segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Correspondência com Delfim Santos (1958-1959)




Entre o material que tem vindo a ser descoberto e organizado por João Nuno Alçada (a partir da documentação existente na antiga casa de Vence do ensaísta: cf. fotografia em cima), no já aqui tantas vezes mencionado projecto realizado no âmbito do Centro Nacional de Cultura, conta-se um valioso número de cartas que Eduardo Lourenço recebeu de imensas figuras da cultura contemporânea portuguesa (e não só...). Ler Eduardo Lourenço dá hoje conta, através de uma muito pequena parcela, da correspondência mantida com Delfim Santos, publicando o teor de duas cartas: uma expedida, a outra recebida. A Filipe Delfim Santos, que presentemente prepara o volume Delfim Santos e o Brasil, dedicado às relações que o seu Pai, Delfim Santos (numa foto inédita de 1953, em baixo), manteve com intelectuais que viviam do outro lado do Atlântico, muito agradece Ler Eduardo Lourenço a cedência, a transcrição e as respectivas notas da missiva de Eduardo Lourenço  (um documento que, com muito gosto,  aqui se publica, juntamente com a transcrição da resposta de Delfim Santos) e sobretudo a nota introdutória que redigiu para contextualizar este material ainda inédito. Para saber mais sobre a obra e a figura de Delfim Santos, aconselha-se vivamente a visita de http://www.delfimsantos.org/.


«Já desde o primeiro semestre de 1957 que o Reitor da Universidade da Bahia, Edgar Santos, envidava esforços através do Instituto de Alta Cultura (IAC) para obter “um ou dois professores de Filosofia”, dado que o titular, José Antônio do Prado Valladares (1917−1959), ensaísta, jornalista, crítico e historiador de arte e museólogo não era propriamente professor de Filosofia e tinha além do mais recebido uma bolsa do IAC para estagiar em Portugal no ano de 1958. Valladares ainda regressaria a Salvador a tempo de participar na criação do Museu de Arte Sacra do Convento de Santa Teresa, integrado na Universidade da Bahia por ocasião do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (10.08.59), mas morreria pouco após em 23.12.59 em acidente aéreo perto do Rio de Janeiro.

Em Fevereiro de 1958, o ministro da Educação, [Francisco] Leite Pinto recusou autorização ao catedrático da Secção de Pedagógicas da Faculdade de Letras de Lisboa para partir em Março com os seus colegas por motivo da incumbência que lhe fizera de elaborar o plano do futuro Instituto Superior de Ciências Pedagógicas, mas outras gestões foram mais bem sucedidas pois segundo informação oral de Eduardo Lourenço «por intermédio de Hernâni Cidade, que estava também na Bahia, foi referido o meu nome. Eu estava como leitor em Montpellier e arrisquei porque a minha mulher estava de licença da Universidade. Depois não quis mais arriscar porque poderia pôr em causa a carreira dela e ao fim de um ano decidi voltar para França. Enquanto lá estive e por minha recomendação foram chamados Agostinho da Silva e Adolfo Casais Monteiro, dois colegas de Delfim Santos na antiga Faculdade de Letras do Porto».

Nemésio, em 24 de Maio de 1958, já instalado na capital baiana, anunciava a Delfim: “Chegou há dias o Eduardo Lourenço de Faria que ficou logo assustado quando ouviu que um docente do grupo perfaria 24 tempos semanais! Falso rebate... Os colegas brasileiros vêm depressa à razão. Aquilo é um absurdo do regime oficial dos estudos que não temos de cumprir (é claro). Eu tenho 5 aulas por semana − e chega, com os suores que destilo”.

Tendo Delfim Santos adiado a sua partida para agosto de 1958, acabaria por declinar definitivamente a proposta por razões que se prenderam com a doença de sua Mãe. “− Não ter acedido ao convite foi a sorte do seu Pai − disse-me um dia Eduardo Lourenço −, as condições eram péssimas e ao exigir sair do hotel onde me hospedavam (Hotel da Bahia) para acomodações próprias senti que estava a constranger o reitor Edgar dos Santos, e este não era homem para ser constrangido de forma alguma. Então no ano seguinte vim-me embora”. Para além dos problemas de alojamento também a assiduidade e interesse dos discentes não satisfizeram Eduardo Lourenço; a viúva de Delfim Santos recorda um episódio que o marido lhe transmitiu das queixas que o jovem professor, chegado à Bahia com 35 anos, teria feito em visita a casa daquele, após terminada a experiência: ao perguntar certo dia “− Porque não veio ninguém à aula de ontem?” − recebeu resposta pronta “− Ué, tava chovendo, Professô!”. [Filipe Delfim Santos, 25 de Janeiro de 2011]




Documento nº 1: De EDUARDO LOURENÇO para DELFIM SANTOS, 12.58

[cartão postal] [impresso: Sinceros Agradecimentos e os melhores Votos para um Feliz Ano Novo]


Bahia, Natal de 58

Senhor Doutor:

Será que o próximo ano o trará até estes largos mortos, [alusão à imagem impressa no verso do postal, o Largo do Cruzeiro de São Francisco, no Pelourinho, São Salvador da Bahia] cheios de luz e ouro da nossa ex-colónia? Entre os vários votos que faço para o seu Novo Ano este é o mais imediato. Não são paragens muito propícias à recepção da Filosofia, mas não deixam de ser evocativas e de nos reenviar a um tipo de meditação estranhamente contrastante com o espírito deste continente aistórico que de todo o coração a repudia. E é isto sobretudo que nos obriga a pensar até se a Filosofia não é fenómeno estritamente europeu, de artificial transplantação em outras paragens. Para prova pode dizer-se que tudo quanto pensa aqui, a nosso modo, é de raiz europeia, emigrados de uma ou duas gerações.

Apesar disso convém enraizar mesmo o enraizável, na medida das nossas posses. É possível que dadas as facilidades do Magnífico Edgar, Reitor da Bahia inteira, se possa publicar aqui uma Revista de Filosofia. Aqui, mas com substância de alhures. Será um pouco traiçoeiro aproveitar um cartãozinho festivo para lhe pedir a sua necessária colaboração? O Senhor Doutor já o sabe: a projetada Revista está inteiramente ao seu dispor e por ela antecipadamente lhe agradeço.

Renova-lhe os seus melhores votos, ao Senhor Doutor e Ex.ma Família, com um abraço amigo o

E. L. Faria

Eduardo Lourenço de Faria

Edifício Mariglória, ap. 404

R. Padre Feijó

S. Salvador – Bahia




Documento nº 2: De DELFIM SANTOS para EDUARDO LOURENÇO, 09.02.59

[original manuscrito]

[O envelope tem o carimbo da Estação dos Correios do Largo do Rato, em Lisboa, com a seguinte data «9 Fevr. 59. 16h00» e o endereço: «Ex.mo Dr. Eduardo Faria, Edifício Mariglória, Ap. 404, R. Padre Feijó, S. Salvador da Bahia, Brasil». No verso do envelope Eduardo Lourenço anotou «Resp. 30-3-59», porém não foi encontrada ainda a carta de resposta].

Meu caro Eduardo Faria:

Os melhores agradecimentos pelos seus votos. Parece que sim, que irei à Bahia por ocasião do Colóquio, mas a certeza ainda não a tenho pois as secretarias ainda nada disseram de positivo. Pelo que me diz continua intrepidamente o seu ofício de cavador, isto é, teimosamente a transplantar raízes que já prometem mostrar o tronco em forma de revista. Decerto que pode contar comigo quando a hora chegar de mostrar os primeiros frutos. Este metaforismo botânico foi-me sugerido pelo seu cartão. Isto por aqui continua como sabe. O anunciado Instituto Superior de Educação que me tem aqui retido todo este tempo ainda não se vislumbra. Dificuldades e mais dificuldades. Espero a oportunidade de longa conversa diante de algum vatapá só para agosto. Se antes precisar de mim avise. Isto é, se a revista aparecer antes dessa data, o que não julgo muito possível. Cumprimentos a sua Esposa e o abraço amigo do seu

Delfim Santos


Fev. 59

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Jeudi 10 février, 19 h, Salle du Senat Palais de Rumine à Lausanne






Não sendo uma espécie de agenda virtual, Ler Eduardo Lourenço tenta sempre que possível dar notícia das múltiplas actividades que considere relevantes. É o caso manifestamente do que irá ocorrer amanhã à noite no magnífico Palais de Rumine na cidade suiça de Lausanne. Integrado no ciclo de conferências Voix lusophones… Portugal et ailleurs, que decorre até Junho (e que inclui participações, entre outros, de Lídia Jorge e Gonçalo M. Tavares), Eduardo Lourenço profere uma conferência com o título Mythologie de la Saudade. Em seguida transcrevemos o texto que consta do programa oficial. Se por mero acaso algum dos nossos leitores estiver por perto, fica assim a saber...


Mythologie de la Saudade/Conférence d'Eduardo Lourenço
Jeudi 10 février 2011 - 19h00 - Palais de Rumine - salle du Sénat
Conférencier(s) / animateur(s): Eduardo Lourenço
«Notre destin d'errance a donné à cette nostalgie, à cet écartèlement douloureux de nous-mêmes, tout son poids de tristesse et d'amertume, et au souvenir de la maison abandonnée, ce goût de miel et de larmes que le mot saudade évoque pour nous tous Portugais.»
Pour comprendre pourquoi tout un peuple se reconnaît dans la saudade, cette mélancolie à la fois triste et heureuse, Eduardo Lourenço va prendre en considération le «temps portugais» - celui de l'Histoire et celui de l'âme. Eduardo Lourenço, né en 1923 au Portugal, est historien et philosophe. Son oeuvre d'essayiste, couronnée par le prix européen de l'essai Charles Veillon en 1988 et le Prix Camões en 1996, est une interrogation constante sur le destin culturel et historique du Portugal.
A l'issue de la conférence, un concert du choeur Manga Rosa accompagné d'un verre de l'amitié vous seront offerts.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Prémio Vergílio Ferreira 2011 para Maria Alzira Seixo

Há mais de uma década que Universidade de Évora atribui o Prémio Vergílio Ferreira, distinção que visa simultaneamente homenagear o autor de Aparição (cuja acção se desenrola precisamente nesta cidade e evoca a passagem de Vergílio como Professor no Liceu eborense) e reconhecer os méritos de grandes figuras da literatura portuguesa. A lista dos premiados é vasta e especialmente notável: Mia Couto (1999), Almeida Faria (2000), Eduardo Lourenço (2001), Óscar Lopes (2002), Vítor Aguiar e Silva (2003), Agustina Bessa-Luís (2004), Manuel Gusmão (2005), Fernando Guimarães (2006),Vasco Graça Moura (2007), Mário Cláudio (2008), Mário de Carvalho (2009) e Luísa Dacosta (2010).
No presente ano o Prémio Vergílio Ferreira foi atribuído a Maria Alzira Seixo, conforme se pode ler em nota do Júri enviada à imprensa (cf. http://www.ueline.uevora.pt/).
Ler Eduardo Lourenço assinala o acontecimento duplamente. Por um lado, recordando a cerimónia de 2001, por motivos óbvios.




Por outro, sublinhando que Maria Alzira Seixo dedicou a Eduardo Lourenço vários ensaios importantes. Ler Eduardo Lourenço relembra, por exemplo, que um dos poucos escritos dedicados ao livro Espelho Imaginário (e dessa escassa recepção por diversas vezes o ensaísta já se lamentou) foi precisamente redigido pela premiada deste ano. O estudo com o título “O espelho imaginário ou a música da imagem”, apareceu pela primeira vez em Prelo-Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda (n.º especial, Lisboa, Maio de 1984, pp. 43-49). Em outras ocasiões, Maria Alzira Seixo escreveu sobre o seu amigo Eduardo Lourenço. Talvez um dos mais surpreendentes e felizes desses textos seja aquele que aparece na já aqui referida revista Metamorfoses e que a seguir reproduzimos, com os sinceros votos de parabéns pela mais do que justa consagração:

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dois Eduardos no Rio

Ler Eduardo Lourenço já se referiu em ocasião anterior a Eduardo Prado Coelho: para além de tudo o mais, grande leitor e amigo. Ora, a Professora Gilda Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a quem os amigos do pensamento de Eduardo Lourenço devem, entre tantas outras coisas, o magnífico nº 4 da revista Metamorfoses (UFRJ-Caminho, 2003), com o extenso dossier Os trabalhos e os dias, enviou-nos um texto, lido em 1990 nessa mesma Universidade, em que Eduardo Prado Coelho apresenta Eduardo Lourenço. Na foto, retirada de http://www.paginaliterariadoporto.com/, aparecem os dois ensaístas com o poeta Albano Martins, sentado à esquerda, precisamente na Livraria Camões no Rio, nesse mesmo ano. A esta gentileza, que Ler Eduardo Lourenço muito agradece, a Professora Gilda Santos acrescentou uma outra não menor, redigindo uma breve e excelente nota de enquadramento que em seguida também se publica.



Certamente não foram poucas as oportunidades que aproximaram Eduardo Lourenço e Eduardo Prado Coelho em encontros científicos, pelos vários cantos do globo. Contudo, ainda que incorrendo no risco de não ser original, pareceu-me de interesse ressuscitar das páginas de esquecidos Anais as palavras belas e exatas com que o mais jovem Eduardo apresentou o seu xará mais velho num encontro no Rio de Janeiro, nos idos de 1990. Tratava-se do “XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa”, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre 30 de julho e 3 de agosto, cabendo a conferência inaugural a Eduardo Lourenço, que nos apresentou seu texto “Dois fins de século”, hoje no livro O Canto do Signo - existência e literatura.
No revisitar dessas palavras, a homenagem justa aos dois Eduardos, dois amigos em pleno [Gilda Santos].

EDUARDO LOURENÇO
Não se trata de apresentar Eduardo Lourenço. Inútil, redundante, impossível.
Quando muito, situá-lo em torno de algumas palavras.
A primeira palavra é heterodoxia. No momento em que, em Portugal, a situação interna de ditadura fascista e a guerra fria apontavam para a crispação de linguagens dogmáticas, Eduardo Lourenço soube, sem ambigüidades nem compromissos, desenvolver um discurso de heterodoxia: releitura de Hegel e Marx, acentuação da importância de Nietzche ou Kierkegaard, valorização do pensamento existencial, incluindo certos aspectos do existencialismo cristão, atenção a Sartre ou Camus.
A segunda palavra é identidade. Ou, se preferirem, caracterização da identidade cultural portuguesa. Aí um livro é fundamental: O labirinto da saudade. Mas o propósito, enunciado no subtítulo, que indica que se trata de “uma psicanálise mítica”, não era o do comprazimento numa problemática obsessiva da mítica identidade nacional, mas libertação disso, como se isso fôra, na sua obsessão, uma figura de doença. Refletindo sobre o destino português, Eduardo Lourenço não podia deixar de se confrontar com os problemas que resultam da nossa integração num espaço europeu – história longa e enredada, que é ao mesmo tempo o rosário da nossa relação com a Modernidade. Daí um livro recente, premiado com o Prêmio Charles Veillon, atribuído ao melhor ensaio europeu em 1989, que se intitula Nós e a Europa ou as duas razões.
As incidências literárias desta problemática levam-nos inevitavelmente para dois dos autores centrais no ensaísmo de Eduardo Lourenço: Camões e Fernando Pessoa. Em relação a Pessoa, que revisitou numerosas vezes, devemos-lhe uma leitura inovadora e desmitificante. Mas de Pessoa à Modernidade européia e portuguesa, o trajeto era óbvio. Pessoa como ontologia negativa da literatura, à luz do niilismo contemporâneo, da negatividade da linguagem, da descontinuidade da consciência. O que traça uma reflexão constante sobre os limites da razão – contra as ilusões, no modelo Sérgio, de um racionalismo que elimina o vazio, o nada e o trágico. Mas o niilismo que diagnosticou nos seus sucessivos estratos não apagou a permanência de uma atitude de Esquerda que sempre se configurou, em numerosos textos políticos, como esperança socialista.
Simultaneamente, Eduardo Lourenço é o grande acompanhador da literatura portuguesa contemporânea – no sentido em que cada autor encontrou nele um foco de inteligibilidade generosa e amiga.
Para concluir, salientaria apenas três coisas:
– a capacidade de colocar qualquer questão num espaço em que nos sentimos implicados no mais fundo das nossas inquietações e interrogações;
– uma imensa generosidade do pensamento, um gosto de pensar, pensar em voz alta e pensar com os outros, a partir da provocação dos outros;
– na ausência de receitas, que seria absurdo esperar, Eduardo Lourenço dá-nos a certeza de que, quando alguém é capaz de pensar com esta evidência e com esta energia, alguma coisa se desloca em nós e nos faz aproximar daquilo que é mais perfeito, mais contagiante e mais justo.

Eduardo Prado Coelho
[Texto de apresentação de Eduardo Lourenço lido no XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa, Rio de Janeiro, Univ. Federal do Rio de Janeiro, 30 de Julho a 3 de Agosto de 1990].

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Porquê assinar e datar os textos que escrevo?

No entender de Ler Eduardo Lourenço, é talvez uma das suas mais completas e interessantes entrevistas (está disponível em http://static.publico.pt/docs/cultura/eduardolourenco/01.html) ao autor de O Labirinto da Saudade. Entre outros vários temas de indiscutível curiosidade e que justificam uma (re)leitura do diálogo, o ensaísta explica a Luis Miguel Queirós quais os motivos que o levam a assinar, datar e  identificar o local onde escreve os seus textos.
Eis um excerto dessa conversa que foi editada na Revista Pública (edição de domingo do jornal Público) em 13 de Maio de 2007 e de onde retirámos também uma cópia da extraordinária caricatura de Vasco que acima apresentamos.

«LUIS MIGUEL QUEIRÓS: Os seus livros são organizados segundo lógicas temáticas e não está em causa a sua coerência interna. Mas estou a pensar, por exemplo, nos volumes sobre questões europeias. Na Europa Desencantada há um texto escrito em 1992 e outro em 2000. Entre ambas as datas, mudou muita coisa na Europa.
EDUARDO LOURENÇO: Exacto. Já as próprias edições desses livros noutras línguas, em francês ou espanhol, têm diferenças entre elas. Há uma espécie de organização caótica. Claro que as datas têm importância. Na política, as coisas às vezes mudam numa questão de dias. Já deve ter reparado que costumo assinar os textos, mesmo os que saem na imprensa, com a palavra “Vence” seguida da data. É uma coisa de que não gosto muito, porque parece um bocado pedante, mas quando se trata de comentar assuntos actuais, sobre os quais muitos outros vão escrever – e tendo em conta o tempo que passa entre a redacção do texto, o envio para Portugal, e a publicação –, prefiro não estar sujeito a que depois digam que copiei alguém. É uma preocupação um bocado idiota, mas a razão é esta.»

Para ilustrar, um exemplo retirado do manuscrito de “Escrita e Morte”, texto que serviu de prefácio à reedição conjunta na Assírio & Alvim dos dois (primeiros) volumes de Heterodoxia.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Correspondente de Arte de "O Comércio do Porto" (nº 1)

Na segunda metade do século passado, não havia diário do Porto ou de Lisboa que dispensasse a sua página literária especializada que lá aparecia semanal ou quinzenalmente. Nesta evocação nada há de nostálgico, mas a verdade é que os tempos eram outros...
Ler Eduardo Lourenço sabe (ou, pelo menos, julga saber, porque quase todos os dias descobre novidades!)  que a colaboração do ensaísta com o suplemento Cultura e Arte do matutino O Comércio do Porto durou rigorosamente quinze anos. De facto, a 24 de Abril de 1956, aparece nas páginas do jornal portuense o artigo “Alguns doutrinários e críticos literários depois de Moniz Barreto. O Historicismo Moral de Fidelino de Figueiredo” que, apesar de ser o primeiro texto publicado por Eduardo Lourenço no referido suplemento, não foi, ainda assim, o primeiro que foi enviado. Sobre essa e outras desventuras falará Ler Eduardo Lourenço  proximamente, noutros episódios dedicados a este tema.

Por agora, chama-se apenas a atenção para uma carta, escrita e enviada por Costa Barreto a 25 de Junho de 1955 (daí os rigorosos quinze anos...), paciente e infatigável responsável pelo suplemento Cultura e Arte que, por indicação de Joel Serrão (também aí colaborador), convida o na altura Leitor de Português na Universidade de Heidelberg a fazer parte do rico e vasto leque de co-autores de Cultura e Arte. Apesar de alguns percalços, a verdade é que o convite foi aceite e Eduardo Lourenço escreveu múltiplos textos durante década e meia, pois, tanto quanto foi possível apurar, a segunda parte do artigo “Chateaubriand ou a Literatura como Impostura Triunfante”, dada à estampa em 8 de Setembro de 1970, terá sido a derradeira colaboração com  O Comércio do Porto.

Em suma, Ler Eduardo Lourenço é levado a concluir que o novo Correspondente de Arte na Alemanha desculpou a modéstia da quantia a pagar «por cada artigo ou crónica».

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Literatura e Guerra Colonial

Meio século depois da eclosão da guerra colonial em Angola, é tempo de se fazer um balanço do tempo que nos separa de tão decisivo e violento acontecimento da nossa história colectiva recente. Ler Eduardo Lourenço assinala que o tema do colonialismo português sempre mereceu a atenção do ensaísta mesmo antes de 1961 e até aos nossos dias. Em nota ontem publicada pela agência noticiosa Lusa e que em seguida transcrevemos, Eduardo Lourenço discorre sobre as relações entre a nossa literatura e a guerra golonial. Na imagem, reencontramos o actor Luís Miguel Cintra, em cena de Non ou a vã glória de mandar, filme de Manoel de Oliveira estreado em 1990 e que, em parte, evoca também este acontecimento marcante do nosso tempo.

Lisboa, 01 fev (Lusa) – Os romances de escritores como António Lobo Antunes e Lídia Jorge contribuíram para “fixar o essencial dessa tragédia da história de Portugal” que foi a Guerra Colonial, segundo o filósofo Eduardo Lourenço.
“Os romances de António Lobo Antunes, por um lado, e de Lídia Jorge, por outro, são obras importantes como romances, como ficção, e ao mesmo tempo, como uma revisitação e uma rememoração do drama que, de uma maneira diferente, esses dois romancistas refletem”, disse à Lusa o pensador, quando se aproxima o cinquentenário do início da guerra em Angola, a 04 de fevereiro de 1961.
Na verdade – defendeu – “há toda uma ficção portuguesa que, mesmo antes que o drama da Guerra Colonial eclodisse, já previa que alguma coisa ia acontecer”.
Por exemplo, “uma espécie de antecessor de toda essa situação é o [Fernando Monteiro de] Castro Soromenho (1910-1968), que é hoje um autor que não é muito conhecido, autor [da trilogia] do Camaxilo (publicada entre 1949 e 1970) e de outras obras, que era um modesto funcionário em Angola e percebeu que se estava ali a gerar qualquer coisa que um dia seria um drama, uma tragédia”, apontou.
Outro, ainda nos anos 1940, foi o historiador de arte José-Augusto França, que publicou “um belo romance” de estreia em 1949, intitulado “Natureza Morta”, “um pouco uma coisa ainda Presencista” que se debruçava sobre a violência do colonialismo português em Angola.
Para Eduardo Lourenço, “apesar de efetivamente haver uma distância não só física, mas uma distância mental, entre a consciência que a Metrópole tinha dela própria e a pouca consciência que tinha do que se estava a passar no chamado Império, a verdade é que também alguma coisa sempre se soube do que era África, do que ela representava, sem falar de toda uma literatura de tipo neo-colonialista, que se escrevia para exaltar aquilo que as colónias representavam para nós”.
Na sua opinião, “em termos de ficção, de facto, os primeiros romances do Lobo Antunes são os romances em que o essencial dessa tragédia da história de Portugal já está fixado”.
“Eu sei que há outros romances, mas não os conheço, de maneira que não posso falar deles”, acrescentou.
Segundo o pensador, há ainda um problema por resolver: “o que é essencial é que, passado meio século do momento em que começa essa fase final do nosso Império, a Metrópole pensa que esse problema não está resolvido. Quer dizer, ainda não há uma vivência coletiva”.
“Parece que só com a série documental intitulada ‘A Guerra’, realizada pelo jornalista Joaquim Furtado, sobre a Guerra Colonial, é que, pela primeira vez, os portugueses se deram conta do que estava em jogo. Embora seja a título póstumo, infelizmente, mas estas coisas são assim”, observou.
“A verdade – prosseguiu – é que essa contribuição é preciosa para a auto-consciência que os portugueses têm desse ex-Império perdido, dessa luta inglória e fratricida, de algum modo, e até contrária àquilo que era a nossa veleidade, que o Império ia do Minho até às praias de Moçambique”.
“Mas a verdade é que, quando veio esse confronto, os moçambicanos, os angolanos e os guineenses puseram em causa esse laço colonial, realmente a Pátria foi de uma grande inconsciência e foi uma tragédia, uma tragédia nacional de que é sempre bom que se tenha uma imagem, uma ideia mais exata para que não caiamos noutras aventuras com o mesmo grau de inconsciência”, sublinhou.
ANC.
Lusa/fim