar com intuição infalível, o triste e sublime papel de representar no seu rosto emigrado, a resignação e predestinação míticas de que o Escravo é feito.»

Até que o escravo perceba que é ele que alimenta o seu dono. Para isso é preciso que ele se compreenda como ser livre. Nem «santos, heróis e navegadores», nem «pedreiros, caiadores e operários reais», mas como um ser singular, cheio de possibilidades individuais, sem qualquer dívida mítica a esta ou aquela imagem estereotipada. Para que cada um se possa descobrir e assumir individualmente, para que como sociedade criemos efectivamente as condições necessárias para que cada um viva aquilo que acredita em vez de se perpetuar numa imagem simbolicamente humana, é necessária essa liberdade que no nosso país nasceu na rua sob a forma de uma cantiga. Para viver é necessário esquecer, e neste caso, lembrar. Para o bem ou para o mal, somos herdeiros dessa canção. Foi possível quebrar o silêncio, sair à rua e desfazer as evidências. Foi possível a um povo assumir o seu destino quando o tempo era de mentira, de ilusão, de censura (e a pior censura é a auto-censura, diz o homem da luta).

«É a eles mesmos (nós) que cumpre empreender e ajudar a destruir essa máquina infernal para que, desta vez como no filme, não continue a devorar-nos sem fim.»

Como no filme, ou como na canção.