terça-feira, 8 de março de 2011

Em Guimarães, Europa!





Acaba de sair, numa pequena e muito elegante edição da Verbo, Pequena Meditação Europeia. A propósito de Guimarães, livro que reproduz a conferência aí proferida por Eduardo Lourenço em 23 de Janeiro do ano passado, no âmbito da candidatura da cidade minhota a Capital Europeia da Cultura (de cujo site oficial foram retiradas as imagens que acompanham este texto). Trata-se de uma verdadeira lição que, começando por evocar a beleza histórica de Guimarães («para além de Évora, poucas em Portugal se [lhe] podem comparar realmente», p. 7) e por fazer uma reflexão em torno da nossa condição europeia, passa em revista os momentos essenciais da história do Velho Continente, para concluir com uma nota optimista acerca do milagrinho português (p. 30) da segunda metade do século passado. No fim do opúsculo, reproduz-se um curto diálogo em que Eduardo Lourenço responde a três questões apresentadas por membros da assistência.







Para assinalar esta edição, Ler Eduardo Lourenço remete os seus visitantes para um video que noticia o evento agora transformado em livro http://videos.sapo.pt/jjwIjRzrTHwgnAeuUnSQ e ao mesmo tempo aconselha vivamente a leitura de Pequena Meditação Europeia.

quinta-feira, 3 de março de 2011

5 cartas de Snu Abecassis ou para uma genealogia do Labirinto

Será excessivo considerar Snu Abecassis (née Ebba Merete Seidenfaden, 1940-1980) uma personagem mítica na vida portuguesa contemporânea?  Talvez não. A sua estúpida morte em Camarate, num acidente de avião que também vitimou, entre outros, Francisco Sá Carneiro, Primeiro-Ministro e seu companheiro numa relação amorosa que provocou celeuma num país de costumes conservadores, e Adelino Amaro da Costa, ajudou a conferir à sua figura um estatuto que evoca as tragédias gregas. Aliás, a literatura e até o cinema depressa se aperceberam disso mesmo.
Snu e Sá Carneiro

Na verdade já muito se escreveu sobre Snu Abecassis. Cf. por exemplo o capítulo que lhe é dedicado no recente e muito documentado Carneiro de Miguel Pinheiro (Lisboa, Esfera dos Livros, 2010, pp. 437-466). Mas Ler Eduardo Lourenço gostaria nesta circunstância de homenagear a editora de origem dinamarquesa, ao mesmo tempo exigente e dialogante, que teve um papel particularmente decisivo na génese de um livro (título incluído), O Labirinto da Saudade, que transformou o seu autor  num dos escritores portugueses mais citados ou pelo menos mais referidos.  Para isso recorremos a um conjunto de cinco cartas (existente no Acervo de Eduardo Lourenço) que revelam o modo atento e perspicaz como Snu, que exercia importantes funções directivas nas Publicações Dom Quixote (em Lisboa), acompanhou toda a construção do Labirinto.
Carta de 15 de Março de 1978


Registe-se nesta primeira carta dois pontos que parecem essenciais. Em primeiro lugar, a editora afirma que leu «com muito interesse o manuscrito» com o título "Psicanálise Mítica do Destino Português" e, por isso, julga dever publicá-lo. Contudo, e para concretizar essa sua intenção, Snu não deixa de alertar Eduardo Lourenço para dois pequenos problemas. Por um lado, pretende «saber qual é o panorama no que respeita a outros livros seus no prelo em Portugal». E explica porquê: «Se bem me lembro, havia vários em andamento, mas de cuja evolução não estou, evidentemente, a par». Quem conhece minimamente o espólio documental de Eduardo Lourenço assegura que são incontáveis os projectos editoriais do ensaísta, alguns deles não indo além de uma folha de capa manuscrita. Outros já com um índice mais ou menos elaborado. Muitos ainda bastante mais perto do acabamento.
Por outro lado, o material manuscrito que chegou aos escritórios da Rua Luciano Cordeiro vinha incompleto: «acaba na página 40 e falta-nos o restante». Ler Eduardo Lourenço regista o ocorrido, embora confesse que esse facto não o deixa totalmente surpreendido.

Carta de 14 de Abril de 1978

Nesta segunda carta, Snu começa por dizer que se trata de «umas linhas com urgência». O projecto editorial parece não avançar: «a situação não está muito clara». Entre a tábua de matérias (que a seguir se reproduz) e o material existente na Dom Quixote não havia uma total coincindência. Enfim, nada a que os editores de Eduardo Lourenço não estejam propriamente acostumados.


No entanto, é importante sublinhar por que motivo Snu considera que a publicação do futuro livro era tão  urgente. A obra deveria sair, no seu entender, antes do Verão porque essa era «o momento em que [o] público ainda retém uma certa curiosidade pelos "porquê" da situação do país». No Outono, talvez fosse já demasiado tarde, pois a gravidade da situação poderia ser nessa altura de uma dimensão tal que aos leitores nem o porquê, nem o como suscitasse o menor interesse. Descontando o que possa haver aqui de retórica empresarial por parte da editora, é curioso verificar como em 1978 ainda se acreditava no impacte público dos livros e, em particular, de livros de ensaios de pendor filosófico. E daí uma das frases finais da missiva: «tenha isto em mente quando se irrita com a minha insistência na resolução rápida deste trabalho». De facto, este último aviso surtiu o efeito desejado como seguidamente se verá.

Carta de 12 de Maio de 1978


Tendo sido forçada a ausentar-se de Lisboa por algumas semanas, Snu quando regressa depara-se com várias cartas de Eduardo Lourenço que, desta forma, correspondeu ao apelo da mensagem anterior. O livro não estava ainda completo («falta receber a revisão do prefácio, que esperamos a todo o momento»), mas a editora revela-se bem mais optimista esperando lançar a obra em Junho, o que, realmente veio a suceder. Assinale-se ainda o contentamento de Snu pela solução encontrada para a capa do livro, pois considera que esse problema foi muito bem resolvido. Ler Eduardo Lourenço não discorda desta opção estética, mas a verdade é que as capas das ulteriores edições de O Labirinto da Saudade foram diferentes.

capa da 1ª edição (Junho de 1978)
capa da 2ª edição (Junho de 1982)

(capa de uma das edições mais recentes)

 Mais importante ainda é naturalmente a mudança do título do livro, agora baptizado O Labirinto da Saudade. Snu realça que o primeiro nome poderia «dar a entender que havia pretensões reais de psicanálise no sentido científico». Ora, já que não era disso que se tratava, importava seguir o princípio editorial de «evitar sempre que possível as construções que se prestam a mais que uma leitura». Como se sabe, o termo psicanálise acabou por surgir como sub-título e, mesmo em segundo plano, veio a provocar numerosas e contraditórias leituras, algumas delas procurando descredibilizar as teses de Eduardo Lourenço a partir da (suposta) insuficiência epistemológica da psicanálise, como foi o caso de alguns representantes de um certo e inesperado positivismo sociológico. Mas, claro, isso são assuntos para discutir em outras ocasiões...
O livro chamou-se mesmo O Labirinto da Saudade e este título passou a ser uma espécie de senha para aceder à obra do Eduardo Lourenço inúmeras vezes apresentado como o autor do Labirinto. Ora, a escolha do nome não terá sido inteiramente feliz. Por um lado, porque a referência à saudade pode prestar-se a «mais que uma leitura». Por outro, porque o título  não pode deixar de remeter para a já então publicada obra do futuro Prémio Nobel, o mexicano Octavio Paz, que se chamava precisamente El Labirinto de la Soledad, expressão que, não sendo a mesma, é no entanto quase homófona.




Onésimo Teotónio de Almeida, numa nota de rodapé ao seu ensaio "Em busca de clarificação do conceito de Identidade cultural – O caso açoriano como cobaia", relata o seguinte: «Eduardo Lourenço contou-me que deu ao seu livro o título O Labirinto da Saudade sem se aperceber de qualquer ligação com o livro de Paz. Quando um dia deu pela semelhança, telefonou ao editor para alterá-lo, mas o livro já estava impresso». Não se duvida que o ensaísta tenha telefonado para o escritório da Rua Luciano Cordeiro, mas não há no Acervo nenhuma carta de Snu acerca deste assunto. Como terá reagido a este telefonema a editora a quem alguns amigos chamavam a princesa do gelo? Não parece ser muito difícil adivinhar.

Carta de 18 de Setembro de 1979
O livro acabou por sair em Junho de 1978. Porém, e apesar de algum eco nas secções de crítica especializada, a primeira edição de O Labirinto da Saudade não foi propriamente um êxito de vendas. Aliás, Ler Eduardo Lourenço sempre estranhou por que motivo a 2ª edição  apenas foi posta à venda quatro anos depois. Estas «linhas não muito optimistas» ajudam a perceber a razão do hiato. Para além da crise económica que o país atravessava, a verdade é que os leitores não foram sensíveis a esta reflexão acerca do porquê da nossa situação política e social. E assim a editora tinha ainda em stock 300 exemplares por colocar. Tal facto invalidava a reedição do Labirinto e também de Pessoa Revisitado (cf. texto alusivo neste blog). Se em relação a este último livro Eduardo Lourenço acabou por publicá-lo em 1981 noutra casa editorial, o Labirinto iniciaria depois uma auspiciosa carreira, tendo ultrapassado a dezena de edições.

Carta de  21 de Abril de 1980

A última carta, que Snu (decerto ausente em intensa actividade política) apenas pôde ditar, é um texto de dolorosa despedida. Queixando-se mais uma vez das dificuldades económicas do país e do crescente desinteresse do público por textos ensaísticos, Snu conclui o escrito com amargura dizendo «temos viver dentro da realidade». Infelizmente, essa realidade durou apenas alguns meses, pois a 4 Dezembro a princesa do gelo partiu para aquela que seria a última viagem, não podendo assistir à consagração de um Labirinto que, com tanta determinação e sensibilidade, ajudou a construir.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sobre Zacuto Lusitano – um manuscrito do período brasileiro

por Maria de Lourdes Soares

1959´- Édouard parle au Congrès Luso-Brésilien;
fin du séjour à Bahia avant le retour à Montpellier pour un an.
Ensuite ce serait Grenoble (foto enviada gentilmente por Annie de Faria)





Além de atuar como um dos Secretários da Comissão Organizadora do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (Salvador, 11 a 21 de Agosto de 1959, realizado sob o patrocínio da Universidade da Bahia e da UNESCO), Eduardo Lourenço de Faria (como então assinava) apresentou comunicações em três das oito Secções do evento: “O adolescentismo da moderna literatura portuguesa” (Secção A Literatura), que teve como Relator o poeta e crítico Jorge de Sena; “Fenomenologia e história de arte – O exemplo barroco” (Secção As Belas Artes), relatada por Mário Chicó, historiador de arte; e “O Brasil na obra médica de Zacuto Lusitano” (Secção As Ciências Médicas), cujo Relatório coube ao médico baiano Jayme de Sá Menezes.


Os dois primeiros textos foram publicados em Destroços (2004). Já o texto sobre o célebre médico português do século XVII, temática atípica no seu ensaísmo, permanece inédito, dele só se conhecendo a síntese publicada nos Resumos das Comunicações (Bahia, Agosto de 1959, p. 67), sem incluir “Lusitano” no título. Foi preciso aguardar mais de meio século para o manuscrito de “O Brasil na obra médica de Zacuto Lusitano” ser enfim “descoberto” durante os trabalhos do Projecto de Inventariação e Catalogação do Acervo de Eduardo Lourenço que decorre no âmbito das actividades do Centro Nacional de Cultura e com publicação prevista para o IV Volume das Obras Completas.

“É uma figura de aspecto severo e nobre, calvo, barbas à D. João de Castro e a grinalda de palavras que emoldura o retrato [gravura de Claude Audran] dá conta da sua qualidade de Lusitano, de que nunca abdicou e lhe ficou no nome, referindo-se ele sempre aos Portugueses como Lusitani nostri [...].”  Eduardo Lourenço




Após medicar durante trinta anos em Portugal, o judeu Zacuto Lusitano (1575-1642), «sem dúvida com sobrados motivos, de perseguição inquisitorial», radicou-se na bem informada Amsterdã por volta de 1624, próximo à época da criação da Companhia das Índias Ocidentais. Quando publicou sua Praxis Medica Admiranda (1ª edição 1634), Portugal e suas colônias ainda se encontravam sobre o domínio da Espanha (1580-1640) e as vilas de Olinda e Recife (Pernambuco) há apenas quatro anos haviam sido tomadas pelos holandeses (1630). Consultando um exemplar da 2ª edição da obra (não lhe foi possível consultar a primeira), de 1637, que lhe teria chegado às mãos por “acaso”, Eduardo Lourenço observou que os tratamentos com remédios exóticos referidos por Zacuto «dizem todos respeito à cidade de Pernambuco». Estes dados históricos são importantes, portanto, para esclarecer como as informações «então recentíssimas» sobre o uso medicinal de certas plantas pelos “brasilienses” chegaram tão rapidamente ao conhecimento do autor do referido Tratado de Medicina: «Zacuto pertencia a um meio e estava relacionado com gente para quem o interesse pelo que acontecia no Novo Mundo era natural e profundo».


Eduardo Lourenço ressaltou o pioneirismo da divulgação feita por Zacuto, considerando que as informações da sua obra, «possivelmente as primeiras a cursar a Europa em letra autenticada por uma autoridade em Medicina e em História da Medicina», constituem a pré-história da sistematização de Wilhelm Pies e George Marcgrave, que estiveram no Brasil durante o governo do conde Maurício de Nassau. A Pies (ou Piso) e Marcgrave, segundo um estudo do volume Medicina no Brasil consultado pelo ensaísta, coube «a glória da fase iniciadora dos conhecimentos médicos e dos estudos de história natural». Na mesma publicação, outro autor atribuirá esse papel a Gabriel Soares de Sousa e seu Tratado Descritivo do Brasil, de 1587, que permaneceu inédito até o século XIX, embora circulasse em cópias manuscritas na Europa. Zacuto «não esteve no Brasil» (tal como o cronista de Nassau, Caspar Barlaeus, muito presente no imaginário brasileiro a partir da citação de Euclides da Cunha em À Margem da História, 1909: «o doloroso apotegma – ultra equinotialem non peccavi – que Barlaeus engenhou para os desmandos da época colonial»), mas colheu-as «em primeira mão», autenticou-as e fez a sua apologia, «porventura a primeira deste gênero», com base em sua “experiência pessoal”. A sua atitude metodológica, embora não seja “científica” no sentido moderno do termo, merece este qualificativo, “no sentido baconiano ou renascentista”. Em suma, «é obra de ‘saber de experiência’, em sentido camoniano e não mero comentário estéril de fundo escolástico». Em seu Tratado apresenta as aplicações terapêuticas de produtos de origem americana, especialmente brasileira, com «caráter de novidade, sem referência a fonte escrita, como é seu costume». Há, contudo, «muitas referências às fontes clássicas, Hipócrates, Galeno, Averroes» e também a «todos os quase todos os grandes nomes da Medicina dos finais do século XVI e primeiro quartel do XVII [Vesálio, Falópio, Eustáquio, Santório, Fracastor[o], Jerónimo Fabrício de Aguapendente], prova da informação, do ecletismo, e da ausência de pré-juízo».


Lourenço apresenta as seis menções de Zacuto relativas ao Brasil: 1ª – o suco de Genibabo (jenipapo) para tratamento de alopecia; 2ª – casca cozida de Coqual para eliminar manchas da pele; 3ª – “unha” de uma gigantesca aranha venenosa, “semelhante à unha do pé do caranguejo”, para aliviar a dor de dentes; 5ª – bálsamo “De Capaivã (sic)” (copaíba) para facilitar o parto; 4ª e 6ª – além de referir aplicações terapêuticas de origem brasileira, têm a singularidade de relatar casos passados com naturais ou habitantes de Pernambuco: o de uma mulher com forte hemorragia, tratada com a erva Raiz da Serra torrada, e o de um mercador com terçã rebelde, que, de regresso a Pernambuco, curou-se graças ao bom clima e a uma mucilagem preparada com a polpa de um fruto da região, “antídotos” ímpares para combater diversos males.




A terceira e a sexta merecem mais comentários. O interesse da terceira, além de introduzir na descrição quase paradisíaca da natureza um ser monstruoso, mas de cujo veneno, prescrito na devida proporção, obtém-se o remédio, reside particularmente no fato de mencionar o relato de Pedro de Osmo na epístola enviada a Monardo, «e esta é a única fonte, embora citado indiretamente e colhida em obra de médico, do gênero crónica ou relato vivido, cuja ausência tanto surpreende num livro de um homem como Zacuto, português e que jamais menciona qualquer dos nossos grandes cronistas de quinhentos». Na sexta – «de todas a mais interessante e saborosa» segundo Lourenço – Zacuto faz “o louvor dos ares pátrios” e oferece uma pitoresca evocação, «embora genérica, do ‘habitat’ de um brasileiro rico do século XVII», que «chegando às costas do Brasil, recolheu-se a uma casa de campo e à floresta, recriando-se com o perfume maravilhoso das várias essências, ervas, plantas e refeito pelo dulcíssimo e gratíssimo sabor de múltiplos frutos que ali se dão sem qualquer cultura e revivescendo pelo temperado do ar e pela salubridade ficou melhor e menos atacado pelas úlceras, pela febre e pelo comichão. Finalmente, tendo usado de um certo fruto obteve saúde próspera». Este fruto tropical «que em língua brasileira é chamado Maracujao Hasu (sic)» – exótico ao olhar estrangeiro – é o maracujá-açu, nome de origem indígena: maracujá significa “comida na cuia” (devido à sua forma de vasilha) e açu, “grande”, qualifica a espécie. É impossível não associar a descrição feita por Zacuto, exaltando os “bons ares” da terra e a natureza exuberante, à imagem primeira do Brasil na Carta de Pero Vaz de Caminha e à presente em diversas fontes do século XVI – nas cartas dos jesuítas Nóbrega e Anchieta e nas obras de outros cronistas, como Gândavo, Cardim e Gabriel de Sousa.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Triste figura em Paris


  
O Diário da Manhã, a 30 de Abril de 1963, em editorial assinado pelo seu director Barradas de Oliveira, chamava a atenção dos leitores para a “Triste figura de Oposicionistas em Paris” feita na sessão de terça-feira passada de Les Mardis de Preuves. “Uma tristeza” concluía sem hesitar, tendo por base o relato que lhe tinha sido enviado “por um amigo”. Aos leitores deste jornal o director elucidava que «A revista Preuves faz às terças-feiras umas sessões em que vários oradores opinam e discutem sobre tema determinado. A da semana passada trataria de “Le Portugal d’aujourd’hui” e teria como oradores sobre diferentes aspectos do mesmo assunto: Situação económica: Francisco Ramos da Costa; Obscurantismo e vida cultural: António José Saraiva; Os cristãos e o regime: Eduardo Lourenço de Faria; Guerra e descolonização: Fernando Piteira Santos».

[Na primeira foto, tirada  em Genève no ano de 1964, Francisco Ramos da Costa, à esquerda, com Tito de Morais e Mário Soares, fundadores do Partido Socialista. Na foto à direita, António José Saraiva. A revista Preuves, editada pelo Congress for Freedom Culture e apoiada financeiramente pela CIA,
foi um espaço de encontro de intelectuais da esquerda não comunista]



Continuando o editorial, Barradas de Oliveira considera ter sido a sessão um “triste espectáculo” e é, naturalmente, severo nos juízos que faz dos oradores. Assim o «Dr. Francisco Ramos da Costa, apresentado como um economista brilhante, fez uma exposição confusa, atrapalhada, sem nível, com números estatísticos evidentemente falseados», enquanto o «Dr. António José Saraiva, anunciado como literato de palavra cintilante, começou por não cintilar na dicção que foi aflitiva. Depois atirou para a sala com todas as falsidades, ainda as mais abstrusas, que ocorreram à exuberância da sua fantasia esquentada». Mas o tom do editorialista muda por completo quando se refere ao terceiro expositor, considerando que o «Dr. Eduardo Lourenço de Faria fez uma conferência luminosa, inteligentemente conduzida, com a preocupação nítida de imparcialidade. Conferência de um professor e não de um político. Aplausos fortes da assistência e movimentos de reprovação dos outros conferencistas (Claro!)».



A identificação do “amigo” que de Paris havia enviado estas informações leva-nos a duas hipóteses a partir de documentos constantes da cópia do Dossier da Pide existente no Acervo de Eduardo Lourenço. O primeiro documento é uma carta datada de “Paris, 24 de Abril 1963” e enviada a César Moreira Baptista, à época director do SNI, por José Augusto dos Santos director da Casa de Portugal na capital francesa. E no que se refere à intervenção de Eduardo Lourenço observa: «Incontestavelmente, o único orador (de interesse) de toda a reunião. Começando por declarar que o tema que ia tratar seria “L’Église et le régime de Salazar” (e não “Les Chrétiens et le Régime”) […] o tom da sua exposição – serena, desapaixonada e bem conduzida – não agradou ao auditório que manifestava, por vezes, certa impaciência». Todavia, e como observação final, José Augusto dos Santos não deixava  de «notar que o Snr. Eduardo Lourenço de Faria não se referiu à última Encíclica papal que, entretanto, foi citada por outros, confusamente atirada para o ar, como uma pedra – melhor, como uma bandeira…»

A segunda hipótese de identificação do “amigo” informador de Paris pode ser feita através das informações que o jornalista A. Horta e Costa envia, a 24 de Abril de 1963, a Dutra de Faria, Director da A.N.I. e que transcrevemos em parte, uma vez que enumera os temas através dos quais a exposição foi feita: «Terceira Intervenção-conferência: Do Sr. Eduardo Lourenço de Faria (“Les Chrétiens et le Régime”). Conferência brilhante e elevado relato desapaixonado (foi o único da noite) das ligações existentes entre Salazar, o regímen salazarista e a Igreja. Exposição iniciada a partir do momento em que o Professor de Coimbra era colaborador do jornal Novidades, do momento em que este jornal publicou um retrato do Dr. Salazar encabeçando-o com o título de apresentação dum novo valor que se deveria chamar para a gerência nacional. Amizade estabelecida entre o Dr. Salazar e o Cardeal Cerejeira. Acordos entre o Governo e a Igreja. Influência da opinião e conselhos da Igreja para um menor endurecimento do Regímen. Primeiras dissenções baseadas e provadas (cito) na carta pastoral do Bispo do Porto, Dom António. Como já escrevi: conferência brilhante, impregnada de imparcialidade e de honestidade. Um relato histórico do qual o conferencista não procurou tirar ensinamentos limitando-se a expor, segundo a sua maneira de ver, factos susceptíveis de serem analisados. Fortemente aplaudido por toda a assistência. Movimentos de reprovação dos outros conferencistas». E Horta e Costa terminando o seu relato de todas as intervenções, finaliza a carta com o parágrafo seguinte: «Como vê, uma reunião sem interesse e, tenho a impressão, sem consequências. A existirem parece-me que elas serão benéficas para nós. Das três horas de contacto com esta elite da oposição, que dizem em Paris que será o núcleo de um possível futuro governo, não posso deixar de fazer votos para que Deus Nosso Senhor dê muitos anos de saúde ao Governo de Salazar. Confesso que esperava mais».

Interrogado Eduardo Lourenço como se poderia identificar no seu Acervo o texto que serviu de base a esta intervenção, ele afirmou não recordar a existência de um só texto até porque havia improvisado durante a sessão. Contudo, no início da década dos anos 60 este assunto acompanhara a sua reflexão e algumas páginas existiriam, haveria que procurar. Uma pesquisa posterior para reunir o material, na sua maioria inédito, que virá a ser incluído no Volume Tempo e Politica (com a organização de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi) das Obras Completas veio demonstrar factos importantes e nessa investigação foram essenciais duas cartas de Joaquim Barradas de Carvalho das quais se transcrevem alguns excertos. E pela sua leitura pudemos chegar a três conclusões:

1) Eduardo Lourenço pensou efectivamente abordar o tema inicial que lhe tinha sido proposto para a sessão, pois num conjunto de onze páginas, presas por um clips, na primeira escreve: «“Les Chrétiens et le Régime”. Si on pouvait prendre à la lettre le titre de mon intervention – titre qui m’a étè fourni pas les organisateurs amis de cette rencontre – ma tâche en serait simplifiée. Les “Chrétiens et le Regime”, deux abstractions face à face, tout deviendrait clair. La question, on s’en doute bien est tout autre et c’est celle-là la vraie question, ou tout au moins sa difficulté…»

2) O ms. que Barradas de Carvalho devolve, e do qual foram publicados alguns excertos no Jornal da Liga dos Direitos do Homem, permanece inédito na sua totalidade pois estando assinado com o pseudónimo “Marcos Portugal” facilmente terá fugido à atenção dos investigadores.

3) Existe no Acervo um conjunto de 26 pp. reunidas com o título “L’Église et l’État-Nouveau”. Ms. não assinado e por isso, certamente não concluído, seria este o texto a ser publicado na revista Esprit, após a conferência, conforme desejo manifestado por Barradas de Carvalho?
João Nuno Alçada



Duas Cartas de Joaquim Barradas de Carvalho
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Paris 8/IV/63



Caro Amigo

Não vou hoje penitenciar-me pelas cartas que lhe não escrevi e por tudo o que não fiz e devia ter feito relativamente ao meu amigo Eduardo Lourenço de Faria. O seu notável artigo L’Église et le régime de Salazar serviu para o Jornal da Liga dos D[irei]tos do Homem, onde saiu um excerto. Pelo mesmo correio, em envelope registado lhe envio o seu original, assim como o nº do dito Jornal. Mas o que me traz hoje a escrever-lhe, e urgentemente, (esta carta seguirá “expresso”) é uma sessão que se realizará em Paris no próximo dia 23 (3ª feira), numa sala próxima dos Campos Elíseos, e organizada por uma coisa chamada Congrès pour la Libérté de la Culture. […] Publicam uma revista luxuosa e bem feita chamada “Preuves” e dois dos franceses que estão aqui à frente da coisa são o François Bondy e o Tavernier. Enfim uma coisa “comme il faut” , em que não podemos ser acusados de comunismo. Ora esta organização faz todas as 3.as feiras sessões de apresentação de problemas seguidos de discussão. Houve há dois ou três meses uma sessão sobre a Espanha, em que fizeram exposições o Gil Robles, o Prados Duarte […] a Elena de la Souchère e o autor do Hino da Falanje […] Dionísio Ridurejo. A partir desta sessão houve quem se lembrasse de que Portugal também existia, e daí sermos convidados a uma sessão sobre Portugal na 3ª feira, 23 de Abril. O Mardi-Preuves de 23 de Abril intitular-se-á Le Portugal d’Aujourd’hui e farão exposições de 15 a 20 minutos, seguidas de discussão, as seguintes pessoas […] Está o meu amigo de acordo com o este programa e com a sua colaboração? Pedia que me mandasse dizer urgentemente. Se possível por telegrama […]

Cá esperamos o seu telegrama com uma resposta afirmativa o seu amigo fixe

Joaquim Barradas de Carvalho



P.S.

Mando-lhe em envelope separado o seu texto que me parece óptimo para a sessão de 23 e um nº do Jornal da Liga dos D[irei]tos do Homem

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Paris, 16 /IV/63



Caro Amigo

Duas palavras apenas para lhe dizer que cá o esperamos na próxima 2ª feira, 22. A sessão é na 3ª feira, 23 à noite, O Congresso para a Liberdade da Cultura e a revista “Preuves”, pagam-lhe a viagem de ida e de volta e dois dias de hotel em Paris. Foi isto que me disse o Tavernier há poucos dias. Cada exposição não deve demorar mais de 15 a 20 minutos. A sua intitula-se “Les Chrétiens et le Régime”. Será depois publicada pela Revista “Preuves”. Convinha que você fizesse depois um artigo no género daquele que me mandou e que eu lhe devolvi para a revista “Esprit”. O Echevarria em tempos disse-me que Você queria aumentar e corrigir esse texto. Foi esta a razão porque eu não fiz força para que ele saísse no “Esprit” […]



Com os cumprimentos a sua Mulher, um abraço do amigo fixe

Joaq[uim] Barradas de Carvalho

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Esta noite, na Casa Camilo Castelo Branco em Famalicão





Esta noite, Eduardo Lourenço é o convidado da Sessão de Fevereiro de ”Um Livro, Um Filme”, feliz iniciativa levada a cabo pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, através da Casa de Camilo, e que decorre no auditório do Centro de Estudos, em S. Miguel de Seide. O filme escolhido pelo ensaísta é “Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running” (1958) de Vincente Minnelli, com Frank Sinatra, Dean Martin e Shirley MacLaine. Mais informações em http://www.camilocastelobranco.org/

Para aguçar o apetite, Ler Eduardo Lourenço deixa aqui um link que permite aceder ao trailer original do filme: http://www.tcm.com/mediaroom/index.jsp?cid=2527

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Duas breves notas à margem de À margem das revoluções islamistas...






Ler Eduardo Lourenço não esconde que tem uma predilecção especial por inéditos (de preferência antigos...) e por textos pouco conhecidos. Mas uma das marcas que, ao mesmo tempo, mais aprecia no ensaísmo de Eduardo Lourenço é a sua capacidade (que, quase diariamente, manifesta) em pensar a actualidade sem cair no actualismo. E assim ajudar os nossos dias a ficarem menos insuportáveis...


À margem das revoluções islamistas..., que aparece hoje na página 29 do Público (vale a pena ir ao quiosque mais próximo, passe a redundante publicidade), é o primeiro texto de Eduardo Lourenço na nossa imprensa diária desde há quase meio ano. Talvez isso justifique a tão entusiástica quanto precipitada chamada da capa do jornal que anuncia: «Eduardo Lourenço escreve sobre o Abril islâmico».










Ora, o que realmente se pode ler (mas esta expressão encerra em si mesma todo um infindável questionamento...) neste magnífico artigo é provável que seja algo bem diverso do que uma simples declaração de boas vindas ao clube da modernidade iluminista das revoluções europeias de que a nossa, a portuguesa, teria sido a última. Se não, repare-se: «A nossa euforia e natural alegria com o Abril islâmico, vendo bem, é uma versão inconsciente da eterna vocação de querer "converter" ou ilustar os famosos infiéis»[sublinhados nossos].

Por isso, e assim termina o ensaio, «é mais interessante supor que [esses jovens revolucionários islamistas] já estão para além desse fosso, real mas não fatal, que em termos históricos e políticos se criou entre o Oriente e o Ocidente». Para o bem e o para o mal. Deles, certamente. Mas talvez sobretudo do nosso.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

De Maria Gabriela Llansol

De Maria Gabriela Llansol, uma carta. Mas, primeiro e sobre Maria Gabriela Llansol, também um magnífico texto que Maria de Lourdes Soares teve a simpatia  e a generosidade de oferecer a Ler Eduardo Lourenço e em que a autora, pela segunda vez (cf. o anterior ensaio “Encontros de confrontação que nos faltam. Eduardo Lourenço e Maria Gabriel Llansol”, Colóquio-Letras, nº 170, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 2009, pp. 147-162), se debruça especificamente sobre as relações literárias entre a escritora e o ensaísta. Dois documentos imperdíveis, portanto.

Eduardo Lourenço e Maria Gabriela Llansol:
carta a um legente

“que Cultura corresponde a um tal Texto
não é fácil dizê-lo”            
Eduardo Lourenço
(imagens retiradas do excelente blog http://espacollansol.blogspot.com/ e que documentam as Segundas Jornadas LLansonlianas de Sintra, realizadas em Setembro de 2010, no Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra e que contaram também com a participação de Eduardo Lourenço).



“tinha a certeza de que, tarde ou cedo, nos havíamos de encontrar”
Maria Gabriela Llansol



Eduardo Lourenço foi um dos primeiros a perceber a fulgurância ímpar da escrita de Maria Gabriela Llansol. Com a alegria e o deslumbramento de um descobridor que de súbito se depara com uma terra «fascinante e incógnita», saudou, no final do ensaio “Con-texto cultural e novo texto português” [escrito em 1979 e publicado em O Canto do Signo. Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa, Presença, 1994, p.280-283], o seu encontro com O Livro das Comunidades [Porto, Afrontamento, 1977].
Quando se conheceram pessoalmente em Paris, por ocasião do Belles Étrangères de 1988, dedicado a Portugal, Llansol e Lourenço, cada qual a seu modo, por diferentes caminhos de leitura e de escrita, há muito vinham pensando sobre Portugal e sua pertença à cultura europeia. Além da experiência de viver fora do seu país e da prática do bilinguismo, ambos tinham outros pontos em comum, como o cuidado de assinalar o local e a data dos textos, e algumas afinidades eletivas – Pessoa/Aossê, Camões/Comuns, Jesus/Joshua... (e mais tarde teriam também Vergílio/o Mais Jovem). 
A escritora fez duas intervenções nesse evento, a primeira na FNAC e a outra na Sorbonne (cujo texto, redigido em francês, enviou a Lourenço junto com a carta de 23/12/1988), posteriormente incluídas em Lisboaleipzig 1 com os títulos “Nós estamos de volta” e “Por que não pude deixar de vir”, respectivamente [Lisboa, Rolim, 1994, pp. 88-96]. Nesse evento, Maria Gabriela também pela primeira vez se encontrou “face a face” com seu futuro “companheiro filosófico”, Vergílio Ferreira, a quem chamaria “o Mais Jovem” e daria um corpo de fulgor, incorruptível, em Inquérito às Quatro confidências [Lisboa, Relógio d’Água, 1996, p. 31].
O ano deste encontro foi intenso, sob diferentes perspectivas. Em 1988 Lourenço publicou Nós e a Europa e recebeu o Prêmio Charles Veillon pelo conjunto de sua obra. Também em 1988, e não por acaso, «ainda na euforia inicial das comemorações dos descobrimentos», Llansol publicou Da sebe ao ser, procurando contornar o paradigma de mais-pátria” e “mais-oceano”. Este livro, como a escritora comentaria em O Senhor de Herbais [Lisboa, Relógio d’Água, 2002, p. 80], não teve praticamente recensões críticas, salvo a (excelente) de António Guerreiro, As Fábulas da História [Expresso, 8/4/1989]. Antes e depois da publicação de Da sebe ao ser foram atribuídos alguns prémios a Llansol. Não os esperava ou desejava. Aceitou-os porque os tomou «na sua acepção radical de fraternidade entre nós diante do sentido, como um momento em que partilhamos um dos bens da Terra», o da partilha-convívio de «quem escreve e lê, em mútuo», permitindo assim que os textos «cheguem mais longe» [Lisboaleipzig 1, pp. 85-87].  Desejava, portanto, criar «um lugar real de escrita e de leitura», conforme declarou em carta aberta a Eduardo Prado Coelho [Ciberkiosk, nº 7, 1999].
Lourenço não escreveu a recensão sobre Da sebe ao ser que lhe solicitara Maria Rolim, editora de Llansol na época. Todavia, foi deixando sinais de que continuava a lê-la atentamente. Em ensaio de 1997, “Em torno do nosso imaginário”, voltaria a escrever sobre a autora: «De Agustina Bessa-Luís a Maria Gabriela Llansol a ficção moderna portuguesa desprendeu-se da poética – entre nós de frágil tradição – do realismo, sob todas as suas formas, e entregou-se ao mesmo tipo de pulsão que inunda a nossa poesia». Sobre a obra de Llansol dirá: «o seu conteúdo é a sua forma e a sua forma uma viagem num ficcional sem outro referente além de outros imaginários». E também, no final, ao comentar sobre a «vocação consciente ou inconscientemente antirrealista» do imaginário português, exemplificará como um dos «nossos dons e o nosso gosto de contornar a realidade» o da autora de Inquérito às Quatro confidências, «tomando a letra e o seu espaço onírico com o seu tempo infinitamente reversível, como a realidade mesma, rasurando com serena provocação a distância imaginária entre poesia e prosa» [A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, Lisboa, Gradiva, 1999, p. 93-101].
Ainda no ano de 1997, entre as páginas capazes de traspassá-lo como flecha em pleno coração e ao mesmo tempo fazê-lo sentir-se em sua própria casa – a do imaginário em língua portuguesa –, incluem-se as do “enigma claro” de Maria Gabriela Llansol, como referiu em entrevista [Atlantis, Lisboa, 1997, p. 76].  Em outra entrevista concedida no ano da morte da escritora, ao responder sobre o autor em relação ao qual se sentia em dívida profunda, Lourenço citou o nome de Llansol, reafirmando a admiração por seu texto, “poesia da mais alta”, «sem se oferecer imediatamente com esse valor da poesia», e arriscando prever que ela será «o próximo grande mito literário português» [Ler, nº 72, Lisboa, Círculo de Leitores, Setembro de 2008, pp. 38-39].
Assim seja. Já começou a ser. Não no sentido do mito-Pessoa – da «projeção maiúscula que [...] paralisa, e [...] assombra», como dirá Llansol [Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, p. 93] –, e sim no sentido do que significou para a rapariga que temia a impostura da língua a criada Maria Amélia – Maria Adélia, em Um beijo dado mais tarde [Lisboa, Rolim, 1990], e Engrácia, em Causa Amante: «A Engrácia chamava-lhe Mélito; agora, que aprendi a decompor as palavras compreendo que era ‘meu mito’ que lhe chamava». A Engrácia pediria, como quem envia uma carta ao legente ou lhe pede um beijo, «que pusesse os livros em circulação, [pois] livro escrito seria livro lido» [Lisboa, A Regra do Jogo, 1984, p. 77 e 94], no desejado e possível lugar real de escrita e leitura. Com a criada que lhe franqueava a biblioteca do pai e as portas do imaginário, protegendo-a com o seu amplo e generoso corpo de linguagem, a rapariga/Llansol/Témia aprendeu a abrir acesso a outras concepções de real: «Quando essa criada me contava estórias, e a criança, por ser muito inteligente, lhe respondia, ‘mas, Amélia, isto não existe’, ela dizia-lhe ‘menina, não diga que não existe, porque não sabe, procure onde está’» [“No Espaço Llansol”, Entrevista por João Mendes, Público, 28/06/1995, p. 4]. Esta lição de extrema claridade é fundamental para se começar a desfazer o seu “suposto hermetismo” [Llansol, Carta a Lourenço, 23/12/1988]. [MLS]

Uma Carta de Maria Gabriela Llansol






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Colares,
23 de Dezembro
de 1988

                                Caro amigo,

Junto lhe envio o meu texto da Sorbonne que pediu à Drª Maria Rolim. Faço-o com muita alegria, na lembrança do nosso encontro em Paris, e pela real amabilidade e apoio que, na altura, me manifestou.
Conheci-o com muito prazer. Tinha a certeza que, mais tarde ou cedo, nos havíamos de encontrar.
Soube também que a Drª Maria Rolim lhe solicitou que escrevesse para o Expresso uma recensão sobre “Da sebe ao ser”. Acho que é altura de deixar de ser vista como escritora hermética. Muito desse suposto hermetismo deve provir, creio eu, da falta de coordenadas de leitura. A maior parte dos portugueses cultos – ou assim ditos – não leram talvez o que eu li. O que não se viveu de idêntico, não se pode suprir, mas as bibliotecas podem ser progressivamente substituídas. Penso que o Eduardo poderá ajudar os outros a ler-me.
Desejo-lhe um bom Ano de 1989.

            Com um abraço
Muito amiga,

      MGab
      Llansol