terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Prémio Vergílio Ferreira 2011 para Maria Alzira Seixo

Há mais de uma década que Universidade de Évora atribui o Prémio Vergílio Ferreira, distinção que visa simultaneamente homenagear o autor de Aparição (cuja acção se desenrola precisamente nesta cidade e evoca a passagem de Vergílio como Professor no Liceu eborense) e reconhecer os méritos de grandes figuras da literatura portuguesa. A lista dos premiados é vasta e especialmente notável: Mia Couto (1999), Almeida Faria (2000), Eduardo Lourenço (2001), Óscar Lopes (2002), Vítor Aguiar e Silva (2003), Agustina Bessa-Luís (2004), Manuel Gusmão (2005), Fernando Guimarães (2006),Vasco Graça Moura (2007), Mário Cláudio (2008), Mário de Carvalho (2009) e Luísa Dacosta (2010).
No presente ano o Prémio Vergílio Ferreira foi atribuído a Maria Alzira Seixo, conforme se pode ler em nota do Júri enviada à imprensa (cf. http://www.ueline.uevora.pt/).
Ler Eduardo Lourenço assinala o acontecimento duplamente. Por um lado, recordando a cerimónia de 2001, por motivos óbvios.




Por outro, sublinhando que Maria Alzira Seixo dedicou a Eduardo Lourenço vários ensaios importantes. Ler Eduardo Lourenço relembra, por exemplo, que um dos poucos escritos dedicados ao livro Espelho Imaginário (e dessa escassa recepção por diversas vezes o ensaísta já se lamentou) foi precisamente redigido pela premiada deste ano. O estudo com o título “O espelho imaginário ou a música da imagem”, apareceu pela primeira vez em Prelo-Revista da Imprensa Nacional/Casa da Moeda (n.º especial, Lisboa, Maio de 1984, pp. 43-49). Em outras ocasiões, Maria Alzira Seixo escreveu sobre o seu amigo Eduardo Lourenço. Talvez um dos mais surpreendentes e felizes desses textos seja aquele que aparece na já aqui referida revista Metamorfoses e que a seguir reproduzimos, com os sinceros votos de parabéns pela mais do que justa consagração:

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dois Eduardos no Rio

Ler Eduardo Lourenço já se referiu em ocasião anterior a Eduardo Prado Coelho: para além de tudo o mais, grande leitor e amigo. Ora, a Professora Gilda Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a quem os amigos do pensamento de Eduardo Lourenço devem, entre tantas outras coisas, o magnífico nº 4 da revista Metamorfoses (UFRJ-Caminho, 2003), com o extenso dossier Os trabalhos e os dias, enviou-nos um texto, lido em 1990 nessa mesma Universidade, em que Eduardo Prado Coelho apresenta Eduardo Lourenço. Na foto, retirada de http://www.paginaliterariadoporto.com/, aparecem os dois ensaístas com o poeta Albano Martins, sentado à esquerda, precisamente na Livraria Camões no Rio, nesse mesmo ano. A esta gentileza, que Ler Eduardo Lourenço muito agradece, a Professora Gilda Santos acrescentou uma outra não menor, redigindo uma breve e excelente nota de enquadramento que em seguida também se publica.



Certamente não foram poucas as oportunidades que aproximaram Eduardo Lourenço e Eduardo Prado Coelho em encontros científicos, pelos vários cantos do globo. Contudo, ainda que incorrendo no risco de não ser original, pareceu-me de interesse ressuscitar das páginas de esquecidos Anais as palavras belas e exatas com que o mais jovem Eduardo apresentou o seu xará mais velho num encontro no Rio de Janeiro, nos idos de 1990. Tratava-se do “XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa”, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre 30 de julho e 3 de agosto, cabendo a conferência inaugural a Eduardo Lourenço, que nos apresentou seu texto “Dois fins de século”, hoje no livro O Canto do Signo - existência e literatura.
No revisitar dessas palavras, a homenagem justa aos dois Eduardos, dois amigos em pleno [Gilda Santos].

EDUARDO LOURENÇO
Não se trata de apresentar Eduardo Lourenço. Inútil, redundante, impossível.
Quando muito, situá-lo em torno de algumas palavras.
A primeira palavra é heterodoxia. No momento em que, em Portugal, a situação interna de ditadura fascista e a guerra fria apontavam para a crispação de linguagens dogmáticas, Eduardo Lourenço soube, sem ambigüidades nem compromissos, desenvolver um discurso de heterodoxia: releitura de Hegel e Marx, acentuação da importância de Nietzche ou Kierkegaard, valorização do pensamento existencial, incluindo certos aspectos do existencialismo cristão, atenção a Sartre ou Camus.
A segunda palavra é identidade. Ou, se preferirem, caracterização da identidade cultural portuguesa. Aí um livro é fundamental: O labirinto da saudade. Mas o propósito, enunciado no subtítulo, que indica que se trata de “uma psicanálise mítica”, não era o do comprazimento numa problemática obsessiva da mítica identidade nacional, mas libertação disso, como se isso fôra, na sua obsessão, uma figura de doença. Refletindo sobre o destino português, Eduardo Lourenço não podia deixar de se confrontar com os problemas que resultam da nossa integração num espaço europeu – história longa e enredada, que é ao mesmo tempo o rosário da nossa relação com a Modernidade. Daí um livro recente, premiado com o Prêmio Charles Veillon, atribuído ao melhor ensaio europeu em 1989, que se intitula Nós e a Europa ou as duas razões.
As incidências literárias desta problemática levam-nos inevitavelmente para dois dos autores centrais no ensaísmo de Eduardo Lourenço: Camões e Fernando Pessoa. Em relação a Pessoa, que revisitou numerosas vezes, devemos-lhe uma leitura inovadora e desmitificante. Mas de Pessoa à Modernidade européia e portuguesa, o trajeto era óbvio. Pessoa como ontologia negativa da literatura, à luz do niilismo contemporâneo, da negatividade da linguagem, da descontinuidade da consciência. O que traça uma reflexão constante sobre os limites da razão – contra as ilusões, no modelo Sérgio, de um racionalismo que elimina o vazio, o nada e o trágico. Mas o niilismo que diagnosticou nos seus sucessivos estratos não apagou a permanência de uma atitude de Esquerda que sempre se configurou, em numerosos textos políticos, como esperança socialista.
Simultaneamente, Eduardo Lourenço é o grande acompanhador da literatura portuguesa contemporânea – no sentido em que cada autor encontrou nele um foco de inteligibilidade generosa e amiga.
Para concluir, salientaria apenas três coisas:
– a capacidade de colocar qualquer questão num espaço em que nos sentimos implicados no mais fundo das nossas inquietações e interrogações;
– uma imensa generosidade do pensamento, um gosto de pensar, pensar em voz alta e pensar com os outros, a partir da provocação dos outros;
– na ausência de receitas, que seria absurdo esperar, Eduardo Lourenço dá-nos a certeza de que, quando alguém é capaz de pensar com esta evidência e com esta energia, alguma coisa se desloca em nós e nos faz aproximar daquilo que é mais perfeito, mais contagiante e mais justo.

Eduardo Prado Coelho
[Texto de apresentação de Eduardo Lourenço lido no XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa, Rio de Janeiro, Univ. Federal do Rio de Janeiro, 30 de Julho a 3 de Agosto de 1990].

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Porquê assinar e datar os textos que escrevo?

No entender de Ler Eduardo Lourenço, é talvez uma das suas mais completas e interessantes entrevistas (está disponível em http://static.publico.pt/docs/cultura/eduardolourenco/01.html) ao autor de O Labirinto da Saudade. Entre outros vários temas de indiscutível curiosidade e que justificam uma (re)leitura do diálogo, o ensaísta explica a Luis Miguel Queirós quais os motivos que o levam a assinar, datar e  identificar o local onde escreve os seus textos.
Eis um excerto dessa conversa que foi editada na Revista Pública (edição de domingo do jornal Público) em 13 de Maio de 2007 e de onde retirámos também uma cópia da extraordinária caricatura de Vasco que acima apresentamos.

«LUIS MIGUEL QUEIRÓS: Os seus livros são organizados segundo lógicas temáticas e não está em causa a sua coerência interna. Mas estou a pensar, por exemplo, nos volumes sobre questões europeias. Na Europa Desencantada há um texto escrito em 1992 e outro em 2000. Entre ambas as datas, mudou muita coisa na Europa.
EDUARDO LOURENÇO: Exacto. Já as próprias edições desses livros noutras línguas, em francês ou espanhol, têm diferenças entre elas. Há uma espécie de organização caótica. Claro que as datas têm importância. Na política, as coisas às vezes mudam numa questão de dias. Já deve ter reparado que costumo assinar os textos, mesmo os que saem na imprensa, com a palavra “Vence” seguida da data. É uma coisa de que não gosto muito, porque parece um bocado pedante, mas quando se trata de comentar assuntos actuais, sobre os quais muitos outros vão escrever – e tendo em conta o tempo que passa entre a redacção do texto, o envio para Portugal, e a publicação –, prefiro não estar sujeito a que depois digam que copiei alguém. É uma preocupação um bocado idiota, mas a razão é esta.»

Para ilustrar, um exemplo retirado do manuscrito de “Escrita e Morte”, texto que serviu de prefácio à reedição conjunta na Assírio & Alvim dos dois (primeiros) volumes de Heterodoxia.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Correspondente de Arte de "O Comércio do Porto" (nº 1)

Na segunda metade do século passado, não havia diário do Porto ou de Lisboa que dispensasse a sua página literária especializada que lá aparecia semanal ou quinzenalmente. Nesta evocação nada há de nostálgico, mas a verdade é que os tempos eram outros...
Ler Eduardo Lourenço sabe (ou, pelo menos, julga saber, porque quase todos os dias descobre novidades!)  que a colaboração do ensaísta com o suplemento Cultura e Arte do matutino O Comércio do Porto durou rigorosamente quinze anos. De facto, a 24 de Abril de 1956, aparece nas páginas do jornal portuense o artigo “Alguns doutrinários e críticos literários depois de Moniz Barreto. O Historicismo Moral de Fidelino de Figueiredo” que, apesar de ser o primeiro texto publicado por Eduardo Lourenço no referido suplemento, não foi, ainda assim, o primeiro que foi enviado. Sobre essa e outras desventuras falará Ler Eduardo Lourenço  proximamente, noutros episódios dedicados a este tema.

Por agora, chama-se apenas a atenção para uma carta, escrita e enviada por Costa Barreto a 25 de Junho de 1955 (daí os rigorosos quinze anos...), paciente e infatigável responsável pelo suplemento Cultura e Arte que, por indicação de Joel Serrão (também aí colaborador), convida o na altura Leitor de Português na Universidade de Heidelberg a fazer parte do rico e vasto leque de co-autores de Cultura e Arte. Apesar de alguns percalços, a verdade é que o convite foi aceite e Eduardo Lourenço escreveu múltiplos textos durante década e meia, pois, tanto quanto foi possível apurar, a segunda parte do artigo “Chateaubriand ou a Literatura como Impostura Triunfante”, dada à estampa em 8 de Setembro de 1970, terá sido a derradeira colaboração com  O Comércio do Porto.

Em suma, Ler Eduardo Lourenço é levado a concluir que o novo Correspondente de Arte na Alemanha desculpou a modéstia da quantia a pagar «por cada artigo ou crónica».

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Literatura e Guerra Colonial

Meio século depois da eclosão da guerra colonial em Angola, é tempo de se fazer um balanço do tempo que nos separa de tão decisivo e violento acontecimento da nossa história colectiva recente. Ler Eduardo Lourenço assinala que o tema do colonialismo português sempre mereceu a atenção do ensaísta mesmo antes de 1961 e até aos nossos dias. Em nota ontem publicada pela agência noticiosa Lusa e que em seguida transcrevemos, Eduardo Lourenço discorre sobre as relações entre a nossa literatura e a guerra golonial. Na imagem, reencontramos o actor Luís Miguel Cintra, em cena de Non ou a vã glória de mandar, filme de Manoel de Oliveira estreado em 1990 e que, em parte, evoca também este acontecimento marcante do nosso tempo.

Lisboa, 01 fev (Lusa) – Os romances de escritores como António Lobo Antunes e Lídia Jorge contribuíram para “fixar o essencial dessa tragédia da história de Portugal” que foi a Guerra Colonial, segundo o filósofo Eduardo Lourenço.
“Os romances de António Lobo Antunes, por um lado, e de Lídia Jorge, por outro, são obras importantes como romances, como ficção, e ao mesmo tempo, como uma revisitação e uma rememoração do drama que, de uma maneira diferente, esses dois romancistas refletem”, disse à Lusa o pensador, quando se aproxima o cinquentenário do início da guerra em Angola, a 04 de fevereiro de 1961.
Na verdade – defendeu – “há toda uma ficção portuguesa que, mesmo antes que o drama da Guerra Colonial eclodisse, já previa que alguma coisa ia acontecer”.
Por exemplo, “uma espécie de antecessor de toda essa situação é o [Fernando Monteiro de] Castro Soromenho (1910-1968), que é hoje um autor que não é muito conhecido, autor [da trilogia] do Camaxilo (publicada entre 1949 e 1970) e de outras obras, que era um modesto funcionário em Angola e percebeu que se estava ali a gerar qualquer coisa que um dia seria um drama, uma tragédia”, apontou.
Outro, ainda nos anos 1940, foi o historiador de arte José-Augusto França, que publicou “um belo romance” de estreia em 1949, intitulado “Natureza Morta”, “um pouco uma coisa ainda Presencista” que se debruçava sobre a violência do colonialismo português em Angola.
Para Eduardo Lourenço, “apesar de efetivamente haver uma distância não só física, mas uma distância mental, entre a consciência que a Metrópole tinha dela própria e a pouca consciência que tinha do que se estava a passar no chamado Império, a verdade é que também alguma coisa sempre se soube do que era África, do que ela representava, sem falar de toda uma literatura de tipo neo-colonialista, que se escrevia para exaltar aquilo que as colónias representavam para nós”.
Na sua opinião, “em termos de ficção, de facto, os primeiros romances do Lobo Antunes são os romances em que o essencial dessa tragédia da história de Portugal já está fixado”.
“Eu sei que há outros romances, mas não os conheço, de maneira que não posso falar deles”, acrescentou.
Segundo o pensador, há ainda um problema por resolver: “o que é essencial é que, passado meio século do momento em que começa essa fase final do nosso Império, a Metrópole pensa que esse problema não está resolvido. Quer dizer, ainda não há uma vivência coletiva”.
“Parece que só com a série documental intitulada ‘A Guerra’, realizada pelo jornalista Joaquim Furtado, sobre a Guerra Colonial, é que, pela primeira vez, os portugueses se deram conta do que estava em jogo. Embora seja a título póstumo, infelizmente, mas estas coisas são assim”, observou.
“A verdade – prosseguiu – é que essa contribuição é preciosa para a auto-consciência que os portugueses têm desse ex-Império perdido, dessa luta inglória e fratricida, de algum modo, e até contrária àquilo que era a nossa veleidade, que o Império ia do Minho até às praias de Moçambique”.
“Mas a verdade é que, quando veio esse confronto, os moçambicanos, os angolanos e os guineenses puseram em causa esse laço colonial, realmente a Pátria foi de uma grande inconsciência e foi uma tragédia, uma tragédia nacional de que é sempre bom que se tenha uma imagem, uma ideia mais exata para que não caiamos noutras aventuras com o mesmo grau de inconsciência”, sublinhou.
ANC.
Lusa/fim

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quem é Edmundo Lucena?

Em A Criação do Mundo, livro de que Ler Eduardo Lourenço se confessa grande admirador, Miguel Torga evoca como é sabido as tertúlias que se realizavam no seu consultório sito ao Largo da Portagem, em Coimbra e cuja placa identificativa a seguir se reproduz.
A páginas tantas, podemos ler o que se segue (a digitalização é feita, com a devida vénia, da 3º edição de 2002, pp. 556-557):

São já vários os estudos publicados que dedicam a sua atenção às relações pessoais e literárias entre Miguel Torga (Adolfo Rocha) e Eduardo Lourenço. Cf., por exemplo, de Carlos Mendes de Sousa o ensaio que trata dessa conversa inacabada e que aparece no número especial dedicado ao ensaísta pela Colóquio-Letras (nº 171, Maio/Agosto de 2009, pp. 167-199). Mas ao que Ler Eduardo Lourenço julga saber, nunca até hoje ninguém revelou a identidade deste «assistente de filosofia, a respirar inteligência e inquietação». E, no entanto, parece tão óbvio.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um pr(o)émio, algumas (des)leituras e uma dedicatória

Ler Eduardo Lourenço atribui a Pessoa Revisitado. Leitura Estruturante do Drama em Gente [Porto, Editorial Inova, 1974] um lugar especial na obra de que é leitor. Nisso, como em muitas outras coisas – o que não é o mesmo que dizer em todas –, não discorda do ensaísta. O que talvez não seja necessariamente uma vantagem. Gostaria Ler Eduardo Lourenço de ser capaz de aplicar com mais assiduidade uma espécie de princípio metodológico que encontrou no texto que abre a reedição que o livro conhece sete anos depois e que levou o título “Singular pr(o)émio”: «leio sempre com atenção redobrada os autores com que não concordo de todo» [Fernando Pessoa Revisitado. Leitura Estruturante do Drama em Gente, Porto, Moraes, 1981, 2ª ed., p. 12. Registe-se a ligeiríssima alteração no nome do livro que voltará à forma inicial na 3ª edição, já de 2000]. É mais fácil ler aquilo em que, de algum modo, nos reconhecemos. E, no entanto, a experiência inversa pode tornar-se bem mais enriquecedora…
Mas do que se tratava agora era de (re)ler Pessoa Revisitado. Mais precisamente o referido proémio que começa por assinalar uma de (pelo menos) duas histórias que fizeram deste um livro infeliz, pois «em princípio, os livros felizes não têm história» [p.11]. Os livros felizes lêem-se, os outros deslêem-se, embora a palavra desleitura, tantas vezes escrita por Eduardo Lourenço, leve dentro de si o acto de quem lê. Caso fosse essa uma questão de escolha, poder-se-ia dizer que Pessoa Revisitado não escolheu uma boa altura para chegar a este mundo. No Portugal de 1974, outras tarefas e outras leituras eram, necessariamente, mais urgentes. Daí um certo pessoano silêncio numa época em que, ruidosa e por vezes estridentemente revolucionária, se fazia ouvir a liberdade ou, como reconhece o autor, «Pessoa Revisitado ficou então eclipsado pelo merecido sucesso de um desses textos que são ou fazem História antes de ser escrita. Com esse sacrifício me regozijei» [Ibid].
No entanto, três anos volvidos, Eduardo Lourenço é surpreendido ao receber uma carta que anuncia uma «vaga recompensa como autor de A Pessoa Revisitada» [Ibid]. Estranho prémio aquele que se dá a um livro que, no mesmo lance, é rebaptizado. «O lapso de tempo, o júri entretanto evaporado (arrependido?), a peripécia revolucionária explicam sem dúvida a deliciosa metamorfose de um título. Espero que Pessoa tenha achado justa a punição que todos os críticos merecem só por sê-lo. Eu achei-lhe graça, naturalmente». Terá sido esta uma das primeiras (des)leituras que o ensaio-romance (a expressão é do próprio Eduardo Lourenço) mereceu. Outras se lhe seguiram, mas claro que não é esta a ocasião de retraçar esses percursos mais ou menos polémicos, todos eles decerto interessantes.



A de João Gaspar Simões, cuja interpretação psicanalítica (mas o adjectivo tem aqui – como tantas vezes acontece, aliás – um significado muito pessoal) do poeta da Ode Marítima havia sido objecto de cerrada crítica em Pessoa Revisitado, não é a menos importante, com toda a certeza. E o singular proémio também à história de tal (des)leitura não deixa de se referir. Vale a pena por isso a releitura. É que talvez a história dos livros (uns mais felizes do que outros...) seja também a de uma sucessão de leituras e desleituras que continuamente se (des)fazem. Ler Eduardo Lourenço descobriu há alguns anos na Biblioteca Municpal da Figueira da Foz, onde se guarda parte do espólio daquele que foi, durante décadas, a personificação do Crítico das Letras portuguesas, um exemplar da segunda edição de Pessoa Revisitado, com a dedicatória que a seguir se reproduz: «A João Gaspar Simões que com tanta benevolência acolheu estas páginas (ou este “romance”), com a homenagem do seu velho leitor e admirador, Eduardo Lourenço. Vence, 23 de Julho de 1981». Ler Eduardo Lourenço resiste sem esforço à tentação de extrair das linhas que se seguem qualquer explicação psicanalítica, limitando-se a registar que também as (des)leituras podem ser benevolentes, mesmo ou sobretudo quando não se concorda de todo com elas. Nessa altura apenas há que lhe dedicar uma atenção redobrada. É o que Pessoa Revisitado faz à exegese pessoana de Gaspar Simões e é também, Ler Eduardo Lourenço seria incapaz de defender outra coisa, o que o Crítico faz ao ensaio-romance. Com mais ou com menos benevolência. [Cf. “Eduardo Lourenço Pessoa Revisitado, Leitura Estruturante do Drama em Gente”, Diário de Notícias, Lisboa, 27/VI/1974].